sexta-feira, 14 de março de 2014

As virgílias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, Madri.
 
Eu tô muito cansado de viver na solidão. 
 
Cada um carrega seu quinhão de solidão, por supuesto. Todos temos as mesmas perguntas diante da vida. Como faz um grande silêncio do outro lado da linha e o caderno de respostas está vazio, continuamos tão desamparados como no dia do nascimento.

Não sei você, raro leitor, mas eu conheço o sentimento inscrito na epígrafe. Eu li a frase num pedaço de papel deixado num assento do trem entre Madri e Salamanca. Estava justamente no lugar marcado na minha passagem.

Guardei a anotação entre as páginas do livro de poemas de Salvador Espriu que comprara na noite anterior num sebo da Calle de Los Libreros em Madri.

Entendo bem o sentimento escrito naquele papel. 

Um cansaço de estar só, uma vontade de sair da ostra, ver o sol lá fora, encontrar gente, não num centro comercial, numa fila de banco, num aeroporto, mas na rua, num café, numa praça, em casa. 

Um lugar humano. 
 
As longas temporadas de recolhimento fazendo coisas que a sociedade impõe. Solitude desde a infância até a vida adulta e velhice. O oposto de estar junto, de partilhar. 

Sim, nascemos de mãos dadas com nossa irmã gêmea, solidão. Mas a vida não há de ser só um buraco dentro do peito. Tem de ser mais, tinha de ser mais. 
 
Encontrar seres humanos, dividir o vagão do trem, o lado mais bonito e luminoso da viagem.

Mas, em caso de urgência, tenho pelo menos as virgílias.

São minúsculas borboletas que não têm mais que um centímetro e meio de asa a asa. Revoluteiam ao meu redor. São dezenas, cada uma com sua cor viva, violeta, azul, púrpura, amarelo, lilás, laranja, branco, preto.

As virgílias surgem do nada. Como um bilhete num assento de trem.

Acendem a solidão como lamparinas em miniatura. Ficam voando em volta de mim como vaga-lumes numa praça silenciosa e desabitada.

As virgílias depois vão-se embora. Apagam aos poucos suas luzes até que nenhuma mais resta. E eu durmo esperando amanhecer. 

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