sábado, 22 de fevereiro de 2014

Abacaxi-Rei, soberano dos ananases, valei-nos na hora má

Jorge Adelar Finatto

Abacaxi, fonte: Wikipédia
 

Valei-nos, Abacaxi-Rei, soberano dos ananases, do alto de tua coroa espetada! A ti, em última instância, recorremos com a voz rouca dos ensaios das escolas de samba!

A filosófica, incontornável, irrespondível, inalcançável, esconsa, sempiterna, refolhuda e urgente questão é uma só, raro leitor: quem, afinal, vai descascar o abacaxi?

O Brasil é uma imensa plantação de abacaxis.

Não existem respostas prontas, sequer tentadas, para pergunta tamanha no seio (sentido poético) de nossa civilização abacaxizal.

Ninguéns ou nenhuns, na verdade, estão dispostos a enveredar atrás da superior resposta a tão alta indagação.

Os donos do tabuleiro viram as costas ao problema e dizem que isto é tarefa para as próximas 235 gerações de brasileirinhos. O negócio é aproveitar ao máximo, dizem eles, enquanto se pode.

Essa gente safa veio ao mundo para ser príncipes em Pindorama. De tanta nobreza o país está cheio pelas bordas. Estão caindo as tampas do cozido.

Damas, torres, bispos, peões, reis e cavalos estão tomados por este espírito de porco. Uns contra os outros e todos contra o povo.

E vai que vai, porque o verão e o carnaval vem aí. Sambalelê, ziriguidum e bola na rede (do povo). O resto se vê mais tarde.

Quem vai embraçar a bromeliácea?
 
Quem terá a fineza de tirar-lhe a injusta e áspera casca para que possamos todos, após o generoso gesto, degustar a doce infrutescência à mesa solidária e comum?

Enquanto não aparece a alma gentil pra fazer o serviço, ficamos todos a admirar a fruteira sobre a mesa com o hermético fruto dentro. Como um bebê no berço esplêndido.

De novo e sempre a indigesta pergunta: quem vai empalmar o rude ananás e desvelar-lhe a dolce polpa?

Valei-nos, Abacaxi-Rei!

Não nos deixeis à mercê do canto solerte e fatal de polpudas sereias, pois não passamos de indefesas criaturas nessas praias da ilusão.

Mostrai-nos, augusto Ananás, o caminho da obscura e inefável doçura por trás da cascadura realidade que nos fecha ao paladar da esperança e da alegria.