quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O apanhador de estrelas

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Escrever é estar vivo. A felicidade da partilha. Navego a bordo da página silenciosa, sem sair do lugar. Calepino à mão à procura do indizível, do incomunicável, da difícil luz que nasce da palavra, e o ser humano é palavra.

O que é um texto senão um telescópio mirando a espessa névoa dos corações? Que podem as palavras dizer que ainda não foi dito? É preciso ouvir a voz do dilêncio.

O apanhador de estrelas acende velas, fósforos, lanternas, lâmpadas, isqueiros, archotes, lâmpadas, faróis, lamparinas, para iluminar a escuridão que tomou conta do mundo.
 
Na sala calada, rumina paciência, visita distância, abraça ausência, faz apontamentos, estuda as anotações de antigos exploradores, ajusta as lentes do seu instrumento.

É noite, outono, faz frio. Viajar pelo cosmos, visitar o brilho azul das estrelas, conhecer um pouco esse mistério chamado existência.

O apanhador espreita a noite infinita atrás de um sinal, um movimento, uma luz distante e tênue que ilumine uma nesga do mundo.
 
Eis que a calma claridade penetra na sala pelas frestas, por baixo da porta, pelos cantos da janela. A luz suave se insinua pela grossa treva. As palavras criam asas, inauguram a viagem. A frase ganha corpo e forma, clareia o caminho do texto. Um, vários dias de trabalho para conseguir uma única página.
 
O apanhador continua a viagem pelo inefável, quer aquela luz perene, suspensa num lugar desconhecido. Luta contra seus limites pelo fruto sagrado da expressão.

Quando o dia amanhece, traz o coração mais leve, a alma reconfortada ante a alegria que o texto traz.

O apanhador se sente vivo no caminho. Graças a Deus.
 

Série Retratos 2







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Autor da photo: Jorge A. Finatto
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