sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Drummond 112

Jorge Adelar Finatto
 
Carlos Drummond de Andrade¹
 
                             
                            Mundo mundo vasto mundo,
                            se eu me chamasse Raimundo
                            seria uma rima, não seria uma solução.
                            Mundo mundo vasto mundo
                            mais vasto é meu coração.²
                                                   
                                             Carlos Drummond de Andrade
                                              
 
31 de outubro de 1902, Itabira, Minas Gerais. Nascia Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta brasileiro do século XX.  Nos deixou em 1987.
 
Os 112 anos de seu nascimento hoje lembramos.
 
A Drummond a nossa sentimental recordação no seu dia, último de outubro. O nosso reconhecimento pelo notável cidadão que soube ser ao lado do poeta e escritor imensos.
 
A nossa gratidão pela obra imortal que legou à língua portuguesa e a todas as línguas do mundo.

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¹O crédito da foto será registrado tão logo conhecido o autor.
²Poema de Sete Faces, fragmento. In Reunião: 10 livros de poesia. Carlos Drummond de Andrade.   Livraria José Olympio Editora S.A., Rio de Janeiro, 1977.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Mãos dadas após a morte

Jorge Adelar Finatto
 
photo: divulgação
 
Um casal de esqueletos, enterrado há mais de 700 anos, foi descoberto de mãos dadas na sepultura. O achado, anunciado em setembro último por arqueólogos da Universidade de Leicester, ocorreu na aldeia de Hallaton, na Inglaterra.
 
As ossadas pertencem a um homem e a uma mulher de idades semelhantes e fazem parte de um acervo de outros nove esqueletos encontrados ao longo de quatro anos de escavações. No local havia um cemitério da pequena Capela de St. Morrel, construída no século XIV, época em que o casal foi sepultado.
 
Segundo a arqueóloga responsável pelos trabalhos, Vicky Score, a capela teria sido erigida sobre uma vetusta edificação romana existente ali há mais de 2 mil anos.
 
Eu já vi muitas coisas na minha passagem pelo planeta, raro leitor, mas é a primeira vez que vejo um casal de mãos dadas depois da morte.
 
O comum é as mãos separarem-se ainda em vida. Em casos raros, ficam unidas até o dia em que a morte as separa.
 
Na situação dos esqueletos não foi assim. O afeto que os uniu foi muito além da matéria extinta, prolongou-se numa espécie de união espiritual que atravessou sete séculos e chegou até nós.
 
Há algo tocante e nobre nesse gesto. Hoje as relações terminam mal começam, tão logo brotam as primeiras diferenças e ferem-se suscetibilidades e egoísmos pueris.

Os tempos são de tolerância zero em namoros e casamentos (como se o outro tivesse vindo ao mundo para adivinhar-nos os pensamentos, caprichos e desejos e devesse satisfazer-nos em coisas as quais nem ao menos sabemos bem o que são).

São os tempos em que "a fila anda". Não existe mais a menor paciência diante de defeitos e contrariedades que, com alguma boa vontade e persistência, poderiam ser superados.
 
Em suma, os relacionamentos andam uma merda (desculpem, escapou).
 
O casal de esqueletos, na sua existência post-mortem, mostra-nos uma realidade diferente. Dão um testemunho amoroso. Lembram que talvez exista esperança para o sentimento humano, para além das vaidades, mesquinharias e maldades cotidianas. Partilham um carinho que entrelaça os dedos depois da morte.
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Crônica escrita a partir de notícia publicada no jornal Público, de Portugal, edição de 19 de setembro, 2014, 17h40min.
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Solidão na montanha: furdunço na aldeia

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

O solitário da montanha eu sou, às vezes. Mas gosto de percorrer o furdunço da aldeia, caminhar pelas vielas entre as bancas de peixe, frutas, flores e verduras.

Gosto de ouvir o alarido das conversas, os músicos, os contadores de histórias, as bailarinas, os saltimbancos.

Tem horas que me refugio na torre do silêncio. Preciso parar, sentir, pensar, digerir o vivido, imaginar, construir pontes, atravessar.

Agora estou aqui com os passarinhos na varanda do escritório. Eles na vidinha deles (que também não é fácil) e eu na minha. Nos reconhecemos pelo olhar e pelo gosto de voar. Eles comem as frutas nos potes, voltam para as árvores, para o seu canto.

Carregamos no coração uma esperança, Íntima e visceral, como o perfume de uma rosa num dia de tristeza.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A hora solitária

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

Há uma hora solitária em que as estrelas não se apagaram ainda e nem o sol se levantou na linha do horizonte. Uma hora de expectativa e angústia.

O pássaro ensaia os primeiros movimentos do seu canto perto da minha janela. Eu passei a noite lidando com palavras. Frio e cansaço habitam essa hora erma.

Fecho as cortinas. Desligo as luzes. Puxo a manta até o pescoço, me estico no sofá do escritório.

Dom Quixote e Sancho Pança, exaustos de tantas andanças nas páginas do velho livro, dormem num canto da estante. Os personagens dos outros livros fazem o mesmo no silêncio e obscuridade das prateleiras.

Precisamos todos descansar das palavras. Precisamos dormir, dormir e esquecer. Não queremos claridade nem rumor de páginas tão cedo.

O dia avança como um touro louco pelas ruas da cidade. Corre furioso atrás de um incauto e distraído leitor. O touro nada sabe de livros. Leitores são presas fáceis na aurora.
 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Segredos do implúvio

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
I

Dizem
que escrever
poemas
é ofício
de pouco valimento

mas pouco se revelou
sobre a memória
da sombra
as paredes úmidas
da velha casa de madeira
o sombrio corredor
onde se morria
um pouco todos os dias
sem notícia
sem amanhã

II

alguém precisava
recordar
os soturnos habitantes
da rua humilde
na cidade serrana

lembrar o cheiro
de suas vestes
as pedras soltas
na porta das casas

os casacos pretos
nas manhãs de geada

III

nada ou muito pouco
se disse
dos segredos do implúvio

eu me pergunto por que
esse vazio em torno

estaria no silêncio
acre das caves
o destino de partir?

trabalho lento
nas escarpas
do coração

IV

não fossem
os trilhos
do trem
o barulho santo
do trem
atravessando
a madrugada
criando ao menos
em tese
a possibilidade
da fuga
muitos teriam
desistido de tudo
ali mesmo
como fez Chico
o Esquecido

V

o coração não é
assim mero

cresce em segredo
na dura colheita

não se esvazia
o coração
como se esgotam
as cisternas

VI

alguém precisava contar
a náusea persistente
a longa e tortuosa estrada
que desce na Capital

melhor não inventar
histórias
de castelos e linhagens
que nunca existiram
e se houve
federam
como podem feder
as escadarias
dessas obscuras passagens
perdidas no planeta
que recolhem
seres rastejantes

VII

o que se registra
no tombo do tempo
é que há um menino
imóvel
à beira da jovem defunta

naquele lugar
a despedida
com alguma flor
sussurros abafados

ele pergunta
onde ela foi habitar

o que vê
é a morte
e seu absurdo trabalho
convertendo em pó
a luz dos olhos

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998. 

sábado, 25 de outubro de 2014

A tragédia do pinheiro: retrato brasileiro

Jorge Adelar Finatto

foto: Corpo de Bombeiros
 
A vida sabe ser injusta e dura com os pobres.
 
Na madrugada de domingo (19 de outubro), ventava demais na serra do Rio Grande do Sul. Lá pelas quatro da manhã temi pelo que poderia acontecer, tal a intensidade das violentas rajadas. O tempo vinha mau há vários dias com chuvaradas, ventos, raios e granizo.
 
Na segunda-feira, de passagem por Gramado, parei para tomar um café. Soube, então, com profunda tristeza, que uma jovem de 29 anos, mãe de quatro filhos, havia morrido na antemanhã do domingo enquanto dormia, no bairro Jardim, após a queda de uma grande araucária sobre a casa de madeira onde vivia, na Travessa dos Pinheiros. A força do vento derrubou a árvore. 
 
O companheiro da vítima ficou muito ferido e teve de ser hospitalizado na UTI. Dos quatro filhos, apenas dois estavam na casa e, felizmente, nada sofreram apesar de toda a destruição.
 
Segundo jornais da cidade*, as autoridades do Município lamentaram o fato e prometeram ajudar a família. Destacaram, porém, que aquele local é área de preservação ambiental permanente, daí a presença ali de pinheiros. Moradias como a da vítima estavam construídas irregularmente. 
 
Familiares, vizinhos e amigos protestaram, na segunda-feira, diante da Prefeitura, afirmando que já haviam pedido providências ao Município para que realizasse o corte de algumas araucárias que ofereciam risco às casas. Foram informados de que já tinha sido expedido alvará para os cortes, mas o acidente aconteceu antes da medida ser concretizada.
 
Pois bem, o que mais dói nessa tristíssima história, além da morte da jovem mãe, que trabalhava como camareira, é a orfandade que se abate sobre seus quatro filhos. As crianças têm idades de 3, 6, 8 e 11 anos. Perder a mãe no começo da vida é uma das piores coisas que podem acontecer a um ser humano.

Vale recordar que ninguém constrói casa em área verde e de risco por mero capricho, mas sim por necessidade. As pessoas são levadas a isso por falta de condições econômicas, na grande maioria dos casos. É gente pobre que luta com imensas dificuldades, que levanta sua casa não onde quer, mas onde dá.
 
De acordo com informações dos jornais, a Prefeitura de Gramado pretende transferir famílias daquela localidade para outra que ainda está por ser definida. Não é tarefa fácil, mas cabe ao Município definir as áreas onde a população possa morar com dignidade e segurança.

O que espero é que, ao final, não se atribua à pobre mãe a culpa pela tragédia que lhe tirou a vida, por uma questão de respeito mínimo diante de um acontecimento como esse e das circunstâncias que o cercam, que englobam um fato natural trágico e um sério problema habitacional.

Como ninguém pode devolver a mãe aos pequenos órfãos, que pelo menos as autoridades e a comunidade de Gramado (um dos principais destinos turísticos do Brasil) façam esforços para possibilitar a sobrevivência digna destas crianças, diminuindo em parte seu imenso sofrimento.
 
Nenhuma mãe devia morrer desse jeito. Nenhum filho devia passar por isso.
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*Jornal de Gramado e Jornal Integração, edições de 21.10.2014.
 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Breves anotações de um fantasma

Jorge Adelar Finatto
 
ilustração em bico de-pena (1979): jfinatto
 
 
As dedicatórias, nos velhos livros dos sebos, me comovem.

Dói nelas a solidão de não mais pertencerem. Estão soltas no mundo como as folhas que o vento acaricia. Caíram no alçapão do tempo, o afeto cobriu-se de pó.

Numa estante qualquer perdida no planeta, as antigas dedicatórias sofrem a tristeza da ausência.
                              
Abro ao acaso o volume das Elegias de Duíno*, poemas de Rainer Maria Rilke, livro que não visitava há muitos anos. Na orelha está a minha assinatura e o registro de um tempo: abril de 1977.

O primeiro verso da primeira elegia inaugura a perplexidade diante da existência, o recolhimento do ser, a transcendência:

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?
                              
Tenho o costume de fazer breves apontamentos nos livros que leio. Não me constranjo de sublinhar trechos, tecer comentários nas margens, corrigir alguma coisa que me pareça fora de lugar. Faço isso sem remorso, hábito enraizado como o de cheirar os livros. Cada um tem seu aroma.
 
Isto tudo faz parte do mundo dos livros, espécie de marginália do tempo.

Nunca me incomodo de encontrar anotações nos livros comprados nos sebos da vida. Pelo contrário, me interessa saber o que o anterior proprietário escreveu, o que lhe chamou a atenção, as impressões que lhe ficaram da leitura, alguma observação curiosa.
                              
Heitor dos Crepúsculos, o fantasma-mor de Passo dos Ausentes, costuma me visitar nos dias ventosos como hoje, aqui no escritório onde leio, escrevo e, às vezes, desapareço em pleno ar.

Diz ele que os fantasmas são os grandes freqüentadores dos sebos nas madrugadas. Como não? À noite, no silêncio dos corredores desertos, entre estantes pesadas de volumes e o cheiro impregnado no ar, proveniente das páginas envelhecidas, os voláteis põem-se a vasculhar as histórias contidas nas dedicatórias e registros escritos. Sabem que existe vida ali.

Dos Crepúsculos afirma que os fantasmas amam a vida e só por isso são fantasmas.

Observa que eles procuram nos sebos as histórias das vidas perdidas. Esses livros trazem o perfume ressequido do tempo, e as marcas de momentos felizes.

- Costumo fazer anotações à margem das outras anotações. No futuro, quem sabe, ao lê-las, alguém vai se lembrar de mim com o mesmo carinho -, confidencia com timidez o volátil Heitor.
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* Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke, tradução de Dora Ferreira da Silva. Editora Globo, 2ª edição, Porto Alegre, 1976. Texto revisto, publicado no blog em 10 de março, 2010.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Pequenas humanidades

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto

O problema, raro leitor, é que quando a pessoa deixa de gostar de si mesma a vida torna-se muito dura. A dela e a dos que estão por perto. Por isso é do interesse geral que todos sejam felizes ou, pelo menos, o mais próximo disso que puderem.
 
O infeliz arrasta o mundo para o buraco com ele. Qualquer um de nós já passou (ou passa) por isso, quando sente uma nuvem negra acima e em torno de si. Essa nuvem se expande com facilidade.

Nessas horas precisamos de uma palavra, um olhar amigo, um aconchego, um abraço, pra voltar a viver. Acontece que na vida de aparências em que estamos mergulhados somos cada vez menos estimulados a falar de sentimentos. Somos esfinges no deserto.
  
Conheço pessoas que nada mais esperam da vida. Perderam a alegria de viver. Sobrevivem a duras penas. Não que queiram. Simplesmente aconteceu. Não sabem o que fazer. Têm medo de viver, de sonhar e de sofrer de novo. Os medos.
 
Esse estado de espírito, cada vez mais comum, é um dos principais legados da sociedade materialista, competitiva, agressiva e desumana em que vivemos. O outro é o inimigo em armas. Existe pouco espaço para a mansidão e a solidariedade.
 
Só o afeto tem o poder de nos reconciliar com o próximo e com a vida. Longe do calor humano tudo é o mesmo que nada.

Afeto não tem preço, não se aluga, não se compra, não se vende. Se dá e se recebe.

Não precisamos ser íntimos de alguém para passar afeto. Isso se faz num gesto de gentileza, de cordialidade, no dar a vez no trânsito, no respeitar o pedestre, no não correr, num segurar a porta para o outro, num olá, num sorriso, num muito obrigado, num por favor, numa atenção qualquer.

São coisas simples que, enlaçadas, são capazes de causar uma grande revolução. Está todo mundo esperando e precisando muito dessas pequenas humanidades.

Eu acredito que podemos investir mais na nossa espécie, na reciprocidade dos bons gestos, no afago.

De mãos dadas a vida é outra.

Começo a terça-feira oferecendo a você essas rosas, minha amiga, meu amigo. Elas estão vivas nos ramos. Cuide bem delas, dos outros, de si mesmo. Você merece. 
 

Interesse público e curiosidade pública

Frederico Vasconcelos
Repórter Especial do jornal Folha de São Paulo

Frederico Vasconcelos
 
 
Juiz defende autorização do biografado e fixação de prazo para o exercício do direito pelos herdeiros.

Sob o título “O fim da vida privada e da intimidade“, o artigo a seguir é do juiz Jorge Adelar Finatto, do Rio Grande do Sul. O autor trata da polêmica sobre a autorização prévia para publicação de biografias. “O indivíduo tem direito de recusar-se à divulgação de eventos de sua existência privada pela singela razão de que a sua vida é o seu maior patrimônio e ninguém pode nela entrar sem pedir –e obter– licença”, afirma o magistrado aposentado e poeta em seu blog “O Fazedor de Auroras”.
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Lei mais no blog Interesse Público:

domingo, 19 de outubro de 2014

O fim da vida privada e da intimidade

Jorge Adelar Finatto

capa de 1984, livro de George Orwell*
 
Faz algum tempo ouvi alguém proclamar, num programa de televisão, que a vida privada e a intimidade acabaram. Fiquei espantado, até o ponto em que ainda é possível espantar-se com alguma coisa no Brasil. A infeliz declaração ocorreu numa conversa em torno da publicação de biografias.
 
Entre editores e biógrafos, existe a ideia de que deve haver a liberação geral das biografias, independentemente do consentimento do biografado, se vivo, ou de seus herdeiros, se morto. Invocam a favor desta tese a liberdade de expressão e o interesse público (Constituição Federal, art. 5º, IX). Do lado oposto, sustenta-se que devem prevalecer as regras atuais do Código Civil (arts. 20 e 21), que, na prática, condicionam a publicação de biografias à autorização, trazendo, ainda, em prol deste argumento, o preceito constitucional que protege a vida privada, a imagem, a intimidade e a honra (CF, art. 5º, X).
 
Vida privada e intimidade fazem parte dos direitos da personalidade e sua supressão - ou relativização diante de interesses políticos ou comerciais - faz lembrar tristes episódios da história em que os direitos individuais foram fustigados. Os estados totalitários sempre invadiram a vida dos indivíduos, buscando coarctar-lhes a consciência e o querer, para manter-se no poder e anular oposição.
 
A publicação de biografia, especialmente de pessoa viva, sem o seu consentimento, configura, a meu ver, violência moral. O fato de certos países permitirem essa prática, como os Estados Unidos, não significa que seja uma norma razoável, pois afronta os direitos humanos.

A discussão evidencia o quanto determinado setor da indústria cultural, no Brasil, está empenhado na ideia de que não pode haver limitação ao seu negócio e ao lucro, não importando que para isso se violem direitos duramente conquistados.
 
No embate entre direitos de mesma hierarquia, como no caso, há que sopesar os valores humanos, individuais e coletivos, envolvidos, e avaliar as consequências sociais da decisão. É necessário, em primeiro lugar, proteger a dignidade da pessoa humana.
 
Confunde-se o conceito de interesse público com o de curiosidade pública, coisas absolutamente diversas. A mera curiosidade, nessa visão, justifica a apropriação de fatos da vida privada de terceiros e sua publicização. Isso pode até ser rentável economicamente, mas, repito, é uma violência contra o indivíduo.
 
A obra, o trabalho profissional, são públicos, mas a intimidade e a privacidade da pessoa não são, a menos que ela assim queira.

Uma coisa é noticiar jornalisticamente determinados fatos que decorrem do exercício da profissão ou de outros acontecimentos. Outra bem diferente é esmiuçar a vida de alguém desde o nascimento, fazendo de sua existência matéria de comércio sem sua permissão.
 
O indivíduo tem direito de recusar-se à divulgação de eventos de sua existência privada pela singela razão de que a sua vida é o seu maior patrimônio e ninguém pode nela entrar sem pedir - e obter -licença.  Entendo, por outro lado, que a lei pode ser modificada em parte, a fim de fixar-se um prazo para o exercício do direito por parte de herdeiros.

O que mais chama a atenção é ver que o contraditório, neste assunto, praticamente não existe na imprensa. Em suma, a ideia hoje predominante na mídia é de que você, eu, qualquer pessoa, pode ter a história de sua vida escancarada e vendida por qualquer um, a qualquer momento, sem que o principal interessado seja consultado a respeito. Será justo?

Aí eu me lembro do livro 1984, de George Orwell, onde o Estado acaba com a noção do indivíduo como ser dotado de dignidade, liberdade e vontade, e elimina qualquer possibilidade de existência espiritual fora das regras do Grande Irmão. A vida privada e o direito de  pensar e agir livremente desaparecem, criando coisas como a polícia do pensamento, a novalíngua, o duplipensar e a manipulação da história. O Grande Irmão não perdoa os transgressores do pensamento único e os persegue implacavelmente até a destruição.

Talvez o futuro nos reserve algo parecido, a continuar a mentalidade de patrolar direitos fundamentais, aqui e em outros países, em nome da segurança, do controle absoluto, do espetáculo, do dinheiro e de obtusos interesses de governos.

O que espero é que o STF, onde tramita uma ação de inconstitucionalidade contra os arts. 20 e 21 do C. Civil, decida de modo a preservar esses direitos fundamentais que não são meros adereços jurídicos, e que, por isso, não podem ficar sujeitos a pressões econômicas ou políticas de ocasião.  E que o Congreso Nacional, que analisa projeto para acabar com a necessidade de autorização, também leve isso em consideração.

Não se pode, em nome de interesses menores, obrigar alguém a suportar que vasculhem e vendam sua história como batatas na feira, sem seu consentimento. Isto significa invasão e apropriação indevida do patrimômio mais importante de qualquer ser humano: a sua história de vida.
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Sobre o assunto leia também "Biografias versus biografados":
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/10/biografias-versus-biografados.html

*imagem de capa, fonte:
http://www.theenglishgroup.co.uk/profile/

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A guardiã da alma e do tempo

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto, 15/10/2014
 
A máquina de escrever é a verdadeira máquina do tempo.*
Guillermo Cabrera Infante

 
Contigo aprendi a escutar a chuva.

Foi o que fiz, Maria, ontem, na madrugada de insônia. E me lembrei das tardes antigas em que, no inverno, me contavas histórias na velha casa de madeira e eu adormecia ouvindo a tua voz misturada com a voz do vento.

No fundo do pátio, entre os plátanos, passava o arroio, levando o céu e as nuvens no seu espelho, fazendo rumor sobre os seixos, conversando com os canteiros da horta.

O arroio rompia desde o interior verde da mata e levava mundo afora meus barcos de papel e as folhas das árvores.

Nas águas claras a nossa vida se refletia, misturada ao azul do infinito e à cor luminosa dos peixes.

O mundo era cálido e suave como ninho de passarinho.

A casa se enchia com aroma de cravo, mel, açúcar queimado e canela. Quando acordava, sobre a mesa da cozinha estavam os doces que tinhas feito.

Nunca houve um mundo mais terno do que aquele que construías ao meu redor. Nem existiu abraço mais acolhedor e verdadeiro ao teu menino.

Tecias com tuas mãos delicadas o ofício de guardiã do tempo e da minha alma.

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* A Ninfa Inconstante, Guillermo Cabrera Infante, p. 16. Coleção Literatura Ibero-Americana, Folha de São Paulo, 2012.
  Texto revisto, publicado no blog, pela primeira vez, em 25 de agosto, 2012.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Travessa da Espera

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Quem me espera, a essa hora, na Travessa da Espera, no Bairro Alto, em Lisboa?

Eu passo invisível por vielas retorcidas em mil labirintos. Em cada esquina, uma nesga do Tejo e um fado.

Anoitece, personagens saem das portas como das páginas de velhos livros, ganham as ruas, carregando seu abismo, sua dor, seu sonho, sua dificuldade de viver.

Um fantasma caminha rente às portas das tascas, enrolado na manta da solidão, o chapéu caído nos olhos.
 
As janelas abrem-se para o rumor e os cheiros que vêm da calçada.

Cada um de nós é um romance, mergulhados estamos no livro da própria existência, escrito por não se sabe que caprichoso autor.

Mas quem quer ler as últimas páginas?

Ninguém me espera na Travessa da Espera.

photo:j.finatto
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Texto revisto, publicado antes em 10 de dezembro, 2011.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Lágrimas no mármore

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Flávia Boni. divulgação da Prefeitura
Municipal de Porto Alegre*
 
Guaíba e seus afluentes, conjunto de quatro esculturas concluído em 1866 pelo arquiteto italiano Giuseppe Obino, foi retirado da Praça Dom Sebastião, em Porto Alegre, e transferido para os jardins da Hidráulica Moinhos de Vento. As estátuas encontravam-se naquele local desde 1936. O motivo da mudança é preservar as esculturas da ação de vândalos.
 
A obra é considerada o monumento mais antigo de Porto Alegre e foi concebida em mármore de Carrara com cinco esculturas, instaladas inicialmente na Praça da Matriz, junto a uma fonte. Anos depois foram dali arrancadas para dar lugar ao monumento a Júlio de Castilhos. 

A escultura que representava o rio Guaíba desapareceu quando o conjunto foi vendido a uma marmoraria para virar pó, em 1924, o que só não aconteceu devido a um protesto da população. A prefeitura readquiriu as peças, reinstalando-as então na Praça Dom Sebastião ao lado do Colégio Rosário.
 
Das quatro estátuas, duas são figuras femininas, as ninfas, e representam os rios Caí e Sinos. As outras são masculinas, os netunos, e simbolizam os rios Jacuí e Gravataí.
 
A medida adotada pela Prefeitura de Porto Alegre pretende salvar as obras da destruição. Algumas já apresentam partes quebradas (braços e narizes), além de sinais de pedradas. Agora passarão por um processo de limpeza e recuperação no novo ambiente, que é cercado e tem vigilância.
 
Não imagino o que se passa na cabeça de quem destrói o patrimônio que é de todos e carrega a memória da cidade. Memória afetiva para muitos, como no meu caso. Freqüentei a Praça Dom Sebastião e seus monumentos quando estudei no Rosário, entre os anos 1969 e 1975. Estavam ali embelezando o lugar, faziam parte da minha e nossa vida de adolescentes.

Não duvido que as estátuas tenham derramado lágrimas, na quarta-feira, 8 de outubro, quando foram retiradas do ambiente onde viveram nas últimas décadas. Muitas gerações passaram pela praça sob o olhar das ninfas e netunos. Acaso não haverá, nesses seres de mármore, uma espécie de sentimento, imperceptível aos humanos, esse mesmo que falta aos destruidores do patrimônio público?
 
Os indivíduos que invadem espaços comuns para acabar com as poucas e raras obras de arte que temos em nossas ruas, praças e parques prestam um grande serviço à desumanização da cidade. Embora não tenham poder de destruir as lembranças de quem freqüentou esses lugares, transformam em pó as memórias do futuro.
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 Notícia e fotos no site da Prefeitura de Porto Alegre:
http://www2.portoalegre.rs.gov.br/portal_pmpa_novo/default.php?p_noticia=173063&HIDRAULICA 

sábado, 11 de outubro de 2014

Uma cidade e um país com medo

Jorge Adelar Finatto

Guaíba. photo: jfinatto
 
Escutei no rádio que os habitantes de um bairro da zona sul de Porto Alegre, à margem do Guaíba, sofrem com uma média de dez assaltos à mão armada por dia. É um lugar bonito, o rio passa no fundo das ruas. Mas há risco em ir até lá. 
 
Também ouvi que em outro bairro, a cerca de três quilômetros do centro da cidade, os bandidos estabeleceram o toque de recolher, marcando hora para os moradores permanecerem em suas casas, deixando a rua para eles.
 
Não vou me estender sobre delitos praticados com violência em todos os cantos da cidade. Nem sobre a elevada criminalidade no trânsito, com condutores causando graves acidentes por dirigir em alta velocidade e de forma incompatível com qualquer ideia de segurança e preservação da vida. O número de mortos e feridos fala por si.
 
Este é um retrato resumido da realidade que vivemos no Brasil. Não conheço uma família sequer que não tenha sofrido com a violência. A situação se agravou muito nas três últimas décadas.

O Estado e a sociedade têm feito pouco para reverter o caos. A insegurança pública é, hoje, ao lado da corrupção (o mal dos males), da falta de saúde e de educação, um dos principais problemas brasileiros. 

Contudo, os debates políticos, nestes tempos de eleições, apenas tangenciam o assunto. Como se não fosse aqui o problema.  Como se os criminosos não estivessem tomando conta das nossas ruas.
 
A redução da violência passa pela luta contra a indiferença em relação à sorte das pessoas que vivem à margem de tudo. É urgente levar serviços e cidadania às comunidades carentes: creches, postos de saúde, médicos de família, centros comunitários (onde as pessoas possam conviver, ter lazer, esportes e cultura); escolas de tempo integral como os Cieps, postos de Justiça, entrepostos que ofereçam segurança alimentar, etc. 
 
Ao mesmo tempo, urge aplicar a lei penal a quem comete crimes. Atualmente a impunidade vigora. Pune-se por amostragem e esta é muito baixa. Penso que somente uma, em cada dez infrações penais, é apurada e processada (provavelmente estou sendo otimista, o número deve ser inferior a este).

Valorizar os homens e mulheres que trabalham na segurança pública é fundamental. Oferecer-lhes remuneração digna e condições de trabalho adequadas é imprescindível, além de investir no ensino, treinamento e aparelhamento destes profissionais.
 
É necessário construir presídios destinados aos que cometem crimes graves e que necessitam de contenção, conforme determina a lei. Os estabelecimentos penais existentes, além de insuficientes, são degradantes em sua maioria. O Estado deve assegurar tratamento adequado para a ressocialização dos apenados. Com espaço físico, sem o amontoamento infernal hoje existente. Prédios edificados com base numa engenharia prisional atenta às necessidades humanas,  em condições de proporcionar acomodação, ensino, trabalho e convivência com familiares de presos.

A execução penal eficaz é condição essencial no enfrentamento da reincidência criminal.
 
São medidas que custam dinheiro, mas o custo, no final, é nada se comparado com a tragédia diária que assola as ruas. E dinheiro existe. No momento em que se punir a corrupção e acabar com a má aplicação e o desvio do dinheiro público haverá recursos.

É doloroso demais ver as nossas cidades entregues ao medo e à violência. Precisamos recuperar a visão do rio no fundo da rua.
  

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Van Gogh e o negócio da arte

Jorge Finatto
 
Jarra com margaridas e papoulas. Van Gogh, 1890
 
Dizem que na pintura não se deve procurar nada, nem nada esperar, além de um bom quadro e uma boa conversa e um bom jantar como felicidade máxima, sem contar os incidentes menos brilhantes.
Vincent Van Gogh, maio, 1890.¹ 

A vida é um negócio impossível de entender às vezes. Quem gosta de ver justiça no mundo não raro se frustra e perde a graça. Vivemos num planeta habitado por mastodontes ferozes e egoístas.

Leio no jornal que no dia 4 de novembro de 2014, em Nova York, a Sotheby's vai leiloar a pintura Jarra com margaridas e papoulas. Van Gogh fez este trabalho na pequena cidade de Auvers-sur-Oise, perto de Paris, poucas semanas antes de morrer. A notícia informa que o lance inicial não poderá ser inferior a 23,6 milhões de euros, estimando-se que deverá atingir "facilmente" os 40 milhões.

O quadro pertence a "uma importante coleção europeia" e teve antes outros proprietários. Observo que este leilão é só mais um passo no itinerário milionário do comércio que envolve as obras do mestre holandês. O anúncio diz ainda, suponho que para emprestar um tom dramático ao leilão e aumentar o valor do objeto, que as flores teriam sido colhidas pelo pintor no lugar onde, poucos dias depois, viria a suicidar-se.

Trata-se de uma colina na qual Van Gogh pintou também o famoso Trigal com corvos, nas cercanias do cemitério interiorano onde está enterrado ao lado do irmão Theo. Estive lá pela primeira vez em 2002.

Pode ter colhido ali as flores, está bem. Mas de onde veio essa "informação"? Reli as cartas que escreveu a Theo na época e não encontrei referência às tais flores (ele costumava comentar detalhes das pinturas com o irmão).

Quanto ao suicídio, é hipótese praticamente descartada. Conforme minudente análise feita no livro Van Gogh, a vida², tudo indica que o tiro que o matou foi disparado, acidentalmente ou não, por um jovem de Auvers que costumava incomodar o pintor. O desentendimento que levou ao tiro nunca restou esclarecido. Cansado de viver e não querendo causar problema ao agressor e sua família, Van Gogh teria inventado a versão do suicídio horas antes de morrer.

Mas o que eu quero considerar é a brutal ironia das coisas. Van Gogh morreu em rigorosa miséria afetiva e material aos 37 anos, em 1890. Dizem que vendeu um único quadro em vida, A videira vermelha. Teve de seu neste mundo somente a roupa do corpo, velha e surrada, um chapéu de palha e outro de feltro, um cachimbo, uns poucos livros e materiais de pintura, tudo custeado pelo irmão mais novo, Theo, que o sustentou, amorosamente, até o fim.

Morreu num obscuro quarto do Auberge Ravoux, sem janela e com apenas uma mesa, um armário embutido e uma cadeira de palha.

Uma claraboia deixava entrar um sopro de luz no solitário ambiente. Deitado na cama de metal (que rangia) ele via, através da abertura, um punhado de estrelas quando a insônia o fustigava.

photo: j.finatto. último quarto de Van Gogh

A maior riqueza deste homem difícil, temperamental e sofrido foi o que trazia dentro da alma. A pintura foi sua única maneira de comunhão. Fracassou em todo o resto, porque ninguém quer saber dum sujeito esquisito, ensimesmado, de olhos muito vivos e coração ingênuo. Um que anda por aí com a caixa de pintura às costas a pintar e a conversar anjos que só ele vê.
 
Em suma, meu caro Vincent, trabalhaste como um louco (acreditavas que assim poderias expulsar os fantasmas que te assombravam), te esfolaste, te arrebentaste no fundo da caverna úmida e fria que foi tua existência (iluminada pelos tocos de vela quando pintavas à noite em teu triste quarto).

Coloriste com sangue teus quadros, e tudo isso para quê? Depois da tua morte, gente esperta passou a ganhar rios de dinheiro às tuas custas, sem nenhum merecimento, sem nada contribuir, sem qualquer proveito para a sociedade, nenhum gesto solidário. É gente que cultua - não a arte e a dignidade do ser humano -,  mas o dinheiro, a vaidade e o poder.
 
Pois é, meu amigo, como vês, por aqui nada mudou. E vem aí mais um leilão. Continuamos no mesmo mundo infernal onde padeceste. Isso tudo não merece sequer uma lágrima. Talvez desprezo, náusea e um suspiro pelos que, como tu, não têm como se defender da indiferença e da arrogância que habita os corações.
__________

¹Cartas a Theo. Vincent Van Gogh. Editora L&PM, tradução de Pierre Ruprecht, Porto Alegre, 2007.
²Van Gogh, A vida, de Steven Naifeh e Gregory White Smith, publicado em 2012 no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Denise Bottmann.
A escada:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/09/a-escada.html
 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Presença

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Me tens aqui lutando
com secas palavras
para iluminar a treva
que nos reúne
em torno do lume
do poema

me tens aqui solidário
beirando a primavera
beirando os trintanos
com raros bens materiais
e nenhum privilégio
de credo ou classe

às vezes louco
às vezes patético
com poucos seres humanos
pra repartir
alguma coisa

me tens aqui poeta
num país injusto e sofrido
caminhando à beira de um rio

a sujeira flutua nas águas
os pobres equilibram-se
em perigosas palafitas

me tens aqui poeta lírico
cada dia mais lúcido

como a primavera
eu invado de repente
a sala adormecida
o coração desabitado

não tenho uma saída
para os dramas
que andam por aí

sequer possuo soluções
plausíveis
para os atrapalhos
cotidianos

o que posso oferecer
e ora ofereço
é essa canção discreta
para dissipar a sombra

um braçada de flores
no inverno

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

domingo, 5 de outubro de 2014

Abacaxi-Rei, soberano dos ananases, valei-nos na hora má

Jorge Adelar Finatto

Abacaxi, fonte: Wikipédia


Valei-nos, Abacaxi-Rei, soberano dos ananases, do alto de tua coroa espetada!

A ti, em última instância, recorremos com a voz rouca dos ensaios das escolas de samba!

A filosófica, incontornável, irrespondível, inalcançável, esconsa, sempiterna, refolhuda e urgente questão é uma só, Venerável Ananás: quem, afinal, vai descascar a bromeliácea?

O Brasil é uma imensa plantação de abacaxis.

Não existem respostas prontas, sequer tentadas, para pergunta tamanha no seio (sentido poético) de nossa civilização abacaxizal.

Ninguéns ou nenhuns, na verdade, estão dispostos a enveredar atrás da inefável resolução a tão alta indagação.

Os donos do tabuleiro viraram as costas ao problema e dizem que isto é tarefa para as próximas 235 gerações de brasileirinhos. O negócio é aproveitar ao máximo, dizem eles, enquanto se pode.

Essa gente safa veio ao mundo para ser príncipes em Pindorama. De tanta nobreza o país está cheio pelas bordas. Estão caindo as tampas do cozido.

Damas, torres, bispos, peões, reis e cavalos estão tomados por este espírito de porco.

E vai que vai. Sambalelê, ziriguidum e bola na rede (do povo). O resto se vê mais tarde.

Quem vai embraçar a bromeliácea?
 
Quem terá a fineza de tirar-lhe a injusta e áspera casca para que possamos todos, após o generoso gesto, degustar a doce infrutescência à mesa solidária e comum?

Enquanto não aparece a alma gentil pra fazer o serviço, ficamos todos a admirar a fruteira sobre a mesa com o hermético fruto dentro. Como um bebê em berço esplêndido.

De novo e sempre a indigesta pergunta assola as mentes: quem vai empalmar o rude ananás e desvelar-lhe a dolce polpa?

Valei-nos, Abacaxi-Rei!

Não nos deixeis à mercê do canto solerte e fatal de polpudas sereias, pois não passamos de indefesas criaturas nessas praias de Vera Cruz.

Mostrai-nos, Augusto Ananás, o caminho da obscura e indizível doçura por trás da cascadura realidade que nos fecha ao paladar da esperança e da alegria.

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Texto revisto, publicado pela primeira vez em 22 de fevereiro, 2014.
 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Cuando Dios hizo la luz

Jorge Adelar Finatto

Colonia del Sacramento, Uruguai. photo: j.finatto
 
Cuando Dios hizo la luz, yo ya debía tres meses.
(Quando Deus fez a luz, eu já devia três meses.)

A maneira espirituosa de ver a vida é o que distingue a calma do desespero. Ante uma situação difícil (elas acabam chegando), o melhor é tentar manter a serenidade e buscar as possíveis saídas (que sempre existem).

O desespero é mau conselheiro, timoneiro de um navio enferrujado, carregado de tristeza e melancolia, que navega torto pelo mar afora rumo ao inevitável abismo.

O bom humor ajuda manter a alegria de existir (essa coisa que começamos a perder ao nascer) e, com ela, a saúde.

A procura da leveza é um belo caminho na luta contra os tombos da vida.

A grande arte: levantar depois de cair.

Essa frase sobre Deus e a luz é mais um dos grafites montevideanos que recolhi na minha última viagem ao Uruguai.

Grafites como esse levam a rir e pensar. Promovem uma reflexão irônica (sem ser amarga) sobre a vida nossa de cada dia. Não vendem coisa alguma, apenas comunicam algo que influencia positivamente o nosso estado de espírito.

Sim, podemos encontrar algum encanto, alguma graça, no ato de viver, apesar das dificuldades.

A tragédia é quando já não conseguimos rir das coisas. 

Fiquei olhando aquele grafite num muro da Ciudad Vieja e pensei: é bom estar vivo, andar a esmo por essas ruas, sem desesperar em relação ao que vem por aí. Ninguém tem o controle de nada.

Depois fui até o café da esquina. Abri o livro que tinha comprado do poeta uruguaio Mario Benedetti e nele anotei a frase com a caneta esferográfica azul.

A tarde estava quase completa, agora molhada pela garoa que começava a cair. Ficou plena com a chegada da taça de café com leite e do pão com manteiga.

Sim, é bom ir vivendo assim dia a dia, hora a hora, café a café, livro a livro, cada instante a seu tempo. Como se tivéssemos essa sabedoria, como se nos tocasse viver a eternidade toda pela frente. Como se não soubéssemos da dor de estar vivo.
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Texto revisto, publicado antes em 05/12/12
Hay vida antes de la muerte?
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/12/hay-vida-antes-de-la-muerte.html
 

Homenagem à Amália


No mês em que se assinalam 15 anos sobre o desaparecimento de Amália Rodrigues, o Museu do Fado (Lisboa) apresenta o concerto de Camané e Mário Laginha - um tributo evocativo do repertório mais emblemático da artista - que terá lugar no dia 9 de Outubro, pelas 21h00.


Museu do Fado (Lisboa) homenageia Amália Rodrigues
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Museu do Fado:
http://www.museudofado.pt/
 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O violoncelo brasileiro de Yo-Yo Ma

Jorge Adelar Finatto
 
capa do disco Obrigado, Brazil

A música tem sido fonte de consolo, inspiração, beleza e esperança na vida de muitos, entre os quais felizmente me incluo.  A arte em geral e a música em particular ajudam a viver e a suportar a escuridão da realidade.

Na orquestra da minha alma,  o violoncelo é o coração.
 
Isso se confirma ao ouvir Obrigado, Brazil, do violoncelista francês-americano Yo-Yo Ma, nascido em Paris, em 1955, filho de pais de origem chinesa. É um desses  discos indispensáveis para a sobrevivência na selva desses dias. Nunca me canso de escutar. É um momento raro, delicado.

Com produção e maioria dos arranjos do argentino Jorge Calandrelli, o cd, gravado em 2003, é algo digno de figurar na melhor discografia da música brasileira e universal.

Um time de músicos de primeira linha confere ao trabalho uma notável qualidade. Entre eles, os irmãos violonistas Sérgio e Odair Assad, Oscar Castro-Neves, Cyro Baptista, Paquito D'Rivera, Egberto Gismonti e Cesar Camargo Mariano.

A fina sensibilidade de Yo-Yo Ma consegue extrair a mais pura sonoridade de composições como Bodas de prata & Quatro cantos (Egberto Gismonti), Alma brasileira (Villa-Lobos), Carinhoso(Pixinguinha), Chega de saudade (Tom Jobim), Brasileirinho (Waldir Azevedo), Dança brasileira (Camargo Guarnieri), entre outras.

Em Doce de coco, de Jacó do Bandolim, encontramos toda a maestria, inventividade e ternura do consagrado virtuose.

O violoncelo de Yo-Yo Ma tem, nesse disco, a cara do Brasil e o espírito oriental. Com luxo de batucada, apito e todo balanço na superior performance de Brasileirinho.

Disco instrumental com apenas duas participações cantadas, na bela voz de Rosa Passos.

A música está entre as poucas coisas que me animam neste Brasil tão injusto e violento dos dias atuais. Ela lembra que temos qualidades que vão muito além da miséria ética e do cinismo em que estamos afundados.