domingo, 29 de junho de 2014

Notícia do fim do mundo

Jorge Adelar Finatto
 
Campos de Cima do Esquecimento. photo: jfinatto


Uma voz disse a Juan Niebla que o mundo ia se acabar. Aí a história começou.

Eu estava apagando as luzes do escritório, às 3 da madrugada, quando ouvi batidas na porta. Pelo adiantado da hora pensei que tinha acontecido uma tragédia.
 
Lembrei que, na tarde anterior, Nefelindo Acquaviva saíra com seu dirigível em direção ao Contraforte dos Capuchinhos para visitar nosso amigo Claudionor, o Anacoreta, que vive em solidão no interior de uma caverna. O tempo não estava bom, havia espessa neblina e garoava. Recomendei-lhe cuidado ao navegar sobre o Vale do Olhar, travessia perigosa. Ali um dia azul pode transformar-se, de repente, em tempestade, sem nenhuma explicação.
 
Desci a escada o mais depressa que pude. Ao abrir a porta encontrei Juan Niebla quase sem fôlego. Segurava a bengala com as duas mãos e estava muito trêmulo. Tinha atravessado sozinho as ruas adormecidas, apesar da cegueira e dos 87 anos.
 
Trouxe meu amigo para perto da lareira da sala, acomodei-o no sofá entre os dois gatos. Fui preparar um chá de maçã, enquanto ele se aquecia e se acalmava. Secou nervosamente com o lenço o suor do rosto.

Os olhos azuis parados, olhando o indefinido. Juan é músico desde 1943, quando foi aprovado em concurso público da cidade. Naquele mesmo ano, aos 16 de idade, ficou cego. Seu posto foi sempre a estação de trem, tendo a função de receber e despedir os viajantes com a música do bandoneón.
 
Após a extinção da estrada de ferro, na década de 1950, continuou trabalhando naquele lugar. No amplo espaço destinado à venda de bilhetes, instalou-se o Café da Ausência que é o ponto de encontro de quem curte arte e música. Tem, além das mesinhas com toalha xadrez, um pequeno palco e uma grande vidraça lateral com vista para o Vale do Olhar. As quintas-feiras são reservadas aos concertos de Juan Niebla e seus convidados, em geral músicos da Orquestra de Câmara de Passo dos Ausentes. 
 
Depois de beber o chá, acalmou-se. Perguntei-lhe o que havia acontecido:
 
- Eu estava deitado, no entressono, meio lá, meio cá, já tinha rezado o Pai Nosso, quando ouvi uma voz de homem que parecia vir do sótão. Disse a voz:

- Juan, o mundo vai ser destruído em breve. A coisa vai começar por Passo dos Ausentes. A aldeia vai ser varrida em poucos segundos. Fortíssimos ventos virão roncando pelas encostas dos chapadões de basalto. Não vai sobrar nenhuma casa em pé nem ninguém. Eu vim da esfera superior com ordem expressa de te avisar, porque és a pessoa mais desprotegida deste povoado. O Homem resolveu te poupar do desastre. No dia 26 de junho próximo, vá para a beira do Perau das Vozes Caídas e aguarde o nascer do Sol. Uma nuvem dourada virá te buscar. 
 
- Eu nunca tinha ouvido uma voz tão fria, côncava. Parece que vinha de dentro de um tonel oco, sei lá. Num ímpeto saltei da cama e abri a janela pra respirar, pois tinha impressão de que me faltava o ar. Coloquei as botas e o capote e saí. Viver só é difícil. Com vozes no sótão é ainda pior. Se o fim do mundo está chegando, eu quero ficar perto dos amigos. E amanhã vou avisar todos que puder. Depois quero que me leves para o mosteiro no Contraforte dos Capuchinhos.
 
Juan dormiu na minha casa e, no outro dia, bem cedo, saiu para contar por aí o que a voz lhe dissera.

A cabeleira branca do velho músico desfiava-se no ar gelado da manhã de junho, a bengala percutia no chão, o capote preto se inflava ao vento. De tanto andar pelas ruas da cidade, ele conhece todos os buracos e esquinas.

A maioria das pessoas não deu importância à história. Os mais antigos, porém, ficaram aflitos. Essa aflição tem nome e sobrenome: Eleutério Ombra

Em 1755 o padre jesuíta italiano Eleutério Ombra, também ele cego e quase nonagenário, teve uma visão dias antes de São Miguel das Missões ser invadida e destruída pelos exércitos de Espanha e Portugal. Disse ele, durante o cerco, na última missa, que uma nova São Miguel se ergueria perto das nuvens, sobre altas montanhas, com graça e fulgor, após o massacre dos Sete Povos Missioneiros.
  
Todavia, advertiu o sacerdote, uma tenebrosa sombra rondaria o lugar e poderia devorá-lo, porque a injustiça cometida contra as Missões atravessaria os séculos e perseguiria os descendentes de São Miguel.
 
- O território permanecerá a salvo enquanto se mantiver invisível, envolto nas brumas glaciais da ausência.
 
O documento com essa profecia se encontra arquivado na Sociedade Histórica.

Atendendo o pedido de Niebla, coloquei algumas tralhas no Jeep (modelo 1947), junto com o livro de contos do uruguaio Juan José Morosoli, e rumamos para o mosteiro dos Capuchos do Perpétuo Amanhecer.

O superior do convento, cujo nome é, por acaso, Dom Eleutério, nos recebeu com gentileza. Fomos para nossas celas e depois ouvimos sua orientação, na palração noturna do refeitório:

- Já que o mundo vai acabar, segundo informa nosso irmão Juan Niebla, convém que reflitamos um pouco sobre a vida que temos levado. E tratemos de endireitar o torto nesses dias que nos restam (dia mais, dia menos, o mundo acaba pra todo mundo, não é mesmo?) Aqui no mosteiro, como se sabe, cumprimos tarefas também. O senhor Jorge vai trabalhar por esses dias na horta, longe da biblioteca. Vamos deixar os livros, nesses dias, para os irmãos que se envolvem na faina diária de produzir o nosso alimento. Juan Niebla irá ensaiar As quatro Estações Portenhas, de Piazzolla, e nos dará o prazer de ser o solista no concerto de sexta-feira à noite, ao lado do nosso Conjunto Barroco. Os monges, somos 24 no momento, ficaremos muito agradecidos.

Passei os dias lidando na horta, plantei 4 canteiros de alface e outros cinco de feijão e tomate. Alvorada às 5h. Ao retornar para a cela, de noitinha, depois da singela refeição, mal conseguia abrir o livro de Morosoli à luz das velas. Caía logo no sono.

Juan Niebla acalmou-se, dividindo o tempo entre as orações na capela e os ensaios com os músicos. Disse-me Dom Eleutério:

- O Juan anda muito atormentado com a idéia da morte próxima. Mas ele tem boa saúde e pode passar bem dos 100. Fizeram o certo vindo pra cá. Os dias no mosteiro vão serenizá-lo.

Uma madrugada de rebuliço no céu, com raios e trovões, abri a janela. Queria ver as imagens do fim do mundo. Choveu uma chuva espalhada, a terra exalou um cheiro bom. De manhã, abriu um dia azul e lavado como depois do Dilúvio. Voltei pra lida na horta.

Ficamos 15 dias no mosteiro. Não ouvimos explosão, fumaça ou qualquer coisa que indicasse o fim do mundo. Resolvemos agradecer a hospitalidade dos monges e retornamos.

Subindo pelas curvas da estrada de terra e pedra, indaguei de Juan se, afinal, aquela voz foi mesmo real.

- Não sei, não sei, tive sonhos naquela noite. Num deles até minha falecida mãe conversou comigo. Não sei, tudo parecia tão real...

Quando chegamos em Passo dos Ausentes, a vida seguia no costume. Estacionei na praça. Foi bom ver a barbearia aberta, os pássaros funcionando nos galhos. O velho carteiro João Francisco dormia no cubículo do correio. As casas com as janelas abertas, as magnólias em flor nas calçadas, as chaminés fumegando.

O dirigível de Nefelindo Acquaviva estava no mesmo lugar, amarrado no Cedro do Líbano perto da estação de trem.

Palomar Boavista, o astrônomo, cruzou conosco, lançou um olhar de deboche e perguntou:

- Mas então, como foi o fim do mundo? Aqui como podem ver correu tudo bem. Estamos ansiosos por ouvir os detalhes da aventura na próxima reunião da Sociedade Histórica.

Deixei Juan Niebla na casa dele, voltei pro meu canto. Pra distrair e purificar o espírito, comecei um canteiro de couve.
 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sótão, porão e assombração

Jorge Adelar Finatto

Vale do Olhar. photo: jfinatto
 

Leitores costumam perguntar se os textos que escrevo sobre Passo dos Ausentes têm um fundo de realidade ou são apenas páginas mal ajambradas de ficção.
 
Suspeitam que os Campos de Cima do Esquecimento são um território mítico, habitado por seres imaginários que brotam de uma mente que funciona aquecida à beira do fogão a lenha e que se deleita no estranhamento.

Passo dos Ausentes é um lugar abandonado ao sul do mundo, que nem sequer está no mapa do Rio Grande do Sul. Somos poucos. Somos invisíveis. Temos uma história que começa com a destruição dos Sete Povos das Missões.

Algumas famílias de índios guaranis e uns poucos jesuítas fundaram o povoado. As casas eram de pau a pique e barro, cobertas com capim-santa-fé. Vieram fugindo do massacre movido contra os missioneiros por espanhóis e portugueses, em 1756, durante a Guerra Guaranítica, de tristíssima memória.

Depois dos fundadores aqui chegaram pessoas de outras etnias (africanos, judeus, árabes, ciganos, etc.),  todas tendo em comum uma história de violência e perseguição.

Quem se importa com isso, raro leitor? Nem o governo tampouco, que se nega ao reconhecimento político da cidade (por sem-razões que maltratam a inteligência e a sensibilidade das pedras).

E assim vamos vivendo. Os jovens cedo vão embora em busca de um futuro. Os vetustos resistem. A solidão nos devora e nos une. Mas não perdemos tempo com lamentações, porque amamos a vida assim mesmo com suas trampas e lágrimas.

A cidade existe e, apesar de tudo, nela ninguém passa necessidade, pelo contrário. Os serviços básicos nos orgulham. A estação de trem está abandonada desde 1950. Mas nela está localizado o famoso Café da Ausência onde se toma o melhor café colonial da serra gaúcha.

A Sociedade Filosófica, Literária, Histórica, Geográfica, Artística, Antropológica, Astronômica, Geológica, Esportiva, Recreativa e Antropofágica é nosso órgão de governo e deliberação.

Não temos aviões, mas temos alguns balões e até dirigíveis. Lampiões de gás alumiam as ruas esquecidas. Somos poucos.

As nuvens são nossas testemunhas.

Ingmar Bergman esteve aqui em 1958 após filmar Morangos Silvestres. Fez amigos, como não? Ficou três meses. Dizem os mais velhos que chorou na hora de partir, do mesmo modo que Oscar Wilde, conforme aqui já relatado. Disse que ia voltar, mas isso não aconteceu.

A casa que o cineasta sueco ocupou, com a frente voltada para o Contraforte dos Capuchinhos, está como ele deixou. Com vários de seus pertences, inclusive a câmera que ele utilizava e três latas de filmes filmados nessas montanhas. Ninguém toca em nada. É patrimônio espiritual.
 
Quem dera tudo isso não passasse de um delírio de uma mente carcomida pela invenção! Uns transportes d'alma, como diz o nosso poeta Farandolino Brouillon. Mas não, ai de nós.
 
Ficção, estimado leitor, é o que se vive na duríssima realidade.  
 
Passo dos Ausentes, território de gentes e voláteis falantes, perdido nas álgidas alturas dos Campos de Cima do Esquecimento. Esta é a cidade. Somos invisíveis.

Os fantasmas andam sobre os telhados,  sentam nas soleiras das velhas casas. Caminham pelas ruas e praças com suas roupas antigas, suas mantas, seus olhares distantes, seu silêncio. Aqueles que gostam de ler e filosofar passam as tardes no Café da Ausência, conversando entre si sem dizer palavra e mirando o Vale do Olhar.
 
Este é o mundo onde vivo e escrevo, raro leitor. Recolho as histórias dos seres que povoam esse pequeno universo. Sou apenas o confidente de um mundo em extinção e seus habitantes.

Escritos disparatados em que almas do outro mundo conversam com os vivos, afirmam com galhofa os doutos e os de pouca fé. Pois é o que eu digo: todas essas criaturas pertencem ao mundinho que é, afinal, toda a Terra.
 
Sou apenas o interlocutor, o escrevedor, a antena torta que capta essas vibrações. Se não resgatar esse mundo da sombra e do oblívio, quem o fará?
 
O único personagem de ficção que povoa essas histórias é o autor dessas mal traçadas.

O inverno é feito de espessas neblinas, vultos, remorsos, folhas secas, memórias. E esperança. Sim, esperança. E uma pitada de canela no chá de maçã.

O que não está escrito não existe. É o que me dizem as estrelas no seu infinito, é o que eu sinto vivendo no farelo das horas. Como se alguém se importasse com essas migalhas. 
 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Por quem choras, Maria Filipa?

Jorge Adelar Finatto 

photos: j.finatto. Amsterdam


Por quem choras, Maria Filipa?

Quem mastigou teu coração e depois cuspiu no fundo das águas?

Estás sentada ainda à beira do canal, na tarde de outono, em Amsterdam?

Me olhaste com os olhos mais tristes do mundo. Passageiro efêmero no barco casual, numa cidade distante e povoada de ausência, eu nada fiz naquela hora.

Eu estava de passagem entre um cais e outro, um canal e outro, um deserto e outro.
 
Devia ter me jogado nas águas turvas da tarde de domingo. Nada era mais importante do que ir ao teu encontro.

photo: j.finatto.

Devia ter ficado o resto do dia contigo, em silêncio, ali naquele banco, sem nada esperar. Exceto talvez dizer e receber um pouco de consolo.

A cara de anjo, o capuz azul da solidão, os olhos mais tristes do mundo, me olhaste.
 
Da minha solidão eu te acenei.
 
Foi tudo que fiz, egoísta. Por um instante tuas lágrimas diminuíram e pude perceber que teus olhos me seguiram. Depois tua cabeça caiu sobre o colo outra vez, onde as mãos pálidas repousavam.

O barco sumiu sob as pontes atravessadas pelos ventos de novembro. Eu dentro dele.
 
Entre dois cais, entre dois nadas.
 
photo: j.finatto
 
 
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Texto revisto, publicado antes em 16 de outubro, 2012.

domingo, 22 de junho de 2014

O Lobo Antunes perdido

Jorge Adelar Finatto

 
E aqui ando eu, todo arrepiadinho, a esgalhar uma crônica. Estamos em janeiro, este lugar é frio como o caraças, tenho as mãos geladas. As pernas também. Não despi o sobretudo. De vez em quando o telefone aos gritos: não atendo. Se calhar morri.

António Lobo Antunes, Quarto Livro de Crônicas, p.  325, Publicações Dom Quixote, Portugal, 2011.

Tem gente que passa a vida a ler livros. Eu não alcancei essa ventura. Sempre li quando pude, nos interstícios entre o trabalho, o cuidado da família, os estudos, a leitura de livros técnicos a que a profissão obriga. 
 
Li obras importantes enquanto levava os filhos pequenos na pracinha. Meu filho mais velho aprendeu a andar de bicicleta enquanto eu lia A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e Angústia, de Graciliano Ramos. A filha brincava na areia com baldinho e pá enquanto eu lia O Nome da Rosa, de Umberto Eco.
 
Inventava tempo para ler. Valeu a pena, e como! As horas mais intensamente vividas foram essas com os filhos e os livros.
 
Levo sempre um livro comigo. É um antídoto para o tédio e a angústia das salas de espera, das filas, dos aviões. E uma boa companhia no território republicano dos cafés. Raramente sento à mesinha sem um livro.
 
Por conta desse hábito, sofri um duro prejuízo há uma semana. Fui a um café na cidade de Gramado. Antes de entrar resolvi pagar uma conta no caixa-eletrônico do banco. Coloquei o livro sobre a máquina enquanto manuseava o cartão e o documento. Pendurei ao lado o guarda-chuva (chovia bem naquele sábado, 14/6/14). Fiz o pagamento e saí.
 
Sentei à mesa perto da janela, um vasinho de violeta ao centro, pedi um cappuccino. O costume. No instante em que fiz o gesto de abrir o livro, o quinto volume das crônicas do António Lobo Antunes (que trouxe de Lisboa, não existe no Brasil), me dei conta de que o esquecera na agência bancária.
 
Abandonei o cappuccino fumegando na xícara e me fui rua afora, apressado no frio e na chuva,  com o coração aflito. Inútil. O livro não estava mais lá. Não havia ninguém na agência (fechada no fim de semana).
 
Nos poucos minutos que durou o meu esquecimento, alguém tomou o Lobo Antunes e escafedeu-se. Aquilo estragou meu dia. Durante a semana, fiz contatos com o banco para saber se a criatura tinha devolvido o livro. Não.
 
Em suma, perdi o Lobo Antunes que busquei do outro lado do Oceano Atlântico. Não tenho sentimentos negativos em relação a quem me levou o livro, mas também não vou testemunhar a seu favor no Juízo Final, pelo contrário. O mínimo que lhe desejo é um judicioso purgatório.
 
Como diz o ditado, mais tem Deus a dar que o diabo pra tirar. Trouxe na mala, também, o volume 4 das crônicas. Isso serve de algum consolo. Tenho lido vários livros nos últimos tempos, mas sempre, no intervalo entre uns e outros, pego na estante as crônicas do Lobo.
 
Criou-se entre mim e esse autor - um animal solitário na floresta de palavras a percorrer iluminadas trilhas e a descobrir cálidas fontes - um encantamento, uma cumplicidade, que só a literatura consegue explicar. E nisso ninguém toca.
  

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O aborto e o Papa

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto, janeiro, 2010
 
O presente artigo foi escrito e publicado em março de 2010. Pelas questões que suscita, republico-o, acreditando que vale a reflexão sobre um tema tão importante quanto delicado. Observo que em dezembro de 2012 o Uruguai aprovou a lei que autoriza a interrupção voluntária da gravidez no prazo de até doze semanas de gestação ou 14, em caso de violação. Foi o segundo país a descriminalizar o aborto na América Latina; o primeiro foi Cuba.
 
A frase na parede de um prédio público, quase à beira do Rio da Prata, me fez parar sob um sol forte, a poucas quadras do belo e tradicional Teatro Solis, em Montevideo, em janeiro passado.
 
O Uruguai é um país de gente que lê, opina, discute, participa. O que me motivou a fotografar?
 
Primeiro, o argumento. Se o Papa fosse mulher, uma papisa, portanto, a questão do aborto teria mesmo outro tratamento? Será que a compreensão do problema do aborto é uma questão só de gênero?
 
Segundo, eu não tenho opinião definitiva sobre o assunto e não faço julgamento moral a respeito. O que eu queria é entender.
 
O grafite montevideano expressa a opinião de milhões e milhões de mulheres no mundo inteiro.

O aborto é, com efeito, uma questão de gênero. Mas não só. Gerar ou não uma vida no próprio ventre é, em boa medida, uma decisão da mulher, por diversas razões.
 
A rejeição da gravidez ou a omissão dos homens em relação ao fato é uma delas.
 
A legalização do aborto é uma das faces de um problema maior, mas está longe de ser a principal.
 
A afetividade, a sexualidade e a responsabilidade pela geração da vida estão intimamente ligadas. Fazer sexo, sexo casual, é diferente de fazer amor.
 
A indústria da propaganda, em geral, separa o corpo e o sexo do resto. Existem corpos lindos, mas não existe espírito nesses corpos.
 
Corpos maravilhosos de mulheres são utilizados para vender qualquer coisa. O mesmo também acontece agora com corpos masculinos.
 
A erotização começa na infância, através dos comerciais, filmes, programas, séries e novelas de televisão.
 
Coisas como compromisso nas relações, autoestima, estima e respeito pelo outro são tratadas de maneira residual.
 
Em vários países o aborto foi legalizado.
 
No Brasil, a discussão permanece e sua prática ainda é crime, salvo nos casos em que não houver outro meio de salvar a vida da gestante e quando a gravidez resultar de estupro (desde que precedido de consentimento da gestante ou de seu representante legal).
 
Dizem os defensores da legalização que mulheres pobres, que não querem mais ter filhos, muitas vezes são levadas a fazer aborto em condições sub-humanas, longe do sistema público de saúde, com elevado índice de letalidade, enquanto mulheres com boas condições econômicas pagam por procedimentos particulares e recebem melhor atendimento.
 
Informação do Ministério da Saúde estima em 1,4 milhão de abortos clandestinos no Brasil por ano, conforme dado colhido do site Themis, Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero, de Porto Alegre.
 
Dizem também os defensores do aborto que a mulher tem o direito de dispor do próprio corpo.
 
Os que são contra a autorização afirmam que a mulher não pode interromper uma vida que já não lhe pertence, mas é de outra pessoa depois da concepção.
 
Eu não sou especialista no assunto, mas também não sou hipócrita.
 
O aborto é um tema a ser tratado por toda a sociedade, mulheres e homens.
 
Tratado, sim, mas num espectro mais amplo do que a mera legalização, que, pelo que vejo, acabará acontecendo.
 
Está na hora de pensar a sexualidade humana de modo mais responsável, penso eu. Isso é mais do que simplesmente distribuir milhões de camisinhas (preservativos) no carnaval e achar que está tudo certo (como órgãos de saúde pública costumam fazer no Brasil).
 
Este grafite na parede de um edifício, em Montevideo, sob o sol escaldante do Rio da Prata em janeiro de 2010, me fez parar e tentar entender. 
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Texto atualizado, publicado anteriormente em 9 de março, 2010.

terça-feira, 17 de junho de 2014

A canção dos guarda-chuvas

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

Um guarda-chuva não é só um guarda-chuva. Não é simplesmente uma armação de varetas móveis coberta de tecido, conforme nos informa o Dicionário Aurélio. Aqueles que, como eu, têm o guarda-chuva em alta estima sabem do que estou falando.

Estava retornando a Passo dos Ausentes, vindo de Porto Alegre. Passei pela serrana Canela, que é o caminho para os Campos de Cima do Esquecimento. As ruas de cidade estavam povoadas de guarda-chuvas. Costuma ser assim no inverno. Grandes e coloridos, os chapéus-de-chuva canelenses habitam o ar pendurados em fios.

Sob o céu azul uma multidão de umbelas. Um regalo para os olhos e o coração.

photo: jfinatto, 9/6/14

Decidi parar e tomar um café. E também photografar, antes de seguir viagem.
 
Os guarda-chuvas estão entre os objetos mais belos já construídos pelo homem. A sua forma e a sua funcionalidade são irretocáveis. Não por outra razão, sofreram pouquíssimas modificações ao longo dos séculos.

Os exemplares mais antigos remontam a mais de 3 mil anos, na Mesopotâmia, espaço geográfico correspondente hoje ao Iraque e cercanias. Ali, nos vales dos rios Tigre e Eufrates, surgiram os primeiros.

photo: j.finatto, 9/6/14
 
Eu, quando sinto o banzo se acercar de mim, lanço mão do meu guarda-chuva. O guarda-chuva é um amigo fiel e um bom confidente.

Poucos sabem, mas o fato é que, com o tempo, o guarda-chuva desenvolve sentimentos e até uma alma, tornando-se um ser amoroso e devotado.
 
photo: j.finatto, 9/6/14
 
Não poucas vezes os guarda-chuvas desagravam seus donos dando judiciosas pancadas na cabeça de indivíduos maus.

Quando o vento soprou, os guarda-chuvas fizeram uma animada dança, balançando as umbelas. Do toque do vento dedilhando as varetas brotou uma estranha canção que me fez sonhar com um lugar misterioso.

Um guarda-chuva verde se descolou e saiu voando rua afora. Dobrou a esquina e prosseguiu rumo ao horizonte. Entrou em órbita em torno da Terra, misturando-se a todos os outros guarda-chuvas perdidos e abandonados do mundo.

Uma legião de umbelas forma um luminoso colar que abraça o planeta e é visível nas noites claras de junho, quando o frio e a solidão avançam sobre as horas.
 

domingo, 15 de junho de 2014

O apanhador de estrelas

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
Escrever é estar vivo. Compartilhar isso com o outro é uma forma de claridade . Navego pelo universo a bordo do calepino silencioso, sem sair do lugar. O texto no computador vem depois da viagem.

Esse sentimento aconteceu durante uma bruta falta de luz que lançou a casa e toda a rua e talvez o bairro todo no mais profundo breu.
 
Saí pelos armários e gavetas às cegas, apalpando em busca de coisas capazes de substituir a luz elétrica que desaparecera, pra continuar as anotações que estava fazendo.
 
Me senti um apanhador de estrelas, perseguindo velas, fósforos, lanternas, isqueiros, lamparina a óleo, qualquer coisa que pudesse iluminar a escuridão que me cercava naquele momento.
 
Não tenho apreço pelo lado escuro. O breu das almas, o breu da vida, me desacostuma da alegria. Gosto de claridades.
 
A escuridão me desabriga.
 
Por fim, encontrei uma vela de tamanho razoável com força de moer o escuro. Caderno à mão, retomei a busca de extrair o incomunicável, o desconhecido, o lado escuro dentro de mim, na esperança da rara luz que verte da palavra.
 
O homem é palavra.

O que é um texto, raro leitor, senão um telescópio mirando a espessa névoa dos corações? Quem, senão a palavra, pode vasculhar esse vasto território, dar-lhe alguma voz, forma e sentido?

Quem, senão a palavra, pode nos valer perante nós e o outro?
 
Palavra sem esquecer de ser silêncio. Palavra e silêncio.
 
Na noite calada, o apanhador rumina o escuro, visita distâncias, ruínas, abraça ausências, faz apontamentos, cultiva paciência, estuda as anotações de outros exploradores do universo, ajusta as lentes do seu instrumento. Deseja querer.

É noite de outono, frio, beira do inverno. Viajo pelo cosmos, visito o brilho azul de estrelas que já se apagaram, desvelo sombras inumeráveis, vou à procura do que é e respira, quero conhecer um pouco esse mistério.

O apanhador espreita a noite infinita do mundo em busca de um sinal, um movimento, uma luz generosa e tênue que ilumine os aposentos interiores da casa chamada ser humano.

Eis que a calma luz penetra aos poucos pelas frestas, por debaixo da porta, através do postigo. A luz suave e benigna. 
 
Palavras criam asas, inauguram o vôo.
 
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Texto revisto e atualizado, publicado antes em 9 de janeiro, 2013.

sábado, 14 de junho de 2014

Gosto de saber

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto


Gosto de saber
que num dia longe
-  agosto 1986 -
alguém retirou
da Biblioteca Municipal
        e talvez leu
o livro que escrevi
há tanto tempo

os poemas
         agradecem
ao leitor
a luminosa fuga
do claustro

o nome gravado
esferograficamente
na ficha de leitura
que hoje descubro

a ele ofereço
dedico e consagro
        essa tarde
                 inverno
julho
1995

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Anne Frank, 85 anos, para não esquecer

Jorge Adelar Finatto

Anne Frank. Fonte: Wikipédia
 
Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929 e hoje estaria completando 85 anos. Uma entre as inumeráveis vítimas do nazismo alemão, morreu de tifo entre o final de fevereiro e início de março de 1945, aos 15 anos, no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, depois de ter passado por Auschwitz (Polônia), onde sua mãe perdeu a vida. Os corpos de Anne e de sua irmã Margot foram jogados numa vala comum e nunca foram encontrados.
 
De 12 de junho de 1942 (quando completou 13 anos) até 1º de agosto de 1944, ela escreveu o seu famoso diário, publicado postumamente. Nele relata o dia-a-dia no Anexo Secreto de uma antiga casa, na beira de um canal, em Amsterdam, onde viveu escondida com sua família e outras 4 pessoas, entre 6 de julho de 1942 e 4 de agosto de 1944. Os afundados no esconderijo tentam desesperadamente escapar da perseguição movida contra os judeus.
 
Um delator, cujo nome até hoje não se sabe ou se sabe e não se divulga por razões obscuras, entregou-os aos agentes sanguinários de Hitler. O Diário de Anne Frank é um documento que todos deveriam conhecer. Para saber como foram aqueles dias. Para jamais esquecer.
 
Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda.
(O Diário de Anne Frank, 12 de junho de 1942)*

Um domingo de outono em Amsterdam, fim de novembro, 2011. O vento corre sobre os telhados e canais, enquanto a garoa cai gelada. O fato de ser domingo, muito frio e úmido, não afasta as cerca de 200 pessoas que aguardam na fila para entrar na casa (hoje museu) onde viveu Anne Frank nos últimos dois anos de sua vida, antes de morrer no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha. Estou no fim da fila. Poucos minutos depois outra extensa fila se forma atrás de mim. São pessoas de todas as idades e nacionalidades.

Anne escreveu nesta casa o seu diário, no tempo em que aqui esteve mergulhada com a família no Anexo Secreto, durante a ocupação nazista da Holanda, na Segunda Guerra Mundial. Pelo fato de serem judeus, os Frank, como milhões de outros, foram implacavelmente perseguidos pelo nazismo alemão. Em 1933, haviam se mudado da Alemanha, seu país de origem, para Amsterdam, a fim de fugir do regime de Hitler.

Otto Frank construiu este refúgio na parte dos fundos do imóvel onde funcionava sua empresa, situada na rua Prinsengracht, 263, à beira de um canal. Fez isso prevendo o dia em que teriam de mergulhar (sumir) para não ser presos e assassinados. Em 6 de julho de 1942, trouxe a família para cá. O esconderijo foi chamado de Anexo Secreto.

Deixaram para trás o apartamento onde viviam ele, a esposa Edith e as duas filhas, Anne e Margot. Na parte da frente da casa continuou o negócio, comércio de alimentos, cuja propriedade Otto passou para o nome de outros (os judeus não podiam exercer atividade empresarial), embora, na prática, continuasse a dirigi-lo. Mais quatro pessoas juntaram-se a eles no anexo. Amigos fiéis se encarregaram de levar alimento e outros produtos ao grupo. Com o passar dos dias, tudo foi escasseando.
Diário de Anne Frank

Em 4 de agosto de 1944, o esconderijo foi denunciado (nunca se soube quem foi o delator ou se soube e não se divulgou). As oito pessoas foram presas, levadas para campos de concentração e todos, com exceção de Otto, morreram. Anne e sua irmã morreram de tifo no campo de Bergen-Belsen no fim de fevereiro ou em março de 1945, poucos dias antes da libertação deste campo. Foram enterradas em valas comuns como os outros.

Além das irmãs Frank, outras 28 mil pessoas perderam a vida no campo naquele período, em função da fome, do frio e das doenças. A maioria dos prisioneiros, nos últimos seis meses, era de mulheres. Edith morreu em Auschwitz-Birkenau. Otto sobreviveu a Auschwitz. Em 1947, publicou o diário de Anne, que havia sido encontrado na casa depois da invasão dos nazistas e da prisão dos oito. Anos mais tarde, o prédio transformou-se na Casa de Anne Frank, museu que guarda a memória daquelas vidas e daquele tempo terrível.
 
Autenticidade
 
Houve quem duvidasse e ainda duvide da autenticidade do diário. Argumentou-se que uma menina entre os 13 e os 15 anos não teria conhecimento nem maturidade suficientes para escrevê-lo com tal profundidade. Na apresentação do livro, informa-se que após a morte de Otto Frank, em 1980, aos 91 anos, os documentos (diário e outros papéis que o integram) foram entregues ao Instituto Estatal Holandês para Documentação de Guerra, em Amsterdam. Consta que o referido instituto mandou fazer uma profunda investigação a respeito, a qual concluiu por autênticos os documentos.

O texto passou, é certo, por revisões gramaticais, ortográficas e de estilo antes da publicação. Houve alguma seleção do que seria publicado, o que, em princípio, é natural: apenas uma parte do que se escreve se transforma depois em livro.

Realmente chama a atenção que uma pessoa tão jovem tenha escrito essas páginas. Todavia, cada indivíduo é um mundo e talentos há que se revelam muito cedo. Por outro lado, é sabido que o sofrimento acelera ferozmente o amadurecimento do ser humano, que em condições tais queima etapas e se vê obrigado a antecipar uma visão realista do mundo.

Sobre o diário manifestaram-se com admiração pessoas como o ex-presidente americano John F. Kennedy, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela e o escritor italiano e ex-prisioneiro de Auschwitz Primo Levi.
O testemunho

Para mim, é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo ser transformado aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão. Enquanto isso, devo me agarrar aos meus ideais. Talvez chegue o dia em que eu possa realizá-los! (Diário, 15 de julho, 1944)

Páginas do diário. Fonte: Fundação Anne Frank
  
O relato de Anne Frank é, antes de tudo, vivo. Prende o leitor pela forma como é construído e pela matéria-prima com que trabalha. Anne conta como eram os dias no Anexo Secreto, as angústias, os conflitos, as perplexidades, tristezas, pequenas alegrias, esperanças e o medo sempre à espreita.

O texto surge como exercício de liberdade (a única possível naquelas condições) e resistência num ambiente absolutamente adverso. O confinamento de mais de dois anos num espaço pequeno, a convivência difícil de pessoas fragilizadas física e psiquicamente, o cerceamento da individualidade e dos sonhos, o desespero, a ausência de direitos elementares, tudo isso faz do diário um documento único.
 
O testemunho de Anne Frank conta uma história que deverá ser lembrada para sempre. Vale para todos nós. O nazismo continua atuante, seja através de organizações clandestinas, seja em coisas como o racismo e no ódio aos direitos humanos.

Existem ainda os que acreditam na superioridade de algumas raças, nações e culturas. Esse tipo de gente acha que os 'inferiores' precisam ser submetidos a qualquer custo e não economiza esforços nesse sentido.

Contra a barbárie aniquiladora do outro precisamos estar atentos e lutar.

A palavra de Anne Frank, no seu apelo à dignidade da vida em contraste com a brutalidade diabólica e insana do totalitarismo, nos ajuda a refletir e a nos posicionar. E, sobretudo, a não esquecer os crimes cometidos contra a humanidade.

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*O Diário de Anne Frank, tradução do inglês para o português de Ivanir Alves Calado, Edições BestBolso, 11ª edição, Rio de Janeiro, 2010.

Fundação Anne Frank, Basel, Suíça
http://www.annefrank.ch/ 

Casa Museu Anne Frank, Amsterdam, Holanda
http://www.annefrank.org/en/
 
Texto atualizado, publicado antes em 16 de fevereiro, 2012.

Leia também:

Memórias de adolescência (depoimento de Nanette Konig, colega de Anne Frank):
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,memorias-de-adolescencia-imp-,749200

terça-feira, 10 de junho de 2014

O homem que roubou o sol

Jorge Adelar Finatto

pintura: Maria Machiavelli


Um homem de coração triste pode entristecer a vida de muita gente.
O sol está preso no sótão da casa do homem sem esperança.

Em uma manhã de infinita tristeza, ele ergueu os braços, apanhou o sol com as duas mãos, como se fosse uma laranja, e o levou para o trevoso lugar. Desde então, não mais o devolveu para a rua onde mora.
 
- Nunca, nunca mais vou soltar o sol -, disse a um grupo de meninos e meninas que foram até a frente de sua porta pedir a libertação do astro-rei.

- Ninguém mais vai ver a luz nem receber calor nessa rua.
 
À noite, os vizinhos observam a estranha claridade que escapa pela claraboia. Raios iridescentes giram entre si, perpassam o espaço e vão em direção ao vazio do universo.

Nenhum, no entanto, fica para iluminar aquele pequeno lugar mergulhado na sombra.
 
O homem triste tem uma pedra enorme, pesada e fria, no coração. Uma lápide com uma inscrição feita numa estranha, obscura língua que ninguém entende. Ele não consegue mais falar nem sentir.

O roubo do sol foi um ato de desespero, de revolta com coisas más que aconteceram na sua vida. Ao agir dessa maneira, privou a rua e seus habitantes de luz, calor e alegria.
 
É preciso trazer urgentemente de volta o homem triste para o convívio da rua, antes que tudo em volta dele congele, antes que os corações esfriem, antes que desapareça a vida daquele lugar.
 
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Pintura: Maria Machiavelli, artista plástica em Passo dos Ausentes.
Texto revisto, publicado antes em 12 de setembro, 2011.

domingo, 8 de junho de 2014

Territórios ocupados

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto. Porto Algre, 07/6/14. Praça Gustavo Langsch
 

Um enclave de luz e cor habita entre os edifícios da cidade gris.
 
O exército de inumeráveis folhas de outono tomou conta do lugar. As árvores povoam o iluminado território, estendendo os braços pela extensão do terreno acidentado da Praça Gustavo Langsch em Porto Alegre.
 
photo: j.finatto
 
O cenário das outonais operações é uma área oblíqua, íngreme, colina quase a pique engastada na parte alta do bairro Bela Vista. Ali se espalham as folhas pelo chão úmido.

Dali se descortinam ao sul os morros que cortam a cidade e caminham ondulantes em direção ao Rio Guaíba.

photo: j,finatto

A praça é um território ocupado em armas pelas forças da beleza, da harmonia e do canto dos pássaros ao amanhecer.

Por ela já não se ouvem os gritos e barulhos da cidade atordoada e vencida que a cerca.

Na tarde de sábado o que vale é percorrer seus caminhos e trilhos dourados.
 
photo: j.finatto
 
Se ao acaso da praça acontece o acaso do sol entre as nuvens, a claridade derrama-se em mil tons sobre as copas. Alumbramento dos sentidos.

O ar respira amarelos e ocres.
 
O silêncio é ferrugem.
 
photo: j.finatto
 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Os buquinistas de Paris

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Catedral de Notre-Dame

Jamais me senti solitário nas margens do Sena.*
Ernest Hemingway

Um passeio interessante, em Paris, pra quem gosta de livros, é sair a pé pelas margens do Sena. Gosto de Paris no outono e começo a caminhada na altura da Notre-Dame em direção ao Museu do Louvre, com tempo para ir parando nas bancas de livros dos buquinistas (bouquinistes), os conhecidos vendedores de livros usados.

photo: j.finatto

Eles são muitos e estão instalados ao longo dos muros nas margens do rio, com suas bancas de cor verde. Dizem alguns que estão ali desde o século XVIII.

photo: j.finatto

Os alfarrabistas da beira do Sena fazem parte do cartão-postal da cidade. Seu pequeno comércio de livros velhos, cartazes e souvenirs habita a paisagem parisiense e se apresenta ao olhar atento ou distraído de qualquer pessoa, nativo ou turista.


photo: j.finatto

Em geral são gentis e há até aqueles que gostam de uma conversa à toa, dessas que fazem a gente se sentir em casa. Outros não toleram aproximações e censuram com veemência quem pára para tirar uma fotografia do local.

photo: j.finatto

O que se procura no buquinista? Ora, vamos ali buquinar, verbo que, no Aurélio, significa procurar livros em sebo, catar obras literárias, muitas delas fora de comércio. Uma busca que, às vezes, rende preciosidades. Um bouquin (livro) raro, talvez.

photo: j.finatto

Numa caixa encontrei e comprei um pequeno e encantador exemplar do livro Une Saison en Enfer (Uma estação no inferno), de Arthur Rimbaud, publicado em 10 de fevereiro de 1945, pela Mercure de France, trigésima primeira edição.
 
As 90 páginas estão já um tanto amarelecidas, mas em bom estado. A capa está coberta por um delicado e fino plástico incolor. O antigo proprietário tinha um carinho especial pelo volume. Sabe-se lá as estantes que percorreu até chegar no caixote verde. Um achado.

photo: j.finatto

Por essas e por outras, vale a pena passar uma tarde na beira do Sena, sem pressa, intercalando a missão de explorador literário com um cappuccino e uma baguete, na mesa de um aconchegante café, na calçada de preferência, se não fizer muito frio.
 
Como diz Hemingway, não dá pra se sentir só nas margens do Sena.

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*Paris é uma festa. Ernest Hemingway. Tradução de Ênio Silveira. Editora Bertrand Brasil, 15ª edição, 2011, Rio de Janeiro.
Texto revisto, publicado antes em 03 de maio, 2012.

terça-feira, 3 de junho de 2014

As frentes frias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Vale do Olhar. 02/6/14
 

Em meio à difícil e, ao mesmo tempo, doce faina do pensar, sentir, ler, escrever, photografar, parei um momento para ouvir música instrumental. Foi a conta de ser feliz por um momento. Sentei na cadeira de palha perto da janela, fechei os olhos e deixei o mundo girar.

Uma vez, há muitos anos, perguntaram à atriz Tônia Carrero se ela se considerava uma pessoa feliz. Eu estava de passagem pela sala, um segundo, quase saindo de casa rumo à obrigação daquela tarde.

O programa de variedades televisivas não tinha para mim qualquer interesse, fosse pelo conteúdo, fosse pelo horário (início da tarde).  Enquanto bebia o último gole do cafezinho, ouvi de Tônia a seguinte resposta, mais ou menos assim: Eu sou feliz algumas vezes durante o dia.

Fiquei com aquela declaração da atriz na cabeça, dizendo pra mim mesmo que acabara de ouvir uma generosa síntese existencial. Ora, se até Tônia Carrero tem seus momentos de não-felicidade, o que dizer de nós, simples mortais, distantes dos palcos iluminados desta vida.

Isso foi o mesmo que dizer: as dificuldades existem para todos, e toda a gente pode ser feliz em algum momento do dia.

Em outra feliz percepção filosófica (ou mero insight de livre-pensador, pouco importa) sentenciou o cantor e compositor Odair José ao cantarolar como quem não quer nada (e dizendo muito): Felicidade não existe; o que existe na vida são momentos felizes.

Pois bem. Os passarinhos estavam comendo suas frutas na varanda do escritório. O Vale do Olhar, à distância, entre as montanhas, respirava azuis e verdes.
 
Parei para sentir, imaginar e viajar nas estradas da música e da paisagem. Fazia um frio danado na segunda-feira, o frio glacial que faz nos últimos 20 dias em Passo dos Ausentes, e que vem lá do fim do mundo, um frio polar enregelante que ajuda a pagar antecipadamente os pecados, os malfeitos, a limpar a ficha diante do Eterno.

Porque tem uma hora que o cristão precisa parar, sentar e ouvir música perto da janela que dá para o vale. Precisa sair do mundo, visitar pensamento e sentimento. Ser o espírito que, afinal, também se é.

A hora em que se necessita ficar longe de toda gente barulhenta, de todo ruído. Sim, sob pena de padecer eternamente, sem remissão, longe da inadiável transcendência, da doçura, do perdão.

Que não nos falte nunca a capacidade de voar sem levantar os pés do chão.

Porque há uma hora na vida que se tem de esquecer o absurdo, e sentar numa tarde de outono para olhar o vale e ouvir música, que é um jeito muito particular de habitar o sublime.
 

domingo, 1 de junho de 2014

Estamos aí

Jorge Adelar Finatto
 
Os Cariocas. foto de Renata Massetti. a partir da esq: Neil,Severino,Elói,Fábio
 
 
Tem coisas que não se perdem. Não desaparecem no tempo. Vivem dentro de nós. Nos fazem bem e por isso queremos que fiquem sempre por perto. Viram sentimento.
 
O simples fato de existirem torna a vida melhor. Faz mais leve o nosso sofrer. Empurra a tristeza e a fuligem das horas pra depois.
 
Essas impressões me vêm após ouvir o cd Estamos aí, do conjunto Os Cariocas. Comprei na semana passada numa livraria em Porto Alegre. Coloquei pra tocar aqui em Passo dos Ausentes, nas tardes do escritório. Uma revelação.
 
Em sua décima formação, Os Cariocas são uma jóia da nossa música. O grupo vocal e instrumental gravou pela primeira vez em 1948. Severino Filho (1ª voz, piano e teclado) é o único que esteve em todas as formações. Os outros são: Elói Vicente ( 4ª voz, solos, violão e guitarra elétrica), Neil Teixeira (3ª voz, baixo elétrico e baixo acústico) e Fábio Luna (2ª voz, bateria, percussão e flautas). 
 
A maravilha deste trabalho, lançamento da Biscoito Fino, nos vem através de divinas harmonizações, em arranjos que beiram a perfeição (considerando que ela, a sempre buscada perfeição, não existe em nenhuma forma de arte).
 
Delicado, sofisticado, o disco é um sopro de renovação no ambiente musical do Brasil. Renovação? Sim, renova ao trazer uma releitura de notável qualidade de canções clássicas. São elas: Madame quer sambar (Joyce Moreno, Roberto Menescal e Carlos Lyra), Eu e a brisa (Johnny Alf), Januária (Chico Buarque), Que maravilha (Jorge Ben e Toquinho), Marina (Dorival Caymmi), Vera Cruz (Milton Nascimento e Márcio Borges), A noiva da cidade (Francis Hime e Chico Buarque), A felicidade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), O amor em movimento (Chiquito Braga e Ronaldo Bastos), Estamos aí (Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Regina Werneck).
 
O disco conta com a participação de convidados especiais como Chico Buarque, Chiquito Braga, Felix Junior, Francis Hime, Hernane Castro, João Carlos Coutinho e Leny Andrade. 
 
Impressiona, desde logo, a felicidade que a gente sente ao ouvir Os Cariocas. Algo como andar de bicicleta pelas faixas do arco-íris. Percebemos que é isso que eles também sentem ao tocar e cantar. São de tirar o fôlego os arranjos.

Eles conseguem, por exemplo, fazer uma interpretação requintada e diferente de Que maravilha. Pra não falar de Januária, com Chico cantando com um fio de voz quase a capela. E o que dizer do sentimento em Vera Cruz? Todos os arranjos do disco são brilhantes e inesquecíveis.
 
No meio de uma realidade tão triste, pesada, violenta e trágica como a brasileira, onde linchamentos diários convivem com alta corrupção, Os Cariocas vêm nos lembrar que um outro Brasil existe, um país de alma encantadora (embora encabulado e em absoluta minoria neste momento).
 
O Brasil das pessoas trabalhadoras, sensíveis, criativas e honestas, que dão o seu melhor naquilo que fazem. Pessoas simples (a grandeza está na simplicidade), capazes de nos emocionar e nos tirar do fundo do buraco negro em que estamos vivendo.

Só por isso (ou por tudo isso) este disco merece figurar entre os mais importantes editados no Brasil nos últimos anos.
 
Os Cariocas nos devolvem um pouco do muito que perdemos em poesia, beleza, sossego e esperança num tempo melhor e mais feliz (pra todos) aqui na Terra de Vera Cruz.

Eu não acreditava que isso ainda fosse possível. Mas, com sua arte, Os Cariocas mostram que sim, ainda dá pra sonhar com o paraíso.