domingo, 2 de agosto de 2015

Viver no Bom Fim

Jorge Adelar Finatto

Amantes sobre a cidade (Vitebsk), 1918. Marc Chagall.
 
Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
                           Marc Chagall*

Um dia eu vou viver no Bom Fim. Deixarei tudo pra trás e vou viver a vida real dos filmes, músicas, livros, pinturas, histórias e memórias do velho bairro porto-alegrense.

O fim do mundo está batendo na porta todos os dias, proclamam os jornais. Está mais do que na hora de voar feliz outra vez sobre aqueles telhados, como fazia na adolescência, à semelhança dos amantes e violinistas dos quadros de Chagall.

No sábado passado, quando o céu veio abaixo, percebi que era o certo a fazer. O fim do mundo era uma questão de horas. Tomei o banho de chuva enquanto visitava sebos atrás de um livro.

Choveu tanto que lá pelas tantas comecei a retirar peixinhos que nadavam nos bolsos do meu casaco. Soltei-os na correnteza junto à calçada entre os barcos de papel que navegavam velozmente.

Vi pessoas andando e conversando sob os guarda-chuvas. Vi aqueles pequenos edifícios através das lentes ensopadas, uns grudados nos outros, parecendo jogos de armar de tijolinhos de madeira.

Em meio ao dilúvio que caía, tomei a decisão de ir viver nos cafés, livrarias, teatros, bares, fruteiras, esquinas e cinemas do Bom Fim (se é que ainda existem cinemas de rua no bairro, como os extintos Baltimore e o Bristol).

Levarei os dias a olhar as altas palmeiras da Oswaldo Aranha. Nas noites de inverno, quando a solidão bate mais fundo, sairei a caminhar com os camaradas pelas ruas do bairro.

Como no tempo da Esquina Maldita, da qual fui frequentador eventual, entre 1976 e 1980. Nenhum outro lugar da cidade tinha aquele clima de resistência à ditadura e à desesperança.

Assim era a Esquina: meio Sartre, meio Castor, meio Fernando Ribeiro, meio Scola, meio Caio Fernando Abreu, meio Cantos de Maldoror. Bar Alaska, Isaac, Revolução Cubana, rodas de violão, conversas, namoros. Meio fim de noite, meio começo de alguma coisa. 

Nos telhados das poucas casas que restam, talvez se possam ouvir ainda os violinistas. Casais talvez flutuem da mãos dadas pelo espaço. Personagens saídos das pinturas de Chagall habitavam os ares do Bom Fim.
 
Uma carroça carregada de flores costumava estacionar, nas noites de julho, na esquina das ruas Fernandes Vieira e Vasco da Gama. O florista - um velho judeu remanescente dos judeus que fundaram o bairro - alimentava o cavalo tirando capim de um saco. Depois saía a distribuir cestos de flores na porta das casas e no portão dos edifícios.

Antes de amanhecer, ele subia na carroça e sumia na névoa. Só se ouvia o tóc-tóc das patas do cavalo sobre as pedras em direção ao Parque da Redenção. Por causa dele uma suave fragrância se espalhava pelas ruas.

Um dia vou viver no Bom Fim. É lá que habitam, nos cinemas, bibliotecas, sótãos e calçadas, amigos espirituais como Carlitos, Ingmar Bergman, Kafka, Chagall, Samuel Rawet, Scholem Aleikhem, Fellini e muitos outros, que nos ajudam a não desistir diante do temporal.
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Um poema de Chagall (fragmento). Tradução de Manuel Bandeira. Antologia poética, 7ª ed., Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1974.