quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Primavera manda notícia (e diz que vem)

Jorge Finatto

photo: jfinatto

ULTIMAMENTE, no Brasil, as pessoas cansaram de falar da realidade. Nunca se ouviu tão grande silêncio nas ruas, nas bocas e nos corações. Há algo de perturbador nesse silêncio, porque não se sabe no que vai dar.

O fato é que o dia a dia do brasileiro está entranhado de desespero.

A corrupção com dinheiro público e suas dramáticas e incontornáveis conseqüências invadiram nossas vidas. Mais de 50 mil homicídios por ano.* Corpos esquartejados são encontrados nas ruas e lixeiras das cidades. Não há presídios em número suficiente para os criminosos. Os existentes estão em péssimas condições, desumanizam ainda mais quem lá entrou para se "ressocializar". A maior parte dos crimes violentos fica sem punição, porque faltam recursos para segurança. A impunidade cresce de forma assustadora.
 
Não há investimentos dignos em escolas, hospitais, creches, transportes, energia, infraestrutura, programas sociais, etc. Tudo isso que depende do Estado e é necessário para a vida de todos fica eternamente adiado. O dinheiro que falta tomou outros e obscuros rumos.
 
A população está perplexa e calada. Vivemos um cenário de devastação de valores éticos. O que a má política e o poder sem freios fizeram com o Brasil é assombroso. À esquerda e à direita não se vislumbram saídas. O sistema politico, ao invés de encaminhar as demandas da sociedade, só reproduz os próprios interesses.

A vida em sociedade está sob risco entre nós.
 
Mas há quem sustente que as instituições estão funcionando. Não sou tão otimista. Nem sei o que pensar quando leio nos jornais a direção que as coisas estão tomando nas mais altas instâncias de poder. Ou serei eu que não entendo nada e só falo algaravias?
 
No entanto, os primeiros sinais da primavera já se fazem sentir nas ruas do meu bairro. É pra breve, setembro anda aí. Mas como falar em primavera, seu colorido e leves cheiros, em tempos de devastação e profunda descrença no futuro?

De qualquer modo, as flores informam que não vão hibernar e apodrecer no inverno da nossa desesperança. Que venha, pois, a primavera, digo eu, enquanto caminho nas ruas do bairro. E venha logo com toda força de que for capaz. 
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Um comentário:

  1. Adelar eu sinto uma certa anestesia das pessoas. Vem a mente uma metáfora, como a formação de uma camada protetora de pele sobre o ferimento recente.
    Um grande cansaço, como nos diz Álvaro de Campos.
    Para quem, como nós, perseguimos utopias o momento social é depressivo.
    Mas, nos resta a primavera e, depois, o verão e a dádiva do sol afugentando a morbidez.
    Vamos aguardar esta benfazeja visita.

    Abraço.

    Ricardo Mainieri

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