segunda-feira, 30 de março de 2015

Deixai livres as crianças

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
As crianças são como os anjos: podem voar por aí, correr e brincar sobre as nuvens, porque carregam no coração a força da inocência e da bondade. Se para os grandes não existe salvação, para as crianças todas as portas e janelas do céu estão abertas.
 
O mundo faz tudo que pode para cortar as asas da infância. Os adultos, com seus maus modos e sua rematada ignorância afetiva e espiritual, querem a todo custo arrancar das crianças a capacidade de ser livres e de sonhar. Esse é um dos piores crimes que se perpetram contra o ser humano.
 
Mercê dessa violência, alguns que, em pequenos, foram angélicos transformam-se com os anos em seres monstruosos. Alguma dúvida? Olhemos as manchetes dos jornais. A fábrica de verdugos e assassinos está funcionando a pleno vapor.
 
Por isso, uma sugestão a todos os que foram criança um dia: não se deixem amedrontar e violentar pelos porta-vozes da escuridão e pelos emissários da morte.
 
A criança que vive em nós viverá enquanto não desistirmos dela e não permitirmos que a matem.
 
Salvemos as nossas crianças. Salvemo-nos. A resistência será a nossa salvação.
 

sábado, 28 de março de 2015

O mundo explodiu e ninguém disse adeus

Jorge Adelar Finatto

local da queda do avião, nos Alpes franceses. photo de Thomas Koehler (EFE)

Em memória dos passageiros do voo GWI 9525
que se espatifou contra os Alpes franceses
na terça-feira, 24/3/2015
                   
Não havia sobreviventes quando Deus chegou na rude e negra montanha alpina e viu de perto o que acontecera. Nenhum pra contar o que se passou quando o airbus explodiu em milhões de fragmentos repartidos no ar irrespirável.
 
Um anjo, numa solitária nuvem, olhando lá de cima, dissera antes ao Senhor: pulverizaram-se os sonhos. Não temos corpos a quem velar. Consumou-se a terrível travessia que ninguém ousara imaginar.

E, no entanto, estava tão evidente desde sempre o previsível gesto de loucura, fundado no mais primitivo egoísmo, na dureza de espírito que gera a nauseante repetição da covardia, tecedora de sórdidas mortandades. Previsível, sim, porque o mundo tornou-se um hospício geral.

Se acontecesse na África, na América do Sul ou em qualquer outro "lugar bárbaro", "estaria explicado". Mas o fato se deu no suposto centro da inteligência, da ciência, da tecnologia, da cultura e da boa educação.

Não há justiça nem existe bondade além das aparências. Ninguém está seguro em parte alguma. E não se alimentem falsas ilusões: em alguns dias tudo estará esquecido, porque assim decidem os insensíveis deuses do mercado e do poder.

Quem fez caso das crianças e de todos os passageiros que embarcaram na triste nave sem destino?

Quem se importa com a dor dos outros no mundo em que vivemos?
 
Entre as partículas havia minúsculos estilhaços vermelhos e cintilantes a correr pelo vácuo noturno (em pleno dia). Em todas as direções e sentidos eles se deslocaram na escuridão do cosmos.

Em cada um deles havia uma lembrança, uma emoção, um resto de amanhecer. Em cada mínimo fragmento, um pedaço de coração pulsando em absoluta perda, silêncio, espanto e dor.
 
Um raio brilhante de luz incandescente encontrará um lugar novo do universo para germinar. Quem sabe poderá haver vida outra vez. Quem sabe dos estilhaços vermelhos nascerá, um dia, uma vida, e depois outra e mais outra.

A luz germinará sem a porção atávica da crueldade, distante do horror, da loucura dissimulada e dos sombrios desvãos que habitam a alma humana.
 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Os passos no telhado

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
A casa estava sempre lá, no mesmo lugar, a qualquer hora a gente podia voltar. Os mais velhos eram os guardiões do templo cujo maior tesouro era o sentimento. Eles eram os troncos velhos da ponte que ligava o passado com o presente e o depois.
 
O tio Alberto retornou depois de 40 anos vivendo noutros países, noutros planetas. Trouxe baús cheios de quinquilharias e livros em línguas estranhas. Trouxe principalmente muita solidão no semblante calado. 
 
Foi habitar no sótão da casa, dizia que a mansarda era o melhor lugar pra se ver o mundo. Quase não descia de lá. Abria a porta no alto da escada estreita apenas pra receber e devolver as coisas indispensáveis.

- O mundo só é suportável aqui em cima. Vivo em solidão mas quero a companhia do andar de baixo. Amo todos vocês.

E lá ficou com seus livros velhos e uma luneta holandesa do início do século XX.

De raro em raro, quando a porta se abria, a gente corria pra ver a cabeça branca do tio Alberto. Às vezes nos abanava e voltava a se fechar no seu mundo.

Em certas noites, ouvíamos barulho de passos e vozes no telhado. A vó dizia que não precisava ter medo, era só o nosso tio esticando as pernas e conversando com seres que só ele via.
 
O aroma dos cravos (havia cravos) e das rosas perfumava o entorno da casa. Tinha também o cheiro amarelo das margaridas e o branco dos lírios.
 
Era bom dormir olhando para o teto alto de madeira, na certeza de que o dia ia amanhecer na voz do galo, e de que tudo seguiria como sempre.

No inverno as nuvens raspavam nos galhos altos dos pinheiros.

Nos dias de chuva a casa recendia a pão, doces e bolos produzidos no fogão a lenha.
 
Viver era eterno. Todos os córregos e pássaros cantavam para iluminar a nossa vida. 
 
A saudade que estou sentindo agora não é uma coisa triste.

Tudo está vivo dentro de mim.
 
Estou só na madrugada de outono. Mas escuto passos no telhado.
  

Revista Orpheu: 100 anos



A partir de hoje, com a inauguração da exposição de Pedro Proença, Os testamentos de Orpheu, iniciam-se na Casa Fernando Pessoa as comemorações dos 100 anos da revista Orpheu.

Sobre Os Testamentos de Orpheu, patente até dia 26 de Setembro, diz Proença: “A revista Orpheu é um fantasma que já há muito tempo vou digerindo e não cessa de ser uma fonte de entusiasmo. (…) O apetite por celebrar os de Orpheu vai aqui traduzido em obras (...) onde abundam textos seus, colagens e abusos sobre eles, ou pequenos ensaios da minha lavra.(…).”

Do programa, transversal e atento aos ecos de Orpheu hoje, faz ainda parte Café Orpheu, a partir de 28 de Março, um ciclo de performances e leituras a que se chamam actores, performers e textos que convocam o espírito do grupo. A Brasileira, o Fábulas, o Vertigo e o Kaffeehaus, pontos centrais no Chiado contemporâneo, deixam-se assim ocupar por Andresa Soares, Filipe Pinto, Lígia Soares e Miguel Castro Caldas, Miguel Loureiro, Sara Graça e Victor d’Andrade, Sílvia Real, Sérgio Pelágio e Mariana Ramos e Os Possessos surpreendendo quem está e quem passa.

Orpheu é também o ponto de partida para Almada em Pessoa, a partir de 28 de Março, uma visita-experiência na qual o visitante é convidado a, por momentos, fazer parte da obra de Almada Negreiros Retrato de Fernando Pessoa.

As comemorações fazem-se ainda com a exposição itinerante Nós, os de Orpheu, desenvolvida em parceria com o Camões, IP, que circulará internacional e nacionalmente. Um alargado trabalho de investigação e imagem que reuniu e pôs em diálogo documentos, cartas, manuscritos para que, em primeira pessoa, falassem Os de Orpheu sobre si e sobre os outros, a respeito da construção do projecto colectivo que foi a essa revista e do modo como foi recebida pelo meio que veio tomar de assalto.

Todos os detalhes em
www.casafernandopessoa.pt

Esperamos ver-vos por cá.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Apenas um vago rumor

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

Apenas um vago
rumor
de folhas
se soltando
dos ramos

teu jeito:
risco
vermelho
ferido
em meu
peito

o poema
escrito
sem qualquer
esperança
nem mágoa

cálidas
palavras
em torno
da uma
ausência

(irremediavelmente
presente)

a dor
como as folhas
se espalha
no oblívio

escuto 
o impossível
rumor
de teus
passos

silêncio
ocre
do meu coração
na tarde
de outono
 

sexta-feira, 20 de março de 2015

No caminho de Walden

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Ser filósofo não é simplesmente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver de acordo com seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, generosidade e confiança.
                              Henry David Thoreau, in Walden ¹
 
Nem toda literatura do mundo vale essa manhã de outono. Por isso, hoje fechei os livros e saí por aí caminhando pela natureza. Um pouco como Henry David Thoreau (1817-1862), que trouxe para o centro da vida a experiência sensorial e transcendente, e não apenas livresca e intelectual, das coisas do mundo. Vida real, respirada, pensada, sentida, suada de todos os dias.
 
A filosofia, qualquer que seja, só tem razão de ser se serve para vivermos melhor, em mais harmonia com o semelhante, com o ambiente, com nossas emoções, sabendo que para chegar a isso existem limites que precisam ser respeitados e preconceitos que devem ser superados.

Não se trata de desprezar os livros, mas de saber que, para além deles, é preciso viver, ir para a vida, observar, aproximar-se, conhecer, praticar o que sentimos e pensamos.

Respirar o ar do dia. Tão importante quanto ler um bom livro é andar numa manhã azul (ou cinza, não importa) de outono como essa, entre árvores, pássaros, córrego, pinheiros. A música do vento nos galhos e nas folhas.

Eu passei a maior parte da vida entre edifícios sufocantes, ruas cinzentas e violentas. Num país onde o que menos importa é a dignidade da pessoa. No qual a corrupção com o dinheiro público se institucionalizou nas altas esferas de determinados grupos. Onde pessoas que deveriam dar exemplo são as piores referências possíveis. O triste retrato do que vai na alma de alguns: acumular riquezas e privilégios a qualquer custo.

Henry David Thoreau
fonte: Wikipédia

Jamais homem algum decaiu em minha estima por usar uma roupa remendada; no entanto, tenho certeza de que os homens geralmente se preocupam mais em ter roupas elegantes, ou pelo menos asseadas e sem remendos, do que em ter uma consciência limpa.
H.D. Thoreau²

 A vida inteira lutei por essa manhã de outono.

Thoreau, o grande poeta e pensador americano (ensaísta, filósofo e naturalista), nasceu e viveu no interior, na pequena cidade de Concord, Estado de Massachusetts, Estados Unidos. Foi ao encontro da natureza interna (o espírito) e externa (amoroso da vida natural e dos seres vivos, bem antes de falar-se em ecologia).

Um belo dia decidiu construir uma cabana à margem do Lago Walden e viver longe da civilização, fazendo a vida com as próprias mãos. Ali permaneceu por 2 anos e 2 meses, solitário mas sem se tornar um ermitão, pois mantinha e gostava de contatos eventuais.

Dessa maravilhosa experiência de aprendizado e meditação nos dá notícia no livro Walden, de 1854. O ensaio mais famoso que escreveu, A desobediência civil (1849), resultou de uma noite passada na cadeia em 1846. O motivo da prisão: negou-se a pagar impostos em protesto contra a escravidão e a guerra do México.

Sua obra é marcada pelo apreço aos direitos individuais, à simplicidade, às emoções, ao bem-estar físico e espiritual dos indivíduos. Sua vida influenciou gente como Martin Luther King e Gandhi, entre outros.

Celebro a chegada do outono fazendo, modestamente, meu caminho de Walden, visitando a natureza aqui nos Campos de Cima do Esquecimento e lembrando esse grande ser humano que foi Thoreau. Se ele conseguiu viver perto da natureza, e sentiu a existência como um nativo que olha o mundo pela primeira vez, nós também podemos chegar lá.
 
Enquanto desfruto a amizade das estações, sinto que nada conseguirá fazer da vida um fardo para mim. A chuva mansa que hoje rega meus feijões e me mantém dentro de casa não é tristeza nem melancolia, e é boa para mim também.
H.D.Thoreau³

Lago Walden, congelado. Concord, USA
fonte: Wikipédia
___________
 
¹-²-³Walden. H.D.Thoreau. L&PM Editores. Porto Alegre, 2010. Tradução de Denise Bottmann. Trechos transcritos das págs. 27/28, 34, 131.
 

terça-feira, 17 de março de 2015

O balão e os girassóis

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

Uma criatura mortal  não pode dar-se ao luxo de perder tempo com coisas que não valem a pena. A areia não pára de escorrer na ampulheta. Cada dia pode ser o último.

Não se deve repetir velhos erros. Foi por isso que, tempos atrás, desisti de dar a volta ao mundo num balão ao lado de Nefelindo Acquaviva, inventor e construtor de objetos voadores em Passo dos Ausentes. Sou um sobrevivente nesse tipo de voo e não quero arriscar mais.

Há duas semanas, contudo, repeti a besteira e quase morri.
 
Entrei outra vez num balão a pedido de Nefelindo. Ele foi tão insistente e eu tão fraco que, para não contrariar o louco amigo, não soube dizer não. E lá me fui ao ar, mais uma vez, num cesto instável, a bordo daquela estrovenga.
 
Estávamos a mil metros de altura e tudo parecia bem. Até que veio um forte vento do Contraforte dos Capuchinhos e começou a nos arrastar e sacudir. Eu pressenti ali o fim dos meus dias. Não os de Nefelindo, que já sofreu mais de quarenta quedas e está aí muito bem, obrigado.

Com a ventania, sentei-me no fundo do cesto e rezei. Me arrependi dos pecados, dos dissabores que causei, das vezes em que não fui melhor com meu semelhante, das vaidades e dos tantos enganos.

Enquanto me apressava em acertar as contas com o Eterno, o balão começou a rodopiar e afundar como uma rolha solta num tanque de lavar roupa que se esvazia. Naquele tormento perdi meus óculos de fundo de garrafa. De repente comecei a ver umas cabeças amarelas me olhando na boca do balão enquanto o aerostato se arrastava e batia em coisas que pareciam cordas.

Nefelindo gritava e ria (sim, ria às gargalhadas como um louco em surto), ao mesmo tempo em que tentava manusear os instrumentos de direção do equipamento. Momentos antes de o balão bater contra o solo, ele despencou de cabeça pela borda. Só vi as pernas desaparecendo no ar, seguindo o resto do corpo.

photo: jfinatto

O baque do balão no chão foi forte. A muito custo saí me arrastando do cesto emborcado. Quando enfim abri os olhos, o que vi foi um amarelo radiante inundando o ar.

Nefelindo apareceu como por milagre na minha frente e me ajudou a levantar. Não sei como, mas estava vivo, cheio de folhas amarelas pela roupa:

- Uma experiência inolvidável, meu amigo, um voo inesquecível. Tudo como havia previsto,  inclusive com a perigosa travessia do Vento Roncador de março. Um momento soberbo. Essa máquina é uma conquista da ciência aeronáutica, meu caro. Toma lá os teus óculos, te apruma enquanto faço algumas anotações.

Os meus óculos estavam com os aros retorcidos, mas as lentes permaneciam intactas. Então Nefelindo retirou do bolso do casacão de aviador (que lhe desce até os tornozelos) o Moleskine vermelho. Livrou-se do capacete de couro da Primeira Guerra Mundial (de um seu avô). A abundante cabeleira negra escorreu até os ombros. Sentou-se encostado no que sobrou do balão e começou a escrever e resmungar coisas.

- Um grande acontecimento, uma aventura impressionante -, conjecturava alisando o grosso bigode virado pra cima nas pontas. Mostrava uma energia difícil de entender num homem de 70 anos.

A queda vertiginosa sobre uma plantação de girassóis, no Vale do olhar, com a mão de Deus nos amparando, foi o que restou daquele passeio. E o maluco se vangloriando. Sobrevivemos porque Deus quis.

Só mais tarde, um pouco mais calmo, percebi a beleza daquele lugar. Estávamos cercados de girassóis dentro de um quadro de Van Gogh.

- Um cara na sua idade, tendo levado já tantas sacudidas na vida, não devia permitir-se essas loucuras ao lado de um sujeito perigoso como Nefelindo Acquaviva - disse com preocupação meu Anjo da Guarda.

Um Jeep foi nos buscar. Quando cheguei em casa, às cinco da manhã, com uma dor latejante espalhada pelo corpo, atirei-me no sofá do escritório, enrolei-me na manta e pedi ao meu Anjo da Guarda, entre envergonhado e exausto,  não me acordasse antes da Páscoa...

Um girassol não faz amarelo sozinho.
 

sábado, 14 de março de 2015

L'autre à Mont (Lautréamont em Montevideo)

Jorge Adelar Finatto

Río de La Plata entre edifícios, Montevideo. photo: jfinatto
 
Sí, cuál es el más profundo, el más impenetrable de los dos: el océano o el corazón humano? ¹

                           Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont
 
UMA viagem só é boa quando voltamos diferentes pra casa. Quando algo bom, novo ou há muito esquecido, passa a respirar na nossa sensibilidade.
 
A arte é um tipo particular de viagem. Como as viagens reais, tem poder transformador. De um jeito ou de outro, é preciso viajar, deixar-se tocar: mudar. Tirar o coração e o pensamento do lugar-comum.
 
Em Montevideo, fiz uma expedição à rua onde viveu - até os 13 anos - o Conde de Lautréamont, nom de plume de Isidore Lucien Ducasse (1846-1870), poeta de vida obscura, futuro papa profano do Surrealismo. Ele é autor do estranhíssimo, belo e terrível Les Chants de Maldoror (Os Cantos de Maldoror). Filho de pais franceses que foram trabalhar e morar no Uruguai, nasceu em Montevideo, em 4 de abril de 1846, tendo ali vivido até o início da adolescência.

Única photo conhecida de Isidore Lucien Ducasse,
fonte Wikipédia

Uma tarde de sol, lá me fui a bordo do chapéu de palha encontrar o jovem bardo na Calle Camacuá, 544.

A rua Camacuá é pequenina. Diante dela estende-se, a perder de vista, o Río de La Plata. Fica na ciudad vieja. Chegando ao local, constatei que não existe mais a casa 544 onde ele morou. Em seu lugar apenas um edifício modernoso. Nenhuma placa alusiva ao imaginário conde. Do outro lado da rua, um terminal de ônibus e, depois dele, a Praça Espanha com suas palmeiras conversando com o vento, e logo adiante o rio.

No fim da Camacuá, bifurcam-se velhas ruas e, nelas, habitam prédios muito antigos. Por elas certamente andou o jovem Ducasse quando, aos 21 ou 22 anos, retornou a Montevideo para visitar o pai que o sustentava enquanto vivia, estudava às vezes e escrevia na França. Provavelmente nessa época já tinha concluído Les Chants. De sua vida pouco se conhece.

Eu sei muito pouco a respeito do estranho Isidore: a mãe morreu quando ele contava cerca de um ano. Ele gostava muito de ler na ampla biblioteca do pai. É certo que leu os principais autores de seu tempo. Eis o que diz dos Cantos:

Cantei o mal como fizeram Misçkiéwickz, Byron, Milton, Southey, A. de Musset, Baudelaire, etc. Naturalmente exagerei um pouco o diapasão para fazer algo novo em relação a esta literatura sublime que não canta o desespero senão para oprimir o leitor, e fazê-lo desejar o bem como remédio. (Eu cantei o mal...) ²

Era um rapaz alto, magro, vestia-se bem, carregava muitas coisas dentro da cabeça. Coisas pouco corriqueiras, de espantar. Uma revolta contra Deus, e uma náusea de viver e da humanidade que não se sabe qual a origem.

Río de La Plata. photo: jfinatto. vista da Calle Camacuá

O pseudônimo teria sido inspirado pela obra Lautréamont, de Eugène Sue; outros acreditam que significa o outro em Montevideo  (L'autre à Mont (evideo). Um mistério entre tantos.

O seu texto jorra do inconsciente.

Seriam os Cantos a antevisão literária dos tempos sombrios que vinham pela frente com suas guerras sangrentas (Primeira e Segunda Guerras Mundiais, Guerra do Vietnã), tiranias terríveis (Stalin na União Soviética, ditaduras sul-americanas) e violências rotundas contra o ser humano (todos os dias em todas as cidades do mundo)? Seriam a consciência crua e desesperançada da presença do homem na Terra? Quem sabe?

De qualquer forma, alguns o consideram mais importante do que Arthur Rimbaud.

Na livraria Más Puro Verso, na Peatonal Sarandí, comprei uma edição espanhola dos Cantos pra reler no hotel. Não lia Lautréamont há mais de 30 anos.

Depois de não encontrar a morada do fictício Conde, fiquei um tempo observando a expansão azul do rio. Imaginei-o caminhando pelas calçadas, à sombra de escuras paredes, sonhando em fugir da cidade, do mundo, de si mesmo. Mastigando seus desertos e sua triste poesia.

Por fim, entrei num restaurante e bebi um Medio y medio (vinho branco suave, frisante, tradicional do Uruguai), em memória do poeta Lautréamont, morto em solidão e anônimo, às 8 da manhã da quinta-feira, 24 de novembro de 1870, na rua Faubourg-Montmartre, 7, Paris, ninguém sabe de quê, aos 24 anos.
 
__________

¹Los Cantos de Maldoror - Poesías. Isidore-Lucien Ducasse, Conde de Lautréamont. Editorial Gredos, Madrid, 2004. Introducción por Luis A. de Villena. Trecho da pág. 59.
² idem, pág. 8, tradução livre de JA Finatto. Fragmento de Carta do poeta ao editor Verboeckhoven.
Leia também "Lautréamont y el surrealismo", por Mónica Marchesky:
http://www.monografias.com/trabajos75/lautreamont-surrealismo/lautreamont-surrealismo2.shtml
 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Jasmim do meu jardim

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
O jasmineiro é a prova viva de que nem tudo está perdido. E de que pode haver vida em meio ao caos. Ninguém está livre de encontrar uma flor de jasmim pelo caminho e salvar o seu dia.

É preciso resgatar alguma coisa viva entre os escombros.

Do meu jardim vem esse perfume. As pequenas flores brancas gostam de subir pelo tronco das árvores junto ao escritório.
 
Em tempos de crise profunda, o jasmineiro funciona normalmente, suas flores espalham aroma e graça, sem nada exigir em troca.

Bem-vindas, criaturas de luz e bondade!

É talvez egoísta falar do próprio jardim num momento desses. Mas hoje eu não consigo falar de outra coisa. O mundo está nublado. Por aqui, o Brasil derrapou na curva e saiu da estrada.

Há um sentimento estranho no ar. Não consigo vislumbrar claridade e esperança. Só vejo breu.

Mas o tempo ensina que tudo passa.
 
Enquanto não, eu falo de flores. Desculpem. Se aí do outro lado você consegue sentir um pouco desse perfume e dessa frescura, eu me dou por satisfeito.

O sujeito pode andar desiludido, cansado, revoltado com tanta corrupção no país e com tanta falta de vergonha na cara, pode até querer ir embora ou partir num foguete para as estrelas, mas ainda assim nunca poderá ignorar o perfume etéreo do jasmim (serve ao menos de consolo nessa hora tremenda).

O jasmim é a clara evidência de que, apesar de tudo, ainda há validade na vida. Ele existe para nos levantar do subsolo, iluminar esses dias cinzas e repletos de incerteza. 
 

segunda-feira, 9 de março de 2015

O prisioneiro da Ilha de Patmos

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
A rua São João era a nossa Ilha de Patmos. Ali todos eram prisioneiros de um tempo e de um lugar e o nosso destino era comum: afundar no esquecimento.

Exilados do mundo, todos alimentavam o sonho secreto de um dia fugir. Fugir para sempre, para qualquer lugar, ainda que fosse o último ato da vida.

A família espiritual de A eram os livros. Os poucos que havia na casa, quando era menino, e depois os outros, que foi amealhando feito formiga, migalha a migalha, com tenacidade e alumbramento.

A família dos livros tinha uma vantagem. Nenhum de seus membros morria ou desaparecia como acontecia com freqüência com os familiares de carne  e osso.

Os livros retirados da biblioteca pública, por empréstimo, eram parentes longínquos. Traziam a aura de quem passou por muitas casas, iluminando solidões diurnas e noturnas. Guardavam o cheiro misturado dos ambientes que tinham freqüentado.

Na casa antiga, havia muitos silêncios. Vultos moviam-se calados. Um relógio velho de parede tentava acompanhar a passagem do tempo, mas nele as horas tinham enlouquecido.

De uma espécie particular de eternidade eram feitos os livros.

O mundo de tinta e papel espantava os fantasmas que habitavam o sótão. O menino sabia que, mais dia, menos dia, acabaria só, como todos.
 
Havia um gato na casa, porque gatos gostam de histórias assombradas. No porão gelado e sombrio, coisas velhas eram esquecidas.

Um retrato de Getúlio Vargas, "o pai dos pobres", ocupava o centro da parede da sala de jantar.

A janela do quarto de dormir olhava o mundo e o mundo era um lugar muito distante.

João era o nome do apóstolo que teve as visões na Ilha de Patmos, no mar Egeu, onde esteve exilado por falar de Deus e dar testemunho de Jesus. Nela escreveu o livro bíblico Apocalipse (Revelação).

A rua São João era a ilha do nosso apocalipse.

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Texto revisto, publicado no blogue em 27, out, 2011.

sábado, 7 de março de 2015

Até que a morte nos separe

Carlos Alberto de Souza

pintura de Graça Craidy 
 
 
O feminicídio (assassinato de mulher por razões de gênero) já foi aprovado pelo Congresso Nacional para constar como homicídio qualificado no Código Penal, aumentando a pena e tirando privilégios dos agressores. A matéria agora aguarda apenas a sanção da presidente da República. Neste Dia Internacional da Mulher, a questão é abordada na exposição Até que a morte nos separe, da artista plástica gaúcha Graça Craidy.

No domingo (8/3), no Centro Cultural Zona Sul (Rua Landell de Moura, nº 430, bairro Tristeza), em Porto Alegre, ela expõe 18 pinturas (acrílica sobre papel) de mulheres que um dia sonharam com a felicidade no casamento, mas acabaram mortas pelos maridos ou ex-companheiros. Graça, que está selecionada para o Salão de Arte do tradicional Atelier Livre de Porto Alegre, retrata e denuncia essa situação. “Fui movida pela indignação, pela dor da injustiça e por imensa solidariedade a todas as mulheres imoladas em nome de um machismo arcaico”, diz ela, que se baseou em fotos publicadas das cenas dos crimes para produzir suas obras.

No Rio Grande do Sul, em 2013, a cada quatro dias uma mulher foi assassinada; em 75% dos casos, os autores tinham relação de afeto com elas; em Pernambuco, em 2006, 291 mulheres foram mortas, conforme dado publicado pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria. O Estado nordestino é apontado pelo Cfemea como o que mais acumula casos de feminicídio no país. Mas, como se sabe, o problema, mais aqui, menos ali, é mundial.

pintura de Graça Craidy
 
Graça Craidy é publicitária por formação, com carreira desenvolvida em Porto Alegre e São Paulo, entre os anos 1970 e 2000. Começou a desenhar em São Paulo e, de volta à capital gaúcha há cerca de dez anos, lecionou a cadeira de Criatividade na ESPM e depois passou a dedicar-se às artes plásticas, ingressando no Atelier Livre de Porto Alegre. Seu trabalho tem sido elogiado por artistas consagrados. Com curadoria de Márcia Morales Salis, essa é a sua primeira exposição individual, depois de ter participado de coletivas.

A exposição será montada em um dos casarões em estilo colonial espanhol do Centro Cultural Zona Sul, que receberá decoração alusiva ao casamento, com metros de tule branco recobrindo suas paredes externas e internas, além de flores, música nupcial e incensos.

Serviço:
O quê: Exposição Até que a morte nos separe
Onde: Centro Cultural Zona Sul (Rua Landell de Moura, nº, 430, bairro Tristeza, Porto Alegre)
Dia e hora: domingo (8/3), das 9h30 às 18h
Entrada franca

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Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.
smcsouza@uol.com.br

Graça Craidy:
gcraidy@gmail.com

sexta-feira, 6 de março de 2015

A história das bananas (e a tristeza do Brasil)

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
O que restou da esperança em um país melhor e mais justo? O que vemos, nos últimos tempos, é mensalão, petrolão, apenas para ficar entre os escândalos de corrupção mais noticiados.

Será que é isso o que a sociedade brasileira merece? O que será do futuro das nossas crianças e dos jovens diante de tamanha desestruturação ética e econômica?

Não tenho nem nunca tive partido político. Votei algumas vezes no PT, porque admirava sua generosidade e suas bandeiras, entre elas a da honestidade e a do combate às causas da pobreza e das injustiças. Muita gente boa fundou e construiu o partido, muita gente idealista, sonhadora, batalhadora. Mas o ideal daquelas pessoas ficou para trás.

Os tempos mudaram. O PT mudou para pior. É claro que não é só o partido do governo que levou o país a essa triste realidade, há também os outros partidos e todo o desvalor na maneira de fazer política.

Mas do PT se esperava, por históricas razões, um comportamento diferente, uma práxis política alternativa ao sempre foi assim.

O país cai cada dia mais fundo. Ver uma empresa como a Petrobras, orgulho do Brasil, nessa situação calamitosa é um negócio muito sério e deprimente.

O que vai sobrar da empresa estratégica criada por Getúlio Vargas e construída por várias gerações de trabalhadores? Restará alguma coisa aos brasileiros ou tudo será vendido ou simplesmente entregue para cobrir o descalabro gerado pela corrupção?

As conquistas sociais dos últimos doze anos vão desaparecendo diante dos abismos criados pela má gestão. Os efeitos nefastos sobre a economia mal começaram e já se revelam insuportáveis, atingindo principalmente os mais pobres.

Na casa em que fui criado havia algumas regras. Claras, simples, peremptórias: não matarás, não roubarás, não praticarás  falso testemunho, e outras. Os velhos e bons preceitos derivados dos Dez Mandamentos. Deles dimanavam normas de natureza caseira (casa de gente pobre e honesta): por exemplo, eu não podia apanhar bananas do aparador sem pedir autorização. Se o fizesse, o castigo era certo.

Exagero? Pode ser. Mas sou grato por isso. Nunca me passou pela cabeça apropriar-me de qualquer coisa que eu não conquistasse através do esforço, do trabalho, do sacrifício e do mérito.

Não consigo entender como é que alguns se sentem autorizados a lesar milhões e milhões de pessoas se apoderando de dinheiro que não lhes pertence, do que é patrimônio público de uma sociedade que precisa e merece ser respeitada.

Que tipo de educação receberam esses indivíduos, em que valores foram criados, quem foram seus pais? Como conseguem se olhar no espelho e para seus filhos?

Nessas horas, a gente precisa se agarrar em alguma coisa pra suportar. Eu me agarro à história das bananas.

Nos momentos de grave crise, como o presente, o que nos resta são os valores em que acreditamos.

A honestidade, a responsabilidade social e o amor ao país precisam, urgentemente, retornar às práticas do nosso dia a dia. Sob pena de não sobrarem nem as bananas no aparador.
 

terça-feira, 3 de março de 2015

Cinema ou sardinha

Jorge Adelar Finatto

Kodak Kodascope¹
 
Na minha cidadezinha, quando éramos crianças, minha mãe perguntava a mim e a meu irmão se preferíamos ir ao cinema ou comer, com a frase festiva: Cinema ou sardinha? Nunca escolhemos a sardinha. 
                                    Guillermo Cabrera Infante


Quando o Dr. Fredolino Lancaster foi a um congresso de medicina em Londres, no distante ano de 1942, não sabia que, ao regressar, provocaria um grande alvoroço na vida da cidade. Na volta, ele trouxe no baú um projetor para filmes de 16mm em silêncio.

A paixão pelo cinema do médico-mor de Passo dos Ausentes transformou a história da nossa  aldeia.

Ainda não conhecíamos a magia da sala escura e da tela grande. A tela, naqueles dias inaugurais da sétima arte entre nós, era um lençol branco estendido com devoção na fachada de basalto da casa do sábio esculápio.

Eu nem era nascido naquele tempo. Ouvi essa história do próprio Dr. Lancaster, que conta 96 anos e está em plena atividade (doença que ele não cura, esqueça, ninguém mais dá jeito).

O primeiro filme a passar no lençol imaculado foi The kid (O garoto, de 1921), obra do nunca suficientemente lembrado Charlie Chaplin. As sessões aconteciam sempre aos domingos, na rua, ao anoitecer, e cada um levava sua cadeira de casa.

Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada, nunca perdeu um só filme. Alguém descrevia para ele o que se passava na tela (ou melhor, no lençol).

Anos depois, com a inauguração da Sociedade Filosófica, Histórica, Geográfica, Artística, Antropológica, Astronômica, Geológica, Alquímica e Antropofágica, as projeções começaram a ser feitas na sala escura. Introduziram-se na antessala a pipoca, os sucos, os licores, os doces, e as pessoas iam mais cedo para trocar revistas em quadrinhos e livros. Antigos tempos, bons tempos.

Quando escrevi que Ingmar Bergman passou uma temporada em Passo dos Ausentes muitos estranharam. O fato é que ele era amigo do Dr. Lancaster, sabia do amor do médico pelos filmes e era fascinado pelas histórias que este lhe contava sobre a cidade. A casa em que Bergman viveu aqueles dias permanece como ele a deixou. As três latas com os filmes que fez por aqui estão lá, nunca foram abertas.²

Essas recordações surgem agora porque ando lendo Cinema ou sardinha,³ livro sobre a arte do cinema escrito por Guillermo Cabrera Infante. É uma rara iguaria na qual o grande escritor nos oferece sua paixão ancestral pelos filmes servida num texto delicioso. Um livro rico sobre a história do cinema e sobre obras cinematográficas, tudo temperado com o olhar e o sentimento do notável autor cubano.

Vejamos um trecho:

(...) o resultado final de uma filmagem, o filme, a fita, seja qual for o nome que se dê, é um esforço coletivo, antes de tudo do fotógrafo (não há filme sem fotografia), do diretor, que pode ser um gênio, um megalômano obtuso ou um simples artesão, dos atores e dos técnicos atrás da câmera, do assistente de câmera firme, sagaz, até os anônimos eletricistas, as cuidadosas maquiladoras e os homens e mulheres dos camarins e do guarda-roupa, todos, todos colaboram para fabricar o mesmo produto, que até então era um projeto e agora pertence ao produtor e talvez ao público. p. 3

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¹Projetor Kodak Kodascope para filmes 16mm em silêncio:
http://institutoroquearaujo.blogspot.com.br/2011/05/kodak-kodascope-modelo-b-projetor-16.html
²Sótão, porão e assombração:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/12/sotao-porao-e-assombracao.html
³Cinema ou sardinha. Parte 1. Pompas fúnebres. Guillermo Cabrera Infante. Gryphus Editora, Rio de Janeiro, 2013. Tradução de Carlos Ramires