sexta-feira, 31 de maio de 2013

Clarice

Jorge Adelar Finatto
 
Clarice Lispector
 

Eu vinha  torto e sofrido de leituras difíceis, arrastadas, porque livro é um troço que, às vezes, pode ser muito chato. Há livros que nos levam a um rotundo cansaço, seguido de frustração, queremos terminar a leitura o quanto antes, como quem se livra de um pesado estorvo.

Não agradam nosso paladar (e paladar, como se sabe, cada um tem o seu). Nem sempre o problema é da obra, por vezes é o nosso gosto que não está bom.
 
Vinha eu cansado nos tortuosos caminhos de páginas escarpadas, quando tive aquela iluminação que às vezes me salva: quem sabe leio ou releio alguma coisa de Clarice Lispector (1920 - 1977).

O texto clariceano jamais me deixa abandonado no meio do caminho, nunca me enfada. Salvo se enfadar tivesse algo a ver com fada, mas não é isso. Sim, porque Clarice tem alguma coisa de fada na escrita que brota de suas mãos ternas e violentas (sua força é capaz de revolver as entranhas do vulcão).
 
Mas então passei na livraria e lá estava A descoberta do mundo (Editora Rocco, Rio de janeiro, 1999), que reúne os textos que ela publicou no Jornal do Brasil, aos sábados, entre 1967 e  1973. São anotações, crônicas, pensamentos, pequenos contos e novelas.
 
Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. p. 137

É verdade, ao escrever para jornal, Clarice abriu portas e janelas do claro-escuro casarão de sua alma, que abriga uma multidão de outras almas nos seus misteriosos aposentos.

É preciso ter coragem e merecimento para conseguir aproximar-se de Clarice.

Além de rara escritora, uma linda mulher, que nada ficava a dever às divas do cinema e das capas de revista. Em Clarice encontravam-se reunidos, como poucas vezes acontece, beleza física e talento.

A natureza esmerou-se na sua criatura.

Estou agora, nessa madrugada gelada em Passo dos Ausentes, conjugando o verbo claricear, me delicio com seu texto alto, transcendente e humano, em que não há sobras, não há poses, mas um rigoroso mergulho em busca da expressão, que traz à tona tesouros escondidos nos corações e mentes de mulheres e homens.

Uma exploradora de águas profundas, Clarice consegue traduzir com palavras aquilo que dorme no mais recôndito de cada ser, e o faz com tal naturalidade que até parece uma coisa simples.

Felizes somos nós, os que podem lê-la no original em português, que presenciamos o milagre de sua criação sem necessidade de oráculos, bebendo na fonte um texto de valor universal.

Peço humildemente para existir, imploro humildemente uma alegria, uma ação de graça, peço que me permitam viver com menos sofrimento, peço para não ser tão experimentada pelas experiências ásperas, peço a homens e mulheres que me considerem um ser humano digno de algum amor e de algum respeito. Peço a bênção da vida. p. 117

Bons tempos em que escritores como  Clarice Lispector escreviam para jornal. O prazer de ir até a banca da esquina e lá encontrá-la brihando na página efêmera do sábado.

Uma época em que também escreviam em jornal Carlos Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos Oliveira, Guilhermino Cesar, Carlos Reverbel, Tarso de Castro, Joel Silveira, Mario Quintana, entre muitos outros. Poupo o leitor de comparações com o que (não) temos atualmente, não vale a pena.

O que importa é que, sempre que reencontro Clarice, redescubro a alegria da palavra e volto a me sentir um peixe feliz no aquário.

 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Recém-nascido resgatado com vida

Jorge Adelar Finatto


photo: AFP
 

Um bebê recém-nascido foi resgatado com vida da tubulação do esgoto de um prédio na China. O fato aconteceu na cidade de Jinhua, na província de Zhejiang. Conforme ontem noticiado, a mãe seria uma jovem solteira de 22 anos, que deu à luz e, após, a criança teria sido arrastada com a descarga do banheiro.
 
Moradores do edifício ouviram choro nos condutos e alertaram os bombeiros. A criança - um menino - estava entalada no cano de apenas 10 centímetros de diâmetro. Os bombeiros tiveram de cortar parte do conduto no qual estava, levando-o em seguida ao hospital, onde os médicos retiraram o bebê, que agora está na incubadora.

A polícia ainda não sabe os detalhes do caso e desconhece a extensão da responsabilidade da mãe. A jovem explicou que escondera a gravidez por temor.
  
A lei do filho único, em vigor na China desde o final da década de 1970, para controlar a natalidade em face da superpopulação, impõe sanções, como multas, a casais que têm mais de um filho. Isso fez aumentar o número de abortos e de abandonados após o nascimento, sendo as crianças do sexo feminino o alvo principal.
 
O fato aconteceu na China, mas ocorre, infelizmente, em toda parte. É das coisas mais tristes que podem suceder. Não me refiro apenas ao sofrimento do bebê, vítima indefesa, mas ao trauma da própria mãe, não raro de pouca idade, em situação de profundo abandono e perturbação mental.
 
Pelo que se pode ver nas manifestações pela internet, há uma exigência de punição em relação à mãe (o pai, neste caso, como em muitos outros, é desconhecido).
 
É compreensível a dor e a revolta que um fato como esse provoca. Mas é preciso, antes do julgamento sumário da mãe, da condenação moral sem direito a recurso, tentar entender as circunstâncias que cercam o evento (até o momento pouco se sabe).
 
Na minha visão, é necessário buscar explicações para o abandono cada vez mais freqüente de crianças recém-nascidas, aqui e acolá. 
 
O abandono de bebês revela a face cruel da sociedade em que vivemos. É, a princípio, um problema de quem comete o terrível ato, mas é, também, uma sinalização de que a sociedade está muito mal. Para além da idéia da punição, simplista e que nada resolve, que quer apenas infligir castigo a quem pratica o fato, é preciso conhecer de perto a situação em que vivem essas gestantes.

A solução, com certeza, não está no Código Penal. Existe por trás, quase sempre, uma realidade de rejeição familiar, afetiva e social que, dependendo de cada pessoa, pode levar a um gesto de loucura.
 
O pai do recém-nascido abandonado não costuma estar por perto, aliás não está nem aí na maioria das vezes, escondendo-se como se não fosse com ele.

Em vez de sair pedindo a cabeça da mãe, é conveniente examinar com cuidado, sob pena de confundir frios criminosos com pessoas desesperadas, entregues à própria solidão, sem nenhum preparo psíquico e material para enfrentar a situação em que se encontram.

Não se faz justiça nem se previne o mal com ódio. O respeito ao próximo, de que tanto está carente nossa sociedade, é, ao lado do amor, o caminho para evitar que estas tragédias aconteçam. E para remediar as conseqüências, quando elas ocorrem.
 
O nenê chinês passa bem, graças a Deus, haverá de sobreviver. Quem sabe ajudará a China a rever a sua política de controle da natalidade, humanizando-a. E cabe a todos os países, a toda sociedade, tratar melhor as gestantes em situação de desamparo, dando-lhes o imprescindível apoio, importante para elas, para o nascituro e para a vida em comunidade.
 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A volta ao mundo num barco de papel

Jorge Adelar Finatto


Arroio Tega no Moinho da Cascata, Caxias do Sul.
photo: Nereu de Almeida, ClicRBS

 
O Arroio Tega passava no fundo do quintal da casa onde nasci. Entre os pinheiros e a horta, me iniciei na arte da navegação em barcos de papel, que construía com folhas de caderno escolar.
 
O Tega era uma extensão do nosso pátio e um caminho de água doce que se ia pelo mundo. Nele partiam as minhas pequenas embarcações em viagem por aquelas águas ligeiras e claras.

Um dos possíveis significados da palavra tega, no italiano antigo, é pragana (barba ou fios de espigas de cereais), que ondula ao vento, acepção tão em acordo com a sinuosidade da correnteza. Um outro é vagem.

Lá em casa a natureza fazia parte da vida. Além de bichos comuns (na época) como galinhas, cabritas, peixes, gato, cão, havia também um macaco. E uma vez apareceu por lá um pingüim que o avô trouxe da praia de Torres.

O nosso pingüim deu-se muito bem no clima temperado da serra. Gostava de ir caminhando ao lado do avô até a Praça Dante Alighieri, coração da cidade. O assunto virou destaque numa matéria especial do velho jornal Correio do Povo, numa página perdida do final da década de 1950.
 
De tantos barcos de papel que soltei no Tega não sei o destino. Talvez algum tenha conseguido seguir o trajeto até o Rio das Antas, depois ao Taquari, chegando mais tarde ao Guaíba, à Lagoa dos Patos e, por fim, ao mar-oceano. 
 
Tinha eu seis anos quando chegou a hora de dizer adeus e partir das margens do Tega. Nunca mais voltei ao arroio em que me tornei navegador.

A vida me levou por águas distantes e revoltas. Às vezes fui feliz como um peixe. Outras me senti triste e só como um capitão que perdeu a bússola e se extraviou no mapa rasgado.
 
De qualquer forma, de tanto ver o arroio passar e ir ao mundo, ganhei gosto de conhecer outros lugares e gentes. E o mundo é uma viagem de onde nunca mais se retorna.
 
Ouvi dizer que o Tega, importante patrimônio ambiental da cidade, onde brincávamos e perto do qual, nos fins de semana, as famílias colocavam mesas para as refeições e encontros, está agora poluído, quase morto. Mas ouvi, também, que estão fazendo obras de tratamento de esgoto e outros efluentes para livrá-lo da morte atroz.
 
Não pode morrer o arroio que fornece água boa de pura nascente rochosa, que foi cenário inesquecível das brincadeiras de meninos e meninas antigos que ali viveram talvez os melhores dias de suas vidas. 
 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Composição

Jorge Adelar Finatto
 
 
Van Gogh (O mar em Les Saintes-Maries-de-la-Mer, 1888)
Van Gogh Museum, 20 digital highlights


O anjo tombou morto
na terra alheia de uma tela

Van Gogh imagina Gauguin
asfixiando o anjo no jardim
com as mãos queimadas de sol

Dali encoberta a face de granito
com o manto de brilhantes
os brilhantes despojados do anjo

Di Cavalcanti entristece: era uma mulata
o anjo assassinado nas cores do jardim?

Portinari retira-se melancólico
Picasso adentra a gruta de um olho

A noite cai pesada de remorso

Nesse instante todos dão-se as mãos
e cantam a canção predileta do anjo
em volta do corpo estendido no chão

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Um fantasma lê Mallarmé

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Stéphane Mallarmé


A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.*
Stéphane Mallarmé
 
Uma certa invisibilidade costuma andar comigo. De tal modo passo sem ser percebido, como um fantasma. Em ambientes com bastantes pessoas essa característica mais se acentua. Costumo ser um fantasma discreto, do tipo que não se dá na vista e não assusta ninguém. Desses que não derrubam coisas dentro de casa nem fazem barulho nos quartos vazios nem conversam nas escadas e corredores quando todos dormem alta noite.
 
Existem fantasmas absolutamente exibidos e inconvenientes. Dão-se a conhecer sem a menor cerimônia, com efeitos especiais de sons, luzes, névoas. Esses perdem rápido a credibilidade. Ora, nem sempre estamos dispostos a ver e muito menos receber um desses estranhos visitantes.
 
Heitor dos Crepúsculos, o jovem poeta suicida que se jogou do Penedo da Saudade, no alto do penhasco, aos 27 anos, em 1953, é um volátil bastante habitual em Passo dos Ausentes. Ele não incomoda ninguém. Pelo contrário, sua presença é reservada como um segredo. Agora, por exemplo, ele está aqui no escritório comigo, sentado na poltrona, enrolado no capote preto, manta lilás, a perna direita largada sobre o braço do assento. A negra cabeleira escorre-lhe até os ombros.
 
Traz nas mãos um volume de poemas que pegou na estante. Trata-se de um livro do poeta francês Stéphane Mallarmé (1842 - 1898). Nele se lêem versos de fina, inusitada e bela construção. O homem foi um artesão caprichoso e trabalhador.

Mallarmé criou maneiras diversas de dizer velhas coisas, modos que se prolongam como ecos no fazer poético dos que vieram depois:

nessas paragens
                               do vago
                                               onde toda realidade se dissolve**
 
O meu silencioso visitante passa a tarde lendo os poemas de Mallarmé. É tranqüilo, não atrapalha em nada o meu trabalho. E, pensando bem, é boa companhia nessa tarde longa, austera e fria de outono nos Campos de Cima do Esquecimento.

Quando volto ao escritório, depois da pausa para o café passado no bule e as roscas de polvilho, ele não está mais. Deixou o livro sobre a mesa com um evanescente bilhete:
 
Não importa a tempestade na montanha ou o silêncio da gruta perdida, o claustro onde vivo. Viver a cada instante sempre é a última oportunidade. Eu só descobri depois de voar sobre o penhasco.                                                                                                                      Heitor

Viajo pelo cosmos nesses 50 metros quadrados de quinquilharias, livros, plantas, pássaros no entorno, a perscrutar o silêncio que esconde e prenuncia a revelação, no correr das fontes subterrâneas, enquanto passo/passamos e não quero que a luz do sol se apague em volta do mundo. Trabalho pela dissolução da treva, espero amanhecer nos corações.
  
_________________
 
Mallarmé. Estudo crítico, apresentação da obra e poemas traduzidos por Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Editora Perspectiva, São Paulo, 2010.
*O verso em epígrafe é o primeiro do poema Brisa Marinha.
** Verso do poema Um lance de dados jamais abolirá o acaso.
Escritores fantasmas reúnem-se em Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/encontro-reune-escritores-fantasmas-em.html
 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Racismo à brasileira

Jorge Adelar Finatto 
 
Chico Buarque
 
Nós não somos brancos. O nosso valor é a miscigenação. 
Chico Buarque de Holanda
 
Um dos mitos da civilização brasileira é o da democracia racial. Embora a miscigenação faça parte da nossa formação, a igualdade de tratamento está longe de ser uma realidade, ainda que formalmente assegurada no ordenamento jurídico.

Chico Buarque de Holanda revelou que a família de sua filha (casada com o músico negro Carlinhos Brown, com o qual tem filhos, netos de Chico) foi alvo de discriminação no condomínio onde tinham apartamento, no Rio de Janeiro. Por essa razão, saíram de lá. Em lúcido depoimento, Chico Buarque falou sobre o problema do racismo no Brasil (o vídeo está no youtube).

O preconceito de cor é tratado por muitos como algo inexistente ou vago. Mas a negação não resiste às evidências. Se os netos do grande Chico Buarque enfrentam esse problema, o que dizer dos outros milhões e milhões de brasileiros de ascendência africana espalhados por este país-continente? 
 
Há um "defeito de cor" que impregna as relações sociais no Brasil.

Para além da hipocrisia, o fato é que a pele negra ainda é discriminada. Existem avanços em função das lutas por igualdade, mas o caminho é difícil. 

A ironia nessa história é que somos um país essencialmente mestiço. Os racistas brasileiros não têm espelho em casa. E se têm não enxergam a própria imagem. Somos uma mistura de sangue negro, índio e de tantos outros sangues que por aqui chegaram a partir do século XVI.

Dificilmente haverá família, no Brasil, que não tenha origem na miscigenação. Os racistas daqui são ridículos e delirantes na sua fabulação arianista. Não sabem, muitos por ignorância e outros por má consciência, que desprezam o que há de melhor em si mesmos, ao negar a sua/nossa natureza misturada.
    
Como o preconceito não passa recibo (até porque racismo é crime no Brasil), ele é na maior parte das vezes dissimulado, escamoteado, esconde-se nas reticências, nas evasivas, nas entrelinhas, no cinismo, na rejeição tácita, no silêncio cúmplice.
 
A "raça" humana é uma só. As diferenças físicas, culturais, religiosas, etc., fazem parte da unidade universal que é o ser humano. Já é tempo de reverem-se conceitos ditos científicos a respeito de "raças". As diferenças tendem a mitigar-se com a união cada vez maior entre pessoas de origens diversas.

Prefiro falar, ao invés de raça, em origens étnicas, que compreendem caracteres físicos e culturais.
 
O Brasil ainda será uma democracia racial. Acredito que a maioria da nossa população anseia por isso. O cerco cada vez maior à hipocrisia com ações afirmativas - como a das cotas nas universidades para afrodescendentes e índios - nos dá essa esperança.
 
 _________________

Uma decisão para reescrever o Brasil:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/04/uma-decisao-para-reescrever-o-brasil.html
O escravo e sinhá:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/03/o-escravo-e-sinha.html
O crédito da foto será dado assim que conhecido o autor. 

sábado, 18 de maio de 2013

Escrever em língua portuguesa

Jorge Adelar Finatto

photo: Fernando Pessoa
fonte: Casa Fernando Pessoa*
 

 
Um escritor disse que a língua portuguesa tem pouco alcance, é entendida por um número reduzido de leitores no planeta. Lamentou que estamos muito longe da realidade de quem escreve em inglês. Ficamos circunscritos aos países que têm o idioma de Fernando Pessoa como língua oficial, além de antigos enclaves portugueses como Goa e Macau.

Pois eu não sofro essa angústia. As minhas inquietações de escritor amador - no duplo sentido de quem ama o que faz e não sobrevive deste fazer - são mais modestas. Não me tira o sono a maior ou menor influência de escritores de dicção portuguesa no mundo. Não faço, aliás, distinção entre autores a partir do idioma em que escrevem ou da nacionalidade, mas a partir do sentido de suas palavras.

O português é a nossa língua do coração. É através dela que expressamos nosso ser no mundo. É um prazer imenso falar, ler e escrever na língua de Camões, João Guimarães Rosa, Cartola, dona Maria Antônia da floricultura.

Estou mais preocupado com o fato de viver num país com quase 200 milhões de almas e que tem tão poucos leitores. Me entristece não ser lido por pessoas que falam a minha língua e que moram na mesma rua que eu, no mesmo bairro, na mesma cidade e até no mesmo edifício.

A questão que me toca diz respeito à pouca participação, na vida cultural, das populações dos países de expressão portuguesa, fruto do atraso que também atende pelo nome de injustiça social nesses lugares.
 
Claro que gostaria de ser lido em Paris, Tóquio e Londres, mas já estou me preparando para não ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. A menos que haja uma revolução no mundo das letras, a começar pela descoberta, por parte de meus vizinhos, de que eu escrevo.

Tudo leva a crer que continuarei desconhecido no meu próprio idioma. (Mas se daqui a cinco minutos, ou três mil anos, alguém se debruçar sobre estas linhas, acho terá valido a pena.)

No fundo, no fundo, penso que livros e autores, como todo o resto, estão votados ao esquecimento, com raríssimas exceções. Mas ninguém deve desanimar por isso.

A língua portuguesa e seus escritores têm um lugar no mundo. Esse lugar será tanto mais importante quanto maior for nossa capacidade de formar cidadãos e leitores em nossas sofridas nações.
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Site da Casa Fernando Pessoa (Portugal):
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233
Texto revisto, publicado antes em 6 de junho, 2011. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A sombra da esfinge

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

Como ele nunca teve pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro nem qualquer outro bem, mas um abraço de pai.

Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros. Na rua e na escola, as pessoas botavam olho, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço ou uma perna.

A sombra da esfinge o perseguiu nos dias dos pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões da escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos sonhos e pesadelos do menino.

O tempo passou. Um dia ele descobriu que outras casas também não tinham a figura misteriosa. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que não existia. Ocultavam o mito. Alguns possuíam apenas uma deprimente imagem de homem no sofá da sala.

Os sem-pai já não eram exceção. Talvez fossem maioria.

Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, faziam o mundo funcionar.

Na verdade não era um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação. Sempre faltava um pedaço.

A humanidade é toda seqüelada, ele pensa, enquanto caminha com o filho pela mão na praça do bairro, domingo à tarde. Pra ele agora todo dia é dia dos pais.
 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Os fascistas

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto



Os fascistas
escolhem sempre
as prisões
à benignidade do sol

mas os poetas
continuarão
violando
as sombras


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Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

As intermitências da primavera

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


O amor - ou esse sentimento que aproxima pessoas solitárias e desamparadas como ele - inaugurou datas no calendário, pintou de lilás e rosa o coração.

O amor tocou músicas no som do carro e do apartamento. O amor pintou de azul e amarelo as flores do vaso da sala. O amor tornou-o uma pessoa melhor para si e para os outros.
 
Um dia, talvez, ela, que gostava tanto de gatos, regressará da nuvem onde foi habitar. Virá buscá-lo, como sempre fazia, para irem juntos ao cinema, ao café, à livraria, ao Parque Harmonia ver o pôr-do-sol na beira do Guaíba.
 
Ela foi o único ser humano que conseguiu resgatá-lo da remota ilha. Morreu há três anos de uma doença que não vale a pena lembrar, foi embora depois de sorrir e dizer que ele não devia se preocupar, tudo ia dar certo. Perdeu-a pouco antes de irem morar juntos.
 
Sente-se um morto-vivo sem aquela que o salvou da solidão de náufrago.  Ela foi a sua primavera.

Uma colega de trabalho disse-lhe que ele é muito certinho. A vida, não.
 
O fato é que, um dia, ele sonhou ser feliz para sempre. Mas a realidade disse que para sempre é tempo demais.
 
A família que, no passado, foi unida, agora vive dividida, os irmãos quase não se convivem.
 
A mãe, que em vida tecera com dedos de fada os frágeis laços do afeto familiar, também morreu antes do tempo. Ninguém a substituiu na rara arte de evitar e, sobretudo, de colar os cacos. Os cristais se partiram.
 
Ele voltou a viver no ermo distante da ilha. Tornou-se um estrangeiro em sua própria cidade. Os antigos amigos transformaram-se em conhecidos, foram casando, criando filhos, separando, mudando de rua, de bairro, cidade, país.

O seu mundo reduziu-se ao apartamento, ao trabalho, às idas ao mercado, às leituras, a uma eventual saída aos sábados e às impiedosas tardes e noites de domingo.
 
Teve poucos relacionamentos depois, coisas entediantes, sem nenhuma importância. Não consegue fazer o tipo leve, desses à vontade no mundo. Gosta de pensar, procurar sentidos. E não os encontra.
 
Sexo de ocasião nunca foi pra ele. Tem receio das pequenas e insignificantes memórias que o invadem, quando a dona delas vai embora. O que para muitos é pura diversão, para ele é vertigem. Se ao menos não sentisse as coisas.

O lugar onde vive - a longínqua ilha - só não é uma tapera porque a velha empregada da família aparece duas vezes por semana, dá um ar doméstico ao tugúrio. Os únicos seres vivos ali, além dele, são as hortênsias que cultiva na sala, em dois vasos, um em cada lado da janela.
 
As hortênsias acendem as manhãs de verão, iluminam a casa.
 
A janela é o ponto de referência dele no planeta.
 
Dali pode ver a praça e as pessoas nela, as árvores e a rua, o céu, os outros edifícios.
 
De qualquer parte do universo um observador pode tê-lo como objeto de estudos. Todos os dias, no fim da tarde, está na janela tomando chimarrão. Só.
 
No fundo, nunca a perdoou por tê-lo abandonado no mundo.
 
O medo de amar afeiçoou-se a ele como as heras num túmulo de cemitério do interior.
 
A solidão o faz acariciar o gato invisível, na frente da televisão, até adormecer.
 
Se fez acompanhamento psiquiátrico para esse viver tão desolado? Sim. Mas continua o mesmo homem enclausurado, estranho a si mesmo, sem saber o que fazer com as mãos quando está sozinho.

O outono chegou com um cesto florido de lembranças dela. Vive de memória.
 
Os dias chuvosos, frios, deixam as pessoas entocadas em casa.
 
A praça está vazia agora. Recorda-se dos dias em que caminhavam juntos ali.

A ausência da primavera faz o coração girar louco na ventania.
 
Se ao menos tivesse um gato de verdade.

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Texto revisto, publicado originalmente em 17 de fevereiro, 2010.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Travessia da névoa

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Estou só e escrevo para minha alegria.*
                                               Matsuo Bashô (Japão, 1644 - 1694).
 
Vinha pensando nesse verso de Bashô enquanto ia pra casa, no fim da tarde de outono. Atravessei a ponte no meio da névoa fria, um leve vento nas folhas.

A vida é encontro, mas é também uma constante despedida. Dos outros e de nós mesmos.

O tempo foge a galope, vamos sumindo na bruma.

Alguém notará a minha ausência quando não estiver mais na paisagem de outono? Quando não estiver mais em paisagem alguma? Quem estenderá a mão quando chegar do outro lado da ponte?

Vinha eu pela ponte, pensando esse difícil pensar.

Trazia o calepino e o lápis no alforje. No coração, essas ruminações em torno do inefável.

Mas não é propriamente de solidão que a travessia da névoa fala. Não é bem disso que ela trata.

Há um caminho a percorrer no ermo, ela diz.

O que a ponte espera de nós é o gesto da passagem. O passo corajoso e humilde.

Um movimento além do medo. 

Os poetas constroem pontes através da névoa.

A palavra abre a picada na mata densa e escura. E por ali vamos, colonos do território despovoado, catando o farelo de beleza e mistério.
 
O vento leve toca o sino de bambu.
 
O visível e palpável é apenas um vestígio. Imenso é o que não se vê nem se toca.

Tem dias que habitamos a tapera. Tem dias que brilhamos ao sol.

Por isso gosto dos caminhos do outono, por isso me dei a travessia.

Gosto dessas horas de distância e dispersão.

Escuto a conversa do pássaro no galho invisível.

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*O Gosto Solitário do Orvalho. Matsuo Bashô. Antologia poética. Versões de Jorge de Sousa Braga. Editora Assírio e Alvim, Lisboa, 1986.
O peixe da boca vermelha:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/08/o-peixe-da-boca-vermelha.html
 

terça-feira, 7 de maio de 2013

A casa do anjo

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto. Colonia del Sacramento. Uruguai
 

Antes de começar a chover esta noite, arredaram uns móveis bem pesados lá no céu. Um barulho espesso e arrastado de trovões me fez pensar que era a mudança de um anjo.

Um anjo bom e humano com invisíveis asas de plumas perfumadas, levando com ele seu chapéu, suas estantes de livros, sua bicicleta e outros objetos pessoais.

Um anjo, quando se muda, deve ter muita coisa pra carregar: cartapácios com registros e fotografias de quem ele protege, cadernos de milagres, álbuns de recordações de pessoas que acompanhou um dia, armário onde guarda instrumentos do ofício, um piano, aquarelas com os campos do Senhor.

As roupas e as botas do anjo devem ser brancas como nuvem.

Gostava que o meu anjo da guarda viesse morar mais perto de mim.

Meu coração anda necessitado de amigo com sabedoria e consolação. Ele podia até ficar morando aqui em casa. Quando quisesse olhar o mundo pra ver como vão as coisas, podia subir no telhado e ficar perto da chaminé, lugar calmo e iluminado, de onde se tem uma boa vista.

O meu anjo da guarda. Há de expulsar a solidão que toma assento na sala. E nunca mais nenhum mal vai me acontecer.

Quando de noite o medo se acercar de mim, o anjo me dará sua mão forte. Então eu dormirei como um menino. E vou sonhar outra vez.

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Texto revisto, publicado originalmente em 10 de dezembro, 2010.
 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O amor

 
 
photo: j.finatto



O amor suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas. O amor nunca falha.

                    
                                              1 Coríntios 13:7,8
 

sábado, 4 de maio de 2013

A vida breve dos pássaros

Jorge Adelar Finatto

Saíra-preciosa (Tangara preciosa) photo: j.finatto
 
A observação das aves e das nuvens é uma das atividades que mais me cativam. Nesse sábado, raro leitor, vamos falar sobre eles, os pássaros.

Todos os dias eles vêm à sacada do escritório comer as frutas que lhes sirvo. Às vezes reúnem-se vários ao mesmo tempo nos galhos das árvores que quase encostam na casa. Em seguida, vão aos potes. Nunca contei, mas são dezenas durante o dia.

De vez em quando, tenho de repor as porções. No entorno, há árvores frutíferas que também fornecem alimento para eles.


Sanhaço-cinza (Thraupis sayaca) photo: j.finatto

As aves que visitam os potes no escritório preferem a banana. Não há entre elas uma só que não goste. Apreciam também mamão, maçã, cáqui, laranja, figo, melão, etc. Mas banana tem que ter sempre e é a que mais sai.

Ter pássaros por perto é um encanto. A observação cotidiana desses seres é fonte de lições e inspiração. Por exemplo, aprendi que eles são felizes ao natural. Vivem com o que tem e sentem-se bem assim. Não querem mais do que a natureza lhes oferece. Existem. A vida é breve. Ponto.

Saí-azul fêmea (Dacnis cayana) photo: j.finatto

Não permitem que a metafísica e as encucações lhes roubem instantes preciosos.

A vida, para os pássaros, é bela demais para se perder com preocupações menores, raivas, angústias desnecessárias, invejas, ruminações sem sentido.

Pouco antes de amanhecer, eles soltam os primeiros gorjeios. Ao clarear, vão-se ao mundo. De ramo em ramo, de flor em flor, de fonte em fonte, de céu em céu, cuidam de viver.

Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) photo: jfinatto

Pode ser que tenham lá seus momentos de reflexão em torno da finitude do ser, da consumação do tempo, da origem e da finalidade da existência. Mas isso não deve durar mais que o  breve momento de descanso num galho, no intervalo do vôo.

Saí-azul macho photo: j.finatto

Os pássaros tratam de viver, ao contrário de nós, ocupados demais com a morte.

Eu bem que tentei olhar a vida como eles, mas ainda não consegui. Talvez porque me faltam asas.

Saíra preciosa photo: j.finatto

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Identificação das aves: Clube de Observadores de Aves de Porto Alegre, ao qual agradeço.
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O cavaleiro invisível

Jorge Adelar Finatto


Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (1832 - 1883)


Um homem só, caseiro, beirando os cinqüentanos, cansado da vida pequena e vazia na qual nada acontece, resolve ir ao mundo em busca de aventura, justiça e amor.

A vida que vive não é a venturosa vida dos livros, é outra, enfadonha e triste. O melancólico senhor, habitante da região de La Mancha, na Espanha, mergulhou nas histórias de cavalaria, a elas dedicou seu tempo e sua alma, de tal modo que esqueceu o mundo real.

Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.

O valoroso fidalgo, de modestas posses, alto e seco de carnes, revolta-se: é preciso espelhar o sonho na realidade, plantar uma flor no solo ressequido da realidade.

Alonso Quijano vai ao mundo à procura daquilo que mudará o imóvel destino, quer reviver em si as lendas da cavalaria, e tecer outras, delas extraindo glória, reconhecimeno e o amor de sua amada, a não menos inventada Dulcineia del Toboso.

O que nos diz o Quixote é que a vida cotidiana é insuficiente. Falta vida à vidinha.


Dom Quixote, por Gustave Doré

A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615)¹ é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias.

O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo.

Montado no magro Rocinante ele vai, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco e meio sensato como o amo, montado em seu jumento.

A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis.

Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre. 

"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."²

Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam.

Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido?

Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós, à espreita da hora da rebeldia.

"Cada qual é artífice de sua ventura"³, ensinou-nos o Quixote.

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¹ Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes Saavedra. Edição ilustrada por Gustave Doré, três volumes. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado. Ediouro Publicações S.A, Rio de Janeiro, 2002.
² idem, terceiro volume, p.307.
³ idem, ibidem, p. 379.
Fonte das ilustrações: Wikipédia.Texto revisto, originalmente publicado em 14 de julho, 2012.