segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Bernardo, eremita

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
Bernardo, eremita, foi morar no interior do barco abandonado. Conversa com os peixes. Caminha no jardim das anêmonas. O barco onde vive fica na flor dágua, é uma espécie de búzio de metal, pouco poroso e, de tão velho, exibe na pele as impressões digitais do esquecimento.

As gaivotas bailam no ar azul da manhã, nesses confins de setembro. De boné branco, astrolábio e telescópio, Bernardo descortina os quatro horizontes. Faz silêncio na ilha do búzio. Só se ouvem as ondas. O vento austral estufa a camisa, espalha os brancos cabelos.

Bernardo sai pouco a navegar no escaler de madeira. Apenas ele, os peixes e as aves vivem ali. Costuma remar de vez em quando em volta do búzio de metal, margeando as palmeiras e falésias. Faz parte do seu cotidiano conversar consigo mesmo. Estranho, tem dias que resolve dizer a si o que pensa de certas coisas e acaba ouvindo o que não quer.

Longe do búzio tem um farol pintado de branco e vermelho. Nunca foi até lá, mas admira a persistente luta do faroleiro contra a escuridão. Bernardo queria ter essa força também.

Solitário, pensa: quem sabe um dia descubro alguém pra partilhar a vida e vou-me embora daqui?

As memórias habitam o ermo do búzio.

As gaivotas sobrevoam Bernardo no búzio enferrujado. Às vezes, ele sonha viajar até o outro lado e voltar a viver no continente. Talvez saindo da concha encontrará a moça do cabelo preto escorrido e do vestido branco floreado. Mas já se passaram vinte e cinco anos. Em que coral, em que ilha distante viverá a moça do vestido floreado?

A maré sobe, os peixes nadam em festa em torno do búzio. Bernardo recolhe os instrumentos e retira-se com o boné branco para o interior da côncava morada.

A música primitiva do vento sopra nas trompas do búzio.

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Texto revisto, publicado antes em 1º de setembro, 2010.
 

Do sentimento trágico da vida


evento da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa
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Casa Fernando Pessoa:
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233

sábado, 27 de setembro de 2014

Pavão vestido de neve

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Lucas Finatto
 
O meu filho Lucas, 16 anos, chegou com a insólita notícia: tinha fotografado um pavão todo branco, as penas pareciam tecidas de neve. Eu nunca na vida tive informação de um pavão ou pavoa com as vestes brancas como o gelo. Olhei incrédulo a fotografia: aquela ave era uma pintura. Devia habitar alguma nuvem.

Em que planeta estive todo esse tempo que nunca vi nem sonhei com um pavão branco?
 
Lucas mostrou-me a foto como sendo uma coisa normal, o que me deixou ainda mais admirado. Onde, em que galáxia vivi até hoje, que nem em imaginação cogitei um pavão alvo desse jeito?

Não me resignei só com a imagem. Quis ver de perto aquele ente de outro mundo. Me dirigi até o Hotel-Fazenda Pampas, na cidade de Canela, Rio Grande do Sul, onde vive o ser caiado. Na recepção do estabelecimento disse meio sem jeito que vinha para ver o pavão branco e que gostaria de fotografá-lo, se possível. Alguns hóspedes à volta me olharam como se fosse eu o estranho no ninho.

O pessoal do hotel foi atencioso. Explicaram que não era um pavão, mas uma pavoa, e que ela andava por toda a área do hotel-fazenda, que não é pequena. Teria de caminhar para tentar encontrá-la. Disseram, ainda, que ela costuma dormir num galho alto, na copa de um pinheiro. A Coruja a tiracolo (esse é o nome da máquina photográfica), lá fui eu na desafiadora missão.

(Hoje, 29 de setembro, recebo esclarecedor e-mail do Hotel, dando conta de que é, na verdade, um pavão, e não pavoa, como informado inicialmente. Eis o informe:

Ficamos felizes pela sua visita, mesmo que repentina, mas acreditamos que satisfatória.
Aproveitamos para agradecer as palavras dispensadas em seu blog, em relação ao nosso hotel, e informar que este tipo de pavão é realmente raro. Trata-se de um exemplar do Pavão Albino macho. Acontece que somente agora, por ser bem novinho, ele apresentou as penas na cauda, pois até então parecia realmente uma fêmea.
O que difere as fêmeas dos machos é a sua longa cauda (deles), que quando em descanso pode atingir 1,5 metro e quando armada - excitação à fêmea - apresenta esta maravilha que o Lucas registrou.

Agradeço ao Sandro Goulart Severo o oportuno esclarecimento. Agora segue o texto do post, já retificado.)

Até que encontrei. Caminhava sob o sol com a solene plumagem. Foi bom tê-lo encontrado naquele dia, porque não voltaria a Passo dos Ausentes sem antes vê-lo. Como um primitivo diante do primeiro amanhecer, fiquei a contemplá-lo. Para mim, era uma espécie de milagre. Comecei a tirar fotos à distância, de modo a não incomodá-lo.

photo: j.finatto

Não tive, como o Lucas, a ventura de ver o soberbo leque da cauda aberto. Seria a epifania perfeita para aquela tarde de setembro na semana passada. Mas me conformei. Afinal, nem tudo podemos tocar com os próprios olhos. O Olhar do Lucas me bastou para testemunhar a beleza através da foto que fez com o celular (telemóvel).

Existem mais coisas entre o céu e o meu chapéu do que supõem a minha vã filosofia e o meu ralo conhecimento das coisas da natureza e da vida.

É preciso ter a humildade e a paciência do calado observador para merecer a revelação da beleza. 
 
Agradeço ao Lucas por mais essa descoberta. De agora em diante, toda vez que disserem que existe vida em outros mundos ou que há anjos batendo papo no meu jardim sentados sob o guarda-sol, eu me lembrarei do pavão branco e não vou duvidar. Depois dele tudo é possível.

Felizmente, Deus não cobra direito autoral de quem quer fotografar suas obras-primas.

photo: j.finatto
 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Há quem não goste de Lupicínio

                                                              Carlos Alberto de Souza
 
Lupicínio Rodrigues*
 
O Brasil reverencia a maravilhosa obra de Lupicínio Rodrigues em meio às comemorações de cem anos de nascimento do compositor gaúcho. Em Porto Alegre, entre outras atrações, o público aplaudiu "Lúpi, o musical - uma vida em estado de paixão" e "Vingança, o musical", encenado por um grupo de São Paulo.
As homenagens extrapolaram os palcos e também alcançaram as artes plásticas, com a Exposição de Arte Postal – As Músicas do Lúpi. TVs e rádios locais e nacionais exibiram programas com nomes de peso da MPB cantando as canções de Lupicínio.
Não faltaram elogios à qualidade da obra do "boêmio", como ele mais gostava de ser tratado, em reportagens de jornais, revistas e sites. Para simbolizar o que muitos disseram sobre Lúpi pode-se recorrer a uma declaração do compositor e cantor João Bosco no musical O amor deve ser sagrado, transmitido pela TVE, dentro da onda de homenagens ao compositor: “Ele foi um gênio”.
Enfim, estes dias de preito parecem indicar que o poeta nascido na Ilhota (antiga vila em Porto Alegre) conseguiu ser uma unanimidade “federal” - para usar um termo da preferência dele quando queria referir-se a uma dor de cotovelo daquelas que não passam jamais. Engana-se, porém, quem acredita no Lúpi unânime.
Relendo o livro Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova (Companhia das Letras), do incensado jornalista e escritor Ruy Castro, levo um choque à página 132, depois de o autor contar como Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli se conheceram e como os dois “moleques de praia” detestavam samba-canção, bolero e quase tudo da MPB naquele ano de 1956.
Compreensível, tratando-se de dois jovens da zona sul carioca ávidos por criar e inovar e sedentos por outra sonoridade. Castro menciona o samba-canção Bar da noite e o bolero Suicídio, cujos autores e intérpretes não são citados, como monumentos ao mau gosto.
O problema vem agora. Castro, no livro escrito em 1990, diz que “aquilo ainda não era o pior”, pois “havia também as horrendas letras de Lupicínio Rodrigues, como a de ‘Vingança’, com o seu ódio à mulher”. E ele reproduz os seguintes versos de Vingança: “Enquanto houver força em meu peito/Eu não quero mais nada/Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar/Ela há de rolar como as pedras que rolam na estrada/Sem ter nunca um cantinho de seu/Pra poder descansar”.
Para Castro - li pasmado -, Lupicínio era dono de um “mau gosto de tango”.
Claro que o Castro não é obrigado a gostar de Lúpi. Mas é estranho alguém entendido do riscado classificar de “horrendos” versos consagrados como os citados por ele de uma das tantas obras-primas de Lúpi. Acusar Lupicínio de odiar as mulheres é de uma estupidez inacreditável.
Na minha modestíssima opinião, trata-se de uma mancada federal de Castro, impressa em um bom livro de sua autoria. Lê-la não me deu dor de cotovelo e sim um mal-estar, que tento afastar com essas linhas.
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Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.
smcsouza@uol.com.br

*O crédito da foto será dado quando conhecido o seu autor.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A fuga das sombras

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, 24/9/2014
 
Nós que andamos festejando a chegada dos dias luminosos de setembro, que abrimos todas as janelas para a fuga das sombras, temos que ter uma certa calma. Hoje (quarta-feira, 24/9), por exemplo, em Passo dos Ausentes, fez um perfeito dia de inverno, o que, aliás, não é de se estranhar por essas bandas em qualquer época.
 
O frio era tamanho que retirei o capote do armário para sair de casa à tarde. Fui tomar um café com os amigos no Café da Ausência, na velha estação de trem abandonada. As conversas entremeadas pelos acordes do bandoneón de Juan Niebla, que percorria sonoridades entre Bach e Piazzolla.
 
Neblina cerrada, um pouco de chuva. As botas úmidas, as sensações úmidas. Pra suavizar, um aroma de flor solto no ar que expulsa a tristeza e faz um bem danado ao coração da gente. 
 
Depois saí pela estrada com o guarda-chuva vermelho atravessando a cerração. Sim, feliz como um peixe, porque também pode haver beleza num dia frio, gris e molhado, em que somos convidados a visitar nossos aposentos interiores.
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Os sapatos da primavera

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
Da minha janela eu vejo a rua. A rua é um pedaço do mundo. É só uma rua entre tantas.

O mundo é um rio largo e fundo. O tempo dos galhos secos cessou. A claridade de setembro invade a sombra.

Escuto na calçada o som de passos que vêm de muito longe. Mas não há ninguém lá fora nessa hora erma. O vento sacode as folhas nas árvores.

A carroça cheia de flores dobra a esquina, para no meio da quadra, debaixo do poste de luz. Na manhã que se aproxima, as pessoas encontrarão a carga suave e perfumada.

Enquanto escrevo, coisas luminosas acontecem em silêncio. Da janela observo esse ponto pequeno e obscuro do universo, que chamo minha rua, onde todos agora dormem. Mãos desfalecidas nada podem segurar.

Nenhum grito assola a hora nua. O sonho levanta do escuro.

Os sapatos da primavera cantam na calçada.
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Texto revisto, publicado antes em 30 de agosto, 2010.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Celebro a vida que virá

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
Un petit espoir très féroce: c'est moi.
Robert Lalonde
 
Ainda não nasci
sequer faço parte da paisagem
escuto uns gritos do outro lado: não estou

a sombra é apenas o começo
do previsível caminho
que vai dar na aurora

ainda não nasci
no entanto, é para breve

celebro a vida que virá
rompendo a escuridão
explodindo em alegria
como a primavera depois do inverno

sei onde isso terminará:
flor no extremo do ramo
beleza enchendo o vazio

faço do silêncio
um grande bosque
onde borboletas passeiam
pássaros inventam a claridade
com seu canto

imagina uma faísca que, súbito, paira no ar
uma palavra procurando um oco de boca
uma pequena luz que cresce: sou eu

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Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

*Uma pequena esperança feroz: sou eu. Da obra Une belle journée d'avance., de Robert Lalonde. Éditions du Seuil, Paris. 1986.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Boa primavera a todos

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

Repousando sobre o galho pensador, meu amigo resolveu fazer uma pausa pra descansar e admirar o Vale do Olhar neste início de primavera. E cantou um pouco, também,  sobre o ramo da jovem caneleira no seu momento de solidão e meditação.
 
A vidinha do meu amigo não anda nada fácil. Conheço-o desde que, ainda menino, passou a freqüentar as árvores diante da janela do escritório. Agora ele tem família e precisa garantir o sustento dos filhotes e da companheira no ninho que não fica longe daqui. 
 
Já não existe muito alimento disponível na natureza para eles. As cidades avançam ferozmente sobre as matas e áreas verdes. Vivemos num país de 200 milhões de habitantes onde não se respeitam os direitos elementares das pessoas. Se para os seres humanos está ruim, imaginem para os pássaros e outros seres vivos.
 
Por dia, mais de 50 pássaros como o meu amigo vêm à varanda do escritório para comer as frutas que sirvo para eles. A maioria pega o pedacinho da fruta e leva para o ninho. Depois volta.
 
Que nesta primavera, que começa hoje no hemisfério sul, tenha mais justiça, beleza e alimentos para todos.
 

domingo, 21 de setembro de 2014

Receita para velhos

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 
Enquanto tomava um cappuccino no café da livraria, folheando um livro, duas jovens sentaram à mesa ao lado e começaram a conversar. Ouvi a seguinte passagem, não por abelhudo, mas porque o som da conversa invadiu sem cerimônia o meu espaço aéreo. 
 
- As minhas duas velhas tias estavam desanimadas quando as visitei um dia desses, na casa onde moram, que não fica longe do meu apartamento. Falavam mal da idade, dos problemas de saúde, da voragem do tempo que tudo devora.
 
- Ai, que triste!
 
- Mas aí eu disse: vocês têm que ver as coisas boas que podem fazer: ler livros, viajar, sentar na varanda.
 
Eu, que estou sempre aprendendo, principalmente com os mais moços, guardei o conselho que poderá ser muito útil quando eu ficar velho qualquer dia.

Não sei exatamente o que vou fazer com a parte de sentar na varanda. Mas pela convicção com que a moça falou, deve haver algum consolo e uma insuspeitada alegria nisso.
 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A originalidade na arte

Jorge Adelar Finatto

Quinces, lemons, pears, grapes. Van Gogh, 1887, Van Gogh Museum
 
Estive pensando sobre o que me fascina na obra de certos artistas e escritores. Van Gogh, por exemplo, já que tenho falado nele nos últimos tempos.

Na pintura que ilustra este texto (Marmelos, limões, peras e uvas, de 1887), o artista não se resumiu ao espaço da tela, transbordou a imagem para a moldura como se quisesse prolongar ao infinito a felicidade do ato criador.
 
E cheguei a uma singela conclusão ou, melhor dizendo, a uma intuição. Descobri que o que me encanta nas suas obras não são as pessoas, os objetos ou as paisagens que ele retratou.
 
Não é aquilo que os olhos do pintor viram, mas sim como a alma de Van Gogh os traduziu. O motivo da pintura é secundário.
 
O que realmente me interessa e seduz é como o artista sentiu e pensou esse motivo.
 
Aquele cenário, aquele rosto, aquele objeto animado ou inanimado só têm relevância porque foram apreendidos e transformados em arte pelo traço revelador de Van Gogh. E o que ele nos revela?
 
Revela a interioridade do pintor diante da tela, os seus sentimentos, a sua visão de mundo, o seu lirismo, a sua tristeza. Revela tudo o que a vida fez com ele até aquele momento, e como ele reagiu diante dos sofrimentos (muitos) e venturas (poucas).
 
Os frutos de Van Gogh não se parecem a quaisquer outros já pintados. Assim os seus girassóis, as suas árvores, os seus jardins, as suas estrelas, as suas casas, as suas pontes, as suas nuvens e campos. Tudo que fez é único. Somente ele, e ninguém mais, poderia ter realizado aquela obra. A isso podemos chamar originalidade, o modo pessoal e intransferível.
 
Essa característica, a singularidade, se faz presente nas obras dos grandes artistas e escritores. É a impressão digital do autor que nos marca. Em alguns, essa marca é mais sentida do que em outros.

Um quadro de Van Gogh é reconhecível à primeira vista em qualquer lugar do universo, destaca-se como o sol, tal a sua força expressiva. Da mesma forma que um texto de Guimarães Rosa. São inconfundíveis. E belos. E a pintura e a literatura são melhores porque eles existiram.

Ser original significa encontrar a própria voz. Não para ser diferente dos outros e aparecer mais do que eles, mas para ser igual a si mesmo. E, sendo aquilo que se é, dar o seu melhor, seja qual for a atividade.
 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A escada

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto, 2007.
 
A explosão e a subversão das cores e das formas, na pintura, foi ele quem inventou. Nunca antes o amarelo foi tão belo nem as outras cores tão livres e entusiasmantes. Nunca alguém pintara assim antes dele. Precisou Vincent Willem Van Gogh (1853 - 1890) vir ao mundo para nos dar essa alegria e essa liberdade. Isso só já justificaria plenamente sua existência (viveu apenas 37 anos).

Mas fez mais: foi um poeta e um pensador profundo no meio da tempestade que foi sua vida. Além da pintura, leu muitos autores importantes da época e escreveu com uma impressionante clareza e desenvoltura sobre temas como solidão, arte, morte e Deus, conforme vemos no livro de suas cartas ao irmão Theo. Conhecia a Bíblia de perto.

Terá sido, a par disso, uma pessoa de muito difícil convivência, com temperamento forte e impositivo. Em parte devido aos traumas familiares, às dificuldades de realizar sua obra e à escassez de afeto das pessoas com quem conviveu.

No fundamental, no mais secreto de si, um homem de coração sensível, cheio de ternura, bondade e vontade de ser feliz. Como artista, foi um gênio que se construiu a duras penas em meio à pobreza.
 
Sua vida foi sofrimento e incompreensão. Mas seu espírito só nos legou beleza (mais de 800 pinturas em menos de 10 anos de produção). Van Gogh, do alto de sua angústia e de seu gênio, foi um mistério.
 
Nos últimos dias de vida (em torno de 70), na pequena Auvers-sur-Oise, distante cerca de 40 km de Paris, mais ou menos a uma hora de trem atualmente devido ao traçado da estrada de ferro, pintou com profusão.

Estive mais de uma vez naquela cidade e visitei seu obscuro quarto no Auberge Ravoux, estalagem na qual viveu aqueles dias,  e onde acabou sendo velado sobre uma mesa de bilhar, após morrer em circunstâncias até hoje pouco esclarecidas.

A escada sombria da photo acima (que leva até o melancólico quartinho sem janela, apenas com uma clarabóia) é a visão material e simbólica do quão difíceis e solitários foram seus caminhos.

photo: j.finatto, 2007. o último quarto

A arte foi a verdadeira escada que o retirou do negro calabouço e lhe proporcionou a alguma felicidade que teve em sua rápida passagem pela vida. Todo seu amor se concentrou na sua obra e na pessoa do irmão mais novo Theo, que o sustentou. Devastado com a morte do amado Vincent, seis meses depois Theo veio a morrer. Ambos estão enterrados no pequeno cemitério, na parte alta de Auvers, um ao lado do outro. Ali ao lado Van Gogh pintou, dias antes, o magnífico Trigal com Corvos.

Sobre o período em que Van Gogh viveu à margem do rio Oise, publiquei aqui dois textos com diversas imagens, aos quais remeto o leitor.*

Também recomendo o livro Van Gogh, A vida, de Steven Naifeh e Gregory White Smith, publicado em 2012 no Brasil pela Companhia das Letras, com ótima tradução de Denise Bottmann. Um trabalho de fôlego (1095 páginas), ricamente documentado e que lança novas luzes sobre a vida e a obra do gênio holandês. Este livro afasta, por exemplo, a versão do suicídio do artista com base em percuciente análise.

photo: j.finatto, 2007

Duas coisas gostaria de lembrar para finalizar este breve artigo. No livro em questão, é descrita a forma vexatória e às vezes grotesca com que Van Gogh foi tratado por alguns adolescentes de Auvers, que viam nele a figura de um louco desagradável. Faziam coisas para vê-lo atarantado e humilhado. Sua figura chamava a atenção pela roupa desconjuntada, pelos modos esquisitos e por estar sempre vagando com seu equipamento de pintura na jornada diária de trabalho.

Isso me recordou a péssima impressão que tive de alguns jovens locais quando estive pela primeira vez na cidade, em 2002, em pleno Dia de Natal. Ao perceber um turista idoso caminhando pela rua, diante do prédio da prefeitura, um grupo de adolescentes passou a imitá-lo e a zombar dele, sem nenhuma razão (não usava chapéu de palha, não carregava o cavalete nas costas nem tinha roupas muito velhas como Vincent). Vendo a situação, fui para o lado do cidadão e comecei a conversar com ele, enquanto olhava para os adolescentes, que, diante disso, acabaram desistindo da zombaria. Estranhei muito aquele comportamento gratuito e agressivo.

Sempre entendi que Deus se comunica com a humanidade através da obra de Van Gogh (como, em geral, penso que acontece com os grandes artistas). Vincent chegou a cogitar alguma vez em desistir do trabalho e tentar ser um pouco feliz num outro tipo de vida, tal a miséria material e o isolamento que o acompanharam. Mas seguiu em frente.

Ele acalentava, em meio às mil provações, a idéia de uma outra vida além desta, que possibilitasse um recomeço, uma segunda chance, um mundo onde poderia se libertar da "estupidez vazia e da tortura sem sentido da vida", como se lê nas páginas 997/998 do referido livro. Para encerrar, esta passagem tão bela quanto visceral:

"Sinto cada vez mais que não devemos julgar Deus a partir deste mundo. É apenas um estudo que não saiu. O que você pode fazer com um estudo que deu errado? - se você gosta do artista, não encontra muito o que criticar - refreia a língua. Mas você tem o direito de pedir algo melhor". (pág. 998)

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*O último quarto de Van Gogh (The last bredroom of Van Gogh):
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2009/12/o-ultimo-quarto-de-van-gogh.html

O silêncio de Van Gogh (The silence of Van Gogh):
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/12/o-silencio-de-van-gogh.html

Van Gogh Museum, Amsterdam:
http://www.vangoghmuseum.nl/en

domingo, 14 de setembro de 2014

Aos que dizem que tudo é possível

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
Aos que dizem que tudo é possível, eu digo sim, tudo pode via a ser. Mas que venha logo, sem demora, sem mentiras, que desperte, enfim, a luminosa manhã.

A treva tomou conta do Brasil, da cidade, da minha rua, entrou na minha casa.

Fugir pra onde? Se tudo em volta suspira e dói.

Se tudo é possível, que venham as pequenas alegrias, as inesperadas ternuras, os abraços escondidos, as urgentes mudanças, as mãos dadas.

Se tudo é possível, um casal dançará um fado rasgado em plena calle deserta.
 
Se tudo é possível, abrirei o guarda-chuva e sairei pela noite em busca de açucenas em setembro pra deixar na tua porta.

E se tudo for mesmo possível, vamos enfrentar o problema do medo de viver e de abraçar o nosso irmão

(a morte, essa coisa numerosa e fria, está em toda parte e não faz mais espanto).

Dizem eles que tudo é possível.

Que venha então depressa essa ventura.

Que não nos falte mais o amanhecer dos corações.

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Texto revisto, publicado antes em 28 de abril, 2011.

sábado, 13 de setembro de 2014

Van Gogh Museum e o poema inspirado em Van Gogh

Jorge Adelar Finatto

Clicar sobre a imagem

ONTEM, sexta-feira, a página de facebook do Museu Van Gogh, de Amsterdam, publicou o meu poema Composição, que tem Van Gogh como personagem. O texto é uma homenagem e uma afirmação de amor à arte. 
 
O museu não só publicou o poema como o ilustrou com uma linda pintura do mestre holandês que eu não conhecia!* Composição faz parte do livro O Fazedor de Auroras, publicado pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul em 1990.
 
Foi, como podem imaginar, uma gratíssima surpresa e uma cálida emoção para este bardo discreto que habita tão longe da Holanda, nos Campos de Cima do Esquecimento. Quem ama Van Gogh como eu deve visitar um dia o belo Van Gogh Museum, que reúne o acervo mais completo e impressionante do genial artista.
 
Espero retornar em breve para uma visita de pelo menos dois dias e para agradecer pessoalmente. O atendimento é excelente e tudo é muito bom, inclusive o café e a loja de souvenirs.
 
Por força da publicação do poema na página do museu, em poucas horas o texto passou a ocupar o primeiro lugar entre os mais lidos aqui no blog. Quem quiser conferir, este é o link:
 
*Trata-se da obra Jardin de Saint-Paul-de-Mausole, de 1889, que retrata o jardim do hospital onde esteve entre maio de 1889 e maio de 1890, em períodos intermitentes, e no qual possuía um ateliê. A imagem reflete a visão desde a janela deste.
 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O segredo dos pássaros

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, 10.9.2014
 
Se outra vida houvesse além dessa (e se eu acreditasse em reencarnação), na próxima existência eu queria ser pássaro.
 
Os pássaros voam e cantam. Têm cores vivas, pinturas incríveis espalhadas pelo corpo. Como se não bastasse, fazem lindos e cálidos ninhos para morar. Habitam nas árvores, sótãos, telhados, muros, rochedos. Não têm senhorio a sugar-lhes o sono e o sangue.
 
Vivem o instante que cantam e não têm consciência do tempo que passa. Não têm, por isso, os pássaros, a dolorosa e trágica perspectiva de quem navega na canoa em direção ao precipício.

Os antigos navegadores sempre tiveram razão: no fim do mundo tem um abismo imenso e intransponível para o qual correm todas as águas...
 
Agora passam duas gralhas azuis voando diante da minha janela, no horizonte das montanhas e pinheiros.

Na árvore em frente (um jovem pinheiro-bravo), a pequena saíra (todas as cores) enfeita a tarde e afasta a visão do perau.
 
O voo-canto dos pássaros enche o vazio. Com tão pouco se constrói a leveza.
 
Só sei que essa presença amiga alimenta o meu coração. Por um momento, esqueço as dores da vida. Bem-hajam!
 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Depois de tudo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
Depois de tudo ele quer só um banho. Não o tagarela e desajeitado das enfermeiras. Anseia um banho demorado, com direito de ficar só, recolhido, senhor de seus domínios.

Durante o tempo em que esteve longe do mundo e do próprio corpo, viajando na nuvem de morfina, sonhava sentar debaixo de uma cachoeira e ali ficar um dia inteiro sentindo a água cair.

Havia muitas árvores nesse lugar, camélias brancas e vermelhas, pássaros, um ar carregado de fragrância de mato, bom de respirar. Havia também uma mesa larga e comprida, onde gente da família e amigos se reuniam para o café da tarde.

Até os desaparecidos se chegavam na mesa para conversar com ele. Até mesmo o pai, imemorial ausência, surgiu no sonho e o abraçou calidamente, como nunca antes fizera.

Reencontrou o córrego da infância, entre os pinheiros. Caminhou descalço sobre os seixos, olhou o movimento ligeiro e colorido dos peixes na água. Recordou o jeito da saíra entrar e sair do ninho. A suave luz de maio a tudo envolvia.

Agora está de novo em seus domínios, o hospital ficou pra trás. Embaixo do chuveiro, a água morna escorrendo na cabeça, no corpo, ninguém pra segurá-lo, virá-lo dum lado pra outro feito joão-bobo.

Sob a água, sentindo os seixos nos pés, o vento macio na face, os peixes luminosos, as conversas na mesa larga dos afetos, ele celebra a dádiva de estar vivo. 
________________
 
Texto publicado em 1º de julho, 2010.
 

domingo, 7 de setembro de 2014

Viaje alrededor del tiempo

Jorge Adelar Finatto

 
O TEMPO é um mistério que não se deixa desvelar. Desde que o primeiro homem e a primeira mulher foram expulsos do paraíso, onde tinham vida eterna, a passagem do tempo passou a ocupar o núcleo das atenções, perdendo apenas para a luta pela sobrevivência.

Entender o tempo e procurar dominá-lo, para quem é mortal, é uma obsessão.
 
Segundo o dicionário Aurélio, o tempo é a sucessão dos anos, dos dias, das horas, etc., que envolve, para o homem, a noção de presente, passado e futuro.
 
A natureza do tempo, contudo, está longe de ser domesticada. Tem sido tema número um de estudos e imaginação para filósofos, cientistas, poetas, artistas e livres-pensadores em geral. Apesar disso, ninguém conseguiu até hoje estabelecer um conceito plausível.

Não há resposta para esta questão tão cotidiana quanto insondável: o que é o tempo?
 
A idéia de que o tempo flui continuamente em direção ao futuro (fluxo do tempo) e de que o presente é a única coisa real é o princípio melhor assimilado pela maioria das pessoas. Para os físicos, porém, o tempo simplesmente não flui, ele apenas é. Há filósofos que afirmam que o fluir do tempo se baseia numa falsa concepção.¹ Albert Einstein assim se expressou: O passado, o presente e o futuro são apenas ilusões, mesmo que teimosas
 
Uma corrente entende que o tempo existe de forma estendida, isto é, passado, presente e futuro coexistem simultaneamente, como uma paisagem em que o conjuto de objetos visuais se apresenta ao mesmo tempo aos olhos do observador.
 
É o que chamam de teoria do bloco de tempo (block time). Esta noção está ligada à escola filosófica conhecida como eternalismo, a qual considera que o universo é dotado de quatro dimensões. De tal forma, passado, presente e futuro seriam igualmente reais. Toda a eternidade está estendida num bloco quadridimensional composto de tempo e três dimensões espaciais. ³
 
É como caminhar na bruma tratar desse assunto. Como andar sobre a corda estendida entre dois edifícios, feito um funâmbulo.

O tempo, penso eu na minha vã filosofia, é bem diferente na vida de uma estrela, se comparado ao tempo de uma borboleta. Para a borboleta, a migalha de um segundo faz diferença em sua breve existência (entre duas semanas e um mês, em média). Ao passo que um ano dos nossos, na vida da estrela Vega, por exemplo, nada significa (ela, que é uma estrela nova, tem cerca de 455 milhões de anos e muitos, muitos mais pela frente...).
 
O tempo que interessa para nós, patéticos mortais, é o que tem a ver com a vida humana. Daí a acolhida, entre nós, da noção de fluxo do tempo.

Tempo urgente, tempo transitório, tempo finito, tempo que escapa entre os dedos. Será talvez impossível chegarmos a uma visão absoluta do tempo diante da nossa condição. Não temos distanciamento crítico, somos prisioneiros do efêmero. Em outras palavras, somos parte do enigma.

Uma vez cheguei a considerar o tempo como inexistente, na esteira do pensamento de uma parcela dos físicos. Seria uma criação humana feita para medir a duração de fatos, acontecimentos, anos de vida, horas de descanso, períodos de trabalho, estudo, medição sem a qual a vida seria caótica nos padrões da nossa civilização. Por isso inventamos relógios de pulso, de parede, de sol, atômicos, clepsidras, ampulhetas, etc.
 
O que haveria, nessa visão singela, é uma contínua modificação da matéria. No caso dos seres vivos, estas alterações aconteceriam desde a concepção até a morte. O tempo não existiria como uma realidade autônoma, mas relativa. A idéia de fluxo de tempo perderia o sentido com a eliminação da morte, por exemplo. Mas não passei dessas abstrações de fundo de quintal.

Nessa viagem ao redor do tempo, creio que os poetas se aproximam melhor do imbróglio do que os cientistas e filósofos.

O tempo é uma viagem, o voo de um pássaro, o movimento do rio, a asa da borboleta acariciando o ar, o risco de uma estrela cadente, o pulsar de um vaga-lume. O resto é estranhamento, dúvida, perplexidade.

O mistério continua.

Vai saber por que eu tirei o domingo pra pensar no tempo, em vez de sair por aí aspirando os aromas inaugurais da primavera nos Campos de Cima do Esquecimento. Pois é o que vou fazer agora, enquanto ainda há dia lá fora.

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¹-²-³ Biblioteca Scientific American Brasil, vol. 3. Enigmas do Espaço-Tempo. Ediouro Duetto Editorial Ltda., São Paulo, 2013. O fluxo misterioso. Artigo de Paul Davies, págs. 9 e 10.

Photo de relógio reproduzida da internet. O crédito da imagem será dado tão logo conhecida a autoria. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Os desolados

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
 
As manhãs fogem do escuro. A solidão é um negro capuz que se veste nos retirados da dor.

Tive medo de ver os escombros. Os difíceis haveres do abandono. Havia uma mulher chorando. Quem? Não divulguei.

O coração humano gira em tristes redemoinhos. O traçado torto da vida. Quem puder se segure, senão cai no perau. Eu, quando escuto gente chorando, sinto breu andando à volta.

Coisas que vi. Meu coração barroco.

Aquele choro me doeu. Mas eu fui. Foi quando meus olhos a divulgaram. A mulher era uma visão sob a pérgula. Eu não sabia o que era beleza até aquele dia. Estava sentada num banco de pedra cercado de azaléias vermelhas, ao lado da fonte. Havia uma escada com seis degraus que terminava no ar. Ligava lugar nenhum a parte alguma.

A casa desmoronada no íntimo da pessoa.

A mulher, sua tristeza, aquela ruína. Me aproximei no cuidadoso jeito. Era uma tarde de junho como essa. E fria, fria. A mulher - a visão - fez sinal para eu parar e esperar. O que fiz nos respeitos. Ela se levantou, arrumou o vestido, olhou o céu. Entre as duas mãos largou a face molhada, os cabelos de linho, depois seguiu sozinha. Eu voltei ao mundo.

Eu vivia num lugar perdido, arrostando sol e vento, sem eira nem beira. Os loucos dias no sanatório do mundo. Os ermos.

Caminhos que se andam.

Um dia de fina luz de primavera ela apareceu, veio em minha direção, pegou no braço meu esquerdo. Caminhou, caminhamos. Em silêncio. Palavras que se dizem sem falar.

A brilhante estrela caiu no meu caminho. Setembro.

O punhal que me rasgava por dentro, vermelho, foi saindo, saiu.

Nos acolhemos, reunimos as raras pertenças.

Me tornei sentimento. Sentimentos.

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Texto revisto, publicado antes em 03 de maio, 2010.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

O caçador de flores

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto.


O caçador de flores, na sua floral loucura, busca reter a beleza do que, por natureza, é volúvel ao tempo e perecível.

Sou amador na arte de caçar flores, alguém que se dedica ao ofício por puro prazer estético, sem fazer disso meio de vida ou por espírito de emulação com outros caçadores.

Lanço-me mais uma vez na delicada faina, mesmo sabendo que imagens conservam apenas a aparência do que foi belo um dia e depois deixou de ser.

Saio por aí com a Coruja, vetusta máquina fotográfica que me acompanha há séculos, e começo mais um dia de caçada. Esta é a época perfeita.

E haja corola para satisfazer a sanha insana.

O gesto é egoísta, reconheço, típico de quem dá valor excessivo ao próprio deleite, numa ânsia predatória de fazer arrepiarem-se os campos, jardins e pomares. Tal é a sina do caçador.

photo: j.finatto.

O caçador satisfaz o cruento instinto ao capturar flores em fotografias, escondendo-as em secreto compartimento. Todavia, o segredo não resiste à evidência de que o belo precisa ser compartilhado.

Só a exposição torna completa a alegria da caça.

Um dia as flores secam e morrem, como tudo que é vivo e respira. Alguma coisa delas permanece nas imagens. Será essa, talvez, a possível atenuante para a conduta violenta do caçador, no seu afã de ter consigo todas as flores que puder e mais algumas.

Na cidade grande quase não há flores ao ar livre. Por isso, e por não gostar de viver distante delas, quando estou longe de Passo dos Ausentes, levo comigo as photos floridas. Um jardim de emergência em meio ao deserto de concreto, para suavizar o feio e o triste.

Nos Campos de Cima do Esquecimento, de onde escrevo essas frágeis linhas de primavera, não faltam flores, graças a Deus. Elas crescem generosamente em todo lugar e a caça é abundante.

O retrato é, talvez, um modo patético de aprisionar o efêmero, alguém dirá. Pode ser. Mas o que não é patético nessa vida, não é mesmo, raro leitor?

photo: j.finatto.
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Texto revisto, publicado antes em 26, nov., 2013.