segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O escritor e seu carnaval

Jorge Adelar Finatto
 
pintura: Maria Machiavelli


O escritor sai pela rua no seu solitário bloco de carnaval.

Como será uma fantasia de escritor? A cara pintada de palhaço. Um adunco nariz de papelão. Nos olhos, grandes óculos redondos e pretos em forma de bicicleta. Um bigode de trilho de trem. Na cabeça, o chapéu de Napoleão, feito de folha de jornal.

Um par de borzeguins vermelhos e amarelos desamarrados.

Na esquina, ele se mistura ao cordão de foliões, se deixa levar pelas ruas do bairro fantasiado da estranha criatura que, na verdade, é.
 
Ele vai com o cordão pelo meio da praça, de mãos dadas com a alegre mascarada que encontrou pelo caminho. Ela tem pequenos olhos azuis sob a máscara negra e cabelos pretos escorridos nos ombros.

O escritor e a mascarada dispersam-se do grupo. O dia amanhece. Encostados nas costas um do outro eles descansam num banco da praça. Ele com um catavento girando na mão. Ela com um hibisco amarelo preso no cabelo.

Uma chuva de verão começa a cair. Eles correm e entram no Café da Aurora que, àquela hora, abre a porta aos primeiros fregueses. Pedem duas taças de café preto, manteiga, o pão ainda quente do forno.

Enquanto isso, lá fora, sob a chuva azul, arlequins, colombinas e pierrôs passam molhados na calçada, cantando As Pastorinhas.
 
Sombrinhas coloridas de frevo são arremessadas ao céu pelo vento.
 
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Texto revisto, publicado antes em 22 de fevereiro, 2012.