sábado, 31 de outubro de 2015

Véspera de Finados num país que afundou

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Eu quero mais é voar pendurado num guarda-chuva grande e colorido. Voar sobre as ruas desertas do meu país, que bateu no fundo do abismo. Voar sobre as praças vazias, sobre as casas e apartamentos enovelados em silêncio, perplexidade e dor.

Eu quero tudo menos essa morte anunciada, lenta e cotidiana. Pra bem longe dessa tristeza e dessa desesperança eu quero ir. Não sei se é possível. Na verdade não é.

Será mais fácil sair voando a bordo de um guarda-chuva. Pelo menos foi isso que nos ensinou a inefável Mary Poppins. Ou até isso não passará de uma tola ilusão? Mas uma tola ilusão é necessária de vez em quando.

Não podemos é nos entregar nos braços da morte como querem seus emissários. E se nos déssemos as mãos e começássemos a varrer os destroços?
 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Fanicos & Farfalhas no Empório Canela

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
A exposição fotográfica Fanicos & Farfalhas está no Empório Canela, Rua Felisberto Soares, 258, centro da cidade, aqui na serra do Rio Grande do Sul. As imagens ficarão expostas até dezembro e são todas da região serrana, especialmente de Canela. Colhi as fotos com a amiga Coruja (ex-máquina, hoje quase um ser humano), durante as caminhadas polifônicas.
 
Não me lembro quantas vezes estive no Empório nos últimos anos. Levei a família, convidados, fiquei sozinho outras tantas.

photo: jfinatto
  
Muitas vezes estive ali na companhia de amigos como Ítalo Calvino, Ruy Belo, Vitorino Nemésio, Florbela Espanca, Drummond, Cecília, Clarice, Pessoa, Salvador Espriu, Bandeira, Antonio Tabucchi, Helena Jobim, Heitor Saldanha, Henrique do Valle, Ortega y Gasset, Cervantes, Miguel de Unamuno, Antonio Machado, Felisberto Hernández, Benedetti, entre outros. Companheiros com os quais dividi a mesa e dialoguei ao redor de taças de café, no intervalo das viagens a Passo dos Ausentes.
 
O Empório é um bom lugar para se estar só ou acompanhado.

photo: jfinatto
  
Além do café (meus dois preferidos são o de especiarias e o dolce), o Empório serve ótimos lanches e refeições, pois é restaurante, e dos bons. Pensam que é só? Também é livraria e sebo. E expõe artesanato de qualidade em vários materiais, além de objetos antigos. E tem mais coisas que fazem bem, entre elas o bom atendimento.
 
Estão todos convidados a visitar a exposição e o lugar. Vale.

photo: jfinatto
 

sábado, 24 de outubro de 2015

Os mistérios do mundo e as conchas do mar

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
Andava eu pela rua Padre Chagas, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, quando visualizei na esquina um cartaz anunciando um Curso de Introdução ao Mundo. Era como um alerta dirigido à minha proverbial falta de fé nos oráculos. 
 
Com vagas limitadas, os encontros seriam dedicados a pessoas que cultivam assuntos filosóficos e que querem desvelar os mistérios da vida. No desenvolvimento das aulas, se trabalharia com conchas do mar, cartas de baralho, almanaques antigos e o indefectível Google. Informava-se, ainda, um telefone móvel para contatos, que deveriam ser feitos o quanto antes para encaminhar a matrícula e formas de pagamento.
 
Percebi que estava ali a grande oportunidade para entender melhor os enigmas da existência. Vislumbrei a libertação de angústias e perplexidades que carrego desde antes de chegar ao útero. No entanto, por ancestral e incorrigível desconfiança, não anotei o número do telefone.
 
No retorno a Passo dos Ausentes, contornando penhascos e já envolto em nuvens, me dei conta do que perdera. Se tivesse aproveitado o que o cartaz oferecia, provavelmente teria renovado minha visão das coisas nesses tempos tão obscuros. Alcançaria quiçá uma percepção mais generosa da existência e suas possibilidades.
 
Mas qual! Voltei, como sempre, a andar na neblina com a costumeira lanterna de mina na mão.
 
Constatei, mais uma vez, essa propensão tão minha de olhar com ironia anúncios de salvação prêt-à-porter, venham eles de onde vierem.

Levantar o escuro véu que oculta os mistérios e belezas do mundo é ofício a ser construído em silêncio, com humildade e claridade de coração. Essa a minha vã filosofia.

Porém, eu devia era levar mais a sério cursos de introdução ao mundo. Quem sabe tudo clareava de vez... Mas não. Por isso continuo aqui, mais que cinqüentenário, insistindo em coisas como o trema, e em outras que nunca levam ao paraíso.
 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Corações partidos

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Saiu do trabalho às 17h e pegou o filho na escola. Rumaram para o Cementerio de los cristianos y los otros, nome herdado dos padres jesuítas e índios guaranis que fundaram a aldeia há três séculos. Naquele dia estava fazendo 3 anos que Ana Flora tinha morrido.
 
Atravessaram a praça central sob os ipês roxos e amarelos. O sol suave de outubro dourava o ar. Manoel Henriques Soledad levava o pequeno Paulo Henriques sem pressa e em silêncio. Manoel vestia um casaco cinza com calça jeans azul-marinho e trazia na mão esquerda um arranjo de flores. O menino carregava nas costas a mochila da Escola dos Capuchinhos do Perpétuo Amanhecer.
 
Ficaram de pé diante do túmulo, olhando o retrato da falecida. A grama crescia em torno do cimento baixo.
 
Estou indo embora, Manoel Henriques. Isto aqui não é vida pra mim. Cansei desse lugar, dessa vida, de ti, de mim, não tem mais jeito. Por favor, vê se me entende. Nos últimos meses, saí com dois caras, transei com eles, sabia? É isso que queres? Vou morar com uma amiga em Porto Alegre, ela ficou de ver um emprego pra mim. Não gosto mais de transar contigo, não suporto essa casa, esse frio. Desculpa, mas é como é. Temos menos de 40 anos, podemos recomeçar a vida.
 
Mas por que isto agora, depois de 10 anos juntos? É uma crise, estás só cansada, isso vai passar. Já aconteceu antes. Vamos fazer mais coisas, viajar um pouco. Queremos um filho, uma família, lembra?

Eu quero uma vida pra mim, aventura, encontros, novos lugares. Tu és acomodado demais, vives no teu mundo, livros, emprego no correio, acampamentos com amigos. Preciso dizer outra coisa, estou grávida de três meses, não sei quem é o pai.
 
Ana Flora saiu pela porta levando duas malas. Deixou atrás de si o triste perfume da despedida. A porta ficou aberta. Um retângulo de luz iluminou as paredes e o chão do corredor. Manoel foi até o quatro, tomou 10 comprimidos pra dormir e apagou por dois dias. Acordou numa quinta-feira, de ressaca, um terrível mal-estar pelo corpo, um gosto amargo na boca. Sentou-se à mesa da sala, deitou a cabeça entre os braços. A porta ainda estava aberta. Agora chovia. Sobre a mesa havia um vaso branco com flores silvestres que ela havia arranjado.
 
Quatro anos depois, ao chegar em casa, Manoel encontrou Ana Flora sentada no sofá com uma criança no colo. Chamava-se Paulo Henriques Soledad e tinha quase quatro anos.
 
Como foi que tu entraste aqui? O que significa isso? Como pode, depois de tudo, voltar assim sem avisar, usando a chave da casa? Por favor... Eu não mereço tanto.

Não tenho muito tempo pra conversar, Manoel Henriques, estou muito mal de saúde. Vou seguir em seguida para o Hospital das Carmelitas. Cheguei ontem de Porto Alegre. No Hospital de Clínicas, disseram que seria melhor ficar num lugar tranquilo, com ar limpo. Lá não tinham mais o que fazer. Não posso passar sem morfina. Escuta, o filho é teu. Sempre foi. Tu és a única pessoa em quem confio pra cuidar do nosso filho. Estranho dizer nosso filho depois de tudo. Não era pra ser assim, era pra ser uma família. Tenho muita dor, preciso ir logo pro hospital. Vim aqui só pra te entregar o Paulinho. Desculpa pelo sofrimento que te causei. Não quero receber visitas. Toma, segura ele, cuidado. Cuidem um do outro, sejam felizes, se é que dá pra ser feliz nesse mundo. Adeus. Nunca mais se viram.
 
No dia do enterro de Ana Flora, dois meses depois, a superiora das Carmelitas entregou a Manoel um envelope. Era uma última manifestação da falecida. Pediu que ele deixasse para abrir em casa.

Manoel abriu o envelope, o coração batendo forte, a cabeça pulsando. Nunca deixou de gostar de Ana Flora.
 
Leu o documento. Foi até a janela com o papel amassado na mão.  O corpo tremia. O filho olhou para ele, chamou-o. Tudo bem, filho, tudo bem. É só o documento do túmulo da mamãe, que terei de pagar nos próximos 3 anos.  Ah, ela também disse que nos ama.
 
Diante do túmulo, Manoel arrumou o vaso com as flores singelas no centro da lápide. Fez o sinal da cruz e partiu com Paulinho. Tinham um ao outro. E o sentimento que os unia era mais forte que a desolação.
 

domingo, 18 de outubro de 2015

E se formos só nós no universo?

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
Para alguns, é impossível não haver vida além da humana em outros lugares do universo. A imensidão do cosmos não permitiria fechar a porta para a existência de extraterrestres. Por que Deus (ou o acaso, para os não criacionistas) criaria o infinito para deleite só dos humanos? Humanos, aliás, que não têm merecimento para receber tanta bondade.

A pergunta é: e se for mesmo assim, se não houver mais ninguém em lugar nenhum? Nesse caso teremos de nos conformar e aceitar que estamos sós, os escolhidos. Seríamos, assim, o centro da vida. Os donos de tudo.

Se isso alguma vez se confirmasse, será que seríamos melhores com os outros seres vivos e com o nosso semelhante? O problema é que não podemos esperar essa resposta para adotar um comportamento digno. O mundo está se esfarelando diante de nós.

Seria altamente recomendável se cada um se levantasse amanhã mais sensível, amigável, solidário. Dotado de sentimentos capazes de fazer cessar a enorme violência com que tratamos uns aos outros e maltratamos a natureza.

Será um vexame esperar que algum alienígena do espaço venha a nos ensinar a ser melhores do que isso.

Enquanto escrevo essas inúteis linhas, faz 3 graus. Depois do dilúvio das últimas semanas, o frio polar. Acendo a lareira com restos secos de madeira recolhidos do mato. Vem calor e um cheiro bom. Fico olhando o colorido bailante das flamas. A hora é tardia. Dizer que até o fogo tem sua beleza.

Termino essa crônica domingueira com a expressão luminosa de Ítalo Calvino: do outro lado das palavras, há algo que busca sair do silêncio, busca significar por intermédio da linguagem, como dando golpes no muro de uma prisão.*

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*Mundo escrito e mundo não escrito - Artigos, conferências e entrevistas. Ítalo Calvino. pág. 114. Organização de Mario Barenghi. Tradução de Maurício Santana Dias. Companhia das Letras, São Paulo, 2015.
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Aquarelas de vida

Jorge Adelar Finatto

Aquarela de Nathaniel Marques Guimarães, 2001

O tempo de vida de uma aquarela é pequeno, se comparado a outras técnicas de pintura. A cor e os traços vão esmaecendo aos poucos até sumir. Isso foi o que um pintor amigo me disse, referindo que se trata de uma pintura muito volúvel à passagem da bruma dos dias.

As imagens vão gradualmente desaparecendo.

As pinturas a óleo duram muito mais. Ninguém imagina, por exemplo, que a Mona Lisa, do Leonardo da Vinci, criada entre 1503 e 1517, vá se apagar um dia.

O artista que me fez essa triste revelação era um mestre aquarelista. Seu nome: Nathaniel Marques Guimarães. Falou do assunto com uma tranqüilidade que me espantou e me deu dó ao mesmo tempo. Ele amava a aquarela e a ela dedicou muitos dias de árduo trabalho. Estava conformado com o destino efêmero de sua criação. Essa humildade diante do eterno será talvez uma das virtudes dos gênios.

Acho que pressenti na sua visão a dura verdade daquilo que faço: escrever palavras em folhas de papel ou luminosa tela de computador também é trabalhar para o oblívio. As palavras vão desaparecer não por desgaste físico das letras e páginas, mas por ausência de leitores. E a posteridade, como se sabe, é uma ilusão longínqua e absurda demais para ser levada a sério.

De certa forma, fazemos aquarelas quando escrevemos. E nada devemos esperar além da alegria da criação.

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Nathaniel Marques Guimarães foi um dos grandes aquarelistas brasileiros, além de um querido amigo.
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Que os raios não nos partam

Jorge Adelar Finatto

Imagem: site da Secretaria Nacional de Defesa Civil:
http://www.defesacivil.gov.br/desastres/recomendacoes/raio.asp
  
 
Entre os dias 7 e 9 de outubro caíram cerca de 500 mil raios no Rio Grande do Sul, conforme dados divulgados pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.* 
 
O Estado ocupa o primeiro lugar em descargas elétricas  por quilômetro quadrado no país. Isto mostra aos pessimistas que pelo menos neste tema alcançamos uma posição de destaque, não havendo razão para tanto negativismo de sua parte.
 
Trovões, chuvaradas e relâmpagos tomaram conta dos ares nas últimas duas semanas. Haja coração pra suportar tanto clarão e tanta explosão vindos dos confins dos céus. O negócio acontece de dia e de noite.

Só peço a Deus que os raios não nos partam, que passem bem longe de nossos frágeis corpos e côncavos telhados.
 
Na quinta da semana passada, estava tomando uma taça de café com leite com pão e manteiga, ao mesmo tempo em que tentava ler um livro no Café da Ausência, quando um enorme estrondo estremeceu tudo, até a mesa. O coração disparou.

Fiquei em dúvida se seria o início de uma guerra ou  de um terremoto. Felizmente, nem uma coisa nem outra. Era só um entre os 500 mil raios.
 
O tempo anda com os nervos à flor da pele.
 
Dizem os calendários que a primavera já começou neste lado do mundo. Mas não existem evidências de que isto de fato aconteceu. Na realidade, a primavera ainda não desembarcou entre nós. Resta nesta hora esconder-se dos trovões debaixo das cobertas, como na infância, e rezar.
 
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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Helena Jobim

Jorge Adelar Finatto
 
Helena Jobim

A vida das coisas pende por um fio, se te calas.
 
                                                     Helena Jobim, no poema Princípio

A morte é um negócio que não precisava nem devia existir. Pra quê? Só pra gente chorar e sofrer a perda das pessoas queridas. E passar o resto dos dias lembrando delas e sofrendo sua espessa ausência.
 
Eu carrego meus mortos num lugar secreto e luminoso dentro da alma. Ali eles estão vivos, caminham entre os campos floridos, brincam nos córregos e pontes, convivem e riem muito das bobagens da vida aqui embaixo. Agora veio juntar-se ao grupo Helena Isaura Brasileiro de Almeida Jobim, ou a Nena, como o irmão famoso a chamava. Certamente vai encantar muito a vida de todos nos Campos de Cima do Esquecimento. E reencontrará o mano Tom Jobim, que tanta falta lhe fazia.
 
Convivi por mais de 10 anos com ela e com o marido Manoel, de quem me tornei amigo também. Adorava quando eles vinham para o sul e ficavam uns dias aqui em casa. Helena tinha histórias incríveis e uma memória prodigiosa, capaz de recuperar coisas dos primeiros anos de vida. A memória dos Jobim, ela dizia.

Às vezes, à noite, ao redor da mesa e de uma garrafa de vinho, passávamos horas conversando. É claro que eu queria era escutar. Ela esteve presente em todos os momentos da vida do irmão, escutou os primeiros acordes de muitas de suas canções, como Águas de Março, no sítio da família, em Poço Fundo, região serrana do Rio de Janeiro. Viajamos, passeamos, rimos, trocamos afetos, histórias, presença.
 
Um certo dia uma doença terrível caiu sobre mim como a bomba sobre Hiroshima. Emocionalmente comecei a despedir-me do mundo e das pessoas. No meio da explosão, Helena ficou sabendo. Daquele dia em diante, ela e Manoel me telefonavam quase diariamente de Belo Horizonte onde viviam. Não me deixaram mais quieto e sofrido no recanto sombrio.
 
Eles me deram tanto apoio, tanto conforto, me transmitiram tamanha esperança, força e fé que eu parei de me despedir da vida. Um belo dia eu reapareci vivo na saída do longo túnel escuro.  Eles me esperavam com flores e um caloroso abraço. Muito da travessia se deveu aos dois.
 
A Helena morreu no dia 13 de setembro passado. Eu não consegui e ainda custo a encarar o fato.
 
A escritora Helena Jobim não tem o reconhecimento que merece. Escrevia com grande talento, poesia, imaginação. Além de romancista, era poeta de mão cheia (como o pai, Jorge, poeta parnasiano, amigo de Alberto de Oliveira, que lhe dedicou um poema).

Uma mulher sensível, elegante, discreta, culta, humilde, extremamente bonita. Não há rigorosamente excesso nos adjetivos. Alguém me disse que ela foi a verdadeira inspiradora da canção Garota de Ipanema. Não duvido. Nunca vi olhos como os dela, nos quais balançavam as águas azuis e claras do mar de Ipanema, do tempo em que ela e Tom eram adolescentes.
 
Pouca gente sabe das ligações dela e do irmão com o Rio Grande do Sul. O pai deles, Jorge de Oliveira Jobim, era gaúcho de São Gabriel.*
 
 "Jorge, no fim do ano vamos passar o Natal ou o Ano Novo juntos, se Deus quiser. E ele vai querer", ela me disse mais de uma vez. 

Passamos juntos festas de fim de ano e dias de inverno na serra. Deus quis que assim fosse. E foram dias de intensa claridade. Ela tinha razão, as pessoas amadas nunca desaparecem. Estão sempre no nosso coração.
 
                        &     &     &     &

Republico, em memória da amiga, esta crônica.


O livro na praça
                                            Helena Jobim

Vim para Porto Alegre a convite, participar da Feira do Livro. E aqui estou, nessa terra generosa, terra de meu pai Jorge Jobim. Tornei-me filha de três cidades, e assim posso dizer que sou carioca, belo-horizontina (recebi o título com muita honra) e porto-alegrense. A Feira é uma beleza. Ocupa toda a Praça da Alfândega, onde grandes barracas brancas oferecem livros de todo o tipo. Algumas têm o teto transparente, e é muito bonito ver os jacarandás floridos enfeitarem os tetos com suas pétalas roxas.

Assim que cheguei à Feira, deparei-me com uma grande estátua do General Osório, montado a cavalo. No pedestal de pedra, uma inscrição gravada. Chamou-me muito a atenção. Tomei nota: "O dia mais feliz da minha vida seria aquele em que me dessem a notícia de que os povos civilizados comemorariam a sua confraternização queimando seus arsenais". Vem a calhar para a hora difícil que vivemos.

A Feira é uma grande festa invadindo a praça, com suas árvores antigas, gigantescas, de troncos retorcidos pelo tempo, verdadeiras esculturas. Essa paisagem, de largas sombras e bancos para descanso, sugere a leitura. O ambiente combina com reflexão e cultura. Sabiás e pardais cantam ocultos nas copas de folhagens espessas, como um pano de fundo construído de sons que nos remetem a dias felizes.

Esta é a 47ª Feira do Livro de Porto Alegre. Chegou o sol e o calor e havia tanta gente pelos largos corredores entre as barracas, que tínhamos de andar devagar, parando a cada instante para examinar os livros. Vontade de comprar tudo. Os homenageados desse evento estavam bem representados em bronze, lado a lado. Carlos Drummond de Andrade, de pé, segurando um livro como se o lesse. E bem junto dele, sentado, Mario Quintana olhava-o, absorto. Tirei retratos junto às estátuas desses dois grandes poetas, pensando em colocar depois as fotos enfeitando meu escritório.

E como foi proveitoso estar com artistas mexicanos! Escritores, roteiristas, editores. Chegavam em comitivas alegres e coloridas, representando o seu país, também homenageado este ano na Feira. Sons e imagens que nos aproximam definitivamente.

Depois de muito andar, palestrar (junto com meu amigo e poeta Jorge Finatto) e autografar "Recados da Lua", atravessei a rua e sentei-me no pequeno Café Antigo, dos anos 30, perfeitamente conservado. E nesse ambiente calmo, de frente para a praça, me dei conta de como é importante para mim o ofício de escrever.

Lá estava eu, testemunha deste importante evento, de lápis e papel na mão, registrando minhas impressões. Dentro de mim vibrava a grande festa do artista, irmanada com as pessoas mais simples que observava folheando livros de todos os tipos, de todas as cores. Poucas vezes na vida um escritor pode saborear tão de perto a avidez do leitor pelo livro, a ponto de me fazer esperançosa em prosseguir na luta com o papel em branco, na busca da sensibilidade, na entrega total aos meus leitores. E me lembro de novo de Cecília Meireles: "Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta".

Quero hoje agradecer especialmente aos e-mails de Clara e Fred. Suas palavras ajudaram-me também a acreditar na palavra escrita, como forma de melhorar o mundo.

Para se pensar:

A vida era por um momento.
Não era dada. Era emprestada.
Tudo é testamento.

Antonio Carlos Jobim


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Helena Jobim era escritora, autora, entre outros, de Antonio Carlos Jobim, Um Homem Iluminado (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1996), Trilogia do Assombro (Editora Nova Fronteira, 1998) e Pressinto os Anjos que Me Perseguem (Editora Record, Rio de Janeiro, 2000).

Esta crônica foi escrita por Helena durante sua passagem por Porto Alegre, na Feira do Livro de 2001. Agradeço à querida escritora e amiga a autorização para publicação do texto.

Fotos: 1) Helena Jobim. Fonte: livro Antonio Carlos Jobim, Um Homem Iluminado. 2) Helena e o irmão Tom Jobim em 1945. Fonte: site oficial do Instituto Antonio Carlos Jobim: http://www.jobim.org/
Texto publicado no blog em 11 de abril, 2011.

*Maestro Antonio Brasileiro, entre o Guaíba e Ipanema:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/04/maestro-antonio-brasileiro-entre-o.html
  

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Pensar alto

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Um fato constrangedor está preocupando a intelectualidade de Passo dos Ausentes. Peidar alto, na presença de visitantes e consulentes da Biblioteca Ausentina, declarada patrimônio cultural da humanidade, é algo que o filósofo Don Sigofredo de Alcantis tem feito com desconcertante frequência, nos corredores, entre as estantes, nas saletas de estudos e entre as fileiras de mesas.
 
Como Diretor Vitalício da vetusta instituição, pelos relevantes serviços prestados ao longo de 60 anos, o pensador-mor participa assiduamente das reuniões de diretoria.  Ultimamente, durante os encontros, Don Sigofredo não se constrange em inclinar-se lateralmente na cadeira de couro, à cabeceira da mesa oblonga, emitindo uma sonora e nada agradável ventosidade que empesta o ambiente. E o faz com impressionante naturalidade.
 
Mocita de La Vega, secretária-geral da biblioteca, foi encarregada pela plêiade de intelectuais que dirigem aquela casa do saber de conversar com o Senhor Sigofredo, com a discrição e o sigilo que a situação exige, indagando-lhe coisas sobre sua alimentação, aparelho digestivo e outras questões relativas à tubulação e ao escapamento sem freio do lendário e distraído filósofo.
 
Veja, Mocita. O mínimo que um homem da minha idade e da minha condição deve se permitir é peidar sem mordaças. Ruminei as piores coisas que um ser humano pode suportar, a vida inteira, pensando ao desabrigo, a céu aberto, sem rede de proteção, em nome da filosofia e para o bem do meu semelhante; percorri largas veredas de solidão e desespero em busca de respostas que nunca encontrei. Fui movido pela sinceridade e pela vaidade.
 
Trilhei um caminho torto, inútil e pretensioso. A flatulência, a esta altura, é resultado do pensar profundo, acumulado por décadas em meu âmago. Nem isso consegui controlar com o pensamento. E nem quero. A maioria me julga sábio. Sábio...

Descarregar sem hesitações não é prova de descontrole ou fraqueza, mas de libertação. As convenções sociais não ficam bem a um homem que perseguiu a verdade e a liberdade total do ser como eu. Não as tendo encontrado, resta-me ao menos libertar, sem falsas modéstias, os ventos filosofais que me sacodem por dentro. Diga isso aos confrades. E que passem bem.
 
Diante do inusitado relato trazido por Mocita aos membros do nobre conselho, ficou decidido que, de agora em diante, as reuniões de diretoria têm de se realizar com as janelas abertas, apesar do costumeiro frio polar de Passo dos Ausentes. E Mocita foi proibida de ligar a calefação durante os encontros e conferências, pelo poder que ela tem de concentrar odores lançados inopinadamente no ar. Para evitar fatos semelhantes, ficou registrado em ata que somente Don Sigofredo de Alcantis, honorável pensador, orgulho da aldeia, tem direito ao peido ou traque, sem peias, por ocasião dos gelados eventos na casa dos livros.
 

domingo, 4 de outubro de 2015

A bússola

Jorge Adelar Finatto

photo: reprodução. o crédito será dado assim que conhecido o autor.
 
 
Um dia desses comprei uma bússola em Porto Alegre. A anterior, uma inglesa do século XIX, perdi quando o barco no qual fazia a travessia de uma corredeira, no Contraforte dos Capuchinhos, virou, e eu virei junto, perdendo vários objetos de expedição. Não me perdi no fundo das águas porque me agarrei nuns galhos de uma árvore caída  perto da margem. Deus é pai.
 
A meu lado, na loja, alguém perguntou por que eu queria uma bússola nesses tempos modernos de gps e etc. Por acaso tem medo de se perder na cidade? Nunca tinha visto a tal criatura. Tenho o inusitado dom de atrair essas entidades.
  
Depois de testar o equipamento e guardá-lo, respondi que a bússola é necessária nas minhas andanças por vales e montanhas dos Campos de Cima do Esquecimento. Sem ela, posso me perder e não encontrar o caminho de retorno, o que seria uma perda irreparável para os três leitores do blog.

Não satisfeita, a perseguinte arrematou dizendo o senhor não devia fazer essas coisas, pois não tem mais 20 anos. Cuidado para não acabar no buraco. Não tenho mais 20, cara senhora, nem 30, muito menos 40 e estou passando bem dos 50. E buraco, bem, cada um encontrará o seu um dia. Mas com a bússola eu evitei vários deles.

Em Porto Alegre também utilizo a bússola. A cidade expandiu-se. Cresceu tanto para cima, para baixo e para os lados, que já não conheço mais nada nem ninguém. Preciso do aparelho para me orientar na multidão. Isso aqui é pior do que andar no meio do mato.

Infelizmente, mesmo de bússola em punho, não encontro mais os amigos. Não tem maneira de avistar um rosto querido no turbilhão de faces anônimas. Pelo jeito, todos se mudaram de cidade. Ou fugiram, o que é mais provável, em meio à tanta violência e indiferença.

Tem dias que me sinto um fantasma por essas ruas povoadas de oblívio. 
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Solidão

Paulo Ricardo Fabris

photo: jfinatto
 

acho que nunca
verei o sol varar
o casarão e penetrar
na sala-de-estar
e almoçar conosco
na mesa-de-jantar
 
______
 
Paulo Ricardo Fabris é médico e poeta em Porto Alegre. Este poema faz parte da antologia Paisagens, de vários autores, publicada em 1977, pela Editora ML, em Porto Alegre.