sábado, 30 de julho de 2016

Nara Leão, opinião e arte

Jorge Finatto
 
Nara Leão. fonte: site oficial da artista*

Há muito tempo quero escrever alguma coisa sobre Nara Leão (1942-1989), a quem acompanho desde sempre ouvindo seus discos. Tenho grande estima pela obra que construiu, pela grande arte que legou ao Brasil e ao mundo.

Por alguma razão que não sei bem, toda vez que ponho um disco de Nara para tocar, vivo um instante de emoção e elevação espiritual. A voz linda e a interpretação personalíssima nos dizem que viver vale a pena, que a existência é muito mais bonita do que isto que se vê nos noticiários todos os dias.
 
Toda vez que cantou uma canção, Nara Leão criou uma obra de arte. Na sua voz única e delicada, algo sempre nasce, diferente e melhor. Porque ela fazia um trabalho de recriação quando cantava e tocava seu violão. Uma coisa é a música na voz de outros. Outra, diversa e extremamente refinada, é a que ela nos transmite com seu dom, sua alma e seu sentimento.
 
Da bossa nova ao samba do morro, tudo que cantou foi com absoluta verdade e sensibilidade. Mulher de opinião, corajosa na oposição ao autoritarismo, não deixou de se posicionar contra a ditadura e contra a pequenez das mentes e dos gestos. Talentosa e discreta, avessa a frivolidades, sua presença qualificou e arejou nosso ambiente social e cultural.
 
Nara Leão faz parte de um Brasil em que a arte, a dignidade e a justiça devem ser partilhadas entre todos. Um país que ainda não existe, por certo, mas com o qual sonhamos e pelo qual lutamos inspirados no seu exemplo.
 
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*Nara Leão:
 

terça-feira, 26 de julho de 2016

A arte de Custodio Coimbra

Jorge Finatto
 
foto: Custodio Coimbra. barcos coloridos separados por píer, maré baixa,
São Gonçalo, Rio de Janeiro. Agência O Globo
 
Dizer que Custodio Coimbra é só um fotógrafo comum de imagens do cotidiano seria equívoco. Algo como afirmar que Chopin é apenas um tocador de piano, ignorando que, na verdade, é um gênio do instrumento e da composição.
 
Custodio é um artista que vai além do prosaico. O trabalho que produz tem força estética, conteúdo social, valor documental e, além de tudo, está carregado de poesia.
 
Ele transita numa esfera de delicadas composições visuais, que destacam as verdades imanentes que cada objeto encerra. Quando fotografa, sempre ou quase sempre nasce uma obra de arte.
 
Esta obra concilia, com maestria, denúncia e beleza. Isto ocorre, por exemplo, quando aborda a degradação do meio ambiente. A sua fotografia não nos diz que tudo está perdido, mas recorda que há muito a pensar e fazer para salvar a natureza. 

A alma dos seres e das coisas transparece nas imagens de Custodio Coimbra, aproxima e comove o leitor, retirando-o da indiferença.

foto: Custodio Coimbra. golfinho com lixo na cauda. Agência O Globo
 
Falo estas coisas após ler, na Revista O Globo, encartada na edição dominical (24/7/2016) do jornal, uma matéria sobre o trabalho do grande fotógrafo. Na capa uma bela imagem captada por ele: barcos separados por píer durante maré baixa em São Gonçalo. São dezenas de barquinhos coloridos num fundo escuro. Uma beleza rara.
 
A reportagem (escrita pela jornalista Joana Dale) traz outras fotos e dá conta da produção do artista. Ele trabalha nO Globo desde 1989. Anuncia-se para hoje (26/7), o lançamento de seu livro Guanabara, Espelho do Rio, FGV Editora, com 170 imagens da Baía de Guanabara, abarcando 20 anos de fotografias. Aves, cavalos-marinhos, pescadores, rios, botos-cinza, matas, barcos, poluição, lixo, etc., compõem o belo e inquietante mosaico.

O livro traz textos da jornalista Cristina Chacel, enfocando aspectos históricos, ambientais e culturais. O evento ocorrerá na Folha Seca, centro do Rio
 
A publicação deve chegar às livrarias em agosto. Antes que algum aventureiro lance mão do meu exemplar, já mandei e-mail a minha livraria, solicitando encomenda urgente. 

imagem: Custodio Coimbra. foto aérea de pedras próximas à Ilha do Sol.
divulgação
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Livro reúne 20 anos de imagens:

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Caderno de Abrantes

Jorge Finatto

desenho de Abrantes. Eduardo Salavisa
 
Tratei aqui no blog dos diários gráficos ao abordar trabalhos de Mário Linhares¹ e Eduardo Salavisa², ambos portugueses. Aprecio esses desenhos que captam instantâneos do cotidiano, em pequenos cadernos que os desenhadores levam na mão, no bolso, na bolsa, na mochila, na bicicleta, dentro do chapéu, etc.

Há qualquer coisa de frescura, de fruto recém colhido do pomar cuja imagem surge leve na página e logo conquista a intimidade do leitor.

Para esses desenhadores, desenhar é uma forma de entrar em contato com o mundo, desvelar um momento que, de outro modo, se perderia no relâmpago do instante. São traços que nascem da observação distraidamente atenta do entorno.  Há desenhadores em diversos países, mas no Brasil creio que o gênero ainda é pouco cultivado.

A arte - o desenho é uma de suas faces - responde a um apelo de registrar o efêmero. Os desenhos assim concebidos não têm a objetividade como alvo. Trata-se, antes, de uma visão bastante pessoal e livre do observador. É muito mais um sentimento do que um retrato. Neste olhar particular estão a riqueza e a surpresa das imagens.

O itinerário através do cotidiano é algo que diz muito. Revela uma capacidade de se deixar tocar pela realidade dos lugares e das pessoas que neles habitam. Isto não é pouca coisa, considerando o momento extremamente duro e violento que vivemos, em nível global, com grandes tragédias invadindo as ruas e cerceando nossos passos.

desenho de Abrantes. Eduardo Salavisa

Acabo de receber pelo correio - ainda com cheiro de Portugal - o livro Caderno de Abrantes³, de Eduardo Salavisa. Natural de Lisboa, onde vive e trabalha, Eduardo costuma desenhar em qualquer lugar e circunstância. É autor e organizador de vários livros do gênero, além de participar de exposições, conferências, cursos e encontros enfocando esse tipo de trabalho.

O Caderno de Abrantes resulta de uma residência artística que ele fez naquela cidade em  2015, durante 11 dias. Nesse período perambulou pelas ruas, praças e diversos ambientes, vendo e convivendo com as pessoas naquele universo.

Diz o autor na apresentação: "Quando me convidaram para desenhar Abrantes, cidade onde nunca tinha estado mais que umas horas, pensei: Será que conhecem os meus desenhos? Que sabem que tipo de desenho faço? Saberão que os meus registos não são completamente fidedignos ao observado?... Sabiam e a liberdade era total".

A obra de Eduardo é reveladora não só de recantos de Abrantes como de momentos da vida de seus habitantes. Em formato de livro de bolso, desperta no leitor o desejo de conhecer aqueles cenários. A variedade das cores e das formas é um regalo para os olhos.

Difícil imaginar maneira mais delicada de mostrar uma cidade.

desenho de Abrantes. Eduardo Salavisa
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¹Fernando Pessoa viajando no elétrico em Lisboa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2016/02/fernando-pessoa-viajando-no-eletrico-em.html  

²Eduardo Salavisa e a viagem no cotidiano:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/11/eduardo-salavisa-e-viagem-no-quotidiano.html

³Caderno de Abrantes. Eduardo Salavisa. Edição da Câmara Municipal de Abrantes. Portugal, 2016.
 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Un lugar llamado Alcalá


 
 
photo: Guillermo Gumiel. Espanha

El Museo Casa Natal de Cervantes, en el marco de la conmemoración del IV Centenario del fallecimiento de Cervantes, os invita a un paseo por Alcalá de Henares basado en las andanzas de Don Quijote de la Mancha.

Todos los sábados hasta el 27 de agosto de 2016, a las 11.00 y 12.30 horas, los asistentes a la ruta recorrerán algunos de los lugares más emblemáticos de Alcalá de Henares vinculados a Miguel de Cervantes, en compañía del protagonista de la novela inmortal del escritor y su fiel escudero.

Don Quijote y Sancho han viajado a través de los tiempos, de aventura en aventura, para llegar finalmente a la ciudad que vio nacer a Cervantes, para descubrir qué es, qué fue y qué será en el futuro, guiando al grupo y contando sus propias andanzas y anécdotas.

FECHAS: sábados hasta el 27 de agosto de 2016 a las 11.00 y 12.30 h. (60 min. duración)

DIRIGIDO A: todos los públicos (los menores deberán ir acompañados por un adulto)

COMPAÑÍA: AlmaViva Teatro (dramaturgia y dirección: César Barló; interpretación: Iria Márquez, Fernando Mercé y Javi Rodenas)

Las entradas a la ruta teatralizada se distribuirán, por riguroso orden de llegada, el mismo día de la actividad desde las 10.30 h. hasta agotar existencias (máximo 2 entradas por persona).

Actividad gratuita. España


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Museo Casa Natal de Cervantes:
http://www.museocasanataldecervantes.org/

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Andante cantabile

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Deus me deu muitos vazios para me entreter nessa vida.

Muita gente se queixa do vazio. Eu, pelo contrário, celebro o vazio, as minhas faltas, os meus vagos, hiatos, intervalos, lacunas, pois, graças a eles, estou sempre ocupado na ingente busca de me completar (nunca alcançada).

Se não fossem os vazios, as longas caminhadas pela dúvida e pelos nadas, os dias seriam todos iguais, a realidade seria insuportável mais do que é. Todo artista vive pra tapar buracos na alma.  

O vivente sente um vazio no coração, uma insatisfação de existir. Queria sentir-se pleno. Vai atrás de respostas, vai observar, escutar, interrogar, criar. Nunca encontrará a plenitude. Mas o fato de procurar já o torna alguém neste mundo.
 
Passei uma parte da vida no bosque das estantes. Que é um lugar de auroras, propício a altos voos, território de vidas e histórias inventadas.

Ler é trilhar caminhos a passos de silêncio. Há dias em que monto em meu cavalo invisível e saio a galope ao lado de Sancho e Dom Quixote por estradas de pedra, sombra, luz e sonho.

Pensando bem, só nos livros andamos a salvo por estranhas realidades. Mas não é capricho viver encerrado entre as quatro paredes de um livro, a salvo da vida. Há que sair, construir pontes, encontrar outros viajantes.

Cavalgar pelo oco do mundo em busca de sentidos.
 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O espantalho no milharal

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto
 
Se parar de escrever na casa do labirinto, nesta difícil procura de claridade, se o silêncio e o medo crescerem ao meu redor como um vasto milharal habitado por estranho espantalho vestido de negro, com grossas lentes nos óculos (que já não ampliam a progressiva e asfixiante pequenez das coisas), esse tal que desistiu do ofício de espantar, sendo ele próprio o contumaz espantado no oblíquo território da existência, se os amigos esquecerem de me visitar nas ermas noites de inverno, se um pássaro soltar o canto no galho da araucária diante da minha janela, se as palavras que escrevi servirem, ao menos, pra distrair o leitor (?) do medonho problema da morte e da inefável falta de sentido da vida, eu sentirei então que valeu a pena.

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Araucária vista da janela, Passo dos Ausentes.
Texto revisto, publicado em 13 de abril, 2011.

sábado, 9 de julho de 2016

Arte e transformação

Jorge Finatto

fragmento de Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch (1450-1516).
imagem: Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa¹

As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas.²
Rainer Maria Rilke

A arte é uma maneira de suportar e reinventar a nossa passagem pela vida. Através dela temos a oportunidade de ver a recriação do mundo pelos olhos do artista. Chamo de arte todo fazer humano dotado de esforço criativo, senso estético e originalidade.

Um cesto de vime, um tecido rendado, um prato de comida, uma pandorga colorida, um pão caseiro, dependendo do esmero e capricho de seu fazedor, podem ser arte. A arte não é só aquilo que encontramos em museus, galerias, livros e monumentos. Está na vida, está no dia a dia.

Do mais delirante quadro de Hieronymus Bosch ao mais tocante poema de Rilke, o que vemos é o espírito humano se desvelando, mostrando seus interiores, anseios, medos, profundidades, alturas, indo em busca de transcendência e sentido.
 
Estou entre aqueles que acreditam que as grandes obras nascem do sofrimento, e da necessidade de superá-lo. Do confronto da consciência com a finitude. O contraste entre o estar vivo e o estar morto, entre o que é e o que deixa de ser. E o que virá depois de tudo.
 
Aí estão a música, a literatura, o teatro, o cinema, a pintura, a internet, os blogs e todas as manifestações do pensamento e da sensibilidade nos convidando a imaginar, pensar, sentir, mudar.

A arte é uma visão transformadora da vida e do real. A vida é escassa ante nossa sede de plenitude. É necessário mais. Mais silêncio, mais tempo, mais contemplação, mais estar em si, menos performance.

Viver é tudo que temos, e dura um instante. É preciso encontrar um pouco de felicidade naquilo que somos e fazemos. E encontrar outras pessoas nesse caminho.
 
E que a obsessão de perfeição não nos sufoque na hora de criar qualquer coisa, nem nos tolha o olhar na hora de admirar a criação dos outros.
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¹Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal
http://www.museudearteantiga.pt/colecoes/pintura-europeia/tentacoes-de-santo-antao
²Cartas a um jovem poeta. Rainer Maria Rilke. p. 32. Tradução de Paulo Rónai. Editora Globo, 9ª edição, Porto Alegre, 1978.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Mulher preparando café

Jorge Finatto
 
Coral. photo by: Linda Wade. Wikipédia

 
A parede é espessa e fria. O tempo é circular e monótono como um carrossel. Ela escreve  no computador e faz desenhos na caverna moderna onde vive. Em volta do fogo, ela espera. 
 
Às vezes, penetra um vazio na alma, dá vertigem. Então ela bate com o nó dos dedos na parede, como se houvesse uma porta, alguma secreta passagem, como se existisse alguém do outro lado. Precisa acreditar que existe vida. Vida humana, vivente e cálida.
 
Um coração, uma pessoa como ela entre quatro paredes, quatro décadas, um coração partido em fatias igual o dela, como o bolo caseiro sobre a mesa. O silêncio caseiro. 
 
Nuvens de signos saem do teclado pelo espaço, um grito abafado pela solidão. Talvez exista alguém do outro lado, que também espere como ela, e sinta frio, e queira ir embora com ela dessa cidade trágica e deserta, fugir disso tudo, abandonar o mar morto das cavernas urbanas. Pobres corais sofrendo sozinhos e calados.

Enquanto pensa essas coisas, ela prepara o café da noite.
 
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Texto revisto, publicado antes em 25.11.2010
 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Violência na praça

Jorge Finatto
 
porto de Porto Alegre, vista parcial. photo: jfinatto

No sábado (25 de junho), fui ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul, na Praça da Alfândega, para o lançamento de um livro. Não costumo freqüentar o Casco Velho da cidade, perto do porto, por uma razão bastante triste: tenho medo de ser assaltado (o que seria de menos) e levar um tiro de bandidos que atuam na região.

A Praça da Alfândega e suas cercanias constituem cartão-postal da capital do Rio Grande do Sul, lugar histórico, berço social e cultural da cidade. Não por acaso ali estão órgãos importantes como o Margs e a Casa de Cultura Mario Quintana.

Naquelas ruas e passeios vi gente como Mario Quintana, Dyonélio Machado, Caio Fernando Abreu, Rubem Braga, Carlos Reverbel, Paulo Hecker Filho, Jorge Amado, José Cardoso Pires, entre tantos. Na praça se realiza, anualmente, na primavera, a Feira do Livro de Porto Alegre.

No entanto, nos últimos 30 anos o lugar vem se degradando, transformando-se na coisa lamentável que é hoje: uma área desumanizada e muito perigosa.
 
A motorista de táxi que me levou recomendou cuidado na travessia da praça até o museu. Disse que naquele trecho ocorrem diversos assaltos a cada dia, e que isto não espanta mais ninguém.
 
Fiquei uns 50 minutos no Margs, comprei o livro e fui embora. Com receio fiz o percurso de volta até encontrar um táxi numa rua próxima. Policiamento não vi nenhum. Encontrar policiais nas ruas é coisa raríssima em Porto Alegre.

O problema nem é ser despojado dos poucos bens materiais, mas perder a vida, como infelizmente tem acontecido diariamente nas ruas. Porque aqui os bandidos não se contentam mais em subtrair o patrimônio das vítimas, querem também a sua vida.

O mais perverso é que internalizamos o medo e perdemos a liberdade e a alegria de andar pela cidade. Difícil manter a saúde mental num ambiente assim. E desta forma vamos vivendo (?) no Brasil.