sexta-feira, 30 de março de 2012

Antonio Tabucchi

Jorge Adelar Finatto

photo de Tabucchi, 2008. Autora: Rebeca Yanke. Wikipédia

No tempo deste infinito mínimo, que é o intervalo entre o meu agora e o nosso então, lhe digo até logo e assobio Yesterday e Guaglione.*

Antonio Tabucchi

Amar um escritor é amar as suas palavras.

A morte não se cansa de levar embora os bons. Gente má parece durar uma eternidade. É a conclusão a que chego ao olhar os escritores e artistas que partiram somente nesse começo de ano.

No último domingo, 25 de março, em Lisboa, foi a vez do escritor italiano Antonio Tabucchi, 68 anos. Ele sofria de câncer. É considerado um dos grandes autores da literatura europeia. Mantinha há muitos anos uma forte ligação com Portugal, sendo admirador apaixonado, estudioso e tradutor da obra de Fernando Pessoa para o italiano. 

Casado com uma portuguesa, vivia períodos do ano em Portugal. Também era professor na Universidade de Siena, Itália, onde ensinava Língua e Literatura Portuguesas.

Escrevia regularmente na imprensa e era um corajoso defensor da liberdade de expressão. Escreveu, entre outros, o romance Afirma Pereira, de 1994, que foi adaptado para o cinema, tendo Marcello Mastroianni no papel principal.

Em 2011, Tabucchi desistiu de participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), como convidado especial, em protesto diante da decisão do Governo e da Justiça brasileira em não extraditar Cesare Battisti para a Itália, onde deveria cumprir condenação criminal (prisão perpétua) por assassinatos praticados naquele país.

A Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, programou a leitura integral de seu livro Requiem, para o dia 02 de abril próximo, a partir das 10h30. Trata-se do único livro que escreveu em português, uma homenagem a Lisboa e a Fernando Pessoa.

No final da leitura, será lançado o mais recente livro do escritor, O tempo envelhece depressa. A editora Dom Quixote informa que restou um livro inédito do autor.

Antonio Tabucchi, sim, um escritor que se fez amar por suas palavras e respeitar por gestos também.

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* Os voláteis do beato Angélico, p. 46, Antonio Tabucchi, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2003. Tradução de Ana Lucia Belardinelli.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Seco

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto



Secos pássaros dormem em ressequidos galhos. Secas folhas de plátano se agitam contra o azul. Manhã silenciosa, bailarina morta na caixa de música, seca, enferrujado relógio de parede, retratos na gaveta, tudo seco.
 
Secaram as lágrimas na face do vento.

Coração seco, boca seca, mão seca. Secas palavras. Secas pétalas de camélia vermelha dispersas no chão da praça. Seco, seco.
 
Secou a ponte que unia os amantes, inundava-os com a urgente carícia. Secaram as velas das faluas do Tejo.

Os olhos que olhavam o pôr-do-sol no Guaíba secaram, secaram.

Secos homens invadiram as ruas secas da cidade, cometeram tristes barbaridades.

O milharal, tão seco, pegou fogo.

Sentimento e pensamento, secos. O sexo ficou seco. As páginas do livro de poemas por escrever, secas, secas. Medo seco

Seco olhar observa do fundo do espelho.

A ternura, a ternura, um rio seco, secou dentro do coração.

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Texto revisto, publicado em 23, maio, 2011.

terça-feira, 27 de março de 2012

Uma livraria perto das nuvens

Jorge Adelar Finatto

photos: j.finatto


São Francisco de Paula é uma pequena cidade, na região dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul. A população beira as 20 mil almas. A paisagem é única no mundo, nunca vi nada parecido, nem nos livros, nem em viagens.


Os campos ondulam lentamente em todas as direções, encimados por bosques de pinheiros, atravessados por córregos, cortados por largas escarpas de basalto, a cerca de mil metros acima do nível do mar. Cachoeiras surgem de repente em meio ao verde. Faz muito frio no inverno, a temperatura média anual é de 14 graus.


Um dia desses descia eu de Passo dos Ausentes (1800 metros de altitude), quando resolvi parar em São Francisco para um cordial café. Eis que numa esquina avistei o enorme casarão.


O nome da livraria é Miragem. Uma quimera perto das nuvens, cheia de livros, objetos de arte, artesanato e um belo café, tudo resumido em dois mil e duzentos metros quadrados.


Uma descoberta assim a gente não deve guardar para si, seria egoísmo. Entrei para ficar uma hora, fiquei quatro. Há bancos de madeira entre as estantes para o visitante descansar, ler ou mesmo cochilar. Através das grandes janelas se vê o sol de outono lá fora. Minha obsessão por relógios foi plenamente recompensada, pois os há em abundância, de todos os tipos, espalhados nos quatro andares do prédio.

Um fragmento da antiga Biblioteca de Alexandria foi parar ali em São Francisco. Alfarrábios convivem com títulos modernos, o velho e o novo se misturando como convém, organizados por áreas e salas. Enfim, se eu fosse fazer uma livraria, acho que seria parecida com a Miragem, que surge como um remanso espiritual no deserto em que vivemos, aqui e em toda parte.


Saindo-se para o pátio da livraria (sim, a livraria tem um pátio), encontramos um amplo anexo para apresentações e leituras públicas. Na fachada consta a data de 1918. No meio do pátio, um plátano ainda jovem e variadas plantas.


No lado oposto ao anexo, o café com suas mesas e cadeiras de madeira, como antigamente. O cappuccino é dos melhores e tem pouca acidez. Os bolos caseiros são olorosos e irrepreensíveis. O único refrigerante vendido no local leva o nome de hidromel, feito de uma mistura de água e mel, fermentada, levemente gaseificada.

Se os dois leitores do blogue querem uma sugestão de livraria, está aí. Como se não bastasse, São Francisco de Paula fica no caminho para Passo dos Ausentes, que vem depois, a nordeste e mais acima, nos Campos de Cima do Esquecimento.




domingo, 25 de março de 2012

Menestrel virtual

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


O blogueiro é como o menestrel de antigamente. Leva na mão o alaúde. Entrega seu verso e sua prosa a quem quiser, em troca de um pouco de atenção.

Escrever num blogue tem virtudes. A principal delas é, talvez, evitar a derrubada de árvores para publicação de livros. O blogue se constrói no meio imaterial, não agride a natureza. É abstrato como um fantasma.

Ninguém cheira nem toca as páginas do blogue. Nesse sentido (como em muitos outros), o livro é insubstituível. A utilização do ambiente virtual é uma necessidade e uma saída diante da profusão de pessoas que estão escrevendo.

O autor do blogue pode alterar o que escreveu a qualquer tempo, e isto é importante para melhorar a qualidade do texto (principalmente em se tratando de blogue literário). O texto está em permanente construção.

No momento em que se pressiona a tecla "publicar", o conteúdo vai para o espaço infinito e pode ser lido por qualquer habitante deste e de outros planetas.
 
A solidão compartilhada dá um sentimento de companhia na dura vida da escrita.

Haverá, de fato, leitores interessados no que escrevemos? Ninguém sabe. Eu pelo menos não sei. O que importa é que o recado está na rede. As palavras estão à procura de quem as leia e, quem sabe, também as ame.

O blogueiro, tão parecido com o ancestral troglodita, vive ruminando e anotando na sua caverna virtual, em busca de comunicação.
 
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Texto publicado em 9 de outubro, 2010.
 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Vida bonsai

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
    
A `A a´´´´´ á ``a~a~a~a

Escrever é devorar o mundo com palavras.

á~â ``a  á`a

O escritório é um lugar silencioso, recolhido. O mapa das viagens sonhadas e nunca realizadas repousa sobre a mesa, cheio de anotações.

Alguns cravos vermelhos respiram na terra escura, no vaso perto da janela.

                                    b c d e f

Ao longe, a mata e a verde silhueta das montanhas. O voo azul e esquivo das últimas andorinhas nas escarpas, antes da partida ao hemisfério norte (a sempre procurada primavera).

O bonsai carrega dois figos pendentes sobre a escrivaninha.

A fonte, no velho tronco escuro, leva água para cima e para baixo, num movimento que lembra o incessante moinho circular da vida.

                                           l j m n hh   hh   çrt xt

O som da água escorrendo é mergulho e passagem dentro da luz.

A presença das pequenas coisas levanta a palavra da escuridão.

O outono inaugura novas seivas nos caules, nos corpos, nas almas.

O pássaro cabe na mão. Um livro é uma coisa singela. Um só olhar desvela todo o horizonte.

Vida pequena, vida possível, vida inventada

                                              uu uah  uauhhh   iih  êêêê

 

Bonsai de palavras, fresta de claridade no breu da escrita.

Letras brilhando na tela, voando como andorinhas, se projetando na infinita nuvem virtual. Em busca talvez de um olhar que as resgate da grande dispersão.

Agora é tempo de respirar fundo, habitar os aposentos interiores do outono, soltar palavras como pandorgas ao vento.


segunda-feira, 19 de março de 2012

O fantasma e o menino

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


O fantasma habita a alma do menino.

Oscar é como um parente antigo, desses que um dia batem na porta, com uma mala de couro pesada, uma roupa velha, sapatos cobertos de pó, trazendo no olhar todo desamparo desse mundo.

Em noites de vento, o menino ouve o barulho das correntes no porão. Oscar agita-se muito nas cercanias do outono. O menino é o único da casa que sabe da sua existência.

Não, o fantasma não está preso, nada o impede de ir para onde quiser. Simplesmente arrasta as correntes com as mãos de um lado para outro, numa espécie de desalento que não tem fim.

Oscar é um Sísifo condenado a recordar a vida e a todos que amou e perdeu. Arrasta as recordações pelas noites de outono adentro. Não há consolo na sua solidão.

Ele tem o cabelo muito branco, escorrido até os ombros, a pele da face rosada, as mãos solitárias. Veste bermuda cinza e uma camisa branca abotoada até o pescoço. Tem o semblante vazio.

Às vezes, o menino desce ao porão, tenta conversar. Mas ele não fala a respeito do seu viver tão fatigado.

Oscar toca violoncelo, na música deposita sua frágil e dolorida alma.

Nunca olhou o menino nos olhos. Olha para as paredes de pedra com um olhar vago de quem mira o mar de cima de uma montanha. 

O menino costuma deixar a luz do porão acesa, como uma rosa branca num vaso azul de porcelana.

Há coisas em relação às quais nada se pode fazer. Mas nem por isso o menino é triste. O sol de cada dia é sempre uma nova oportunidade.

O passado é algo estranho e insuportável.

O silêncio, às vezes, fala mais que qualquer palavra.

sábado, 17 de março de 2012

Primeiro informe do outono

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Uma certa luz

Este é o último sábado de verão. O próximo será outono. Chega ao fim o longo e suado estio. Os primeiros ocres e amarelos surgem nas folhas. É tempo de passagem para uma nova luz. Quaresma. O tempo das quaresmeiras em flor.


Um certo artista

Deus é um artista caprichoso e incomparável. Só ele tem paciência e tempo (a eternidade, no caso) para pintar folha por folha, ramo por ramo, galho por galho com tamanho engenho e arte. E sua caixa de lápis de cor não tem igual no universo.

O que é o fotógrafo da natureza, senão um mero copiador da obra Dele, sem nada pagar de direito autoral?


photo: j.finatto

Que a nova estação nos traga boas notícias nas cartas do vento.


Cavalo-Marinho

Uma das coisas mais bonitas que ouvi ultimamente é a música Cavalo-Marinho, de Cacaso e Nando Carneiro, na linda voz de Rosa Emília. Está no youtube, onde alguém colocou a canção com imagens do nascimento de um cavalo-marinho. Algo raro, emocionante:

 http://www.youtube.com/watch?v=h-jI0bObvVI

O poema de Cacaso é de uma simplicidade tocante:

                            Galopa cavalo marinho
                                    me ensina o caminho
                                    que devo tomar
                                    Solta as crinas no vento
                                    galopa no vento
                                    cavalo do mar

Está no livro Mar de Mineiro (poemas e canções), de 1982.


Balaio de uva na beira da estrada

Nessa época, quem anda pelas estradas da serra costuma encontrar tendas onde se vendem uvas em balaios de vime. Também oferecem queijos, frutas, verduras, embutidos, vinhos, chás, produtos coloniais e artesanais, chapéus de palha, além de boa conversa. As tendas estão à sombra de frondosos plátanos, cujas folhas começam a dourar. Sentir o cheiro e a frescura desses lugares é voltar um pouco na infância. Às vezes, lá longe, uma cascata branca escorre numa escarpa de antiquíssimo basalto.


photo: j.finatto


Milagres

Não acredito muito em milagres, mas que existem, existem. Tanto é que estou/estamos por aqui, em mais um outono de nossas vidas. Considerando as duras vicissitudes e os entrementes, isto não é pouca coisa.


sexta-feira, 16 de março de 2012

O poema como carta

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. 



O poema
como carta
sem destinatário certo
que não vai pela mão
                                do carteiro
mas chega a alguém
e é salvo da ironia
da gaveta



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Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

Conversas de escritores

Jorge Adelar Finatto

photo: jornalista José Rodrigues dos Santos

Há um bom programa de entrevistas com escritores na Rádio e Televisão de Portugal (RTP), que se chama Conversas de escritores. É apresentado pelo jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos. O apresentador conversou com alguns dos autores mais importantes da literatura mundial, como o português José Saramago e o alemão Günter Grass, entre outros.

As entrevistas são muito bem conduzidas, com perguntas pertinentes e, sobretudo, com tempo para os entrevistados responderem (coisa rara nos meios de comunicação). Não há comerciais e tudo se passa como se a conversa acontecesse na nossa sala.

Caso queiram fazer uma visita, o acesso é pelo link:

RTP - CONVERSAS DE ESCRITORES

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Fotografia: jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos.
Fonte: http://www.livroseleituras.com

quarta-feira, 14 de março de 2012

Cacaso

Jorge Adelar Finatto



Cacaso estaria fazendo 68 anos na data de ontem, 13 de março. Em memória, reproduzo este texto publicado em 02 de outubro de 2010.

Foi o poeta e compositor Cacaso a pessoa que melhor traduziu, até hoje, o sentido do que escrevo. Devo a ele a leitura mais luminosa e mais profunda. O texto foi publicado no jornal Leia Livros, na coluna Vinte pras duas, em 1982. Era sobre meu livrinho de poemas Viveiro, lançado em São Paulo, em 1981, pelo Grupo Sanguinovo.

Fiquei surpreso e feliz com o que ele escreveu, e havia bons motivos. Cacaso é um poeta raro, dos melhores que tivemos na segunda metade do século XX*. Escreveu poemas e letras de música como poucos. Fez parcerias com Tom Jobim, Edu Lobo, Sueli Costa, Djavan, Francis Hime, João Donato, Macalé, entre tantos. Foi professor na Faculdade de Letras da PUC do Rio de Janeiro. Tinha uma leitura muito lúcida sobre o Brasil e nossa cultura. Era um intelectual refinado e, ao mesmo tempo, uma pessoa simples e generosa. Conhecia as ruas das grandes cidades e conhecia o interior brasileiro. Conhecia e amava o nosso povo.

Em 1985, tive o único encontro com ele, visitando-o em seu apartamento na Avenida Atlântica, no Rio. Recordo a ampla sala com piano de onde se via o mar de Copacabana. E uma outra sala, local de trabalho, que tinha um armário repleto de fitas com músicas gravadas. No trato pessoal, revelou-se muito atencioso, disposto a falar e ouvir.

Cacaso (Antônio Carlos Ferreira de Brito, 1944 - 1987), esse homem, esse poeta, esse pensador, foi um pecado morrer tão moço, com tanto ainda para nos ensinar, nos ajudar a entender e nos escutar.

A poesia do Jorge Adelar Finatto é breve, sem muitos volteios, incapaz de autocomplacência e dotada de uma região de silêncio que lhe comunica transcendência. O poeta vê o cotidiano como um absurdo rotineiro, um lugar onde o escândalo já não escandaliza e onde certa dose de perversidade e dureza torna-se um antídoto necessário à sobrevivência.


Cacaso

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Foto: Cacaso. Divulgação. Revista Bravo online, março de 2009. Ilustra excelente texto de Geraldo Carneiro sobre o poeta. bravonline.abril.com.br

* A antologia lero-lero, da editora Cosac & Naify, lançada em 2002, é uma bela mostra do trabalho de Cacaso.

Vale a pena visitar a bonita página criada pela cantora Rosa Emília para Cacaso no facebook:



segunda-feira, 12 de março de 2012

O prisioneiro da Ilha de Patmos

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


A família espiritual de A eram os livros. Os poucos que havia na casa, quando ainda era menino, e depois os outros, que foi amealhando feito formiga, um a um, com tenacidade e alumbramento.

A família dos livros tinha uma vantagem. Nenhum de seus membros morria ou desaparecia, o que acontecia com alguma frequência com os outros familiares.

Os livros retirados das bibliotecas por empréstimo eram parentes distantes. Traziam a aura de quem passou por muitas casas, iluminando solidões diurnas e noturnas. Guardavam o cheiro misturado dos ambientes que tinham frequentado.
 
Na casa antiga, havia muitos silêncios. Vultos moviam-se calados. Um relógio velho de parede tentava acompanhar a passagem do tempo, mas nele as horas tinham enlouquecido.

O mundo de papel e tinta surgiu para espantar os fantasmas que o amedrontavam. Sabia que, mais dia, menos dia, acabaria só, como todos.

Uma espécie de eternidade habitava os livros.

Havia um gato na casa, porque gatos gostam de histórias assombradas. No porão gelado e sombrio, coisas inúteis eram esquecidas.

Um retrato de Getúlio Vargas ocupava o centro da parede da sala, o pai dos pobres, como se dizia.

A janela do quarto de dormir olhava o nada.

A rua se chamava São João, nome do apóstolo que teve as visões na Ilha de Patmos, no mar Egeu, onde esteve exilado por falar de Deus e dar testemunho de Jesus, e na qual escreveu o livro bíblico Apocalipse (Revelação).

A rua São João era a nossa Ilha de Patmos. Ali todos eram prisioneiros de um tempo e de um lugar e o destino lhes era comum: afundar no esquecimento.

Exilados do mundo, todos alimentavam o sonho secreto de um dia fugir. Fugir para sempre, para qualquer lugar, ainda que fosse o último ato da vida.
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Texto publicado no blogue em 27, out, 2011.

sábado, 10 de março de 2012

O escravo e sinhá

Jorge Adelar Finatto


Escutei o samba no rádio. Era naquela hora da tarde em que olhamos a janela sonhando fugir para algum lugar distante.

O samba Sinhá, do mais recente cd de Chico Buarque de Holanda, conta a história de um negro escravo que é levado ao tronco pelo "feroz senhor de engenho", sob a acusação de olhar a sinhá despida tomando banho no açude. É o próprio escravo quem narra o fato.

Num lamento, ele nega a imputação que lhe é feita pelo senhor, "Sou de olhar ninguém/Não tenho mais cobiça/Nem enxergo bem".

O senhor de escravos, de olhos azuis, decide furar as vistas do pobre e indefeso homem.

Na última parte do canto, quem fala é o cantor, dizendo-se atormentado, "Herdeiro sarará/Do nome e do renome/De um feroz senhor de engenho/E das mandingas de um escravo/Que no engenho enfeitiçou Sinhá".

Pelo que sugere, a relação entre escravo e sinhá foi além de um simples olhar.

Trata-se de obra-prima de Chico Buarque e João Bosco, com texto do primeiro, que resgata um bárbaro evento (fictício ou real) do período da escravidão no Brasil. Um doloroso retrato da sociedade escravocrata.

Como obra de arte, toca fundo a nossa emoção e nos faz pensar. Não será esta capacidade de nos tirar da inércia e da indiferença a virtude superior da arte?

Sinhá é um samba de alta eficácia literária, musical e humana, que resume um tratado de sociologia e, de quebra, nos faz chorar.


Sinhá

  Chico Buarque e João Bosco

Se a dona se banhou
Eu não estava lá
Por Deus Nosso Senhor
Eu não olhei Sinhá
Estava lá na roça
Sou de olhar ninguém
Não tenho mais cobiça
Nem enxergo bem

Para que me pôr no tronco
Para que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Por que me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz

Eu só cheguei no açude
Atrás da sabiá
Olhava o arvoredo
Eu não olhei Sinhá
Se a dona se despiu
Eu já andava além
Estava na moenda
Estava para Xerém

Por que talhar meu corpo
Eu não olhei Sinhá
Para que que vosmincê
Meus olhos vai furar
Eu choro em iorubá
Mas oro por Jesus
Para que que vassuncê
Me tira a luz

E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá


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Cd Chico. Chico Buarque de Holanda. Biscoito Fino, 2011.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Alvaro Moreyra

Jorge Adelar Finatto

Se um dia tiver de escolher um cronista pra levar para uma ilha deserta (essa pequena ilha imaginária que todo mundo tem, de náufrago, com uma só palmeira, perdida no meio do oceano), este cronista será o porto-alegrense Alvaro Moreyra (1888 - 1964).

O Brasil tem cronistas de valor, o sempre lembrado Rubem Braga é, com justiça, um bom exemplo. Mas nenhum tem a sintaxe tão refinada, natural, despojada e poética de Alvaro Moreyra. Não será exagero dizer que ele fundou a moderna crônica no Brasil.

As palavras parecem gostar de ser tocadas pela mão do escritor. Passeiam com ele, brincam, mergulham, saltam da página, seduzem e se deixam seduzir. Adoram estar perto do senhor Moreyra (ele acrescentou o y ao nome em lugar do i). Não há sobras nem há faltas no texto deste autor (principal influência literária de Carlos Drummond de Andrade, nos anos de formação, entre os escritores brasileiros).

São breves composições que têm a invulgar capacidade de traduzir sentimentos, pensamentos, estados de espírito, aquarelas da alma que normalmente são difíceis de pintar. A leveza, o humor, a bondade, a delicadeza e a ironia inteligente (que nunca se confunde com grosseria) são sua marca.

Um olhar amoroso sobre os seres e a vida é o traço deste artesão do verbo.

A injustiça e o sofrimento das pessoas não passam despercebidos nas páginas deste comunista devoto de São Francisco de Assis.

Poeta, diretor de revistas, teatrólogo (iniciou o movimento de renovação do teatro em nosso país junto com a mulher, Eugênia Moreyra, através do Teatro de Brinquedo),  Alvaro Moreyra sempre levou Porto Alegre e o Guaíba no coração por onde andou.

Estas impressões vêm a propósito de ter descoberto agora a edição de uma antologia de crônicas do escritor, recolhidas dos vários livros que publicou no gênero. É a primeira publicação desta natureza dedicada ao autor de Um sorriso para tudo. A obra faz parte da Coleção Melhores Crônicas, da editora Global, com seleção e prefácio de Mario Moreyra.

Tomo a liberdade de sugerir aos meus dois leitores que não deixem de levar para casa este livro. Estou certo de que viverão momentos de felicidade na companhia do senhor Arlequim da Silva (pseudônimo de Alvaro).

... E fico a ver navios. É um passatempo. O mar, por ser sempre o mesmo, é diferente sempre. Às vezes, verde, com franjas de espuma. Outras vezes, azul, parado, imóvel. Em certas manhãs, parece uma cauda de pavão... Eu gosto do mar. Paro, horas esquecidas, na areia da praia, olhando as ondas, marujamente, cheio de uma nostalgia deixada em mim pelos portugueses meus ancestrais... E fico a ver navios...

É o que tenho feito em toda a minha vida...

                                         Alvaro Moreyra *

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Foto de Alvaro Moreyra: reprodução de fotografia do escritor publicada na revista  Para Todos, de 19 de março de 1927 (coleção do autor do blog).

*Alvaro Moreyra, Coleção Melhores Crônicas, p. 54. Seleção e prefácio de Mario Moreyra. Global Editora, São Paulo, 2010.

Leia mais sobre Alvaro Moreyra:
A memória do coração:

Páginas de velhas revistas:
 
Teatro de Brinquedo:
 

sábado, 3 de março de 2012

Iberê Camargo e a escrita da solidão

Jorge Adelar Finatto

Solidão, pintura de Iberê Camargo, 1994. Foto: Luiz Achutti.
Fonte: site da Fundação Iberê Camargo:
http://www.iberecamargo.org.br

No passar vertiginoso do tempo, o instante quer ficar. O pintor é o mágico que imobiliza o tempo.
Iberê Camargo


Fiz uma visita à Fundação Iberê Camargo agora no fim de fevereiro. O edifício localiza-se na beira do Guaíba, e foi desenhado pelo famoso arquiteto português Álvaro Siza.   Gostei muito do lugar, sua organização, atendimento, mas acho que bem poderia ter pelo menos uns quatro janelões a mais para se admirar o rio e Porto Alegre.

Em nada interfeririam nos ambientes de exposição, já que as aberturas estão nos corredores isolados que rodeiam em espiral o interior do prédio.

Nada se compara à visão da cidade e seu rio. Penso nessa outra pintura não para fazer concorrência com as obras expostas no interior do museu, mas para nos aproximar dessa outra beleza, tão natural e delicada, integrando-a naquele espaço de arte. Falo como alguém que se ressente da falta de pontos de observação em Porto Alegre.

A cidade e seus habitantes estão vendados para o rio.

escultura Os Arqueólogos, bronze. De Chirico, 1968. photo: j.finatto

Era um dia nublado de fevereiro. Havia a tarde pela frente, suficiente para a visitação das duas exposições: Conjuro do mundo: as figuras-cesuras de Iberê Camargo, e De Chirico: O sentimento da arquitetura. 

Tenho um conhecimento pouco profundo da obra do gaúcho Iberê Camargo (1914 - 1994). A visita contribuiu para ampliá-lo. A fundação é o lugar ideal para conhecer esse importante artista brasileiro do século XX.

A minha relação com o grego Giorgio De Chirico (1888 - 1978, pronuncia-se De Quírico, conforme aprendi lá no museu) é mais antiga, vem do tempo em que andava às voltas com os surrealistas, sendo eu mesmo um deles, tardio embora, alguém que valoriza o inconsciente e os sonhos  no ofício de criar. Faziam parte de minhas admirações gente como De Chirico, André Breton, Salvador Dali, Antonin Artaud, Miró, Magritte, Lautréamont e vários outros membros da inquieta e ilustre família.

Há nas exposições pinturas encantadoras de Iberê e de De Chirico, além de belas esculturas deste último. Recomendo, portanto, vivamente uma visita a ambas. 

vista de uma janela da FIC. photo: j.finatto

As contínuas reformas na nossa cidade - a cidade é a nossa casa - nos transformam em forasteiros. O progresso é uma ação de despejo em execução.
Iberê Camargo

Os azuis da pintura de Iberê são únicos. Como no quadro Solidão, pintado no ano de sua morte. O que o artista nos transmite é um forte sentimento de que a beleza e a solidão caminham sempre lado a lado. Parece que uma não existe sem a outra. 

O indivíduo está só com ele mesmo e na vida em sociedade. Os caminhos são tortuosos e estão cheios de pedras. Nessas pinturas, há uma visão turva do destino humano. A metáfora de um tempo com a marca da crueza, num século que nos deixou de herança duas guerras mundiais e um ambiente nunca visto de desprezo ao humano e perda de sentidos.

A minha maior surpresa, contudo, viria depois da visita à FIC. Movido pela curiosidade de conhecer um pouco mais o pensamento do pintor, adquiri seu livro  Gaveta dos Guardados, publicado em 2009 pela Fundação Iberê Camargo e editora Cosac Naify.

O que li nesses textos é resultado do trabalho de um escritor talentoso, senhor do ofício da palavra. Este é um livro com horizonte e profundidade, de alguém que tem realmente o que dizer e o faz com arte.


interior da FIC. photo: j.finatto

Iberê não é apenas um artista plástico que escreve bem. Não é somente um homem culto que resolveu escrever e dar-se ares de escritor. Não. É um escritor que domina a expressão escrita com maestria e originalidade. 

Sou impiedoso e crítico com minha obra. Não há espaço para alegria. Acho que toda grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.
Iberê Camargo

O autor escreve com rigor e no que diz não existe espaço para superficialidades e salamaleques. Escrever, para este pintor de palavras, é um ato de vida ao qual se consagrou por inteiro.

Gaveta dos Guardados é um livro de memórias, mas é, sobretudo, um livro no qual se plasma a criação literária em alto nível. Uma descoberta.

Iberê Camargo é um caso raro de artista com domínio vigoroso e fecundo de duas linguagens.

fachada da FIC. photo: j.finatto

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As três frases em azul foram retiradas do livro Gaveta dos Guardados (págs. 102, 103 e 31), de Iberê Camargo. Fundação Iberê Camargo, editora Cosac Naify, São Paulo, 2009.