quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Tresloucadas umbrelas

Jorge Adelar Finatto

Série Umbrelas. Jorge Finatto

O guarda-chuva é o melhor amigo do homem, junto com o cão. Ambos vêm depois, claro, do ser humano, este sim o primeiro e verdadeiro melhor amigo do homem.
 
Um sujeito desamparado e solitário sempre encontrará no guarda-chuva um companheiro valente e leal nas intempéries da vida.
 
Aqui em Passo dos Ausentes, as umbrelas são tão consideradas que ganharam uma grande escultura na Praça da Ausência, a mais importante (e única, aliás) da cidade.
 
Lembro, a propósito, que Oscar Wilde esteve em nossa aldeia esquecida especialmente para encomendar guarda-chuvas de nossos mestres umbeleiros. Veio para ficar poucos dias, e demorou-se por 40 amanheceres!

Os guarda-chuvas que levou (Wilde era colecionador), com suas iniciais marcadas no cabo de osso âmbar, o acompanharam até o triste fim de seus dias, num pobre quarto de hotel, na Rue des Beaux Arts, 13, em Paris, não distante do Sena. Deixou muitas saudades e autógrafos entre nós.
 
Esses objetos antiquíssimos têm uma dimensão onírica e simbólica. Podem significar proteção durante a travessia das dificuldades que a existência nos impõe. Além, é claro, da função primordial de abrigar-nos contra a chuva, a bruma e o sol forte.
 
Tenho por eles, como todo ausentino, um afeto imemorial que remonta aos tempos do Dilúvio e chegou até nós atravessando gerações.
 
No Café do Porto, por esses dias, a série Umbrelas está em exposição, ao lado da série Visões da Serra. Vejam o que disse, por e-mail, o poeta e amigo Ricardo Mainieri, após visitar a exposição (visita que me deixou muito feliz):
 
Uma coisa chamou-me, logo, a atenção: as cores. Seja nas paisagens serranas, onde existem nuances de meios-tons, seja nas expressivas "umbrelas" tresloucadamente voando no céu.
Também, é visível uma atmosfera de solidão e transcendência nas imagens da Serra e uma discreta alegria nas sombrinhas voadoras.
Pessoalmente, gostei mais das paisagens solitárias de nosso bioma interior. Elas me evocam um momento de reflexão e espiritualidade. Parabéns pela exposição.
 
O que pretendo com minhas fotografias? Passar um pouco de beleza e, talvez, felicidade para as pessoas, num momento tão difícil como o que vivemos. Um instante de leveza, luz natural, cores, ar fresco e poesia, elementos que habitam as coisas simples, os Fanicos & Farfalhas do mundo.

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Oscar Wilde em Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/03/oscar-wilde-em-passo-dos-ausentes.html