quinta-feira, 25 de maio de 2017

Neve branca contra fundo escuro

Jorge Finatto

Ushuaia, Av. San Martín, 25 maio 2017. photo: jfinatto
 
A NEVE começou a cair na quarta-feira. Durante a quinta não parou, cobrindo calçadas, telhados, carros e os barcos do porto. As montanhas ficaram ainda mais brancas.
 
25 de maio é feriado nacional, dia da Revolução de Maio de 1810, acontecimento que culminou com a independência da Argentina em 9 de julho de 1916. As ruas têm bandeiras e faixas azuis comemorativas. 
 
A maior parte dos estabelecimentos não funcionou. Arrisquei uma ida à livraria mas as portas estavam fechadas. Então o negócio foi andar um pouco (só um pouco) pela rua e voltar ao hotel. O capote azul-marinho e o chapéu ficaram alvos e molhados. Mas a esta altura, longe do Brasil e de sua imensa loucura política, tudo vale a pena. Longe do noticiário, a cabeça alivia e a gente respira um pouco. Parece que existe vida além da demência.
 
porto de Ushuaia, 25 maio 2017. photo: jfinatto
 
Ouvi dizer, mas não posso acreditar, que o soberano da hora convocou as Forças Armadas para "garantir a ordem" em Brasília em decorrência de manifestações políticas contra o governo (?). Regredir aos tempos da intervenção militar? Os militares aceitariam a medonha tarefa? Garantir que ordem exatamente? Essa que está entronada e que é uma continuação da que vem há pelo menos 14 anos e deixou o país nesse estado? Não dá para acreditar, só pode ser boato. Alguém diga que é mentira, por favor.
 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Faro del Fin del Mundo

Jorge Finatto
 
Faro del Fin del Mundo (Les Éclaireurs). foto: jfinatto

A palavra USHUAIA vem do povo originário Yámane e significa baía (ou porto) em direção ao poente; ou baía penetrando no poente (oeste). À margem do Canal de Beagle, que une o Atlântico ao Pacífico, Ushuaia, cidade mais austral do mundo, como toda a Patagônia possui um dos mais impressionantes ecossistemas da Terra. A paisagem e os seres vivos que a habitam são de uma beleza e diversidade únicas.

vista a partir do porto. photo: jfinatto
 
A Baía de Ushuaia situa-se no interior do canal. O porto da cidade recebe navios de cruzeiro no verão e daqui partem outros tantos em direção ao continente antártico. Aqui a Cordilheira dos Andes corre de leste a oeste, estando a norte da cidade.  A entrada da baía é sinalizada pelo Farol del Fin del Mundo para evitar que os navios tropecem pelo caminho.

Ushuaia. photo: jfinatto

Uma linha imaginária corre pelo Canal de Beagle, separando Chile e Argentina. Todavia o olho do visitante não separa o que Deus uniu: ambos os países aparecem belamente misturados. O frio é glacial.

hora do soninho. lobos marinhos. photo: jfinatto
 
ilha de pássaros. photo: jfinatto

Naveguei nessa terça-feira pela baía durante três horas e fiz fotos. O catamarã para em pontos estratégicos de observação, próximos das muitas ilhas de pedra que surgem aqui e ali. Nelas vemos uma linda fauna de lobos e leões marinhos, pinguins, gaivotas e diversas outras aves. Em algumas as árvores têm os troncos retorcidos pela força implacável dos ventos. O vento úmido do Pacífico castiga a região.

O Canal de Beagle é literalmente abraçado pelas montanhas da cordilheira. Os picos nevados avançam pelas águas do mar até que desaparecem como o pôr-do-sol. O resto vem depois, imenso, assombroso, branco, azulado,  povoado de silêncio e mistério, e atende pelo lindo nome de Antártida.

montanha da Cordilheira dos Andes. photo: jfinatto
__________
Faro é a palavra espanhola para designar nosso farol de sinalização para navios. Em bom portunhol, aqui aparecem misturados farol e faro. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Ushuaia, a cidade do fim do mundo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto 21 maio 2017
 

QUANDO O AVIÃO da Aerolíneas Argentinas começa a descer e atravessa o almofadão de nuvens, a quase dez mil metros de altitude, inicia-se a aproximação de Ushuaia. A visão que então se descortina é deslumbrante e perturbadora.
 
As primeiras imagens revelam a majestade da Cordilheira dos Andes, com suas montanhas cobertas de gelo e neve, numa extensão que a vista não ousa alcançar (cerca de oito mil km), percorrendo vários países da América do Sul. Num cálculo feito a olho da janela do avião, estimo entre dois e quatro mil metros a altura dessas elevações nesse ponto.
 
A maior montanha do maciço (e das Américas) alcança quase sete mil metros (6.960), o Aconcágua (Sentinela de Pedra), em Mendoza, também na Argentina. Prosseguindo, avista-se o Estreito de Magalhães, passagem entre o Atlântico e o Pacífico.

Estreito de Magalhães. photo: jfinatto
 
Ushuaia, a mais de três mil km de Buenos Aires, é a última cidade ao sul do planeta, a mais austral (La Cuidad del Fin del Mundo), capital da Província da Terra do Fogo, fundada em 1884, com cerca de 60 mil habitantes. Depois dela, a álgida e desabitada (salvo exploradores e cientistas) Antártida. O Canal de Beagle, em frente, com cerca de 240 km de comprimento, faz também a ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
 
A Patagônia (na parte mais meridional da América do Sul) é uma das regiões mais belas do mundo. Nela sente-se a presença de Deus no silêncio das vastas extensões solitárias. Aqui no fim do mundo os extremos se encontram. E não há espaços para vidas isoladas. As pessoas precisam umas das outras para enfrentar a ausência.
 
Aqui é o fim do mundo. Solitude, imensidão. Ventos gélidos, impossíveis. Lugar onde as mãos precisam se dar. Começo talvez de uma nova quimera.
 

sábado, 13 de maio de 2017

O vício dos livros

Jorge Finatto
 
Italo Svevo. fonte: Wikipédia


O HOMEM É UM ANIMAL de óculos. O pensamento (aqui livremente transcrito) é do escritor italiano Italo Svevo (1861- 1928) e está na última página do livro A consciência de Zeno*, sua obra-prima. 
 
Svevo escreveu-o após um período de 20 anos sem nada produzir, frustrado diante da falta de reconhecimento de seus primeiros trabalhos. Estimulado por seu professor de inglês em Trieste, ninguém menos do que o escritor irlandês James Joyce, que se impressionou com seu talento literário, retomou a escritura traduzindo Freud para o italiano  e construindo este romance que foi publicado em 1923.
 
Em suas páginas, Svevo questiona o jogo de poder  na sociedade, o progresso e seus artefatos que muitas vezes põem tudo a perder.
 
O autor faz uma abordagem dos impulsos inconscientes que movem os personagens, em conformidade com a psicanálise de Freud em desenvolvimento na época (pela qual Svevo tinha grande interesse). Com humor, sensibilidade e sutileza, trabalha com a figura do anti-herói, um homem que passa a vida tentando parar de fumar e não consegue, enroscado em dilemas familiares, afetivos e psicológicos. Zeno produz um relato escrito de suas memórias, buscando autoconhecimento, tratamento e cura, conforme recomendação de seu psicanalista. Mostra-se cético em relação à análise para si, mas não chega a abjurá-la. O resultado desse trabalho é surpreendente.
 
Eu comprei A consciência de Zeno (em rica tradução de Ivo Barroso) em janeiro de 1984 (tinha o costume de datar os livros), numa banca de jornais. Era no tempo em que a Editora Abril publicava uma coleção de clássicos nacionais e estrangeiros. As edições eram excelentes: capa dura, papel de qualidade, preços acessíveis. Os autores (e tradutores) eram naturalmente muito bons. 
 
De sorte que até um cara pobre como eu, que vivia na dura lida da sobrevivência, podia com algum sacrifício comprar um volume por mês e assim iniciar uma pequena e intrépida biblioteca.

Como animal de óculos que tinha respeito e afeição pelos livros, minha autoestima se revigorava a cada obra adquirida. Os livros significavam consolo e beleza numa realidade violenta e sufocante como a brasileira. Nada mudou.
 
Tenho grande dificuldade de me desfazer de livros, mesmo daqueles pelos quais já não tenho tanto interesse. Talvez porque cada um deles está inserido na minha história e teve, a seu tempo, um sentido.

No dia em que eu morrer provavelmente eles vão acabar num alfarrabista qualquer, porque as casas já não têm espaço para livros. Os tempos são de nanotecnologia e é possível acumular várias bibliotecas num singelo leitor eletrônico.
 
A filha Clara diz ter medo que meu escritório desabe qualquer hora, comigo dentro dele, por causa do peso dos livros e quinquilharias. Acho que isso não vai acontecer pois coloquei novas estantes no andar debaixo, transferindo para elas parte do peso. A família não gosta desta estratégia de acumulador compulsivo (com razão). Estou me esforçando pra mudar isso, mas não é fácil.
 
Do mesmo modo que Zeno Cosini não conseguiu abandonar o cigarro, eu não consigo abandonar meus livros. Meu desapego das coisas materiais não chegou até eles. Em todo caso, tranqüilizei a todos: se o escritório vier abaixo, não se perderá grande coisa. Exceto pelos livros, claro.
 
_________
 
*A consciência de Zeno. Italo Svevo. Tradução de Ivo Barroso. Abril Cultural, São Paulo, 1984.
 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Saudade de um colo

Jorge Finatto 
 
photo: jfinatto
 
(...) há certos momentos em que sinto uma grande falta de um colo macio e morno onde recostar a cabeça e dormir tranquilamente - dormir, dormir, dormir, como se eu fosse apenas um passarinho.
Campos de Carvalho*
 

OS FIOS DE LUZ no alto da rua, esticados entre os postes, parecem a pauta de um caderno escolar. Ou as cordas de aço de um violão tocadas pelo vento. 
 
A chuva não parou na tarde de sábado. Nessas ocasiões vou até a janela especular o invisível. Perto, a uns vinte metros, estava a pomba cinza descansando sobre o fio. Melhor dizendo: tomava um banho de chuva. Parecia tão calma, distante de tudo e aconchegada.
 
Cheguei a ficar preocupado: estaria ela sem forças, doente, e por isso não se animava a bater asas e buscar abrigo? Dava a impressão de estar um pouco cansada. Talvez, como eu, com saudades de um colo de mãe.
 
photo: jfinatto
 
Mas ela estava muito segura de si, não esboçava sinal de fraqueza, qualquer tremor ou desequilíbrio. Às vezes fechava os olhinhos mergulhando num doce cochilo. Peguei a máquina e fiz algumas fotos, sem estardalhaço. Notei que ela percebeu meu movimento, mas não se incomodou.
 
Permaneceu ali por muito tempo, curtindo a chuva que caía sem pressa. Livre, sozinha, na santa paz. E eu me lembrei da frase em epígrafe desse livro encantador que é A lua vem da Ásia, do grande escritor mineiro Campos de Carvalho (1916 - 1998). Um belíssimo e cálido achado da língua portuguesa.
 
__________
 
*A lua vem da Ásia, pág 41. Campos de Carvalho. Editora Autêntica, 5ª edição, Belo Horizonte, 2016.
 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Tarde no Brasil

Jorge Finatto
 
 
O sentimento que me levou a escrever este poema, há muitos anos, é parecido com o de agora. A diferença é que, naquele tempo, eu tinha 22 anos e uma vida pela frente. Havia a ditadura militar mas havia, sobretudo, a esperança na democracia, que acabou se impondo pela vontade do povo. Os maus políticos e a corrupção, contudo, botaram tudo por terra. Precisamos urgentemente reinventar o sonho.
 

TARDE no Brasil
nenhuma novidade no coração ou no lugar
estou vivo

na esquina da Rua Santana
homens pobres discutem futebol
mulheres passam ao lado
o ruidoso colorido da roupa
cortando o silêncio em fatias

tarde
nenhuma esperança nos olhos de Esmeralda
a louca cantora sentada no meio-fio

_________

Poema do livro Claridade. Jorge A. Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.