segunda-feira, 4 de maio de 2015

Recado a Tito Madi

Jorge Adelar Finatto

imagem de capa de cd
 

Meu Caro Tito. Hoje faz um daqueles frios glaciais em Passo dos Ausentes. O fogão a lenha está aceso, como da vez em que estiveste aqui, e o pinhão cozinha na chapa.

Pra completar, chove lá fora... Uma chuva intermitente, álgida, que me lembra teus versos na inesquecível Chove lá fora.
 
Com saudades do amigo, coloquei o disco a tocar tuas músicas: Balanço zona sul, Cansei de ilusões, Gauchinha bem-querer, Não diga não, Há sempre um amanhã, Dançador e tantas outras.
 
Além das belas melodias, as tuas letras (poemas musicais) respiram sentimento, harmonia, sofisticação, elegância. E a tua voz cálida e doce vibra na exata medida, entre samba-canção e bossa nova. É sempre uma beleza escutar.
 
A delicadeza da obra tem a ver com tua ascendência árabe (filho que és de pai libanês) e com o jeito brasileiro de ver o mundo. Nasceste em Pirajuí, interior de São Paulo, em 1929. No registro de nascimento está escrito Chauki Maddi. Mas és, de fato, o nosso Tito, Tito Madi, grande compositor e cantor do Brasil.
 
Ouvi dizer que Carlos Drummond de Andrade admirava teus escritos vertidos em letras de música. Não me surpreende, diante de tanta qualidade.
 
Entre os que cantaram tuas canções, estão Agostinho dos Santos, Elizeth Cardoso, Maysa, Ivon Cury, Dolores Duran, Maria Bethânia, Wilson Simonal, Leny Andrade, Caetano Veloso, João Gilberto. Entre os parceiros musicais, Mario Telles, Georges Henry, Paulo César Pinheiro.

No ano 2000 (foi ontem, Tito), perguntado sobre como te sentias pelo fato de muita gente considerar Gauchinha bem-querer uma composição folclórica (é uma das mais belas músicas já escritas tendo o Rio Grande do Sul por tema), assim respondeste, em memorável entrevista ao Caderno de Literatura nº 7, da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul:
 
- A minha música, de fato, já quase virou folclore gaúcho. Fico feliz com isso. Porto Alegre me deu essa extraordinária oportunidade de homenagear o querido Estado do Rio Grande do Sul. A canção nasceu da grande paixão pelo Rio Grande e pelos grandes amigos que aí conquistei. Entre eles, os integrantes do conjunto Norberto Baldauf, Adão Pinheiro - um dos maiores pianistas do Brasil -, Salimen Júnior, Glauco e Primo Peixoto.
 
Uma pessoa generosa, discreta, amorosa. E um senhor criador. Essa a imagem que guardo do artista - e do ser humano -, daqueles encontros aqui na Serra, em Porto Alegre, no Rio de Janeiro. Nada a ver com vaidade, com caras e bocas, com umbigo no centro do mundo.

Uma pessoa, enfim, de quem sinto saudades (assim mesmo, no plural) e a quem mando um grande abraço. 
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