segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Um quadro de Chagall

Jorge Finatto
 
Over the Town, Marc Chagall, 1918. Tretyakov Gallery, Moscou.
 
UM LEITOR observa que os personagens das minhas fotos aparecem sempre ou quase sempre soltos no ar, muito acima do território chão dos mortais. Parecem fugir do mundo e nesse querer revogam a força da gravidade.
 
Os seres e coisas dos meus textos e imagens falecem de peso para estar no mundo. Têm dificuldade de pisar os duros caminhos da realidade. Anelam viver além daquilo que os aprisiona e faz sofrer. Anseiam pela liberdade e amplitude dos altos voos. Mas sabem que, para merecer o sonho, é preciso uma lúcida revolta contra o hospício.
 
Lembram aquelas figuras esvoaçantes das pinturas de Chagall, levitando acima dos vilarejos pobres. Quem não desejou,  alguma vez, pairar sobre os nadas da existência como um personagem lírico de Chagall? Voar desse mundo. Habitar outra esfera. Quem não quis rasgar as grossas correntes que nos prendem ao calabouço do cotidiano, sem janelas para a vida?
 
O que eu sei, raro leitor, é que é preciso dar um chute no traseiro da morte, bater a porta na cara da morte, expulsar a presença-morte. Acho que é isso que os meus personagens, voláteis ou não, querem dizer.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Primavera manda notícia (e diz que vem)

Jorge Finatto

photo: jfinatto

ULTIMAMENTE, no Brasil, as pessoas cansaram de falar da realidade. Nunca se ouviu tão grande silêncio nas ruas, nas bocas e nos corações. Há algo de perturbador nesse silêncio, porque não se sabe no que vai dar.

O fato é que o dia a dia do brasileiro está entranhado de desespero.

A corrupção com dinheiro público e suas dramáticas e incontornáveis conseqüências invadiram nossas vidas. Mais de 50 mil homicídios por ano.* Corpos esquartejados são encontrados nas ruas e lixeiras das cidades. Não há presídios em número suficiente para os criminosos. Os existentes estão em péssimas condições, desumanizam ainda mais quem lá entrou para se "ressocializar". A maior parte dos crimes violentos fica sem punição, porque faltam recursos para segurança. A impunidade cresce de forma assustadora.
 
Não há investimentos dignos em escolas, hospitais, creches, transportes, energia, infraestrutura, programas sociais, etc. Tudo isso que depende do Estado e é necessário para a vida de todos fica eternamente adiado. O dinheiro que falta tomou outros e obscuros rumos.
 
A população está perplexa e calada. Vivemos um cenário de devastação de valores éticos. O que a má política e o poder sem freios fizeram com o Brasil é assombroso. À esquerda e à direita não se vislumbram saídas. O sistema politico, ao invés de encaminhar as demandas da sociedade, só reproduz os próprios interesses.

A vida em sociedade está sob risco entre nós.
 
Mas há quem sustente que as instituições estão funcionando. Não sou tão otimista. Nem sei o que pensar quando leio nos jornais a direção que as coisas estão tomando nas mais altas instâncias de poder. Ou serei eu que não entendo nada e só falo algaravias?
 
No entanto, os primeiros sinais da primavera já se fazem sentir nas ruas do meu bairro. É pra breve, setembro anda aí. Mas como falar em primavera, seu colorido e leves cheiros, em tempos de devastação e profunda descrença no futuro?

De qualquer modo, as flores informam que não vão hibernar e apodrecer no inverno da nossa desesperança. Que venha, pois, a primavera, digo eu, enquanto caminho nas ruas do bairro. E venha logo com toda força de que for capaz. 
_________ 
 

sábado, 5 de agosto de 2017

Van Gogh: a vida em amarelo

Jorge Finatto
 
Girassóis, 1889, Van Gogh, Van Gogh Museum, Amsterdam
 

A PINTURA DE VAN GOGH expressa o grito de um animal ferido, desesperado na selva do mundo. Alguém que não podia suportar a realidade e encontrou na arte um meio de sobreviver e fugir do grande nada que o cercava. Não conseguindo sustentar-se, vivendo na eterna dependência do irmão mais moço, Theo (também ele com dificuldades financeiras), o dia a dia era para ele uma jaula com raras oportunidades de movimento.
 
Aí entra  a pintura, a composição obsessiva de um quadro após outro, única maneira de sentir-se útil e esperar algum reconhecimento (que quando chegou, de forma inequívoca, no Salon des Indépendants, de Paris, em março de 1890, não lhe disse muita coisa, pois já estava concluindo a travessia da dolorosa ponte que o levaria à morte em julho daquele ano). A literatura era outro caminho de fuga. Não apenas escrevia muito (cartas basicamente) como lia bastante.
 
Os últimos três anos da vida de Van Gogh (1888 - 1890) foram extremamente produtivos. A explosão das cores. A vitória do talento sobre a pobreza e o abandono. A criação alcançou a plenitude do gênio. Por outro lado, os acontecimentos de Arles (cortou com navalha a orelha esquerda após desentendimento com Paul Gauguin), as sucessivas internações hospitalares, as discussões, a rejeição da comunidade local a esses e outros eventos que o envolveram, acabaram por desestruturá-lo mais ainda internamente. À doença psíquica (nunca esclarecida e nem tratada a jeito) junta-se a miséria material.

Autorretrato, 1887. Van Gogh Museum
 
Van Gogh era um homem visceralmente carente e sentimental. Tinha o temperamento muito difícil e explosivo. Conviver com ele não era tarefa fácil.

A esses traços soma-se o artista superdotado e autodidata, possuidor de extraordinário poder de observação. Alquimista das formas e das cores, nas suas mãos o mundo transmutava-se em ofuscante e singular beleza.
 
Ser feliz não fazia parte do seu cotidiano, salvo quando criava, ou nos eventuais momentos de calmaria. As crises sucediam-se qual as rajadas do impiedoso Mistral que, seco e frio, leva tudo por diante, incomoda ao bater portas e janelas, ao levantar saias e desfazer cabelos, varrendo as folhas do outono. (Não poucas vezes perdeu o chapéu de palha na passagem do vento cortante.)
 
A tudo ele enfrentou e respondeu do único jeito que sabia e podia: no silêncio da tela, com o mistério e a força de sua paleta, ao ar livre, perto da natureza, nos dias de trabalho longe da ingente loucura, sua e dos outros.
 
O amarelo foi talvez a mais alta paixão de Van Gogh, a que correspondeu e jamais o traiu. La vie en jaune. A obra que nos deixou é o testemunho vivo de que, apesar de tudo, havia  doçura, amor e esperança em seu coração. A vida em amarelo num mundo de sombras.
 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Maison de Van Gogh

Jorge Finatto

O quarto de Van Gogh. photo: Maison de Van Gogh*

Encaminhei à MAISON DE VAN GOGH imagens e textos que tenho publicado sobre o artista. Recebi a manifestação a seguir, que muito me encanta por constatar que nós, admiradores da obra de Van Gogh, somos uma numerosa família ao redor do planeta. E que, em nosso coração, não existe lugar para egoísmos. Pelo contrário, o que mais queremos é compartilhar a herança espiritual do grande pintor.
 
 
Obrigado Monsieur Finatto !
 
Nous avons partagé votre article sur la page Facebook de la Maison de Van Gogh. Nos amis portugais et brésiliens seront ravis de vous lire.
 
Bien cordialement
  
Auberge Ravoux dite Maison de Van Gogh
Tel. : 33-(0)1 30 36 60 60
facebook-logo_officiel Maison de Van Gogh
 
 
A todos que se interessam pela obra e pela vida de Van Gogh, recomendo uma viagem à Auvers-sur-Oise e uma visita ao Auberge Ravoux (Maison de Van Gogh) onde encontrarão rico material biográfico sobre o gênio da pintura num ambiente de memória, calor humano e arte. 
 
Aos amigos da Maison de Van Gogh um fraterno abraço!
 

photo: jfinatto, 2007, Auvers-sur-Oise

 
Vincent van Gogh ne passa que 70 jours à Auvers-sur-Oise. Ce court séjour fut pourtant extraordinairement prolifique, puisque ce site pittoresque, ses habitants et ses environs lui inspirèrent près de 80 œuvres (...)*

Vincent van Gogh passou apenas 70 dias em Auvers-sur-Oise. Esta pequena estadia foi, no entanto, extraordinariamente prolífica, uma vez que este lugar pitoresco, seu povo e seus arredores inspiraram-no em cerca de 80 obras (...) **
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* Maison de Van Gogh:
http://www.maisondevangogh.fr/fr/informations.php 

**tradução livre J.Finatto

sábado, 29 de julho de 2017

Um campo de trigo chamado Vincent

Jorge Finatto
 
Campo de trigo sob nuvens carregadas, 1890, Van Gogh Museum, Amsterdam¹
 
"Deve ser bom morrer sabendo que se fez algum trabalho de verdade e, portanto, viverá na lembrança pelo menos de algumas pessoas."
               Vincent em carta ao irmão Theo²
 
VAN GOGH (1853 - 1890) é o artista trágico  por excelência. O indivíduo rejeitado pela família e pela sociedade. Nele se resume o calvário existencial de um homem indefeso e ultrassensível, caído num mundo que insiste em maltratar a delicadeza, a simplicidade, a beleza e o talento natural.
 
O gênio maldito, que perambulou solitário de déu em déu, encontrou-se milhões de vezes sozinho por quartos, ruas, esquinas e estradas vazias, devorado pela saudade de um lar e de um amor humano que nunca teria e que o consumia por dentro.
 
De tanto sofrimento nasceu a luminosa obra que tem o poder de expulsar a treva da condição humana que habita nossas mentes e corações. E que diz: a vida é possível!
 
A obra de Vincent torna a existência um imenso campo de trigo onde a fertilidade, a transcendência e a felicidade da criação andam de mãos dadas. Nasceu, ficou 37 anos no planeta, e partiu. Mas não levou consigo os girassóis, trigais, camponeses, pontes, casas, praças, campos, retratos, céus, caminhos, jardins, mil paisagens, a alegria do olhar e do sentir. Generoso, entregou aos semelhantes o melhor de si.
 
Nos 127 anos de sua morte, neste 29 de julho de 2017, a memória doída, mas acima de tudo o carinho, o respeito, a admiração, a sentida homenagem ao artista.
 
__________
¹ Van Gogh Museum:
² Van Gogh, a vida. Steven Naifeh e Gregory White Smith. pág. 973. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Souvenir

Jorge Finatto
 
Autorretrato na exposição O último quarto de Van Gogh. photos: jfinatto
 
NÃO DEIXA de ser irônico que museus, governos, colecionadores, comerciantes e indústria cultural ganhem milhões e milhões de dinheiros todos os anos à custa de obra de Van Gogh. Enquanto isso, ele em vida padeceu na mais profunda pobreza. Rigorosamente nada usufruiu de seu trabalho, exceto os momentos de felicidade quando criava.
 
Hoje a venda de qualquer de seus quadros é capaz de garantir o sustento de uma pessoa e seus descendentes, em excelentes condições, para o resto da vida. Esse mundo não vale mesmo um cisco.
 
Duvido muito que Van Gogh conseguisse entrar, com suas roupas velhas, seu chapéu de palha e seus olhos de passarinho curioso, em alguns dos museus chiques que  expõem seus quadros. De início, ele não teria dinheiro para o ingresso. A aparência e o dinheiro continuam governando tudo. Não obstante, a malta se diverte nos museus e lojinhas de souvenirs.
 
Os que amam a arte e os seres humanos (apesar de tudo) merecem a obra de Van Gogh. Só eles são capazes de entendê-lo e acolhê-lo desinteressadamente no coração.

  

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Van Gogh vai ao café

Jorge Finatto

quarto de Van Gogh no Auberge Ravoux. photo: jfinatto
 
Um dia ou outro eu acho que vou encontrar uma maneira de fazer uma exposição em um café.
Vincent Van Gogh em carta ao irmão Theo, de 10 de junho de 1890.
 
AUVERS-sur-OISE é uma pequena cidade nos arredores de Paris. Atravessada pelo rio Oise, é um lugar tranquilo onde se caminha pelas ruas em paz. Uma cidade interiorana, aprazível. Mas há algo que a destaca no conjunto das cidadezinhas francesas. Foi nela que um dos maiores pintores da humanidade viveu seus últimos dias.
 
Quando estive lá, em duas ocasiões num intervalo de cinco anos, minha intenção era me aproximar dos passos de Van Gogh naqueles ambientes em que realizou cerca de 75 obras-primas.
 
Entre os lugares em que trabalhou em Auvers, nenhum me tocou mais fundo do que o campo de trigo no alto da cidade. Ali pintou, entre outros, o Trigal com corvos, uma das últimas pinturas. Entrei no seu quarto, no sótão do Auberge Ravoux, e senti a imensa solidão daqueles 7 metros quadrados. Era o quarto mais barato da estalagem, sem janela, tendo como única abertura uma claraboia. Mudou-se para lá em 20 de junho de 1890.

Da profunda solidão, da pobreza e da rejeição social, nasceu uma das obras pictóricas mais sublimes e poderosas já produzidas em todos os tempos. Não à toa costumam dizer que ele libertou as cores.

V. Gogh. quadro La pluie (a chuva). photo: jfinatto
  
Van Gogh foi incompreendido na sua época como o seria hoje. Não se sustentava, não teve um emprego tradicional, não conseguiu encontrar uma mulher nem constituir uma família. Viveu de léu em léu, ao desamparo, sem uma alma para se consolar. Um atrapalho para a família e um estorvo para a sociedade. Um espírito de luz vivendo em meio a seres primitivos, mesquinhos e violentos.

A vida só não lhe restou mais trágica porque contou sempre com a ajuda material e a solidariedade moral de Theo, irmão mais moço, que foi seu cálido confidente, conforme demonstram as centenas de cartas que trocaram. Vendeu apenas um quadro em vida, Vinhedo vermelho. Vestia-se com roupas surradas. Com o chapéu de palha, parecia um espantalho. Por não ser um "normal", foi alvo de zombaria e escárnio em todos os lugares onde morou

Existia, ao lado do homem genial, um temperamento difícil e a doença que o levava a crises psíquicas que o torturavam e faziam sofrer os que o cercavam. Até hoje ninguém sabe o que era.

Van Gogh estava longe de ser um artista interessado apenas na pintura. Era um pensador lúcido que leu os autores mais importantes de seu tempo e os antigos. Era um indivíduo culto.

túmulos de Vincent e Theo em Auvers. photo: jfinatto
 
A biografia mais recente e exaustiva concluiu que não se matou com o tiro no abdômen.* Alguém, cuja identidade ele não quis revelar no leito de morte, atirou contra ele. Os autores do livro chegam a dizer o nome do suposto agressor, um que fazia parte do grupo de jovens com quem o pintor encontrou-se algumas vezes no período de pouco mais de dois meses em que viveu em Auvers. Morreu em 29 de julho de 1890, no quarto minúsculo, nos braços do irmão Theo. Ambos estão sepultados lado a lado no cemitério da cidade.
 
Quando fiz as fotografias que integram a exposição O último quarto de Van Gogh não tinha a menor ideia de que um dia faria uma mostra sobre este tema. Como sempre faço, fui fotografando na base do sentimento, da intuição. O resultado poderá ser visto a partir desta terça, 25 de julho de 2017, no Café do Porto, na Rua Padre Chagas, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
___________

*Van Gogh, a vida. Steven Naifeh e Gregory White Smith. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Un amore

Jorge Finatto

Borboletas e papoulas. Van Gogh
Van Gogh Museum, Amsterdam

La speranza di pure rivederti                             
m'abandonava.                                                          
                          Eugenio Montale


No mais remoto deserto
- o sal e o labirinto do tempo
amadureço o poema

E parece que para encontrar-te
tinha de perder-te um dia

Colho no caminho as pétalas
da rosa que não te dei
e distraída desfolhaste

 ________

Poema do livro O Fazedor de Auroras, JFinatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
A esperança de ver você de novo me abandonava, tradução livre do verso de Montale.

sábado, 8 de julho de 2017

Rio de Janeiro em prosa e verso

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

A interessantíssima história da segunda terra natal de todos os brasileiros e de todo estrangeiro de coração aberto à graça da vida (...)*
                           (frase da orelha do livro)

UMA DELÍCIsA DE LIVRO. Trata-se de Rio de Janeiro em prosa e verso, antologia de 200 autores organizada por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, lançada no distante 1965. O assunto é a cidade maravilhosa em suas mil faces, visões, cores, histórias, alegrias e dramas. Uma relíquia de edição.
 
Contei, para sua aquisição, com os bons préstimos da Livraria Erico Verissimo, de Porto Alegre, à qual nunca havia antes recorrido. Trata-se de livro usado.
 
A variedade de autores e enfoques é preciosa, tornando o volume único em seu valor documental e literário. O sabor fica por conta das excelentes iguarias oferecidas em forma de crônicas, poemas, artigos, lendas, relatos de costumes, histórias das ruas, paisagens, plantas, carnavais, livrarias e tudo mais.

Escritores e poetas ilustres, como os dois organizadores, estão presentes nas 584 páginas, além de jornalistas, historiadores, ensaístas, viajantes, missionários, artistas. Não faltam belas imagens em forma de desenhos, fotografias, mapas e outras ilustrações.

photo: Manuel Bandeira

O poeta e diplomata francês Paul Claudel faz uma bela síntese do ambiente natural do Rio de Janeiro:

O Rio é a única cidade que ainda não conseguiu enxotar a natureza. (pág. 562)
 
Com Lúcio Rangel ficamos sabendo que em 1917 surgiu o primeiro samba, o famoso Pelo telefone,

nascido na casa da Tia Ciata, na Praça Onze, onde se reuniam os melhores compositores populares da época. (pág. 243)

De autoria de um certo Ernesto dos Santos, o Donga, integrante do grupo de compositores Oito Batutas, a letra diz coisas como:
 
Pelo telefone
Chefe de Polícia
Mandou me avisar
Que na Carioca
Tem uma roleta
Para se jogar. (pág. 243)
 
O escritor austríaco Stefan Zweig, um dos grandes do século XX em todo o mundo, assim escreve:

A beleza dessa cidade, dessa paisagem, com efeito, quase não se pode reproduzir nem pela palavra, nem pela fotografia, porque é demasiado variada, demasiado heterogênea e inesgotável; um pintor que quisesse representar o Rio em toda a sua plenitude, e com todos os seus milhares de cores e cenas, não teria tempo para concluir a sua obra numa vida inteira. (pág. 559)

Tem Alvaro Moreyra falando da Melindrosa, genial criação de J. Carlos, e da obra do artista:
 
O ente que olhar, daqui a cem anos, as obras-primas de J. Carlos poderá viver a vida que andamos vivendo... (1922) (pág. 529)
 
photo: Carlos Drummond de Andrade
 
Graciliano Ramos nos diz a respeito da Livraria José Olympio, ícone de uma época e ponto de encontro de escritores e intelectuais:

A Livraria José Olympio daria um romance. Entre aquelas paredes, que para bem dizer não são paredes, porque os livros cobrem tudo, um observador curioso, um desses que vão lá todos os dias, poderia arranjar assunto para um bom romance, que o editor impingiria ao público facilmente numa edição grande, porque estaria fazendo propaganda do seu negócio. (pág. 443)

Machado de Assis, Gilberto Freyre, Olavo Bilac, Vinicius de Moraes, José de Alencar, José Lins do Rego, Astrogildo Pereira, Jean Baptiste Debret, Coelho Neto, João do Rio (Paulo Barreto), Júlia Lopes de Almeida, Eneida, Mário de Andrade, Antônio Maria, José Carlos Oliveira, Elsie Lessa, Lúcio Costa, Di Cavalcanti, Olegário Mariano, Paulo Armando, Jorge de Lima, Mário Pederneiras e miles e miles de outros autores com seu caleidoscópio de observações sobre a cidade amada.
 
Está aí um livro cuja reedição, a bem da cultura brasileira, está a clamar aos céus e aos editores de boa vontade da Terra de Vera Cruz.
 
__________ 

*Rio de Janeiro em Prosa e Verso. Organizado por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965, 584p., ilustrado. Vol. V da Coleção Rio 4 Séculos.
O créditos das fotos serão registrados tão logo conhecidos os autores. 

sábado, 1 de julho de 2017

Corvo, camélia e guarda-chuva

Jorge Finatto
photos: jfinatto
 

UM DIA apareceste no meu jardim com a cara mais linda desse mundo. Guardei tua imagem para a eternidade fugaz de um álbum digital. Não és apenas uma a mais no mundo: és a camélia que nasceu de um sonho de delicadeza do Criador.


EM ALEGRE bando, dançam pelos céus de Canela, nenhuma chuva cai sobre os panos coloridos, mas vento, o andarilho vento de julho embala as cores e a pura alegria de ser.


O CORVO do cemitério Père-Lachaise*, em Paris, se dá ares, faz caras e bocas no galho seco sobre os túmulos de gente famosa (Balzac, Proust, Oscar Wilde, Chopin, etc.) Em Paris até mesmo os corvos fazem pose e se consideram acima dos mortais...

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Delicie-se, raro leitor, clicando sobre as imagens. E que julho nos seja mais leve.

*Cemitério de Père-Lachaise:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/search?q=P%C3%A8re-Lachaise

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Van Gogh, o caminho do campo de trigo

Jorge Finatto
 
trilha de Van Gogh no trigal. photo: jfinatto
 
Se pelo menos uma vez tivesse encontrado alguém a quem pudesse abrir o coração, talvez as coisas nunca tivessem chegado a tal ponto.*
                                           Theo Van Gogh

VAN GOGH TRILHOU este caminho algumas vezes, no campo de trigo, parte alta de Auvers-sur-Oise, perto de Paris, a última morada. A íngreme e solitária ladeira desemboca no amarelo trigal.
 
Sim, sempre o amarelo, esperança na vida, girassol, alegria breve em meio ao turbilhão da doença mental e da solidão que o atormentam até o fim.
 
Ele sobe a ladeira já sem ilusões. A morte está próxima. A única ponte de contato com a lucidez, os homens e a vida é o trabalho. Carrega o equipamento de pintura às costas e o chapéu de palha. Busca um pouco de luz, ar puro, a amiga natureza, o silêncio. Ali pinta Trigal com corvos, um dos últimos quadros, exatamente nesta encruzilhada.
 
lugar onde VG pintou Trigal com corvos. photo: jfinatto
 

Trigal com corvos. fonte: Van Gogh Museum, Amsterdam
 
O poeta das cores, das longas caminhadas solitárias, do cavalete e do chapéu de palha não sabia viver só e, no entanto, quase nunca viveu de outra maneira.

O inverno da doença, da incompreensão, da miséria e da falta de reconhecimento o levaram ao fundo do poço. Mas ali, curiosamente, havia cores, formas e emoções vivas e elas iluminaram o seu e o nosso mundo.
 
Este mês de julho, em que se recorda o 127º aniversário de morte do artista, no dia 29, haveremos de lembrá-lo aqui no blog e na exposição que farei a partir do dia 25 de julho no Café do Porto, em Porto Alegre. Intitula-se O último quarto de Van Gogh e retrata o sombrio quartinho do artista no sótão do Auberge Ravoux, algumas de suas últimas pinturas e lugares onde as realizou a poucos dias da morte.
__________ 

*Van Gogh, a vida. Steven Naifeh e Gregory White Smith. pág. 823. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

sábado, 24 de junho de 2017

Fragmento

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

E no quarto dia que. Depois de tanto se.
Mas Deus viver é isso? E a morte cumé?
Se tanto depois de. Eu você e uma puta solidão
a nos unir. E que dia no quarto. O sol abre
os braços um abraço. A mulher abre as pernas
quentes um mundão no ventre
tanta luz derramada nas entranhas.
Se depois de tanto.
A vida de todos os dias
a que eu sempre quis

________
Poema do livro Claridade. Prefeitura de Porto Alegre, 1983.

sábado, 17 de junho de 2017

Fernão de Magalhães e a viagem ao fim do mundo

Jorge Finatto
 
Estreito de Magalhães. photo: jfinatto
 
Descobrimos, no dia 21 de outubro [de 1520], aos 52º de latitude meridional, um estreito (...). Como pudemos constatar em seguida, tem quatrocentas e quarenta milhas de comprimento (...) e desemboca em outro mar, a que chamamos de Pacífico. O estreito é rodeado de montanhas muito altas e cobertas de neve. É tão profundo que, mesmo estando bastante próximo da terra, não se encontrava fundo para a âncora, nas vinte e cinco ou trinta braças. *
                                                                      Antonio Pigafetta

 
OLHANDO AQUI DE CIMA, desde as entranhas do grande pássaro de metal da Aerolineas Argentinas, que agora sobrevoa a Cordilheira dos Andes rumo ao sul extremo, custa acreditar que o português Fernão de Magalhães (1480 - 1521) andou por estes mares gelados e revoltos em 1520. Foi ele quem navegou pela primeira vez através do estreito que faz a ligação entre Atlântico e Pacífico ao longo de cerca de 600 km. A passagem mais tarde foi batizada com seu nome, Estreito de Magalhães.
 
O navegante lusitano comandava então a primeira expedição de circum-navegação da Terra, a serviço da Coroa Espanhola. Em agosto de 1519 partiu do porto de Sevilha com cinco navios e 237 marinheiros. Foi o primeiro a chegar à Terra do Fogo.

Não consigo deixar de comparar a ousadia daqueles marinheiros com o arrojo dos astronautas em suas viagens espaciais. Penso que era mais difícil andar pelos mares do fim do mundo naquelas frágeis embarcações do que ir a Marte nos dias de hoje.

mapa do Estreito de Magalhães. fonte: Wikipédia. clicar
 
O escritor italiano Antonio Pigafetta (1491 - 1534) juntou-se a Magalhães com intenção de relatar a viagem, tendo para isso que comprar seu lugar no navio já que não era membro da tripulação.

A expedição iniciou a travessia do estreito em 1º de novembro daquele ano, vinda do Atlântico. Nominaram-no Canal de Todos os Santos em razão do dia. Ao desembocar do outro lado, no desconhecido oceano, Magalhães deu-lhe  o nome de Pacífico em oposição à turbulência e temeridade das águas no interior do grande canal.

Não bastasse isso, foi no Pacífico que o grande navegador avistou e descreveu as galáxias Grande Nuvem de Magalhães e Pequena Nuvem de Magalhães, que são vizinhas da nossa Via Láctea. Mais tarde deram seu nome às duas em homenagem.

Infelizmente, Fernão de Magalhães não conseguiu retornar com vida à Espanha, tendo sido morto numa batalha com nativos nas Filipinas aos 41 anos. A expedição regressou ao porto espanhol em 1522, com apenas um navio, o Victoria, e 18 homens, Pigafetta entre eles, sob o comando de Juan Sebastián Elcano.

photo: jfinatto
 
Das observações e anotações do escritor resultou a obra A primeira viagem ao redor do mundo, publicada em Veneza em 1536, dois anos após a morte do autor. Gabriel García Márquez considerava este um dos livros mais importantes de sua vida.

Recordo essa história voando em direção ao sul profundo, e quase não acredito no que aquela gente fez embarcada numa casca de noz sobre a superfície tenebrosa do abismo do mar. Parece ficção científica. E, no fundo, foi até mais.

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*A primeira viagem ao redor do mundo. Antonio Pigafetta.  pp. 65-66. Editora L&PM. Tradução de Jurandir Soares dos Santos. Porto Alegre, 2005.
http://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=610619&ID=642907
 

sábado, 10 de junho de 2017

Rodolfo Walsh, 40 anos desaparecido

Jorge Finatto
 
Rodolfo Walsh (foto de arquivo)
 
Minha vocação despertou cedo: aos oito anos decidi ser aviador. Por uma dessas confusões, quem a realizou foi meu irmão. Acho que a partir de então fiquei sem vocação e tive muitos ofícios. O mais espetacular: limpador de janelas; o mais humilhante: lavador de pratos; o mais burguês: comerciante de antiguidades; o mais secreto: criptógrafo em Cuba.¹
Rodolfo Walsh

Eu tinha ouvido falar do escritor e jornalista argentino RODOLFO WALSH (1927 - 1977), mas nunca tinha lido nada dele. Nenhuma informação tinha de sua vida. Caminhando pela Avenida San Martín, na tarde gelada de Ushuaia, as montanhas nevadas da Cordilheira dos Andes debruçadas sobre a cidade, me vi diante de um retrato do autor pintado na parede da Rádio Nacional. A legenda diz que desapareceu em 25 de março de 1977. Isto é, um ano e um dia após o início da ditadura militar na Argentina (1976 - 1983).
 
Na livraria Boutique del Libro comprei alguns livros dele. Tomei conhecimento de que vivia na clandestinidade quando "foi desaparecido" e fazia parte do grupo Montoneros, de luta armada, atuando na área de comunicação. No ano anterior havia perdido a filha María Victoria, também integrante do Montoneros, em confronto com forças militares. Ela escolheu suicidar-se a entregar-se com vida aos militares.
 
Walsh (amigo de Gabriel García Márquez, que o admirava como escritor, e um dos criadores da agência de notícias cubana Prensa Latina) faz parte da terrível relação de desaparecidos durante a ditadura. Grupos de direitos humanos estimam em 30 mil pessoas. No entanto, dados levantados nos últimos anos apontam cerca de 9 mil vítimas, entre mortos e desaparecidos. No Brasil, este número é de 434 pessoas, segundo informe da Comissão da Verdade de 2014.²

A diferença, contudo, é que na Argentina alguns dos responsáveis pela ditadura foram julgados e condenados à pena de prisão perpétua, como o general Jorge Rafael Videla, que morreu preso em 2013.  Um, dez, cem, vinte mil desaparecidos, é tudo uma tragédia. Não se trata apenas de um número frio, mas de pessoas.

photo: jfinatto, Ushuaia, maio 2017.
 
No dia de seu assassinato, presumivelmente ocorrido em 25/3/77, por membros da repressão, andava na rua, em Buenos Aires, após encaminhar pelo correio cópias da Carta aberta de um escritor à junta militar,³ na qual fez vigorosa denúncia da ilegitimidade e truculência do regime militar, apontando violação de direitos humanos, métodos hediondos de tortura e extermínio, número de vítimas, além de graves prejuízos à sociedade.

Dirigiu o documento a órgãos da imprensa argentina e a correspondentes estrangeiros. A carta, datada de 24/3/1977, dia em que a ditadura completava um ano, foi seu último texto. Difundida no exterior, não logrou o mesmo nos órgãos de imprensa de seu país submetidos à censura e controle.

últimos dias do escritor (clicar). photo. jfinatto
 
Do que tenho lido de Rodolfo Walsh, chama atenção a sua busca constante da verdade, a pesquisa das informações e o compromisso que se impôs de dar testemunho de seu tempo. É considerado o criador do gênero literário não-ficcional que trabalha com fatos reais; jornalismo com técnicas literárias. Literatura e realidade. Impressiona, ao lado da coragem, a qualidade de seus textos, sejam jornalísticos ou literários, ou ambos integrados.

Basta ler Operação Massacre,4 que conta uma história real, para ver o alto nível dessa prosa. No apêndice deste livro encontra-se a Carta aberta acima referida.

O contista, assim como o autor de não-ficção e o jornalista, é brilhante. A elevada qualidade de suas linhas engrandece a literatura da Argentina, colocando-o ao lado de nomes como Roberto Arlt, Cortázar, Borges, Sábato.

Biblioteca Nacional Mariano Moreno. photo: jfinatto

Neste ano 40 do seu brutal desaparecimento, a Biblioteca Nacional da Argentina, em Buenos Aires, está promovendo a exposição literária Los oficios de la palabra. É uma boa oportunidade para conhecer um pouco de sua história e de sua obra. O texto de apresentação da mostra (clicar sobre ele) é do escritor Alberto Manguel, atual diretor da biblioteca.

Hoje no trem um homem disse: "Sofro muito. Queria ir pra cama dormir e só acordar daqui a um ano". Falava por ele, mas também por mim.5 

Este início de contato com Rodolfo Walsh tem sido enriquecedor do ponto de vista humano e literário. E nos leva à perplexidade de constatar que, tanto tempo depois, não se tem nenhuma notícia sobre o paradeiro de seu corpo e sobre as circunstâncias em que seus algozes (quem foram, onde estão?) lhe deram sumiço. O mesmo trágico destino teve o poeta García Lorca, em Granada, cujo corpo, fuzilado em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, até hoje não foi encontrado. Uma tristeza.
 
ambiente da exposição. photo: jfinatto


apresentação da mostra Walsh por Alberto Manguel. photo: jfinatto

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¹ Ese Hombre y otros papeles personales. Ediciones de La Flor. 3ª ed, pág. 13. Buenos Aires, 2012. Tradução livre do fragmento: Jorge Finatto.
² Argentina ainda discute quantas foram as vítimas (Folha de São Paulo):
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1735938-argentina-ainda-discute-quantas-foram-as-vitimas-da-ultima-ditadura-militar.shtml
³ Carta aberta de um escritor à junta militar:
http://www.jus.gob.ar/media/2940367/carta_rw_espa_ol_web.pdf
4 Operação Massacre. Rodolfo Walsh. Tradução de Hugo Mader. Companhia das Letras. São Paulo, 2010.
Ese Hombre y otros papeles personales. Ediciones de La Flor. 3ª ed, pág. 266. Buenos Aires, 2012. Tradução livre do fragmento: Jorge Finatto. Palavras do escritor a propósito da morte da filha Vicki (María Victoria).


segunda-feira, 5 de junho de 2017

El viejo faro

Jorge Finatto
 
objetos do Farol de San Juan de Salvamento. photo: jfinatto*


O VELHO FAROL abandonado de San Juan de Salvamento observa o Fim do Mundo. Vive na memória de extintas luzes que iluminavam a escuridão profunda do oceano.
 
Nessas noites glaciais de junho, o fantasma de Julio Verne caminha pela Isla de Los Estados com uma lanterna na mão. Habita a ilha já sem o peso da ampulheta. Convive em silêncio com os personagens do antigo livro que um dia escreveu sobre este território onde a Terra acaba.

Do alto rochedo observa o Atlântico e o Pacífico. O vento fustiga-lhe a face.

O velho escritor, criador de sonhos, é ele mesmo agora um sonho. E mora na sua ilha como o faroleiro de um farol abandonado. Carregará sempre a lanterna da palavra.

eixo central original do farol. photo: jfinatto
 
Estou na janela da mansarda amarela sobre a Baía de Ushuaia. Tarde de domingo. Uma fina neblina arrasta o véu diáfano sobre o Canal de Beagle.
 
A memória das coisas passadas e vividas não pode ser cemitério. Tem de ser maternidade.

Abram-se, por favor, todas as janelas e corações. Deixemos a luz penetrar a sombra.

Celebremos as vidas que estão e as que hão de vir.

Sejamos claros e benignos como as luzes do velho farol e a lanterna do escritor.

restos do farol foram recolhidos; estão no Museu Marítimo de Ushuaia

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*Museu Marítimo de Ushuaia reúne o que sobrou do velho farol. 
 

sábado, 3 de junho de 2017

A solidão do fim do mundo

Jorge Finatto
 
Isla de lobos marinos. Tierra del Fuego. photo: jfinatto

Haverá solidão maior  que a do homem que cuida do farol nestas Ihas do Fim do Mundo? Haverá vida mais austera que a desse alguém, cujo ofício é velar para que os navios não se estraçalhem nos rochedos traiçoeiros do mar tenebroso da Terra do Fogo, sul absoluto, onde se encontram as águas congelantes do Atlântico e do Pacífico?
 
Julio Verne (1828 - 1905), no livro El Faro del Fin del Mundo, ambientado na Isla de Los Estados, a extremo leste da Tierra del Fuego, tem uma visão menos trágica do isolamento do homem do farol. O farol de que trata a obra é o de San Juan de Salvamento que funcionou na ilha entre 1884 e 1902.
 
Antes de mais, importa ressaltar mais uma vez o notável detalhamento que Verne faz da Isla de Los Estados (terreno, fauna, flora, clima) como se por lá tivesse passado alguma vez (nunca veio ao Fim do Mundo). Os requintes de imaginação e a capacidade narrativa e de pesquisa do escritor francês são superiores.

Mas voltemos, distante leitor, à solidão, tema recorrente destas páginas, na lonjura onde me encontro.

Julio Verne. Wikipédia
 
Diz-nos Julio Verne:
 
"(...) a monotonia que implica viver num farol nunca é perceptível, em regra, para os faroleiros. A maior parte deles são antigos marinheiros ou pescadores, e não se preocupam com os dias e as horas".¹

Talvez, talvez, digo eu. E o próprio Verne nos lembra:

- O Farol do Fim do Mundo! Sem dúvida que aquele nome se ajustava àquela ilha isolada de toda terra habitada e habitável.²

Olhando este mar escuro e revolto de inverno, sem qualquer amparo, onde só Deus pode valer a criatura humana em seu deserto, sou tentado a achar que a vida neste território perdido é um desafio que nos leva ao limite físico e psicológico. Mas a solidão também tem lá sua beleza e poesia.

Hay que tener ganas para soportar.

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¹-² El Faro del Fin del Mundo. Julio Verne. Agebe, 1ª ed. Buenos Aires, 2005. págs. 23, 9. Traducción: Ricardo Healy. Tradução livre dos trechos citados, do espanhol para o português, de J.Finatto.
 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Navegando pelo Canal de Beagle

Jorge Finatto 

visão a partir do canal. photo: jfinatto


O FRIO É RIGOROSO e constante. Mal se põe o pé para fora da porta do barco e vem o impacto do ar antártico.

A viagem mais interessante em Ushuaia é, sem dúvida, ao longo do Canal de Beagle, caminho de mar onde se encontram os velhos rabugentos, temperamentais, gelados e perigosos Atlântico e Pacífico. Nada se compara à sua força nem à vida que trazem nas entranhas e nas ilhas.

Faro del Fin del Mundo. photo: jfinatto

Beagle era o nome do veleiro utilizado pelo naturalista britânico Charles Darwin quando andou por estas bandas do fim do mundo, fazendo reconhecimento geográfico e estudos científicos. O barco era comandado pelo capitão Robert FitzRoy.

Como se sabe, Darwin desenvolveu a teoria da evolução na obra A Origem das Espécies, impactante e inovadora por contrastar com o criacionismo cristão. A contradição foi superada e, hoje, a própria Igreja Católica aceita a ideia da evolução.

A fauna e a flora que se percebem nas muitas ilhas chilenas e argentinas, aliadas à paisagem inesquecível, mudam a nossa visão da natureza ao perceber a vida lutando e sobrevivendo nas condições mais adversas.

Ilha de pedra com lobos, leões marinhos e aves. photo: jfinatto

A Terra do Fogo nos leva a uma nova visão da natureza e nos remete a uma reflexão sobre nosso decisivo papel para a preservação de todo esse patrimônio que não é só da humanidade, mas diz respeito a todos os seres vivos.

A vida é bela e grande demais para ser resumida aos interesses do homem.

Ilha dos Pássaros. photo: jfinatto
  
Estamos no lugar dos grandes silêncios, álgido mar, montanhas nevadas, gelos eternos , ilhas rochosas, animais marinhos, aves, bichos da terra. Percebemos que somos apenas parte de um ambiente que é muito maior do que nós. Precisamos fazer por merecer a companhia e a paisagem.

Ilha de pedra com lobos, leões marinhos e aves. photo: jfinatto

domingo, 28 de maio de 2017

Postales del fin del mundo

Jorge Finatto
 
restos do Faro de San Juan de Salvamento. photo: jfinatto
 
ESSE título é o nome de um vinho argentino, da Bodega del Fin del Mundo, localizada na Patagônia. Não cheguei a beber o vinho ainda, mas o gosto já começa pelo nome. Palavras com sabor. 
 
Da fato, daqui da Tierra del Fuego mandam-se cartas e postais desde o fim do mundo para os afetos espalhados pelos quatro cantos do planeta. Em Ushuaia existem várias caixas coletoras do correio argentino em locais diversos. Ao menos aqui no fim do mundo, a correspondência de papel continua viva. Para a alegria de visitantes que vêm de todos os lugares e gostam de mandar postais.

caixa de correio. photo: jfinatto
Livraria

Na Boutique del Libro, uma boa livraria situada na Av. San Martín, confirmei o que acima foi dito. Vi sobre o balcão um envelope de carta aberto. Perguntei ao livreiro: aqui ainda se usa enviar e receber cartas? Ele respondeu sí, sí, por supuesto! E disse que era uma carta de uma leitora dos Estados Unidos que tinha gostado da librería.
 
Boutique del Livro, photo: jfinatto
 
Comprei livros de Rodolfo Walsh e Ricardo Rojas, dois importantes da literatura  argentina. E uma edição de El Faro del Fin de Mundo, de Julio Verne. Além da variedade de obras e autores, em diferentes idiomas, pode-se sentar, descansar um pouco e ler.

Julio Verne

Em seu livro O Farol do Fim do Mundo (1905), Julio Verne ambienta a história na Isla de Los Estados, situada na Terra do Fogo, porém a extremo leste, depois de atravessar o Estreito de Le Maire. Pois nesta ilha ficava o Faro de San Juan de Salvamento, que o escritor chama justamente de O Farol do Fim do Mundo, no qual se inspirou para escrever a obra.
 
Impressiona como o autor descreve o local em seu isolamento e desolação, quando se sabe que nunca esteve nesta região. Devia ter muito boas fontes entre os homens do mar. É ainda hoje lugar inóspito, reserva natural, com população de menos de 10 pessoas.
 
El faro foi instalado pela Marinha argentina para orientar os navios que se arriscavam a fazer a perigosa travessia do Atlântico ao Pacífico, sendo aquela região um enorme cemitério de navios. Funcionou de 1884 a 1902, quando foi substituído por outro, na Isla Observatorio, ao norte e próxima à dos Estados.

réplica do farol S.J. de Salvamento. photo: jfinatto
 
peça superior do velho farol. photo: jfinatto

Os restos do Faro de San Juan de Salvamento encontram-se guardados no Museu Marítimo de Ushuaia, na réplica dele ali construída, e valem a visita.
 
O Faro del Fin del Mundo, na entrada da Baía de Ushuaia, chama-se, na verdade, Les Éclaireurs, e não é o tratado no livro de Verne.
 
 Puco-puco

la gaviota Puco-puco. photo: jfinatto
 
La gaviota Puco-puco é uma amiga que conheci no porto de Ushuaia. Estava eu ali levando neve por cima e fotografando (tudo pela arte...). Quando ela sai do mar e vem parar bem na minha frente. Comecei a conversar com Puco-puco (este é o nome que revelou). Utilizei a voz que costumo usar nessas ocasiões. Um pouco ridícula mas funciona. Claro que Puco-puco entendeu tudo, pois me olhava e parecia compreender o que lhe dizia. Disse-lhe que era muito bonita e que estava feliz por tê-la como amiga antártica.