quinta-feira, 27 de abril de 2017

Alberta de Montecalvino

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

VENEZA é o sonho de toda Colombina.

Eu passei a vida em Passo dos Ausentes. O que é esse lugar? Um território sitiado pelo vento. A neblina, o frio e a solidão povoam a aldeia o ano inteiro.

Habito com amargura e ironia esta estação de fim de mundo.

Casei-me aos 14 anos com Dom Alberto de Montecalvino, o Solitário da Biblioteca. Contrato de gaveta. Era eu de pobre origem. Estudava as primeiras letras e ajudava no serviço de casa. A mãe, viúva de quatro filhos, lavadeira, no inverno vendíamos lenha na porta das casas.

Na época Dom Alberto contava 69 anos. Desde aquele quando, passei a viver neste austero castelo de basalto e vidro. Hoje tenho 70 anos, sou deveras viúva e, às vezes, me perco nos salões da memória. As intermitências.

Daqui de cima, na larga janela da biblioteca, avisto o Contraforte dos Capuchinhos. Gosto muito dessa visão porque por ali é que se vai embora de Passo dos Ausentes. Mas nunca passei naquela estrada. Dom Alberto me pediu que jamais o fizesse. Os medos. Atendi o bom homem. Passaram-se os anos.

O muito amado do meu coração é Pedrolino. Dom Alberto sempre soube, suportou, era como um pai pra mim. O meigo Pedrolino. Amoroso e fiel. Seu amor é casto e resignado. Tem as delicadezas, carrega bosques de melancolia na alma gentil.

Arlequim é o senhor das labaredas.

Inconstante e fútil. Nunca vem ao meu coração. Tem meu corpo, jamais minha alma. Com ele muito me rio, é engraçado, leviano. Incapaz de amar alguém além de si mesmo. Não tem sentimento.

O corpo tem fome e a fome, seus apetites.

Arlequim é malicioso, egoísta, por isso sabe agradar quando quer. Pedrolino é terno, quase um menino, vai direto ao assunto. Não conhece as sutilezas.

Quem pudera reunir, na mesma pessoa, as gratas virtudes. Mas o mundo humano foi costurado imperfeito, eu sei. Tal felicidade ninguém merece.

Ambos os dois, Arlequim, o devasso, e Pedrolino, o amado, são a minha devoção. Cada qual no seu momento.

Sou a Senhora da Biblioteca. Viúva mui constante em negras vestes de luto. Os respeitos a Dom Alberto. Tenho a minha idade, conheço os regulamentos, mas só os cumpro à minha vontade. Cultivo a fé, no discreto. Véu de seda e missal.

Não me julguem tão depressa. Poupem-me da moral de almanaque.

De metafísica e solidão o cemitério está cheio. Conheço os reveses.

Eu vivo os enquantos.
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Texto publicado em 7 de julho, 2011.

sábado, 22 de abril de 2017

Benedictus de Spinoza

Jorge Finatto

Spinoza. pintura a óleo, cerca de 1665. autor desconhecido.
fonte: Wikipedia

UMA PEQUENA MESA de carvalho. Uma cama. Dois travesseiros. Uma estante de livros feita em madeira de pinho com prateleiras. Algumas lunetas. Um manto turco. Dois anéis de prata. Um paletó colorido.  Uma calça. Um jogo de xadrez. Uma mala velha.
 
Dois chapéus pretos. Dois pares de sapato. Um saco de viagem. Sete camisas. Uma gravata de algodão.  Dois lenços usados. 160 livros.

São alguns dos poucos objetos que fazem parte do inventário do filósofo holandês Benedictus de Spinoza, morto em casa, em Haia, na Holanda, em 21 de fevereiro de 1677. Acervo mínimo de quem quase nada teve além de si próprio e de seus pensamentos. A relação completa consta da excelente obra Ética, publicada pela Editora Autêntica, com elogiada tradução de Tomaz Tadeu em edição bilíngüe latim-português.¹

Benedictus de Spinoza (1632 - 1677), filósofo nascido em Amsterdam, filho de família portuguesa de origem judia que emigrou para a Holanda, tinha a desagradável mania de fazer o que todo filósofo que se preza faz: pensar pela própria cabeça. O que, no ambiente em que vivia, era uma ousadia e um atentado às verdades estabelecidas pelos líderes religiosos judeus e de outras religiões, e pelos políticos da época.

Ainda jovem (23 nos), em 1656, é excomungado e expulso da religião e da comunidade judaicas devido a sua formação humanista e liberal e a suas "más opiniões e obras", bem como pelas ligações com livres-pensadores. Onde já se viu sair-se com ideias novas sobre Deus, os homens e a vida?

Defendeu a liberdade de pensamento, sem interferência religiosa ou política, e a separação entre Estado e Igreja, política e religião. Do mesmo modo refletiu sobre a influência dos afetos na vida em sociedade. Foi profundo, corajoso, inovador.

O Conselho da Sinagoga, em Amsterdam, não deixou por menos: "expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos" Spinoza:

"Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito ele em seu entrar. Que não queira Adonai (Soberano Senhor) perdoá-lo, mas, antes, inflame-se o furor de Adonai e o seu rigor contra esse homem e lance contra ele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E que Adonai apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que  ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele." (Herem - anátema - pronunciado contra Spinoza, em 27 de julho de 1656).²
 
A liberdade de espírito, o conhecimento longe de sectarismos e o questionamento de verdades dadas costumam ser malqueridos e maltratados pelas religiões e sistemas políticos.

Vivemos uma permanente Inquisição (ou incineração) das almas livres e sonhadoras. O que aconteceu com Spinoza lá, acontece hoje aqui, com algumas variações, mas em igual essência. Nada de novo sob o sol.

Mas o filósofo de pele morena e cabelos pretos encaracolados foi decisivo na construção de uma nova claridade, lançando um vento de esperança contra o inferno.
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1,2. Ética. Spinoza. Edição bilíngue Latim - Português. Tradução de  Tomaz Tadeu. Editora Autêntica. 3ª edição, 1ª reimpressão. Belo Horizonte, 2013.

Agradeço à Editora Autêntica pela autorização das citações.
 

sábado, 15 de abril de 2017

Maria Madalena

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Maria Madalena teve o privilégio de ser a primeira a ver Jesus após a Ressurreição.  Nenhum dos apóstolos teve essa ventura. Havia nas cercanias do lugar onde ele foi assassinado (Monte Gólgota, Jerusalém) um jardim e, neste, um túmulo novo ainda não usado. Foi nele que o sepultaram José de Arimateia (discípulo secreto de Cristo, homem influente e rico) e Nicodemos, envolto o corpo em fino linho.

Enquanto ela chorava diante do túmulo, onde o corpo não estava mais, Jesus apareceu-lhe. Era de manhã muito cedo. Num primeiro momento ela não o reconheceu. Até que ele diz: "Maria!". E a alegria de Madalena é infinita. Em lágrimas, ela toca o Senhor levantado dos mortos.  Ele então lhe fala:

- Para de agarrar-te a mim. Porque ainda não ascendi para junto do Pai. Mas, vai aos meus irmãos e dize-lhes: "Eu ascendo para junto de meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus".

Impressiona o amor de Maria Madalena por Cristo e o sentimento que os unia. Ele tinha expulsado sete demônios dela e a partir de então ela passou a segui-lo e amá-lo, segundo o relato bíblico.

Em sua passagem pelo mundo, Jesus mostrou-se um ser espiritual num corpo humano. Um ser que valorizava por demais o afeto. Daí ter proclamado a importância de amarmos ao próximo como a nós mesmos. Teve o amor como algo urgente e necessário.

Estamos à véspera da Ressurreição, no domingo de Páscoa. Relendo os quatro Evangelhos por esses dias (Mateus, Marcos, Lucas e João), dei-me conta de que, durante a vida,  assim como nas horas finais e na Ressurreição, Cristo foi acompanhado de perto, modo amoroso e atento, por mulheres.

O reconhecimento de Jesus a Maria Madalena é revelador disso. É prova de gratidão e de um grande carinho. Mostra que ele não era indiferente à presença feminina em sua vida, mas tinha-a em elevada consideração.

Não há informes sobre Maria Madalena (da aldeia de Magdala, cuja existência foi comprovada por recentes escavações em Israel), além dos Evangelhos. Sabe-se, por exemplo, que assistiu a Cristo e aos apóstolos com seus bens como outras mulheres também o fizeram (Lucas 8: 1, 2, 3).

Quem foi essa mulher? O que fez e como viveu? Que momentos luminosos compartilhou com Jesus? Como se passaram seus dias depois da morte de seu amado Senhor? São mistérios a desafiar interpretações e especulações.

Uma coisa, contudo, parece certa: por ser quem era e pelo seu imenso amor, ela conquistou o coração de Jesus.
 

sábado, 8 de abril de 2017

Oblivion

Jorge Finatto

photo: jfinatto

O PROBLEMA DA MORTE é o manto de silêncio com que cobre o morto. O  manto de rijo basalto. A morte fecha seus olhos de modo que não pode mais admirar as nuvens, as borboletas, os córregos, os rostos queridos.

O morto não pode ler a palavra aurora, nem ver as magnólias (nessa época tão bonitas, tão bonitas). A memória do morto se dissolve em mil estilhaços de estrelas.

A morte torna o morto côncavo. Encovado em si mesmo, ele parte rumo ao oblívio. Álgida face, álgidas mãos. Da morte nada se aproveita, nem vela, nem coroa de flor, nem lágrima, nem discurso, nem nada. Nada.

O morto espera a mão de um anjo na travessia para o outro lado. E que Deus o receba quando lá desembarcar no seu barco de solidão.
 

sábado, 1 de abril de 2017

Tresloucadas umbrelas

Jorge Finatto

Série Umbrelas. Jorge Finatto

O guarda-chuva é o melhor amigo do homem, junto com o cão. Ambos vêm depois, claro, do ser humano, este sim o primeiro e verdadeiro melhor amigo do homem, embora alguns tenham dúvida sobre isto.
 
Um sujeito desamparado e solitário encontrará sempre no guarda-chuva um companheiro valente e leal nas intempéries da vida.
 
Aqui em Passo dos Ausentes, as umbrelas são tão consideradas que ganharam uma grande escultura na Praça da Ausência, a mais importante (e única, aliás) da cidade.
 
Lembro, a propósito, que Oscar Wilde esteve em nossa aldeia esquecida especialmente para encomendar guarda-chuvas de nossos mestres umbeleiros. Veio para ficar poucos dias, e demorou-se por 40 amanheceres!

Os guarda-chuvas que levou (Wilde era colecionador), com suas iniciais marcadas nos cabos de osso de anta, o acompanharam até o triste fim de seus dias, num pobre quarto de hotel, na Rue des Beaux Arts, 13, em Paris, não distante do Sena. Tão pobre que o teria levado a dizer, pouco antes de morrer: ou sai esse papel (horrível) de parede ou saio eu. Deixou muitas saudades, carinhos e bilhetes entre nós.
 
Objetos antiquíssimos, os chapéus-de-chuva têm uma dimensão onírica e simbólica. Podem significar proteção durante a travessia das dificuldades que a existência nos impõe. E um voo sobre os abismos da indiferença e da solidão. Além, é claro, da função primordial de abrigar-nos da chuva, da bruma líquida e do sol forte.
 
Tenho por eles, como todo ausentino, um afeto imemorial que remonta aos tempos do Dilúvio e que chegou até nós atravessando gerações.
 
No Café do Porto, em janeiro de 2016, expus a minha série Umbrelas, ao lado da outra, Visões da Serra. Duas em uma. Vejam o que disse, por e-mail, o poeta e amigo Ricardo Mainieri, após visitar a exposição:
 
Uma coisa chamou-me, logo, a atenção: as cores. Seja nas paisagens serranas, onde existem nuances de meios-tons, seja nas expressivas "umbrelas" tresloucadamente voando no céu.
Também é visível uma atmosfera de solidão e transcendência nas imagens da Serra e uma discreta alegria nas sombrinhas voadoras.
Pessoalmente, gostei mais das paisagens solitárias de nosso bioma interior. Elas me evocam um momento de reflexão e espiritualidade. Parabéns pela exposição.
 
O que pretendo com minhas fotografias? Passar um pouco de beleza e, talvez, alegria para as pessoas, num momento tão difícil como o que vivemos. Um instante de leveza, luz natural, cor, ar fresco e poesia, elementos que habitam as coisas simples, os Fanicos & Farfalhas do mundo.*

__________ 

Oscar Wilde em Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/03/oscar-wilde-em-passo-dos-ausentes.html 
 
*Texto atualizado, publicado originalmente em 14 de janeiro, 2016.

terça-feira, 28 de março de 2017

O machado e o sândalo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


COISAS QUE CARREGAM UM POUCO de mim dentro: o apito do trem chegando na estação, o apito do navio deixando o cais de Porto Alegre, o som da caixinha de música. O sorriso da antiga namorada: que bom que vieste.
 
O galo canta de manhã cedo, eu chegando na casa do avô depois de muito tempo. O abraço do avô. O bule de café, o leite quente, o pão feito em casa, o queijo, o salame, a chimia, a nata. A mesa posta na varanda. Na parede o quadro com a inscrição em alemão: o machado fere o sândalo que o perfuma. Vida ingrata. Vida boa.
 
A carreta do velho de capote preto e chapéu cinza passando na Rua São João. A garoa de abril turvando a janela da mansarda. Tudo vivo, pulsando tão distante.

Um dia todas as memórias serão presente. Não haverá oblívio nem saudades eternas. Um dia o machado compreenderá que ferir quem só faz bem é maldade pura, e maldade destrói também quem a faz.  Um dia o sândalo poderá viver e perfumar sem medo de ser cortado.
 

quinta-feira, 23 de março de 2017

The mysterious Mr. F

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
Para ser lido ao som de Koto Song, de Dave Brubeck
 

A man walks in the wind
A man walks in the beach
A man and his shadow
A man and his dark solitude
A man and his luminous hope...

 __________ 

Koto Song, Dave Brubeck:
https://www.youtube.com/watch?v=pvB_ZNtOb4E
 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Visitante

Jorge Finatto

outono. photo: jfinatto


Quando o frio chega
eu saio com o bolso
cheio de pássaros
e vou até aí te visitar

tempero o inverno
no teu calor
de mulher

de manhã parto feliz
com tua luz
nas entranhas

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Do livro Claridade, coedição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.
 

sábado, 18 de março de 2017

Senhor do tempo

Jorge Finatto
 
Arraial d'Ajuda, Bahia. photo: jfinatto

SER DONO do próprio tempo é um privilégio de poucos. É algo raro. E também assusta, às vezes, porque é preciso saber o que fazer com o tempo. Embora a vida seja curta, os dias são sempre longos. Mas eu vejo como um enorme presente que a vida nos oferece. Chegar com saúde a esse estágio é uma felicidade que vem de Deus. Quantos, infelizmente, não conseguem?

A literatura e a fotografia, que eram atividades quase clandestinas, passaram à ordem do dia. Poder dialogar com os habitantes das praças, ainda que em silêncio, é um luxo. Enfurnar-se em sebos e livrarias, sem medo de perder a hora, beira a maravilha.

Ler e escrever em paz, fazer um bom café às três da madrugada, dormir perto do amanhecer. Escutar os pássaros depois de acordar, nas árvores da redondeza. Fazer o contrário do que sempre se faz, sem culpa. Fazer o que sempre se quis. Tudo isso uma beleza. Mas é, antes de tudo, uma conquista de décadas de trabalho e compromisso. Agora eu vou contar quantos cocos tem esse coqueiro em Arraial d'Ajuda.
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Passos e traços

Jorge Finatto
 
Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
NADA ALÉM de alguns rastros na areia. Nos idos de março, a comunidade de veranistas rareia. Antes era uma multidão de passos em todas as direções, uns sobre os outros, a perder de vista. Depois vieram os ventos de março e foram apagando, um a um, os traços, levando-os para outros espaços.
 
No próximo verão, outros rastros, outros pés, outros passos se desenharão diante do mar, marcando reencontros e o calor de abraços.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto

O que é da praia, em março, já sem rastros? Solidão sob o sol.
 
Sem a presença dos teus passos, o mar recolhe os braços.

photo: jfinatto


sábado, 11 de março de 2017

Kant à beira mar

Jorge Finatto 

Arraial d'Ajuda, Bahia. photo: jfinatto
 

TODO VIVENTE devia ter uma rede baiana e uma água de coco pra se aconchegar. O mundo seria outro. Não haveria tanta maldade, nem tanta tristeza, nem tanta grossura.
 
A filosofia, na Praia do Mucugê, aqui em Arraial d'Ajuda, é outra. Do outro lado do Atlântico tem a África. Do lado de cima do mar, o céu azul-infinito. Daqui da cadeira de praia, vejo a linha do horizonte com seu bordado de nuvens.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
Por todo canto, lonjuras, palmeiras, coqueiros, gente sossegada olhando o movimento dos barcos e das ondas.

Kant, se tivesse vivido em Arraial, escreveria que o imperativo categórico é suco de cupuaçu, mar quebrando na praia e caipirosca.

Praia do Mutá, Bahia. photo: jfinatto

Praia do Mutá. photo: jfinatto

Devir é quando o sol se levanta, no fim do oceano, a cada amanhecer.
 
Sartre, por seu lado, teria ensinado que o inferno não é o outro, mas a sombra que ele projeta em nosso pedaço de areia.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
Ortega y Gasset conceberia que eu sou eu e minha praia. Não existe filosofia nem felicidade longe daqui. Fora deste lugar habita o caos.
 
O resto, bem, o resto se vê depois. 

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto   

quarta-feira, 8 de março de 2017

Saudade da Terra Brasilis

Jorge Finatto

índios em Porto Seguro. photo: jfinatto

DIZEM QUE quando Cabral chegou nestas terras, em 22 de abril de 1500, o lugar era um paraíso. E decerto era. Como não seria? Ainda hoje percebem-se, em Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e arredores, vivos sinais de natureza (fauna e flora) e a resiliente presença do homem autóctone, o índio (atualmente o Pataxó), que vão resistindo, a duras penas, à multissecular invasão de seu território.

Nesta região, os treze navios da esquadra cabralina aportaram depois de Cabral avistar e dar nome ao Monte Pascoal (a cerca de 62 km ao sul de Porto Seguro). A Carta de Pero Vaz de Caminha, dando notícia do "descobrimento" a El Rey Dom Manuel, é um documento precioso do ponto de vista histórico e literário. Nela está presente a visão eurocêntrica do Novo Mundo. É o início da colonização e dos graves equívocos que começariam logo em seguida.

A palavra descoberta encoberta, no mínimo, um imenso eufemismo: já havia seres humanos habitando o lugar, povos indígenas com sua rica cultura e um modus vivendi em profunda integração e equilíbrio com a natureza.

Os navegadores portugueses encontraram um continente já povoado (com imensas áreas ainda por ocupar) e harmonioso (a Terra Brasilis, antes da chegada do europeu), até então livre de doenças terríveis trazidas do Velho Continente e da tentativa de dominação pela religião e pela força bruta. (Em Santa Cruz Cabrália foi rezada a primeira missa, em 26 de abril de 1500).

As cidades aqui do sul da Bahia são velhas como o Brasil e, como ele, muito jovens. Afinal, o que são 517 anos de história para uma nação ainda em formação?

Igreja N.S. da Conceição, Santa Cruz Cabrália, Bahia. photo: jfinatto
 
De qualquer modo, é tempo suficiente para praticamente exterminarem os povos indígenas, os habitantes originais, com quem temos tanto a aprender. A natureza, com este mar incrível e seus rios, persevera nos campos, florestas e sertões, mas não se sabe até quando. Um triste exemplo é o modo de ocupação e devastação da Amazônia. Uma ocasião sobrevoei a floresta e fiquei impactado com a fumaça das queimadas que vinha lá de baixo numa enorme extensão. 

A Terra Brasilis nunca mais seria a mesma depois de 1500. Mas é preciso ser claro: nos últimos 200 anos a destruição da natureza e a falta de perspectivas para os índios e o restante da população são obra autoral de brasileiros. Em conluio com forças do atraso e da corrupção dentro e fora da Terra de Vera Cruz.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Porto Seguro

Jorge Finatto

Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá!
Dorival Caymmi
 
De passagem por Porto Seguro, sul da Bahia, colhi estas imagens. Elas comprovam que Caymmi tem razão, é preciso conhecer e viver a Bahia.
 
fotos: jfinatto
 
 
 
 
 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Abóboras, figos, galos e infância

Jorge Finatto
 
fotos: jfinatto, 02 de março, 2017

UM DOS ENCANTOS de vagabundear pelas estradas da serra, além da visão afundada dos cânions e abismos, é parar nas tendas de beira de estrada. Elas oferecem ao freguês toda sorte de verduras, legumes, frutas, doces, compotas, pães, etc. E são uma dádiva para os olhos.
 
 
Viajando ontem a Porto Alegre, parei numa delas, na altura de Nova Petrópolis. Comprei um cesto de uvas que impregnou a caminhonete com aquele cheiro divino.
 
Mas também levei uma abóbora de pescoço e morangas, sim, belas e nédias morangas verdes e cor-de-laranja (ou cor-de-abóbora...). Também peguei melões e figos, que nesta época estão no auge da doçura.
 
 
Pra completar a cena interiorana, do outro lado da estrada, numa sombra, um galo cantou várias vezes. Era uma tarde ensolarada, por volta de 16h, e ele queria era soltar a voz.
 
Deus, como tudo isso traz de volta a infância...
 
 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Essa alegria toda

Jorge Finatto

desfile do Boi Tolo, Rio - Marcia Foletto / O Globo 
 
Tanto riso, oh, quanta alegria
mais de mil palhaços no salão
 
Zé Keti, em Máscara Negra, marchinha de carnaval
 
ESSA ALEGRIA toda nos blocos de rua do carnaval e penso que é bom que assim seja, as pessoas se divertindo numa festa coletiva como não há igual. Alegria num tempo de absoluta aflição e poucos motivos para festejar.
Um dia considerei o carnaval uma festa para alienados. Não acho mais. Todo mundo precisa de um instante de fuga da realidade. O que são a literatura e a arte senão isto, uma busca desesperada de alheamento do real?
A vida a frio é muito difícil. O ser humano precisa de sonho e invenção. O carnaval revela o lado lúdico, faceiro, brincalhão e tribal de que tanto precisamos.
O problema não está na “alienação” dos festins de carnaval. O nosso desastre é não conseguirmos essa mesma união para mudar o que precisa ser mudado no país, a fim de que todos possam ser um pouco mais felizes durante o ano inteiro.
Não é sendo tristes que vamos melhorar o Brasil. A alegria é transformadora. Viva, pois, a festa, abaixo a melancolia! E que, na volta à realidade, encontremos forças para transformar as coisas, dentro e fora de nós.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A mulher do retrato

Jorge Finatto

photo da photo: jfinatto

 
E, NO ENTANTO, ela está ali, viva, na pequena moldura sobre a mesa do vendedor de quinquilharias na feira da Plaza Constitución em Montevideo. Encontrei-a na sexta-feira, 13/02/2015.

A brisa, um pouco fria, conversava com as folhas dos plátanos. O sol calmo espiava entre os galhos.
 
Viva e bela, lá está a jovem mulher desconhecida de 120 anos atrás. O semblante revela paz. Ou pelo menos resignação. Viver lhe traz algum encanto? Será feliz? Que sonhos acalentará no coração?

Ela vestiu o seu vestido mais bonito pra tirar a fotografia. Sabia talvez que a imagem ia atravessar o tempo e oferecer-se a olhos curiosos no futuro distante.

O retrato caiu do toucador do casarão abandonado na Ciudad Vieja. Muitos anos se passaram na sombra. Um dia entrou num baú e foi levado ao antiquário. Depois à praça onde agora brilham, sob os plátanos, os olhos da bela mulher.
 
O que é uma fotografia? Um instantâneo que não se deixa morrer. 

Um fragmento de vida congelado no tempo.

Uma face de mulher não se perdeu graças ao cálido registro.
 
Pequena eternidade que não se esvaiu no oblívio.

Plaza Constitución. 13/02/2015. photo: jfinatto
 
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Texto revisto, publicado antes em 14 fev. 2015.
 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O escritório no rodamoinho

Jorge Finatto
 
Campos de Cima do Esquecimento. photo: jfinatto


O ESCRITÓRIO é nave. Navega em mar revolto entre os dias e as estrelas. Presente, passado, futuro. Tempo, perpétuo pêndulo. Perdido, vivido, esquecido. Tempo de passagem, tempo de viagem, tempo de espera, tempo de fugazes eternidades. Lugar de achados incríveis. Semeadura, rota escura, colheita. Os bons momentos, esses que se vivem fora dos calendários, quando o tempo para e nos libertamos do açoite da ampulheta. A vida é tudo misturado. Rodamoinho.

Escritório onde habita o eremita e o doido aventureiro. O texto não é a vida em si, mas uma bela imitação. O mundo possível no interior do caos. Enquanto a nave navega, atravessa distâncias impossíveis, reconcilia ausências, a palavra se tece como um fio azul, se desprende do novelo e vai pelo espaço entre as estrelas até mergulhar na escuridão do cosmos, no sem fim do pensamento-coração. O escritório é álbum de recordações de um tempo que já não volta. Caderno onde se anunciam dias de explorar caminhos e contar histórias. Urgente amanhecer.
 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Encher o saco de Deus

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes*
                        Heitor Saldanha

 
AS BARBARIDADES que o ser humano faz todos os dias contra os semelhantes (?). Seremos nós um ato falho da criação? Fico pensando nessas coisas que me perseguem desde os tempos do Dilúvio.

Está escrito em Gênesis 6: 5-8: "Por conseguinte, Jeová viu que a maldade do homem era abundante na terra e que toda inclinação dos pensamentos do seu coração era só má, todo o tempo. E Jeová deplorou ter feito os homens na terra e sentiu-se magoado no coração.

"De modo que Jeová disse: "Vou obliterar da superfície do solo os homens que criei, desde o homem até o animal doméstico, até o animal movente e até  a criatura voadora dos céus, porque deveras deploro tê-los feito." Mas Noé achou favor aos olhos de Jeová."

O Dilúvio veio, chovendo durante quarenta dias e quarenta noites, e destruiu tudo, salvo Noé, sua família e os animais que levou junto na famosa arca. A vida recomeçou.

A solidão e a tristeza de Deus me comovem. Não se sentirá Ele muito sozinho, sem ter com quem conversar em tempos de tantos massacres e incompreensões como agora? Terá o Criador alguém com quem desabafar nas horas difíceis?
 
Estou me referindo àqueles dias em que Ele olha para a Terra e assiste ao deplorável espetáculo que continua sendo apresentado por homens e mulheres.

Como se sente um Pai ao ver os filhos nos descaminhos da perversidade e do sofrimento, sem falar na solene indiferença ao outro? Deve ser profundamente doloroso.

Por isso gosto muito do poema de Heitor Saldanha em epígrafe, que bem resume essa perplexidade. Um texto dilacerante, dos mais belos já escritos por um poeta.
 
Espero que Deus perdoe a minha intromissão em seus assuntos de foro íntimo. Ainda mais partindo de um grão de areia como eu.

O pensamento é o parque de diversões de filósofos, poetas e outros seres inúteis. Essa gente que passa os dias obstinada em encher o saco de Deus como se o Criador não tivesse mais o que fazer.

Eu aqui nessa puta solidão cósmica a querer falar da solidão do Todo Poderoso. Tem gente que não se enxerga.
 
__________
*A Hora Evarista, Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, p. 49. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1974.

 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aurora do mundo

Jorge Finatto
 
 
Amor
É quando batem em você e dói muito.
(Viviana Castaño, 6 anos)

Criança
Para mim a criança é algo que não é cachorro. É um humano que todos temos que apreciar.
(Johana Villa, 8 anos)
 
Adulto
Pessoa que em toda coisa que fala, vem primeiro ela.
(Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)

Universo
Casa das estrelas.
(Carlos Gómez, 12 anos)


O MUNDO DAS CRIANÇAS está povoado de sabedoria,  imaginação e poesia. Elas veem as coisas com outro olhar, sem dúvida mais humano e completo que o nosso. E nunca omitem seu sentimento quando se expressam.
 
O amanhecer do universo habita o coração infantil com suas cores e sentidos. Os pequenos são capazes de ver muito além dos preconceitos e aparências.

Olham a vida pela primeira vez, como fazem os poetas, os artistas e os puros de coração. Esta visão inaugural é capaz de notáveis revelações.
 
O olhar primitivo de meninos e meninas está longe da contaminação que advém dos condicionamentos. Ainda não se submeteram por inteiro às imposições do ambiente social. É nessa capacidade generosa de ver a vida, e aproximar-se do outro, que elas muitas vezes nos surpreendem.
 
Pois um excelente apanhado deste notável poder de percepção é o que encontramos no livro Casa das Estrelas, organizado pelo escritor colombiano e professor de alunos de séries iniciais Javier Naranjo.
 
Ele recolheu, ao longo de mais de dez anos, frases de seus alunos de espanhol, leitura e criação literária, com idade entre 3 e 13 anos. O trabalho ocorreu em escolas situadas na cidade de Rionegro, departamento (estado) de Antioquia, na Colômbia.

Javier Naranjo também é pesquisador da linguagem infantil e este livro é produto de seu encantamento em trabalhar as palavras, a leitura e a criatividade com as crianças, num clima de liberdade e prazer.
 
Os pequenos autores expressam sua visão das coisas a partir de palavras-tema que escolheram e compartilharam em sala de aula. O resultado é riquíssimo do ponto de vista da linguagem (a maneira livre de amarras sintáticas de se expressar) e do conteúdo. Por vezes, temos a impressão de estar navegando nas águas mágicas de outro colombiano ilustre, Gabriel García Márquez.
 
Para quem se sente exausto diante do palavrório gasto e enfadonho do dia a dia, a leitura das frases destes audazes construtores de sentido nos remete à aurora de um mundo onde a linguagem ainda não cedeu aos apelos da publicidade, da mentira, da pobreza de ideias e sentimentos.

Deus
É invisível e não sei mais porque não fui no céu.
(José Piedrahíta, 3 anos)

Eternidade
É esperar uma pessoa.
(Weimar Grisales, 9 anos)

Família
Lugar onde tem muita discussão e se amam.
(Alejandra Giraldo, 10 anos)

Igreja
Onde as pessoas vão perdoar Deus.
(Natalia Bueno, 7 anos)
 
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Casa das estrelas, o universo contado pelas crianças. Seleção, organização e apresentação de Javier Naranjo. Editora Foz, Rio de Janeiro, 2013. Tradução de Carla Branco. Ilustrações de Lara Sabatier.
 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Je reste au lit

                                                          Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
EU FICO NA CAMA. Sair do quarto pra quê? À força de invencível banzo, não traço nem a primeira das duas linhas que queria escrever. Imagino um banco, entre pinheiros, na praça da imaginação, à espera do amanhecer do texto. Nada.
 
Palavras são caramelos. Palavras são farelos de uma coisa maior. Mas hoje eu não quero falar disso. Estou com banzo. Quero ficar quieto.

Não que haja leitores esperando, nem há nem. Ler? Existem para todos coisas mais urgentes.

Essa mania de escrever e não ser lido é coisa de louco. Coisa que se presta a um estudo. Será feito por algum arqueólogo da internet - ou psicanalista do ciberespaço - daqui a séculos. Enquanto isso, eu fico na cama.

Palavras também cansam. Que fiquem todas dormindo no dicionário. Je reste au lit. O fato é que não vejo graça em sair do quarto.
 
Preciso de um tempo de silêncio. É bom ficar calado nesse mundo cheio de bocas parlantes.

Resta um imenso vazio diante das notícias da Terra de Vera Cruz. Não dá pra ficar mais de cinco minutos escutando o noticiário, sem ter vontade de vomitar. Prefiro não ler jornal, revista, nem ver tv. Melhor ficar na cama, lendo um livro ou ouvindo música. De vez em quando uma passada até a janela, mas sem demorar ali.

Pensar em fugir não adianta. Pra onde? Celulares, câmaras secretas, satélites, drones e outros invasores são capazes de localizar o evadido em poucos segundos. Além disso, não pretendo sair da cama. Amanhã é outro dia, certo. Por hoje, contudo, a realidade pode passar muito bem sem mim.

Como tarda a claridade quando a escuridão é tamanha!
 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Hay días que me gusta vivir

Jorge Finatto

Lisboa, Tejo e gaivota. photo: jfinatto
 

NEM UMA GOTA de melancolia, nem mágoa, nem tristeza. Não quero peso nas palavras. Por que havia de escrevê-las ao avesso num dia ensolarado com todas as ventanas abertas? O dia é longo e a vida, grande. Grande a vida na miséria de cada instante. Imensa vida, vista do grão de tempo que habito.

Olho os telhados, o céu branco com nuvens azuis. Respiro à janela. Um gato esticado sobre o muro. A horta humilde no pátio lá em baixo. E flores crescendo sem cuidado na calçada ao alcance do olhar fatigado.
 
Que posso mais querer? Carrego recordações felizes. Por exemplo, teu rosto iluminado por um raio de sol, sorrindo quando tínhamos 20 anos. E sinto um doce perfume  que vem dos teus cabelos e do teu corpo. E nos vejo numa praça e depois subimos por uma avenida larga e comprida. Mãos dadas, conversas sem relógio. Havia uma eternidade pela frente e nós juntos nela.
 
Pressinto os anjos que caminham ao meu lado, ajudam a sobreviver a tanta coisa ruim. Os anjos, mensageiros de Deus, nunca nos abandonam. É por causa deles que estou hoje aqui, à janela, olhando sobre os telhados uma nesga de rio ao fundo entre os edifícios.

As ventanas abertas ao sol, ao movimento dos barcos, à solitária gaivota. Vida que é bela e grande pelo simples fato de estar vivo e  respirando à janela.
 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Poética

Jorge Finatto

 Colonia del Sacramento, Uruguai. foto: jfinatto

 
NINGUÉM LÊ meus poemas
sequer a família
com meus versos se amola

os outros têm afazeres diversos
toda hora

recebo o poema
como um ser
que apareceu
na minha porta
nesse dia

eu escrevo para uma sala vazia

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Uma trapaça da sorte*

Luís Roberto Barroso
Ministro do Supremo Tribunal Federal
 
 
Ministro do STF Teori Zavascki (1948-2017)
foto: Nélson Jr., STF
 
 
TEORI ZAVASCKI supervisionava a Lava Jato com virtude, razão prática e coragem moral. Continuar o trabalho de mudar o patamar ético do Brasil, com a mesma determinação e serenidade, será a forma mais digna de homenageá-lo. Ajude-nos aí de cima, amigo.
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*Leia a íntegra do texto no site da Folha de São Paulo:
http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2017/01/1851895-uma-trapaca-da-sorte.shtml
 

As tragédias mil vezes anunciadas*


Sob o título “Estações do inferno“, o artigo a seguir é de autoria de Jorge Finatto, escritor, fotógrafo, magistrado aposentado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. O texto foi publicado na quarta-feira (18) em seu blog “O Fazedor de Auroras“.
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*Transcrevo a reprodução, para mim muito honrosa, do texto "Estações do inferno", no blog Interesse Público, do notável jornalista Frederico Vasconcelos, da Folha de São Paulo:
 

sábado, 21 de janeiro de 2017

A vida vale um caco

Jorge Finatto
 
photos: j.finatto

No ato trágico de morrer da xícara-mãe, os fragmentos renasceram individualmente, dando inicio a novas "vidas".
 
EXISTE BELEZA nos cacos de uma xícara quebrada.

Juntei os restos de louça espalhados no chão do escritório, acondicionei-os em folhas de jornal velho para descartar no lixo seco. Depois subi a escada Santos Dumont, retornando ao trabalho.

Enquanto labutava nesse ofício inútil que é escrever (e ninguém ler), percebi num canto do escritório uma reminiscência da xícara em forma de lasca colorida.

As cores e o formato daquele caco me chamaram atenção. Descobri que havia encanto naquilo. Fui em seguida até o lixo e resgatei os outros pedaços.

 

O objeto xícara havia se partido acidentalmente ao cair da escrivaninha (dentro havia folhas secas de erva cidreira). Deu origem a vários outros miniobjetos com formas, cores e volumes próprios.

No ato trágico de morrer da xícara-mãe, os fragmentos renasceram individualmente, dando inicio a novas "vidas". No ato de renascer, receberam a marca intransferível da solidão que caracteriza as coisas e os seres viventes.

Sei, por experiência de quem é astrônomo do farelo, observador de miudezas, que não existem outras lascas iguais a essas.

São entes novos no mundo. Estão aí com sua particular verdade, têm uma face própria, uma maneira de estar, uma sombra, ocupam certo espaço, a claridade os ilumina todas as manhãs, existem.

 

A asa da xícara-mãe ficou incólume, contudo não é mais uma asa. Aderente à superfície convexa, lembra antes uma bela orelha renascentista.

Orelha que escuta talvez uma voz ausente, que se perdeu no tempo, ou uma canção impossível.

Libertou-se, a asa, da antiga e rígida obrigação. Ninguém mais poderá tratá-la ou esperar dela que se comporte como se singela asa fosse. É uma nova entidade, um corpo mutante com uma estética própria. Perdeu a natureza acessória com que veio à existência.


De certo modo, os fragmentos estão mais vivos do que quando formavam um todo orgânico e fechado. Aproveitaram a chance, gozam agora de uma liberdade que antes não conheciam.

O que aconteceu com os cacos foi um reviver após a morte da mãe que os aprisionava. Estão soltos no mundo, rebentos recém paridos, cada um a seu jeito. Como todos os seres, correm riscos, o futuro é incerto e padecem de solidão. O preço de estar vivo.
 
Olho os restos sobre a escrivaninha. São parecidos com tudo que vive e sofre e existe apesar de tudo. Aprenderam na pele que cair um tombo, bater com a cara no chão, ficar reduzido a estilhaços, pode ser, às vezes, o caminho para um novo, jamais imaginado, venturoso recomeço.

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Texto revisto, publicado em 30 de abril, 2013.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Estações do inferno

Jorge Finatto

O BRASIL não consegue enfrentar temas cruciais que estão a gritar por solução todos os dias. Faz pelo menos 30 anos que não há uma política eficaz voltada ao saneamento das penitenciárias e à ressocialização dos apenados. O resultado é o que se vê nos bárbaros massacres ocorridos nos últimos dias em presídios do Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte, com requintes de decapitações e extrações de órgãos dos corpos, na terrível guerra das facções.
 
Estes são apenas os casos mais recentes que causaram forte impacto pelo insuportável grau de crueldade que os alimenta. Mas a violência física e psicológica é fato corriqueiro nas cadeias (destinadas a presos provisórios) e penitenciárias (para presos que cumprem pena em regime fechado). Fatos terríveis como os ocorridos são tragédias mil vezes anunciadas.

As autoridades federais e estaduais encarregadas da gestão material e da segurança dos estabelecimentos penais (leia-se Poder Executivo) têm um desempenho muito abaixo do esperado diante da crise prisional (antiga de décadas), mostrando-se às vezes confusas, resolvendo no improviso questões estruturais que demandam ação sistêmica. Não é de hoje que o Estado perdeu o controle das prisões.
 
O fato é que Estado e sociedade demonstram indiferença à dura realidade dos presídios. Não raro ouvem-se declarações estapafúrdias no sentido de que a violência entre presos é assunto de menor importância e que quanto mais se maltratarem e matarem uns aos outros melhor será. A tanto chegamos.

Acontece que os indivíduos que cometem barbáries nas casas prisionais retornam, mais cedo ou mais tarde, ao convívio social e, sem receber tratamento adequado durante a reclusão, aqui fora farão novas vítimas. Quantas pessoas mais vão morrer nessa espiral de horror?
 
A Constituição Federal não vigora no interior de boa parte de nossas prisões. Estabelece que é assegurado aos presos o respeito à sua integridade física e moral, mas não é o que se verifica. A Lei de Execução Penal é sábia e bastaria cumprir com seus princípios fundamentais para evitar o colapso em curso no país.  Nela existe, por exemplo, importante previsão de participação da sociedade no processo de execução através dos conselhos da comunidade. No entanto, o sistema faliu por força da inércia do Estado, com cadeias superlotadas e tratamento desumano aos reclusos.
 
O enfrentamento da violência começa fora dos presídios com atenção às famílias, à infância e à juventude através de creches, atendimento à saúde, escolas, centros comunitários, formação profissional, oportunidades de trabalho, etc., aquelas coisas que todos precisam para uma vida razoavelmente digna. Para que isso aconteça é necessário combater com vigor e tenacidade a corrupção e a incompetência do andar de cima, que simplesmente desaparece com o dinheiro público. Não há falta de recursos no Brasil para estas e outras obras: há corrupção e má gestão.
 
Neste momento é essencial construir penitenciárias em condições de receber vida humana lá dentro, individualizando-se a execução com separação dos presos, como manda a LEP, para que se possa falar em ressocialização por meio do trabalho, do estudo e do provimento de necessidades básicas dos detentos.

É preciso dar fim às estações do inferno. Não existe esperança para um país que aceita a trágica e cotidiana violência no interior das prisões. Todas as violações que lá ocorrem acabam voltando para as ruas. O resultado é este círculo absurdo e intolerável de violência que tomou conta das nossas cidades e das nossas vidas.
 
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul desenvolveu, no início dos anos 2000, o Projeto Trabalho para a Vida que pode servir de referência e inspiração na busca de soluções. Congregando dezenas de entidades civis e órgãos estatais, elaborou programas de ressocialização, colhendo bons resultados.

Iguais a esta existem outras iniciativas do Judiciário que podem contribuir para resolver em parte os desafios que se apresentam. Mas é necessário, antes de tudo, que a União e os Estados queiram realmente sair da improvisação e avançar nessa área que é talvez a mais esquecida e desprezada em nossa sociedade.

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Encarceramento degradante, danos morais:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/04/encarceramento-degradante-danos-morais.html
 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Último dia para ver "Olhar sobre Veneza"

Jorge Finatto

Exposição Olhar sobre Veneza. Café do Porto. photo: jfnatto
 
NESTA SEGUNDA-FEIRA encerra-se a mostra Olhar sobre Veneza no Café do Porto. Foram 14 dias de convívio das imagens com os frequentadores do charmoso café da Rua Padre Chagas.

Estive lá algumas vezes nesse período, olhando as minhas crias e o movimento, sentado à mesa perto da janela. Um bom lugar para se estar, sob a direção atenciosa de Cacaia Bestetti, que, além de arquiteta e proprietária, é incentivadora das artes.
 
Espécie de memorabilia afetiva da cidade do Adriático, a exposição nasceu por acaso, fruto das minhas digressões por seus canais e pontes, a pé ou embarcado. Veneza é um nome bom de se dizer e um lugar único no universo para se conhecer.
 
A todos que estiveram na mostra, meu agradecimento. Uma exposição só faz sentido no olhar de quem a vê. Até a próxima.
 
photo: jfinatto

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A lupa chinesa

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
 
COMPREI UMA LUPA num bazar perdido num canto do mercado público. A procura de sempre: aumentar a nitidez das coisas. Não é esta a primeira vez, nem a primeira lupa. Esta lupa, contudo - garantiu-me o vendedor -, é especial,

- fui buscá-la no laboratório de um sábio chinês, no bairro do Bixiga, em São Paulo. Instrumento especial  de primeira, sim senhor, capaz de divulgar até o invisível.

Eu ando tão precisado de claridade, tão necessitado de qualquer coisa que me ajude a decifrar os absurdos e mistérios do mundo, que não resisti à oferta, sem opor dúvida nem ressalva. Quem sabe não começo, enfim, a entender melhor o sentido da vida?

Uma dúvida, porém (sempre o maldito porém), me ocorreu. Não sabia que havia sábios chineses criando maravilhas no Bixiga. Que eu saiba, naquele tradicional bairro vivem italianos, seus descendentes e afins, além de nativos. Ao menos era assim quando por lá andei há muito tempo, envolvido com as artes do Grupo Sanguinovo e fazendo visitas ao MASP.

Se há sábio chinês estabelecido no Bixiga é coisa de eras recentes. Mas pode ser também que algum carcamano esteja se fantasiando de chinês (e de sábio) para vender quinquilharias de origem duvidosa. Mas que digo eu? Por que essa mania de duvidar e sopesar os detalhes? Por que não acreditar na humanidade simplesmente?
 
O fato é que agora estou armado com a mágica lupa do sábio chinês do Bixiga. Partirei com ela em expedição aos confins do dia, buscando desvelar enigmas e encontrar clarões em meio à densa treva. Colecionarei as revelações do universo. Sabe lá Deus as besteiras que resultarão...