domingo, 30 de março de 2014

O prisioneiro da Ilha de Patmos

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

 
A rua São João era a nossa Ilha de Patmos. Ali todos eram prisioneiros de um tempo e de um lugar e o nosso destino era comum: afundar no esquecimento.

Exilados do mundo, todos alimentavam o sonho secreto de um dia fugir. Fugir para sempre, para qualquer lugar, ainda que fosse o último ato da vida.

A família espiritual de A eram os livros. Os poucos que havia na casa, quando era menino, e depois os outros, que foi amealhando feito formiga, migalha a migalha, com tenacidade e alumbramento.

A família dos livros tinha uma vantagem. Nenhum de seus membros morria ou desaparecia como acontecia com frequência com os familiares de carne  osso.

Os livros retirados da biblioteca pública, por empréstimo, eram parentes longínquos. Traziam a aura de quem passou por muitas casas, iluminando solidões diurnas e noturnas. Guardavam o cheiro misturado dos ambientes que tinham freqüentado.

Na casa antiga, havia muitos silêncios. Vultos moviam-se calados. Um relógio velho de parede tentava acompanhar a passagem do tempo, mas nele as horas tinham enlouquecido.

De uma espécie particular de eternidade eram feitos os livros.

O mundo de tinta e papel espantava os fantasmas que habitavam o sótão. O menino sabia que, mais dia, menos dia, acabaria só, como todos.
 
Havia um gato na casa, porque gatos gostam de histórias assombradas. No porão gelado e sombrio, coisas velhas eram esquecidas.

Um retrato de Getúlio Vargas, "o pai dos pobres", ocupava o centro da parede da sala de jantar.

A janela do quarto de dormir olhava o mundo e o mundo era um lugar muito distante.

João era o nome do apóstolo que teve as visões na Ilha de Patmos, no mar Egeu, onde esteve exilado por falar de Deus e dar testemunho de Jesus. Nela escreveu o livro bíblico Apocalipse (Revelação).

A rua São João era a ilha do nosso apocalipse.


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Texto revisto, publicado no blogue em 27, out, 2011.

sábado, 29 de março de 2014

Alegrias do meu quintal

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
Tenho alguns pinheiros no quintal de casa, em Passo dos Ausentes. Existem muitos outros no entorno. É o pinheiro brasileiro, que também atende pelo nome científico de araucaria angustifolia.

O pinheiro é uma bela árvore nativa com largas copas côncavas ou convexas, que dá o pinhão como fruto.

Um dos pinheiros aqui de casa é ainda adolescente e acaba de me proporcionar duas alegrias. (O espetáculo da photo acima é do pôr-do-sol sobre as montanhas e pinheiros diante da janela do escritório.)
 
photo: pinheiro adolescente, 28.03.2014. j.finatto

A primeira alegria foi descobrir, enquanto caminhava entre as plantas, na tarde de ontem, escondida nos altos galhos verde-escuros, uma linda pinha.

Do tamanho de uma bola de futebol, ela brilhava generosa e esférica. Fiquei contente como quem descobrisse algo precioso. E de fato é. Pra mim pinheiros, pinhas e pinhões são coisas preciosas.
 
A descoberta desta pinha animou o meu dia. Mas havia a segunda alegria.
 
A segunda alegria foi a descoberta de uma outra pinha, maior ainda que a da primeira alegria, num galho mais alto. Depois de ficar um tempo admirando, resolvi fotografar uma das alegrias e dividi-la com  os leitores do blog.

photo: pinha, 28.3.2014, j.finatto

O destino da pinha, ao atingir a maturidade, é despegar-se do galho e vir ao chão, quebrando-se e espalhando os pinhões sob a umbela do pinheiro.

Os pinhões depois de recolhidos vão para a chapa do fogão a lenha, onde são assados sem pressa, como convém numa casa de montanha regida por relógios de sol.

Uma vez cozidos, é hora de descascá-los e colocá-los num prato com uma pitada de sal. Está pronta uma singela e gostosa iguaria para os dias de outono e inverno.

Se bem me lembro, o tempo dos pinhões é lá pela metade de abril. Enquanto isso, fico admirando as pinhas lá em cima, no aconchego silencioso da umbela.
 

quinta-feira, 27 de março de 2014

A morte das ciclistas: crônica de uma tragédia diária

Jorge Adelar Finatto 
 
ilustração: Maria Machiavelli
 

Na última quinta-feira, 20 de março, duas jovens foram mortas enquanto andavam de bicicleta em Porto Alegre. Elas foram atropeladas por ônibus em diferentes bairros da cidade, às 8h30min e às 16h30min.
 
Patrícia (21 anos) e Daise (19) eram estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na qual cursavam, respectivamente, Pedagogia e Psicologia.

Ambas tinham, com certeza, projetos e sonhos. Pelos cursos que escolheram, cultivavam uma visão humanista da vida, sendo pessoas importantes para o presente e para o futuro da cidade e do país. A sua morte, por todas as razões, é inaceitável.
 
Os dois terríveis acontecimentos foram notícia nas rádios, televisões e jornais. Mas hoje começam a cair no esquecimento (exceto para as famílias, amigos e colegas ciclistas).

É assim: mortes no trânsito são diárias, fazem parte disso que se convencionou chamar, erradamente, acidente.  Um eufemismo, entre tantos, na linguagem de uma sociedade que se desumaniza de forma assustadora como a brasileira.

Com algumas exceções, não se trata de acidentes. Na maioria dos casos, são fatos absolutamente previsíveis e evitáveis, que resultam do mau comportamento dos motoristas.
 
Desconheço detalhes dos trágicos eventos que vitimaram as universitárias. A realidade, contudo, é que morrer no trânsito virou, infelizmente, coisa banal entre nós.
 
Recolhem-se os corpos, lava-se rapidamente o sangue, libera-se o tráfego, porque a cidade não pode parar. É o modus operandi. A coisa é cirúrgica. Sentimento nem pensar.

Como estão todos ocupados em tocar a vida, não se pára para refletir sobre a urgente necessidade de mudança de comportamento de cada um.  
 
A barbárie toma conta das ruas das cidades brasileiras.

O sistema de trânsito em vigor privilegia o transporte individual em detrimento do coletivo. O transporte público é muito ruim, caro e ineficiente. As ruas, naturalmente, estão entupidas. Não há mais espaço, existindo um conflito permanente entre os condutores. E o pior de tudo: muitas pessoas esquecem que são seres humanos ao tomar a direção de um veículo.
 
Existe em Porto Alegre um número considerável de pessoas que faz da bicicleta meio de transporte. Estão criando uma nova cultura. É gente que quer desbrutalizar a cidade, encontrar uma solução para o caos e a violência das ruas, acabar com a matança, eles próprios alvos indefesos nessa loucura.
 
Os ciclistas, entre eles muitos estudantes, procuram uma saída para melhorar a vida de todos. Enquanto isso, são atropelados. Até quando? 

A dor das famílias e amigos das duas jovens é insuportável. Eu que também sou pai imagino o que é conviver com a perda em tais circunstâncias. Sei que é uma dor dilacerante, sem limites e que ninguém jamais devia passar por isso.
 
Tenho um filho que resolveu aderir à bicicleta. Vivo com o coração na mão. Estou no interior, distante de Porto Alegre, em constante vigília.

A cidade faz parte de mim, nela vivi muitos anos, os filhos estão lá, mas quero dizer que tenho medo, muito medo, por eles e por todos os filhos que andam nas ruas e calçadas deste triste porto que a cada dia perde sua alma.
 

terça-feira, 25 de março de 2014

A carreta cósmica

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
O mundo visto de cima de um carro de boi é diferente. Não é o mesmo que se vê de uma bicicleta, um ônibus, metrô, barco, automóvel, balão ou avião.

O andar da carreta é outro, diverso é o seu olhar.
 
Em Passo dos Ausentes, havia muitos carros de boi antigamente, que aqui também chamamos carreta. Era meio de transporte de pessoas e de carga por estradas de chão batido e caminhos pedregosos.
 
A velocidade do mundo era menor. Naqueles dias, os tempos eram longos e as conversas também. Dava para experimentar o sabor de cada fruto, associá-lo a um nome e a uma estação do ano.
 
Havia tardes de chuva mergulhadas no silêncio, na leitura, no cochilo, na imaginação.

Olhos negros e claros cismavam nas janelas. Que mundo era esse lá fora, como seria a vida amanhã? A preparação dos doces caseiros espalhava delicados cheiros pela casa.
 
Andar de carreta era uma maneira diversa não só de deslocamento como de observar e interpretar a existência.

O homem que vê a vida tendo a carreta como ponto de mirada não é o mesmo que se movimenta em máquinas velozes.
 
Nos Campos de Cima do Esquecimento ainda se encontram carretas. Faz algum tempo encontrei uma em bom estado, no Vale do Olhar, construída no distante 1953. Resolvi comprá-la e coloquei-a no jardim.

Ela aparece na foto, tendo ao fundo, ao centro, Monsieur Jardin du Bonheur, o espantalho que faz a alegria dos passarinhos. As aves fazem ninhos nos seus bolsos e no chapéu de palha.*

O meu carro de boi está sempre pronto pra partir. Em certos dias, quando a vida perde a graça, eu subo nele e vou dar uma volta pelo cosmos com Monsieur Jardin.

O sobe e desce entre as nuvens, a gente sacudindo lá dentro, a evolução do vôo pela atmosfera e depois uma esticada até o infinito.
 
Voamos entre as estrelas, passamos perto da Lua, paramos em Órion para ver a chuva dos meteoros cintilantes.

Aproveito para visitar os amigos que partiram em suas carretas de luz e nunca mais voltaram. Conversamos e rimos juntos. Depois eu me despeço e volto pra casa.

Ao retornar da viagem, sinto o coração pulsar outra vez.
 
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Texto revisto, publicado em 6 de janeiro, 2013.
 

domingo, 23 de março de 2014

Um suspiro, um silêncio

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto


Faz 50 anos que a avó morreu. O estranho é que ainda não parou de morrer dentro de mim. É um luto permanente, parece que tudo aconteceu ontem. Às vezes acho que meu coração nunca fechou o caixão da avó.
 
Quando ela morreu eu tinha 6 anos. Morava com ela na cidadezinha do alto da serra. Tínhamos "descido" a Porto Alegre para visitar minha mãe que habitava um apartamento diante do Rio Guaíba. Ficaríamos duas semanas.
 
Conhecer o Guaíba foi uma experiência sensorial indescritível para quem estava acostumado a viver entre pinheiros, córregos, campos e penhascos.

O Guaíba ficava azul nos dias de céu claro, uma pintura. As ondas subiam pela areia e vinham até perto dos guarda-sóis (muitas famílias iam para a beira do rio nas tardes de calor). Doce era o cheiro do vento quando cruzava o Guaíba.

Uma outra paisagem se descortinava aos olhos do menino serrano, o rio se expandia com seus navios em direção à Lagoa dos Patos e ao oceano.
 
Criou-se entre mim e o Guaíba uma afinidade espiritual, uma cumplicidade (só ele sabia que eu era um estrangeiro na cidade).

No dia marcado pela morte, a avó estava no sofá tomando chimarrão e eu ao lado. Era de tarde. Houve um suspiro profundo e, em seguida, um silêncio. Só percebi o que havia acontecido quando a mãe, chegando da rua, deparou-se com ela recostada no sofá, os olhos cerrados, o peito imóvel. Eu brincava no chão e nada notara.

O menino aprendeu então que tudo o que mais amava podia desaparecer num instante, como um sopro no vento. Um suspiro, um silêncio.
 
Há alguns anos passei por momentos muito difíceis. Achei que talvez não houvesse um amanhã. Nos dias mais tenebrosos da doença pensava que se a avó estivesse por perto a travessia seria menos dolorosa.

Havia de me levar a caminhar na beira do córrego lá na nossa pequena cidade. Nos dias de inverno, faria doces, como sempre, no velho fogão a lenha da casinha dos fundos do sobrado. E me levaria à loja dos irmãos árabes pra comprar um sobretudo de lã. Beberíamos com eles aquele chá de aroma inesquecível.
 
Por conta dessas recordações, abril é pra mim o mais triste dos meses (ou o mais cruel, como no verso de T.S. Eliot no poema A Terra Desolada*). Por ele me arrasto como um cão que se perdeu do dono e nunca mais voltou pra casa.

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* T. S. Eliot. Poesia. Tradução (memorável) de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 8.ª edição. 

sábado, 22 de março de 2014

A solidão de Deus

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto


A solidão do bar
onde há pouco conversamos
a solidão do quarto de pensão
e do corpo
não é diferente
da solidão de Deus

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Poema do livro Viveiro, Edições Sanguinovo, São Paulo, 1981. Prefácio de Heitor Saldanha.
 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Pra dizer que também falamos de flores*

Frederico Vasconcelos
Repórter Especial da Folha de São Paulo

photo: j.finatto
 


"Estamos perplexos, temerosos, impotentes, humilhados diante da realidade que nos assola."


Sob o título “O país das quaresmeiras em flor”, o texto a seguir é de autoria do juiz e poeta gaúcho Jorge Adelar Finatto. Foi publicado originalmente em seu blog “O Fazedor de Auroras“, que tem como lema “a vida de todos os dias, a que eu sempre quis”.

 
Só agora me dou conta, raro leitor, de que elas andam por aí, anunciando a Páscoa e o advento do outono. A nova estação chega cheia de significados
 
(fala de Ressurreição e de urgentes renascimentos)
 
As flores das quaresmeiras têm tudo a ver com sentir claro, respirar limpo, passar longe dos abismos.
 
É o que eu penso nesse instante vendo-as vibrar na claridade, apesar da densa sombra que se abate sobre o Brasil com sua triste face de corrupção e violência social
 
mas não é só aqui, dizem os intérpretes do caos, mas sendo aqui, digo eu, já me basta, é o suficiente para danar a minha/nossa vida.
 
Estamos perplexos, temerosos, impotentes, humilhados diante da realidade que nos assola.
 
(dizer que saímos da escuridão abissal da ditadura e acabamos nisso, nesse buraco sem fundo que suga nossa alegria, nosso trabalho, nossa paz, nosso sangue, nossos sonhos
 
ceifa vidas diariamente nas ruas do país sem lei, sem autoridade, sem saúde, sem educação, sem esperança (tudo, claro, garantido no papel),
 
trágicas ruas onde se afunda o famoso, nunca demais louvado, não obstante sempre negligenciado estado democrático de direito
 
- de que estado e de que direito estamos falando mesmo? -
 
ninguém sabe ao certo se existe de fato e o que é isto no aqui e agora, nem mesmo se depois de tanta indiferença, omissão, arrogância, malandrice, cinismo e incompetência haverá ainda um país para chorar)
 
Mas olhando as quaresmeiras em flor, nesta hora e neste lugar, ao menos nesse efêmero instante, a morte não tem nem pode ter guarida.
 
As flores das quaresmeiras são o oposto da morte, negação do desespero e do abandono (longo abandono de séculos).
 
(a delicadeza dos ramos, pétalas e cores remete a um mundo outro)
 
Um tempo de recolhimento e silenciosas caminhadas por estradas interiores nos habita na quaresma.
 
Olhar atento ao solitário vôo do pássaro sobre os fios de luz, tecendo destino e distância com a nossa esperança (por um fio).
 
Tempo de resistência
(como sempre)
de atravessar a ponte
(sobre o rio das mortes)
e chegar vivo do outro lado.
 __________
*Interesse Público

quarta-feira, 19 de março de 2014

O país das quaresmeiras em flor

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, 15.3.2014
 
Só agora me dou conta, raro leitor, de que elas andam por aí, anunciando a Páscoa e o advento do outono. A nova estação chega cheia de significados
 
(fala de Ressurreição e de urgentes renascimentos)
 
As flores das quaresmeiras têm tudo a ver com sentir claro, respirar limpo, passar longe dos abismos.

É o que eu penso nesse instante vendo-as vibrar na claridade, apesar da densa sombra que se abate sobre o Brasil com sua triste face de corrupção e violência social

mas não é só aqui, dizem os intérpretes do caos, mas sendo aqui, digo eu, já me basta, é o suficiente para danar a minha/nossa vida.

Estamos perplexos, temerosos, impotentes, humilhados diante da realidade que nos assola.

(dizer que saímos da escuridão abissal da ditadura e acabamos nisso, nesse buraco sem fundo que suga nossa alegria, nosso trabalho, nossa paz, nosso sangue, nossos sonhos

ceifa vidas diariamente nas ruas do país sem lei, sem autoridade, sem saúde, sem educação, sem esperança (tudo, claro, garantido no papel),

trágicas ruas onde se afunda o famoso, nunca demais louvado, não obstante sempre negligenciado estado democrático de direito

- de que estado e de que direito estamos falando mesmo? -

ninguém sabe ao certo se existe de fato e o que é isto no aqui e agora, nem mesmo se depois de tanta indiferença, omissão, arrogância, malandrice, cinismo e incompetência haverá ainda um país para chorar)

photo: j.finatto, 15.3.2014
  
Mas olhando as quaresmeiras em flor, nesta hora e neste lugar, ao menos nesse efêmero instante, a morte não tem nem pode ter guarida.

As flores das quaresmeiras são o oposto da morte, negação do desespero e do abandono (longo abandono de séculos). 
 
(a delicadeza dos ramos, pétalas e cores remete a um mundo outro)
 
Um tempo de recolhimento e silenciosas caminhadas por estradas interiores nos habita na quaresma.

Olhar atento ao solitário vôo do pássaro sobre os fios de luz, tecendo destino e distância com a nossa esperança (por um fio).
 
Tempo de resistência

(como sempre)

de atravessar a ponte
 
(sobre o rio das mortes)
 
e chegar vivo do outro lado. 


photo: j.finatto, 15.3.2014
 

terça-feira, 18 de março de 2014

Pessoa e Borges em Lisboa

Casa Fernando Pessoa
24 de março, 18h
Rua Coelho da Rocha, 16, Lisboa
 
 
 

Para além de vorazes leitores de Omar Khayyam e de William Shakespeare ou de poetas que souberam cultivar o universal no realismo local (Cesário Verde e Evaristo Carriego), Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa partilharam numerosas paixões literárias. 

Sem sabê-lo, talvez, ambos viriam a corresponder-se com escritores espanhóis como Isaac del Vando Villar, entre outros; e em Maio de 1924 até caminharam nas ruas da mesma cidade, Lisboa – circunstância que inspiraria Vasco Graça Moura na composição do poema «o encontro».

Reunidos à volta de Borges e de Pessoa, seis críticos literários de diversas nacionalidades estabelecerão paralelos e aproximações entre estas duas obras inesgotáveis. Evento gratuito aberto ao público.

Programação:

Pessoa & Borges: Blending Milton
Patricio Ferrari

Realidade e representação em Pessoa, Borges e Berkeley
Diego Giménez
 
O idealismo de George Berkeley em Fernando Pessoa e em Jorge Luis Borges
Roberto Rolandone

Pessoa, Borges e Khayyam
Fabrizio Boscaglia

O arquivo de Babel: Os espaços infinitos do Livro em Fernando Pessoa e Jorge Luis Borges
Sandra Bettencourt

Pessoa e Borges, uma amizade metafísica
Pablo Javier Pérez López.
 
Organização: Diego Gimenez (CLP, Universidade de Coimbra) e Patricio Ferrari (CEC, Universidade de Lisboa / Department of English, Stockholms universitet).
 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Canção da bruma

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto, 12.3.2014
 

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa eu levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho

as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa

___________

Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

sexta-feira, 14 de março de 2014

As virgílias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, Madri.
 
Eu tô muito cansado de viver na solidão. 
 
Cada um carrega seu quinhão de solidão, por supuesto. Todos temos as mesmas perguntas diante da vida. Como faz um grande silêncio do outro lado da linha e o caderno de respostas está vazio, continuamos tão desamparados como no dia do nascimento.

Não sei você, raro leitor, mas eu conheço o sentimento inscrito na epígrafe. Eu li a frase num pedaço de papel deixado num assento do trem entre Madri e Salamanca. Estava justamente no lugar marcado na minha passagem.

Guardei a anotação entre as páginas do livro de poemas de Salvador Espriu que comprara na noite anterior num sebo da Calle de Los Libreros em Madri.

Entendo bem o sentimento escrito naquele papel. 

Um cansaço de estar só, uma vontade de sair da ostra, ver o sol lá fora, encontrar gente, não num centro comercial, numa fila de banco, num aeroporto, mas na rua, num café, numa praça, em casa. 

Um lugar humano. 
 
As longas temporadas de recolhimento fazendo coisas que a sociedade impõe. Solitude desde a infância até a vida adulta e velhice. O oposto de estar junto, de partilhar. 

Sim, nascemos de mãos dadas com nossa irmã gêmea, solidão. Mas a vida não há de ser só um buraco dentro do peito. Tem de ser mais, tinha de ser mais. 
 
Encontrar seres humanos, dividir o vagão do trem, o lado mais bonito e luminoso da viagem.

Mas, em caso de urgência, tenho pelo menos as virgílias.

São minúsculas borboletas que não têm mais que um centímetro e meio de asa a asa. Revoluteiam ao meu redor. São dezenas, cada uma com sua cor viva, violeta, azul, púrpura, amarelo, lilás, laranja, branco, preto.

As virgílias surgem do nada. Como um bilhete num assento de trem.

Acendem a solidão como lamparinas em miniatura. Ficam voando em volta de mim como vaga-lumes numa praça silenciosa e desabitada.

As virgílias depois vão-se embora. Apagam aos poucos suas luzes até que nenhuma mais resta. E eu durmo esperando amanhecer. 

____________
 

quarta-feira, 12 de março de 2014

O inquilino do absurdo

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto. 09.03.2014. Passo dos Ausentes

 
Eu, Landgrave dos Santos Esquecido, inquilino do absurdo, de tudo dou fé e assino.
 
As coisas que não aconteceram são as que mais se afeiçoaram à minha memória.

A biografia que merece os veros registros: a dos não-acontecimentos, a dos impossíveis sonhos. O resto são pedras que se carregam dentro dos bolsos. Como os suicidas a caminho do mar. 
 
Essa cidade é onde o abandono é dono.

As praças vazias onde me quedo ouvindo falecidas conversas. Ó ausências do mundo!

Bardo obscuro e tabelião de papéis perdidos em Passo dos Ausentes, eu vivo os interstícios. Os ásperos padecimentos da humana travessia.

Cheio pela borda de cansaços, frustrações, tapas na cara e desejos. Quem houvera nesta vida se dignasse escutar meus ais.
 
Viver é assunto proceloso e bem noturno.
 
Por isso estou aqui. Me contando, me abrindo, me inventando.

Sou o bardo barroco, ressuscitado em salvadoras prosopopéias. A obsessão pela música interior. Essa que me faço e entrego ao raro leitor. Construo o venturoso canto.

Não me interessa a realidade. Quem tiver a realidade que bem a guarde e embale.

Sou viajante de um tempo que se esfuma. O tal.

A saudade é um retrato em branco e preto na gaveta do oblívio. Os pedaços de cada um.

O meu coração habita um quarto de pensão. A pensão se chama Ao viajante solitário.

Às vezes penso que o mundo é uma grande pensão. A pensão dos viajantes solitários. E viver é um fio de orvalho estendido de manhãzinha sob o sol.

Somos parceiros das nuvens e da bruma.
 
Caminho para o lugar ermo do esquecimento.

Eu, Landgrave dos Santos Esquecido, inquilino do absurdo, ante vossa alta ausência, improvável leitor. 

Aqui Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento, Rio Grande do Sul, Brasil. Dou fé e assino.

Inícios de outono.
 
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Texto revisto, publicado em 20 de agosto, 2010.

domingo, 9 de março de 2014

Fernando Pessoa e o barbeiro Manassés

Jorge Adelar Finatto
 
Fernando Pessoa. fonte: Casa Fernando Pessoa


Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Fernando Pessoa, no poema Mar Português
 
Em 2007 estive na minúscula sala onde funcionou a Barbearia Seixas do senhor Manassés, na Rua Coelho da Rocha, bairro Campo de Ourique, em Lisboa. Ele foi, durante muitos anos, o barbeiro de Fernando Pessoa (1888-1935), que morou naquela rua entre 1920 e 1935. Conversei na ocasião com António Seixas, quase octogenário, que ocupava então a velha sala que tinha pertencido ao seu pai.

Não era mais uma barbearia, mas uma oficina para conserto de aparelhos de som. Estava localizada quase na frente do prédio onde o poeta viveu até a morte em 30 de novembro de 1935. No local existe hoje a Casa Fernando Pessoa.
 
Sobre esta longa conversa e as revelações de António (que conheceu o poeta) escrevi O barbeiro de Fernando Pessoa, publicado no blog.¹

Acrescento algo que não divulguei naquele texto. O poeta vivia na época na companhia da irmã, do cunhado e da sobrinha. Segundo António Seixas, o relacionamento de Fernando com o marido da irmã não era bom.

Não admira que assim fosse. O poeta levava uma vida de solteirão, ganhava pouco como correspondente de inglês e francês em casas comerciais, bebia muito (fato que contribuiu para a morte precoce aos 47 anos) e fumava como uma chaminé no pequeno quarto que ocupava no apartamento. O cunhado era coronel acostumado à disciplina da caserna. A contradição entre as visões de mundo de ambos é de fácil percepção.

A família, contudo, foi fundamental na vida de Fernando Pessoa. Nela ele encontrou amparo emocional e material. Não foi por acaso que viveu os últimos 15 anos na casa da irmã. Ali se sentia acolhido, não obstante as diferenças com o cunhado (de resto comuns entre pessoas do mesmo grupo familiar).

Arrisco a dizer que não haveria a obra genial sem o lastro afetivo e prático da família (açoriana pelo lado materno). Os familiares de Pessoa foram essenciais na sua vida e contribuíram para que ele tivesse condições de dedicar-se à escrita.

photo: j.finatto, 2007, Lisboa

                                                 *   *   *

Ontem, 8 de março, pessoanos do munto inteiro recordaram os cem anos do famoso Dia Triunfal (08 de março de 1914).

Conforme relatou Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, em carta de 13/1/1935, ao abordar a gênese dos heterônimos: "(...) acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim." ²

Vieram à luz, no êxtase do Dia Triunfal, o Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, "O Mestre"; após a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa; seguindo-se a revelação dos heterônimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos (este com a Ode Triunfal).

A carta foi escrita alguns meses antes da morte do poeta. Segundo estudiosos, o Dia Triunfal foi uma ficção de Pessoa para explicar a origem dos seus "outros".³

____________

¹O barbeiro de Fernando Pessoa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/03/o-barbeiro-de-fernando-pessoa.html
²Arquivo Pessoa:
http://arquivopessoa.net/textos/3007
³O "dia triunfal" de Pessoa: uma ficção verdadeira
http://www.publico.pt/cultura/noticia/o-dia-triunfal-de-pessoa-uma-ficcao-verdadeira-1627473
Casa Fernando Pessoa:
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233
 

sexta-feira, 7 de março de 2014

O e-mail do amigo morto

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: jfinatto
 
 
Tenho um amigo que morreu há alguns anos, mas que ainda está muito presente na minha vida. Um cara alegre, espirituoso, valente leitor. Aprendi e me diverti muito com ele.

Manuel gostava da vida e era forte. Por isso eu tinha a impressão de que ele viveria não menos do que 90, 100 anos. Viver era com ele mesmo. Não desanimava diante dos tombos.
 
Na verdade, nunca esqueço meus mortos. Trago-os sempre por perto, na memória e no coração. Às vezes pensam que estou em colóquio com as paredes, falando sozinho. Bobagem. É com eles que eu falo quando estou muito só (o que nem é tão raro assim).
 
O fato é que o e-mail do Manuel ainda está na minha lista de e-mails do computador. Nas ocasiões em que decido mandar algum texto e/ou photo para pessoas da lista, sempre me deparo com o e-mail do Manuel.

Me dá um arrepio de saudade, uma dor.
 
Um sentimento mais forte que a razão me diz que eu não posso deletar o e-mail do Manuel. Sinto que, se o fizesse, perderia mais ainda o Manuel. De uma forma que não entendo bem, acho que ele cairia mais fundo da ponte da memória dentro do abismo do esquecimento.
 
Pessoalmente estou farto de perdas, raro leitor. Por isso não vou apagar o e-mail do Manuel.

Sempre fica em aberto a possibilidade de comunicação entre nós. Quem sabe um dia ele ainda vai mandar uma mensagem me gozando por não ter coragem de retirá-lo da lista? Talvez dissesse, entre irônico e triste, olhando nos meus olhos:
 
- E-mails de amigos mortos são como folhas ao vento, não dá para escrever nada neles. Esquece e segue em frente.
 
Faria talvez uma graça com a tendência, tão minha, para a melancolia e para me agarrar ao perdido como um náufrago.
 
Como se eu próprio não fosse, qualquer dia desses, mera lembrança. Um e-mail deletado da lista. 
 

quarta-feira, 5 de março de 2014

O rumor do córrego

Jorge Adelar Finatto

Montreux. Lago Léman. photo: j.finatto
 

O seixo sobre a escrivaninha é cor de mel maduro e tem pequenas crateras na superfície. Elas lembram o território redondo e branco da Lua cheia. 
 
Antes de vir parar aqui, o seixo habitou outros lugares. Deve ter rolado por séculos no fundo das águas.

Provavelmente veio ao mundo antes das ondas do Dilúvio. A menos que seja o minúsculo fragmento pós-diluviano de uma estrela que despencou e esfriou.

O seixo faz parte agora do resumido mundo do escritório. Mergulhado nessas águas de estantes de livros e objetos que foram se chegando com o passar dos anos (enquanto eu próprio passava).

Cada objeto tem uma origem e uma história para contar, assim feito o seixo.

Como viajantes numa estação de trem.

Às vezes levo o seixo ao ouvido para escutar o rumor distante do córrego da minha infância na sua antiga viagem rumo do mar.

Ouço então a passagem do vento sobre as águas e o vôo das folhas quando se soltam dos ramos.

O escasso seixo é um pedaço do infinito universo que veio ao mundo para rolar e passar (tal como eu).

Uma singela lembrança do eterno. 
 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Oscar Wilde em Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto
 
A morte é um preço excessivo para dar por uma rosa encarnada.
Oscar Wilde* 


 
O guarda-chuva é um escudo existencial contra a tristeza e a pouca luz do mundo.

Um indivíduo deprimido e solitário não deve andar por aí sem guarda-chuva, mesmo em dias de sol. Não importa o tempo que faz lá fora.

A umbela traz consolo ao coração, além de proteger o esqueleto.

Em Passo dos Ausentes, existe o Sindicato dos Fazedores de Guarda-Chuvas, Chapéus, Bengalas, Luvas e Mantas. A cidade, hoje habitada por muitos fantasmas e poucos seres humanos, foi importante centro produtor e exportador desses produtos. Consta nos registros do sindicato que, entre 1890 e 1939, a Inglaterra importou a quase totalidade da produção.

O cliente mais famoso, na área das artes, foi ninguém mais, ninguém menos, do que o escritor irlandês Oscar Wilde (1854 - 1900). Dizem os antigos que ele chegou a ter perto de 20 chapéus-de-chuva (nome pelo qual também é conhecido o guarda-chuva ) e cerca de 10 bengalas confeccionados na Terra dos Ausentes.

Numa secreta viagem, o autor de O Retrato de Dorian Gray esteve em Passo dos Ausentes, em 1891. Veio a nossa pacata aldeia a fim de mandar fazer, pessoalmente, um modelo exclusivo de guarda-chuva. O artefato tinha, num canto da parte externa do tecido azul-claro, as iniciais D.G., em tom rosa, as mesmas que foram gravadas, em prata, no cabo de osso de anta.

Oscar ficou durante 40 dias por aqui, conforme está registrado no livro de hóspedes da pensão Ao Viajante Solitário. Foi tempo suficiente para encantar a todos. Ganhou o título de cidadão honorário e sua despedida, na estação de trem, foi um dos maiores acontecimentos da cidade em todos os tempos.

 

 
Tal impressão causou em nosso meio que, desde então, quando pessoas de Passo dos Ausentes viajam à Inglaterra e à França, fazem uma espécie de peregrinação sentimental atrás de Dorian Gray, quer dizer, Oscar Wilde.

Muitos dos bilhetes apaixonados colocados (todos os dias) junto ao túmulo do escritor, no cemitério Père Lachaise, em Paris, são de gente dos Campos de Cima do Esquecimento.

Entre os políticos que adquiriram as nossas obras de arte, estão Getúlio Vargas e Winston Churchill. Na Terra da Rainha como em São Borja, são tratados como relíquias e viraram peças de museu. Em diferentes países do mundo, os guarda-chuvas aqui produzidos transmitem-se através das gerações na condição de finas joias de artesania.

Faz 40 anos que Guilherme Baden-Baden, o químico de Passo dos Ausentes, não sai à rua sem carregar o enorme Morcego Negro, espécie de capacete protetor que se afeiçoou a ele como se fosse a extensão de seu esquerdo braço.

Homem pequeno, Baden-Baden quase desaparece sob o para-sol (outro nome do objeto pluvioso). Enquanto estiver com o guarda-chuva aberto, afirma ele, nada de ruim poderá lhe acontecer. Não se trata de vã filosofia, diz o sábio:

- É uma intuição ancestral, uma maneira de ver e sentir a existência.

Nunca ninguém, em qualquer tempo, foi abandonado por um guarda-chuva. O contrário, porém, é muito comum.

Uma das grandes invenções da humanidade, cuja origem se perde na noite dos séculos, o guarda-chuva é, ao lado do cão e dos diários das moças, o melhor amigo do homem.

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Fotos: 1) Oscar Wilde, 1882. Autor: Napoleon Sarony. Fonte: Wikipédia. 2) Guarda-chuva nos jardins da Praça da Ausência. Autor: J. Finatto.
Texto revisto, publicado em 18 de abril, 2011.
Leia também, sobre Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html
*Pensamentos, Oscar Wilde, p. 202. Relógio D'Água Editores, 2011, Lisboa.

domingo, 2 de março de 2014

Os mascarados


Carnaval de rua em Olinda, Pernambuco.
 

Os mascarados. Autor: Passarinho. Fonte: site da Prefeitura de Olinda:
www.olinda.pe.gov.br

 

sábado, 1 de março de 2014

O peixe e seu carnaval

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
 

A imagem dos peixinhos brilhando no fundo azul, e as outras, eu busquei no Oceanário de Lisboa. É uma visita que não dá para perder em Portugal, conforme já registrei aqui.* Além de peixões, como tubarões, e peixinhos, como cavalos-marinhos, existem muitos outros seres que habitam no interior e fora das águas oceânicas, e são mostrados no oceanário.
 
Há um universo de vidas que não conhecemos, nas profundezas e na superfície. Um mundo que, por ironia, depende da boa vontade do ser humano para não ser destruído, o que, convenhamos, é uma temeridade.

photo: j.finatto
 
Resta esperar e acreditar que teremos o bom senso de não acabar com os oceanos, pois neles reside talvez a nossa única chance de sobrevivência no planeta diante do colapso alimentar que se avizinha.

Não existe beleza nem alegria na morte, apesar do que vemos na televisão diariamente. A estética da violência e da destruição, presente no noticiário e em grande parte da programação, desde filmes até grotescas lutas entre pessoas que se ferem bestialmente (a que chamam esporte), só faz alimentar a nossa desumanização.

photo: j.finatto

Preservar a vida enquanto há vida dentro e fora de nós.
 
Durante a folia oficial, artificial e midiática do carnaval (tudo é espetáculo...), eu prefiro o mundo silencioso, natural e colorido dos cavalos-marinhos e anêmonas-do-mar. O carnaval dos peixes.