segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O último segundo do ano

Jorge Adelar Finatto
 

Embarcadouro em Auvers. Vincent Van Gogh. Instituto de Artes de Detroit

 
Uma espécie de arqueologia existencial toma conta desse dia em que se cruzam as informações sobre o ano vivido. O último dia do ano se presta a levantamentos diversos. A maioria das pessoas procura sentidos ao longo do período que hoje se acaba.
 
Não faço balanços de 12 meses. Prefiro a reflexão e as anotações diárias. Os exames de consciência anuais pouco me dizem, porque não se vive ano a ano, mas segundo a segundo.
 
É nessa quantidade ínfima de tempo que construímos aquilo que chamamos vida. O resto é conseqüência dessa obra minimalista.
 
O importante é o que vem por aí. Por isso, o meu desejo aos leitores do blogue é que tenham excelentes segundos durante 2013, que cada um construa minutos, horas e dias que façam valer a pena a passagem do tempo. E que consigamos levar nosso barco são e salvo ao destino sonhado.
 

domingo, 30 de dezembro de 2012

O cemitério de Père-Lachaise em Paris

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Père-Lachaise, Paris
 
 
Um leitor pergunta-me, por e-mail, o que, afinal, um escritor genial como Balzac ia fazer no cemitério de Père-Lachaise em Paris. Refere-se ao post de ontem (29/12/12), no qual escrevi que o grande romancista francês costumava freqüentar aquele lugar para meditar e realizar no local o que denominou "estudos de dor".


photo: j.finatto.Túmulo de Proust com carta e vaso de flor

Admirou-se, também, o raro leitor, pelo fato de eu ter passado um dia - um domingo - pesquisando, anotando e fotografando no tal cemitério: "O que pode haver de tão interessante num lugar assim? Não revelará esse gesto certa tendência mórbida do temperamento do cronista?", arrematou.

photo: j.finatto. Túmulo de Oscar Wilde em reforma, acima e em baixo (e os beijinhos)


photo: j.finatto

Não posso falar por Balzac, mas acredito que, atento observador como era, capaz de ir a minudências que passam despercebidas da maior parte dos mortais, as horas vividas no cemitério serviram-lhe de precioso material existencial e reflexivo para escrever sua obra.

Nada como a morte para chamar-nos à vida.

Uma certa melancolia ancestral habita o meu sangue, admito. Esse é um traço anímico de quem nasceu em Passo dos Ausentes como eu. Ninguém vem ao mundo impunemente aqui nos Campos de Cima do Esquecimento, entre gélidas névoas.


photo: j.finatto. Túmulo de Balzac

Mas ainda não chego ao ponto de fazer excursões a cemitérios por causa disso. Longe de mim! A morte é, entre os fatos naturais, o que me causa maior aversão e desgosto. Não existe entre mim e ela amizade ou encantamento possível.

Visitar cemitérios, portanto, não é um passeio que, de regra, me agrade, pelo contrário. Além disso, procuro sempre evitar tais visitas, pois, como diz aquele sábio ditado popular: "quem não é visto não é lembrado".


photo: j.finatto. Túmulo da escritora Colette

Uma visita ao Père-Lachaise tem valor cultural. É um giro pela história da arte e da cultura. E uma visão impressionante da transitoriedade de tudo nesse mundo. O destino final de todos os esforços, caprichos, alegrias, dores, sacrifícios, preocupações e vaidades.

Ali estão os túmulos de alguns dos principais artistas, escritores, filósofos e cientistas que marcaram a trajetória humana. As inscrições tumulares dão alguma notícia do que fizeram. Na portaria, o interessado pode pegar um impresso com o mapa das sepulturas contendo informações sobre os ilustres falecidos.

Também é possível observar a reação das pessoas diante da morte de personagens famosos (e outros nem tanto, os estudos de dor, de que nos fala Balzac). Cartas, bilhetes, livros, flores, velas, objetos diversos são colocados nos túmulos.

Mas nenhum dos habitantes do Père-Lachaise é alvo de tamanha manifestação de afeto como Oscar Wilde, cujo túmulo foi coberto por marcas de beijos com batom ao longo do tempo. Sobre o assunto escrevi Oscar Wilde: o beijo proibido.*


photo: j.finatto. Père-Lachaise

Estão também sepultados no Père-Lachaise, entre outros: Chopin, Édith Piaf, Yves Montand, Proust, Jim Morrison, Paul Éluard, Sarah Bernhardt, Maria Callas, Isadora Duncan, Allan Kardec, Camus, Molière, Champollion, Modigliani, Pissarro, Dalacroix, Max Ernst e por aí vai. É um panteão a céu aberto. Vale a pena uma visita.


photo: j.finatto. Père-Lachaise
 
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Oscar Wilde: o beijo proibido:
 http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/12/beijo-proibido.html

Fotos de novembro de 2011.
Texto revisto, publicado antes em 30.12.12.
 

sábado, 29 de dezembro de 2012

O texto de sábado

Jorge Adelar Finatto 

Pintura sobre fotografia de Balzac. Ano da foto: 1842.
Autor da foto: Louis-Auguste Bisson.
Fonte: Wikipédia.

 
4 horas da manhã e o texto de sábado ainda não chegou. As palavras fogem. Na ausência delas costumo ler, folhear um livro de pintura, ouvir música. Mas a essa hora não faço nem uma coisa nem outra. Espero a aurora.

4 horas, nenhuma palavra. Queria ter algo parecido com a volúpia de Honoré de Balzac (1799 - 1850), escrever com aquela exuberância, aquele vigor, aquele entusiasmo, aquela memória incrível e o fôlego sem fim.

Balzac escrevia pra pagar dívidas. Não fossem esses atrapalhos mundanos, não teria nos legado, talvez, A Comédia Humana (17 volumes). Os credores do escritor francês, sem o saber, deram ao mundo um gênio.

Claro, isso é uma redução talvez leviana, mas não é de todo despropositada. Balzac é um dos maiores autores que a humanidade conheceu,

No fim da adolescência, li as Ilusões Perdidas, sétimo volume da Comédia. Descobri um escritor absoluto, capaz de reconstruir e substituir a vida com palavras (na minha visão de então). Autor de uma obra que só o mistério do gênio pode explicar. Ao ler Balzac, nos perguntamos como um só homem foi capaz de escrever obra tão grandiosa, com tantos detalhes, realismo, imaginação e beleza.

Em algumas precisas linhas, a descrição do monumental escritor na palavra definitiva de Paulo Rónai: "Homem já feito, arrastando complexos de inferioridade e procurando compensar a consciência da inata vulgaridade por um esforço desesperado para atingir os cumes brilhantes da vida, a beleza, a nobreza, a fortuna. Velho antes do tempo, esgotado por milhares de noites de trabalho feroz, abatendo-se no limiar da felicidade almejada. Vemos-lhe os olhos em brasa, as faces rechonchudas, o papo do pescoço, os membros sem graça, a gesticulação exuberante, as vestes berrantes. Ouvimos-lhe a voz retumbante e a palavra fácil, a gargalhada grossa e a respiração ofegante."*

Visitando Père-Lachaise, o grande cemitério de Paris, hoje espécie de panteão a céu aberto onde estão os grandes de França, no qual se fazem visitas guiadas ou pessoais, como eu fiz, tirei essa foto do túmulo em precário estado do escritor. Esse cemitério foi um dos lugares de meditação de Balzac, que o considerava admirável para fazer "estudos de dor".

photo: j.finatto. Cemitério Père Lachaise, Paris.

Queria escrever um texto para postar no sábado. Menos, muito menos que um simples texto de Balzac, claro. Sempre penso no sábado como um dia especial, bom pra fazer coisas de que mais se gosta, entre as quais ler, um livro ou pelo menos uma página de blogue.

Apetece ler algo bom nesse dia diferente. Mas onde andará o texto que não vem para a página? Onde estão escondidas essas palavras que não afloram?

A essa hora faz muito silêncio, ainda mais que o tempo está nublado e úmido. Em breve os pássaros urbanos lançarão as primeiras notas do seu canto. Em Porto Alegre sinto falta das montanhas e dos pássaros de Passo dos Ausentes, do nevoeiro que cobre o Vale do Olhar e dos amigos que lá estão.  

Vou ver o sol nascer daqui a pouco na varanda do apartamento.  Enquanto isso mastigo umas fatias de pão torrado, tomando café.

Trato de recolher essas poucas palavras, antes que se dispersem no vento.

A luz amarela estica-se pouco a pouco sobre o Guaíba e o arvoredo, acordando os barcos e os ninhos. E os vivos para a vida.

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A Comédia Humana, volume I, Honoré de Balzac. Tradução de Vidal de Oliveira. Precedido de A vida de Balzac, de Paulo Rónai. Trecho extraído da pág. 12. Editora Globo, 2ª edição, revista, 1989, São Paulo.
 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O guarda-chuva azul

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

 
Saí hoje a caminhar na chuva pelas ruas do bairro. O som bonito dos pingos no tecido azul do guarda-chuva.

Porto Alegre fica uma beleza nessa época, pouco movimento de carros, ruas mais tranqüilas, muita gente já viajou nesse começo de férias. Parece até uma cidade do interior. Um lugar.

Com mais sossego, as pessoas recuperam um pouco a calma. Olham-se mais, conversam mais. Reencontramos a humanidade perdida (não custa sonhar).
 
Quando dei por mim já estava na calçada, a bordo do guarda-chuva azul, feliz da vida, molhando o tênis e o bornal. Fiz a pé o que tinha pra fazer na quinta-feira. Não era uma chuva forte, não tinha vento, nem tinha segredo. Mergulhei feito um peixe.

A chuva durou a tarde toda e entrou pela noite. A chuva molhou o meu casaco e as lentes dos meus óculos. Enquanto escrevo essas linhas ainda chove.

Caminhar na chuva, era disso que estava precisando. As gotas pulando uma dança infantil. Uma espécie de felicidade.

Uma chuvinha boa. Uma chuvinha pra ficar ouvindo no telhado.

A cidade florida do início do verão. Essa é a cidade dos hibiscos, das açucenas, dos flamboiãs. Largos trechos de calçada cobertos de flores. E tem as árvores, muitas.
 
Caminhar na chuva é um belo passeio em si mesmo. Um peixe feliz no aquário.
 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Simples palavras

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto
 

Durante a viagem de Passos dos Ausentes a Porto Alegre, parei com os filhos em Nova Petrópolis para o café da tarde. Isso foi anteontem, 25 de dezembro. A estrada estava movimentada, com os loucos de sempre fazendo insanidades. Felizmente Deus é pai e anda por perto.
 
No restaurante de estilo alemão havia algum movimento, o dia estava muito quente. Fazia anos que não parava naquele lugar, costumo ir a outro na saída para Gramado. Ocupamos uma das mesas à espera do atendimento que não demorou. 
 
Havia entre as atendentes (todas uniformizadas de preto, pareciam freiras) uma senhora que me chamou atenção pelo empenho, educação e vondade de fazer bem o seu trabalho. Estava tudo uma delícia. Resolvemos comprar algumas coisas para o café da noite.
 
Enquanto ela preparava a encomenda, resolvi dizer-lhe que o seu trabalho era excelente, que ela estava de parabéns. Ela ficou visivelmente tocada, disse que o elogio, no dia de Natal, era um presente. Acrescentei que era muito merecido.
 
No caminho viemos conversando sobre a importância de mostrar reconhecimento ao valor das pessoas. Simples palavras que podem fazer alguém feliz em meio à difícil luta.

Quanta gente a nosso lado, que a gente não vê, à espera de uma simples palavra que pode salvar o seu dia? Quem não precisa de um agrado?
 
Vamos, entonces, fazer um agrado a quem merece.
 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A Bíblia e a literatura

Jorge Adelar Finatto


Cópia da Bíblia de Gutenberg, Congresso dos Estados Unidos.
Fonte: Wikipédia
 

A Bíblia é provavelmente o livro mais editado e mais lido do mundo, embora nunca ou quase nunca figure nas listas dos mais vendidos. E é, também, um livro que precisa ser melhor estudado e compreendido. Um excelente presente é dar a alguém um exemplar da Bíblia, no Natal e em qualquer época.

Quem ama a literatura não pode deixar de conhecer a Bíblia, que é literatura de primeira qualidade. A palavra bíblia significa coleção de pequenos livros - ao todo 66 livros a compõem. Eles constituem o cânon bíblico, os livros escolhidos, sendo que outros foram rejeitados. A obra também é conhecida com a designação de Escrituras Sagradas por trazer a Palavra de Deus.

Os textos vão de Gênesis (a história da criação e dos primeiros tempos) até Revelação ou Apocalipse (o fim do atual sistema de coisas e o início de outro). São cerca de 40 os homens que os redigiram, sob inspiração e direção divinas, segundo os estudiosos.

Os 39 livros iniciais integram as Escrituras Hebraicas (Velho Testamento), escritas em hebraico e um pouco em aramaico, e os restantes 27 são as Escrituras Gregas Cristãs (Novo Testamento), escritas em grego a partir do nascimento de Cristo.
 
Os livros bíblicos são obras-primas do ponto de vista literário e constituem importantíssima referência religiosa e cultural da civilização judaico-cristã. A maneira de narrar e o conteúdo dos textos são primorosos. De certa forma, tudo está na Bíblia e todos os outros livros devem-lhe tributo.

As histórias mais fantásticas, os mais belos poemas, os sentimentos, as aventuras, o luminoso e o sombrio, nada escapa. O que se vê é o ser humano em carne e osso, com suas misérias e grandezas, não idealizado, votado à elevação moral e espiritual.

Deus aparece como um ser extremamente amoroso e bondoso, mas também capaz de irar-se e punir as pessoas pela reiteração de erros graves. A redenção (libertação) pelo perdão e pelo arrependimento surge como uma das principais vias de ascese do homem (a designação homem, na Bíblia, inclui geralmente homens e mulheres, conforme Gênesis 1:27).
 
A Bíblia é o único livro que está sempre na minha cabeceira. Creio que se trata de uma leitura inesgotável. Sempre há algo novo que não tinha percebido. Tem coisas que não compreendo, algumas são assustadoras (como a destruição de Sodoma e Gomorra e o modo terrível como as pessoas se comportavam naqueles lugares), mas nem por isso desisto de ler, aprender e me encantar.

Há textos incríveis como as histórias de Jó e Jonas, este preso na barriga do grande peixe. Todos os lugares citados existem geograficamente e os dados históricos são rigorosamente verdadeiros. É uma viagem pelo tempo e pela história humana. A impressão que tenho é que quanto mais se lê mais se abrem as portas da percepção para compreender o que está escrito.

Um dos meus livros prediletos é Tiago, escrito por Tiago, irmão de Jesus.

Um dos textos mais poéticos e sensuais que já foram escritos sobre o amor entre homem e mulher está em O Cântico de Salomão, escrito por Salomão.

Podemos ler os livros em ordem ou não. Algumas histórias, por outro lado, às vezes são entendidas de forma errônea.

Um dia desses ouvi alguém dizer que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso porque tiveram relações sexuais, transaram contra a vontade divina. Segundo esta pessoa, a expulsão foi injusta, porque fazer amor é um fato natural, não podendo ser considerado pecado, muito menos passível de pena tão violenta. Esta, no entanto, é uma visão equivocada na origem.
 
De fato, não há no relato bíblico afirmação de que a expulsão do famoso casal tenha ocorrido por terem tido relações. Pelo contrário, a orientação de Deus, no livro de Gênesis, escrito por Moisés, é clara: Sede fecundos e tornai-vos muitos, e enchei a Terra ( Gênesis 1: 28). Não existe vedação ao sexo.
 
O que está escrito é que a transgressão de Adão e Eva foi outra: comeram do fruto da árvore do conhecimento do que é bom  e do que é mau, o que lhes fora expressamente proibido (Gênesis 2:17). Podiam comer qualquer outro fruto das árvores do jardim do Éden.
 
Ao decidirem provar de tal fruto, sob influência do Diabo (agindo através da serpente), ambos abriram a mente para conhecer aquilo que até então ainda não conheciam: o mal. Pela desobediência, foram mandados embora e tornaram-se mortais.
 
Há motivos de sobra para a leitura da Bíblia, independente da crença religiosa, a começar pelo monumental valor literário.
 
A leitura do texto bíblico feita em conjunto com outras pessoas pode ser muito útil, pelas reflexões que suscita e pela ajuda que os mais experientes podem oferecer ao seu entendimento.

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Fontes de pesquisa:
Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, São Paulo, 1986.
Estudo Perspicaz das Escrituras, idem, 1992.

O prisioneiro da Ilha de Patmos:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/03/recordacao-da-ilha-de-patmos.html

jfinatto@terra.com.br
 

domingo, 23 de dezembro de 2012

Mãos dadas através da aurora

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto

 
É difícil acompanhar o voo desse pássaro tão veloz chamado tempo. Quando nos damos conta, um ano se passou e mal tivemos tempo de olhar as pessoas e as coisas a nossa volta.
 
O blogue está completando três anos de existência neste mês (o aniversário foi ontem, 22). Muitos textos e fotos depois, aqui estamos em mais um dezembro.   
 
De certa maneira, toda forma de expressão em arte é uma tentativa de construir sentidos e de encontrar a beleza escondida dentro e fora de nós.
 
A vida é breve e há urgência em cada palavra e cada gesto.
 
Por isso, as coisas - nas quais investimos esse bem não renovável e tão precioso que é o tempo - têm de valer a pena. Não podemos nos enganar e nem deixar que nos enganem.
 
A você, raro leitor, que encontra tempo no seu dia para vir aqui partilhar palavras, imagens e sentimentos, o meu agradecimento.
  

sábado, 22 de dezembro de 2012

A estação de Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto 


photo: j.finatto



O trem está imóvel na gare deserta. Por ali os passageiros são invisíveis. De vez em quando o apito perdido da locomotiva pode ser ouvido no roçar do vento nas folhas dos plátanos. Durante o dia o silêncio monta guarda na estação abandonada. Nenhum bulício de viagem na plataforma vazia, nenhuma respiração.
Juan Niebla, 85 anos, ocupa um banco no interior do terceiro vagão e toca seu bandoneón nas terças, quintas e quando lhe dá na telha. Naquele vagão, funciona hoje o Café dos Ausentes. O músico cego relembra os tempos em que recebia os viajantes com música.

A cidade então não era o território de fantasmas que hoje é. Gente chegava, gente partia, gente chorava, gente sorria. Havia vida nas casas, nas poucas ruas, na praça e na estação.
A cidade ficou ilhada em si mesma no dia em que acabaram com o transporte ferroviário. Muitas viagens ficaram interrompidas, muita gente foi embora em busca de um futuro melhor.
Da estação de trem de Passo dos Ausentes se saltava rumo ao universo.
- Eu estou aqui esperando a próxima composição de passageiros. Quando chegar, quero estar no meu posto, tocando o bandoneón. Para isso fui contratado em 1943. Essa estação ainda vai ter vida de novo um dia – diz Niebla.
Pode ser. Provisoriamente o presente está oco. Mas nada, nenhum homem, nenhum governo e nenhuma barbaridade como o fim da ferrovia conseguem enterrar as coisas boas que foram um dia e muito menos matar o amanhã.

Há algo que pulsa nas ruínas silenciosas dessa cidade, algo que insiste em sobreviver, um sentido de permanência na memória e no afeto dos poucos que ficaram.
Em certas madrugadas, ouve-se ao longe o ruído das rodas de aço sobre os trilhos avançando em direção à cidade. De súbito as luzes da estação se acendem. 

A velha locomotiva treme sobre os dormentes, expele fumaça pela negra chaminé, apita como se tivesse recém chegado de uma longa viagem. Ninguém consegue entender o que acontece. Ninguém ousa se aproximar, todos observam à distância.

Escuta-se um burburinho de sombras na plataforma. As vozes se misturam, vultos se projetam nas janelas.
Num instante as luzes da estação se apagam novamente. O silêncio da noite toma conta do lugar outra vez.
O vento toca as flores das magnólias. Um gato volta a dormir no banco da gare vazia.
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O tecido da tua ausência:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/12/o-tecido-da-tua-ausencia.html
 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Passos de algodão

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto. Alziro em pessoa
 

Depois de longa e sentida ausência, ele retornou ao convívio das tardes no escritório. Conheço meu amigo de outros invernos.

Partiu em fevereiro sem dizer nada, tão ao seu estilo, e me deixou aqui todo esse tempo sem poder ouvir sua voz cava, sem poder ver sua plumagem luminosa, seus olhos redondos e espertos.

Sempre sinto falta do olhar de banda e da maneira estrambótica de aterrissar num só pé na varanda do escritório.

Alziro tem temperamento forte e, às vezes, um certo mau humor o acompanha quando o tempo está pra chuva.

Ele voltou com suas cores vivas para amenizar o inverno. Eu andava mesmo precisado de sua companhia. Não que ele converse muito, é até meio calado. No fundo, nem é isso o mais importante.

A silenciosa presença do amigo, sabê-lo perto, partilhando a vida, é motivo de consolo e esperança.

Providenciei hoje a reposição de pedaços de banana no pratinho dos pássaros, fruto mais do seu gosto.

Em certos dias, Alziro deixa a cerimônia de lado, entra no escritório, em passos de algodão, e ensaia uma pequena incursão no ambiente. Olha o teto, os lustres, a mesa, os livros, os quadros, as plantas e relógios, tudo com silenciosa atenção. Faço que não percebo para deixá-lo à vontade.

Do mesmo jeito que chega, o meu amigo sai e vai embora. Como sempre, não se despede e nem diz quando voltará, apenas alça o improvável voo adunco e parte rasgando o ar.

O que importa, diz o coração, é que a velha e boa amizade está rediviva. Se tudo der certo, talvez ele retorne amanhã ou quem sabe depois. Só espero que não me falte tão cedo, porque meu inventário de ausências já vai longo na vida.

Amar traz consigo, sempre presente, o risco de perder.

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Texto publicado em 24 de agosto, 2010.
 jfinatto@terra.com.br

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O pintor do pôr-do-sol

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Quantos lápis de cor são necessários para pintar o pôr-do-sol? Não tenho ideia, raro leitor. Mas de uma coisa eu sei: que há uma grande arte nas mãos de quem o faz, isso há.

Estava pelo entardecer quando olhei em direção às montanhas. Aqueles traços e cores me invadiram o coração.

Na ilusão - sempre ela - de aprisionar aquele instante da luz e forma, peguei a velha Coruja e fui até a varanda do escritório fotografar. O caçador de imagens em busca de alimento.

O sol caía atrás das nuvens. Os últimos pássaros retornavam aos ninhos.

A breve hora do adeus de mais um dia.

photo: j.finatto

As imagens, sem qualquer retoque, estão aí.

O mérito de tanta beleza é de quem inventou e pinta diariamente as cores do crepúsculo. Um artista caprichoso e único. Em todos os finais de tarde senta-se diante da tela com seus lápis, pincéis e tintas e constrói os traços e as cores.

O grande artista distribui sua arte amorosamente para quem quiser ver, pobres e ricos, felizes e infelizes, bons e maus. Observadores efêmeros e privilegiados, a inefável pintura penetra fundo nosso espírito, nos sentimos parte de algo maior e mais belo.

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jfinatto@terra.com.br
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Vida urgente



  
Prezado Jorge,
 
Muito interessante seu texto (Sangue derramado no asfalto, 15.12.2012). Traz uma análise geral do que vemos todos os dias no trânsito. 

A Fundação, talvez por sentir a dor da perda “na pele”, nega-se a esquecer; a tornar cotidiano um fato que não é natural e que não podemos nos conformar em aceitar pacificamente. Muitos brasileiros morrem, muitas famílias são marcadas pela dor da perda súbita e violenta. Trabalhamos ininterruptamente para dizer que não queremos mais isso e que para mudar não basta “lavar o asfalto”, temos que mudar nossas atitudes, nossa postura, cobrar infraestrutura, fiscalização, educação, educação e mais educação, pois de outra forma não conseguiremos mudar a realidade e nos assusta pensar em quem poderá ser a próxima vítima. 

Acreditamos que quanto mais pessoas falando, escrevendo, comprometendo-se, incomodando-se com essa realidade, e, principalmente, mudando atitudes, mais forças teremos para escrever uma história diferente. 

Obrigada por entrar em contato.
Contamos com vocês!
Atenciosamente,
Ana Dall’Agnese
Diretora Institucional
Equipe Fundação Thiago de Moraes Gonzaga

+55 51 9161.1522
 

Fundação Thiago de Moraes Gonzaga
Rua Botafogo, 918 - Porto Alegre / RS
Fone / Fax: (51) 3231 0893
Portal:
www.vidaurgente.org.br
E-mail:
vidaurgente@vidaurgente.org.br
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domingo, 16 de dezembro de 2012

A canção dos bambus

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto

 
Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago
               Matsuo Bashô

A internet perdeu-se entre as nuvens escuras e a chuva desta noite. De modo que não há como trabalhar no blog nem visitar as páginas de costume, nem conhecer novas. Não posso me comunicar com outras estações do cosmos. O mundo, em suma, acabou...

A internet saiu do ar? É preciso recomeçar das cinzas.

Estou fora da rede, estou fora do planeta, isolado no alto da Serra dos Ausentes.

Cheguei de viagem, cheguei tarde, cheguei cansado. Enquanto Porto Alegre ferve perto dos 40ºC, aqui em Passo dos Ausentes faz frio.

Exilado do universo virtual, há que reinventar o tempo.

Volto às páginas impressas do velho e bom Gutenberg. Quem sabe depois vou ligar o vetusto rádio de válvulas coloridas sobre o armário. Por ora, quero ficar quieto nesse distante canto do mundo.

Tempo faz que não vejo os pássaros na varanda do escritório. Sinto falta da silhueta das montanhas, de ouvir o silêncio que vem da profundeza do Vale do Olhar. Estou precisando muito disso. Estive fora, estive longe.

Quero escutar, a essa hora inaugural da solitude, a voz cava e harmoniosa dos sinos de bambu ao redor da casa. A música suave e íntima dos bambus. Com ela percorro caminhos interiores, saio do círculo suicida do relógio e das notícias.

Conheço o rumor das folhas dos plátanos que habita o vento.

Caminho pelo bosque de bambus com os poemas do amigo Matsuo Bashô (1644 - 1694), bardo japonês por quem tenho enorme estima. Diz ele:

Depressa se vai a primavera
Choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes

É preciso cultivar o nosso jardim espiritual. E nossos peixes, nossos pássaros, nossas primaveras. A vida é este campo de semear, colher e repartir. O pequeno território capaz de produzir bons frutos, belos sentimentos e bons dias.

Preciso de tempo para ouvir a voz imemorial dos bambus no vento.
 
Caminho por uma vereda no meio do bosque. Na margem, o córrego corre entre os seixos, leva dentro de si as folhas e os últimos raios do sol.
 
A noite traz o vento, o vento sopra a canção dos bambus em volta da casa, a chuva chega e molha o coração seco.

Ouçamos Bashô:

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho
 
Ouvindo a canção dos bambus, experimento a impossível leveza.

Caminho pelo bosque e levo uma rosa na mão.

Vou visitar o amigo Bashô na beira do Lago Biwa, em Otsu, no Japão, em sua cabana atemporal, na qual vive e escreve seus haikais por toda a eternidade.

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Poemas (haikais) do livro O gosto solitário do orvalho, de Matsuo Bashô. Editora Assírio e Alvim, Lisboa, Portugal, fevereiro de 1986. Tradução de Jorge de Sousa Braga.
 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Sangue derramado no asfalto

Jorge Adelar Finatto 

Na viagem de retorno de Porto Alegre, a visão terrível: o corpo de um homem morto, com a cabeça e o tronco para fora do veículo acidentado e o restante preso nas ferragens. A polícia rodoviária com dificuldades para fazer os curiosos saírem do local (sim, tem gente que faz questão de ver o horror).

O trânsito no Brasil está entre os que mais matam no mundo. A principal causa das mortes é o profundo desrespeito à vida. As pessoas se recusam a cumprir a lei. Na concepção deformada de grande parte dos motoristas, as regras foram feitas para os outros, para os trouxas, para os inimigos.

A sociedade brasileira vive dias de intensa submissão à violência, à criminalidade e à falta de apreço pelos valores da convivência. A ausência de limites é um desastre entre nós e o comportamento no trânsito é o retrato dessa situação.

Os outros nada significam, o que conta é eu me dar bem, levar vantagem, chegar na frente, impor-me pela agressividade, mostrar quem está em primeiro lugar. O resto não importa, o bem comum é conversa para babacas.

Impressiona como se aceita a morte violenta. A morte desnecessária, a morte trágica, não causa espanto. Faz parte do cotidiano.

Uma das providências adotadas, logo após acidentes com vítimas fatais, é a lavagem do sangue do local. Há um mal-estar diante da mancha vermelha no asfalto.

É desconfortável ver o sangue derramado no chão. É preciso lavar rápido para rápido esquecer. E não se fala mais nisso.

Faltam agentes de trânsito em número suficiente, faltam meios técnicos adequados para enfrentar o problema.

Mas falta, acima de tudo, educação por parte de quem conduz veículos. E falta, essencialmente, respeito humano.

Se cada motorista resolvesse rever sua atitude, a realidade mudaria em 24h.

Enquanto isso, medidas do governo incentivam a compra de veículos que invadem as vias públicas e aumentam o caos instalado. Não há ruas e estradas suficientes para tantos carros. O transporte coletivo de qualidade é negligenciado. O sistema de saúde - que atua além do limite - é pressionado por doenças resultantes dos acidentes.

Acidentes de trânsito que, na verdade, de acidental muito pouco têm, já que previsíveis e, na maioria dos casos, provocados por pessoas que, a rigor, não poderiam estar dirigindo.

Infelizmente, cada um de nós é uma possível vítima, um número na estatística da violência no trânsito. Resta saber apenas o dia e a hora em que vamos cair.

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jfinatto@terra.com.br

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Giorgio Morandi em Porto Alegre

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Reprodução do estúdio de Morandi na FIC.

Uma luz silenciosa, calma e vertical verte das naturezas-mortas, flores e paisagens do pintor italiano Giorgio Morandi (1890 - 1964). Visitei a exposição do artista na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, que começou em 29 de novembro passado e irá até 24 de fevereiro de 2013.

photo: j.finatto. Vaso di fiori, 1951.

Além da exposição das obras (cerca de 40 pinturas e 15 gravuras), há um espaço reservado à reprodução, em tamanho natural, do estúdio do artista em Bolonha, cidade onde nasceu, viveu, trabalhou, amou e morreu. A estrutura utiliza painéis sobre os quais foram aplicadas as fotografias do ateliê feitas pelo fotógrafo italiano Luigi Ghirri, logo após a morte de Morandi. Há também um documentário do diretor Mario Chemelo sobre o pintor numa das salas.

O universo do artista - um dos principais nomes da pintura italiana do século XX - é habitado por coisas pequenas - vasos, garrafas, copos, flores, açucareiros, algumas casas, uma estrada branca, umas árvores, um pouco de mato. E é através da apreensão do que nessas coisas lhe interessa que a beleza dos objetos e suas cores se revelam aos olhos do observador.

photo: j.finatto. Paesaggio con strada bianca, 1941.

A grandeza da simplicidade dos temas assume relevo na construção do artista.

Só é digno de menção aquilo que participa da vida, parece nos dizer Morandi. Vale a singularidade de cada coisa apropriada pelo olhar humano do criador, não há padrões de importância plástica predeterminados.

No mínimo, no restrito, pode-se encontrar a grata revelação.

O que anima, dá vigor e brilho à vida é o modo de estar no mundo de cada ser e cada coisa na sua existência única e particular.

photo: j.finatto. Natura morta, 1945.

A figura humana não aparece na obra do artista. Isso não significa falta de interesse pelo humano. Uma ausência que terá explicação na alma profunda do criador. É sua maneira pessoal de olhar o mundo.

Giorgio Morandi gosta mesmo das naturezas-mortas e de um pouco de paisagem. Através delas ele consegue tocar a emoção das pessoas.

Aqui se encontra a travessia do invisível, a manifestação do sentimento na transcendência do olhar. É o que interessa.

Não há frieza no seu trabalho, senão uma cálida aproximação do objeto pelo silêncio, pela economia de recursos, pelo afastamento de qualquer excesso. Uma lente poderosa se apropria do objeto a partir do seu interior, deixando de lado o que não é essencial.

O calor das coisas simples. É a imagem que me vem da observação do traço deste artista paciencioso e obstinado. Em arte, chegar ao simples é o supremo desafio, a mais alta esfera, o horizonte sempre buscado que só a poucos se entrega.

Giorgio Morandi consegue penetrar na alma daquilo que pinta e traz à tona a sua intimidade. O artista extrai espírito do inanimado.

photo: Giorgio Morandi, 1960. *
Autor: Antonio Masotti
Acervo: Museu Morandi 

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A exposição Morandi no Brasil tem curadoria de Alessia Masi e Lorenza Selleri.
Museu Morandi, Bolonha, Itália:
http://www.mambo-bologna.org/en/museomorandi/
Fundação Iberê Camargo:
http://www.iberecamargo.org.br/site/default.aspx
* A foto está em forma de painel num corredor da mostra. photo: j.finatto
 jfinatto@terra.com.br

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Não escrevemos o primeiro verso

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Não escrevemos o primeiro verso
há tudo por ser dito
mas sou teimoso
insisto no jogo

quando desanimares pensa em mim
que não abandonei as ferramentas
que não dei um verso para a eternidade

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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

jfinatto@terra.com.br

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O calepino de Dante

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Ponte de Rialto, Veneza.
 

O vento geme como um bicho malferido nas esquinas, sacode placas na rua, portas e janelas, enlouquece os ponteiros do relógio da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.

Um lento lamento emana do interior do sino da igreja da praça.

Um cenário de filme de assombração. Aqui acontecem coisas do outro mundo. Os fantasmas somos nós, habitantes dessas terras frias e invisíveis situadas nos Campos de Cima do Esquecimento.

Lá fora, a chuva molha a solidão da rua.  Somos peixes no aquário, nadando de um lado para outro dentro de casa, tentando enxergar, sentir alguma coisa nesse enorme vazio. Peixes à procura de qualquer coisa mais que silêncio e oblívio. Agora que o inverno chegou.

Vivemos nessas remotas e íngremes alturas, no sul do continente, entre inóspitas nuvens.

Este lugar é a última estação antes do fim do mundo.

Os poetas sabem bem o que é isto que eu digo, não falo coisas inaugurais (quem me dera). Digo o trivial da humana vida e não mais do que isso.

Nesse território pequenininho existem coisas de espantar.

Um dia, não me lembro quando se passou o caso, encontrei o calepino de Dante numa rua remota e esquecida de Veneza. Caminhava do meu jeito naquela cidade, olhando as coisas de perto por causa da visão (os óculos fundo de garrafa).

Naquela cidade veneziana tudo é insondável e úmido labirinto e eu, quase cego, gosto de me perder em labirintos.

As janelas das casas daquela fondamenta - rua na beira de um canal - onde cheguei não sei como, tinham flores e cordas com roupas secando, mas não havia ninguém morando nelas. Uma doideira. O vento percorria o canal assobiando uma canção terna e delicada, sem começo nem fim.

O calepino estava sobre a velha mesa de uma livraria abandonada. A livraria ficava mais ou menos perto da Ponte de Rialto, no Grande Canal. Entrei lá abrindo uma porta escura e pesada, muito difícil de abrir.

Sentei numa cadeira de couro marrom diante da mesa, ao lado um pequeno vitral amarelo que deixava penetrar um sopro de sol.

Abri o calepino, quase encostando os olhos nele. Na terceira página estava escrito: Dante Alighieri, 1319. Li sem fôlego as primeiras anotações do mestre florentino.

Só então percebi do que se tratava e do tesouro que tinha em mãos: eram esboços de poemas misturados a notas de diário, rascunhos de cartas e pequenos desenhos.

A música que o vento tocava lá fora, me dei conta, era a Valsa dos Ausentes, de Pixinguinha.

O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.

Antes de sair da estranha livraria, guardei o calepino de Dante no fundo do meu alforje. Desde aquele difícil evento nunca mais nos separamos. Nunca antes contei essa história. (Às vezes me pergunto se de fato aconteceu ou terá sido um sonho meu, aturdido por esses ventos do fim do mundo.)

O calepino de Dante é o consolo que trago. Quando o leio, como nessa hora longínqua, sentado na cadeira de palha da mesa da cozinha, tomando café preto com biscoitos de polvilho, esqueço tudo de ruim.
 
O medo de morrer não encontra lugar nessa hora solene.

Nem tudo são solitudes, então me dou conta. Passagens luminosas habitam o breu.

Tem orquídeas e magnólias povoando os jardins em junho. Os ramos brotam entre os secos galhos da memória.

É um tempo de busca-vida, esse.

Um texto, notícia do invisível.
 

sábado, 8 de dezembro de 2012

A arte das ruas

Jorge Adelar Finatto
 

Grafite do artista britânico Banksy
 
 
A arte do grafite tem sido injustamente atacada por gente que nada entende do riscado, literalmente. Primeiro, é preciso desarmar o espírito e querer ver, antes de botar tudo no mesmo saco e jogar no lixo.
 
Não gosto da riscalhada gratuita e grosseira que enfeia, quando não danifica, monumentos, muros e paredes da cidade. Esse tipo de coisa gera um enorme vazio. Parece vir de pessoas que não têm o que dizer e que nunca se ocuparam em aprender a desenhar sequer um ovo.
 
Quer dizer, poluem visualmente o espaço urbano da mesma forma que os milhares e milhares de letreiros e placas publicitárias espalhados por todo lugar. Um desastre para os olhos e o coração.

O grafite como manifestação artística é outra coisa. São imagens e textos que embelezam a paisagem adversa da cidade, nos animam, nos fazem pensar, emocionam.

A arte do grafite é transitória e perecível por natureza. A constante exposição ao tempo, sol, vento, chuva, se encarrega de desgastar as obras até apagá-las. Não raro o desaparecimento das imagens se dá pelas mãos de quem não aprova essas intervenções.
 
Já escrevi sobre como descobri o trabalho de Basquiat* e como passei a admirá-lo. Os traços de seus grafites ganharam museus e galerias, em outros suportes. Se estivesse vivo, provavelmente continuaria fazendo pinturas nas ruas de Nova York, onde construiu-se como artista.
 
Grafite de Banksy
 
Com o tempo passei a conhecer artistas do grafite também no Brasil, que iluminam o cenário áspero e sombrio das ruas com suas criações.

Alguns desses artistas são hoje requisitados no mundo todo para imprimir seus trabalhos em ruas e prédios públicos e privados.
 
É preciso discernir o que é riscalhada do que é a arte do grafite. O grafite artístico compreende intervenções através da pintura, literatura, humor, filosofia, política e outras. Não desfigura o ambiente, pelo contrário, humaniza-o.
 
Trata-se de uma resposta à insuportável solidão dessas babilônias de concreto, vidro, asfalto, veículos, perigo e medo que nos cercam. Um grito contra a indiferença.
 
Os administradores devem continuar destinando espaços a esses artistas, como se faz atualmente em algumas cidades do Brasil e em diversos países. É uma maneira de abrir janelas nos muros, paredes e paredões opressivos para que através delas entre um pouco de luz, beleza, cor e sentido.

Banksy
 
 
Grafite de Banksy**
 

Estou lendo o livro Banksy, Guerra e Spray, que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Intrínseca. É uma leitura interessante sobre a experiência deste artista de rua inglês. Ele expõe sua visão acerca da arte do grafite, dos percalços, da afirmação. O seu trabalho reúne imagens poéticas, crítica social, política e costumes e traz um olhar atento à desumanização em que vivemos. Ao mesmo tempo, tem humor, ironia, lirismo e delicadeza, como demonstram as obras aqui reproduzidas.
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Fora do poema tudo é caos

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
 
 
Esta frase - fora do poema tudo é caos - me saiu numa entrevista* ao jornal Zero Hora, de 1984, tendo como entrevistador o jornalista Danilo Ucha. Naquela época  ainda se entrevistavam poetas da aldeia na imprensa local.

Os meios de comunicação se expandiram, mas os espaços para divulgação de arte e literatura, fora do interesse estritamente comercial, diminuíram tanto que tenho dúvida se existem hoje entre nós.

A entrevista versava sobre o lançamento do meu livro Claridade, de poemas, selecionado para publicação dentro do Plano Editorial de 1983, da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Porto Alegre.

Consta, na abertura da matéria, que o autor era um jovem jornalista e poeta de 27 anos. Custo acreditar que já tive essa idade.

O tempo passa, a gente fica mais perdido, mas certas verdades permanecem. Está escrito que o poeta (aquele jovem poeta de 27) estava angustiado e perplexo "diante de uma realidade maluca, atrasada e violenta como a brasileira".

Também está dito que os poemas falavam de uma pessoa que "experimentou na consciência e na pele a dolorosa sensação de viver uma realidade sem perspectivas. Onde o indivíduo se sente arrastado pela opressão e sonhar é quase proibido. Onde viver se tornou a maior transgressão".

Nos poemas, apesar disso, "constata-se a convivência mais harmoniosa entre linguagem e vida. O mundo silencioso onde o real e o imaginário caminham juntos. Há uma integração profunda com a aventura humana. A palavra não salvará o homem, mas será sua projeção e seu espelho. Uma espécie de testemunha de seu próprio destino".

O poeta "trabalha com o poema numa região de luz, sem concessões ao desespero e à morte, acredita na força das coisas belas, na energia positiva das pessoas capaz de gerar zonas de intensa verdade e esperança.

"A fé na existência e no amor sobressai-se como o caminho destinado a vencer o escuro e a dor. O poder transcendente da vida sobre a morte, através da dimensão do amor, transforma e eleva".

Conclui o bardo de 27: "Nunca fiz literatura pelo simples prazer de escrever, ela surgiu na minha vida como uma necessidade inarredável, quase tão vital como respirar. Eu até preferiria viver sem escrever. O grande Manuel Bandeira disse certa vez que só se sentia seguro no chão da poesia. Eu sinto isso. Fora do poema o mundo é algo incompreensível e muitas vezes insuportável. É preciso criar tudo de novo, começar a vida das cinzas, renascer. Fora do poema tudo é caos".

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*Entrevista publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 13.4.1984. A matéria foi feita pelo jornalista Danilo Ucha. 
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Cuando Dios hizo la luz

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Colonia del Sacramento, Uruguai.
 
Cuando Dios hizo la luz, yo ya debía tres meses
(Quando Deus fez a luz, eu já devia três meses)
 
 
A maneira espirituosa e bem-humorada de ver a vida é o que distingue a calma do desespero. Ante uma situação difícil (e elas acabam surgindo), o melhor é manter a serenidade e buscar as possíveis saídas (que sempre existem).

O desespero é um mau conselheiro, timoneiro de um navio enferrujado, carregado de tristeza e melancolia, que navega torto pelo mar afora rumo ao inevitável abismo.
 
O bom humor ajuda a manter a alegria (essa coisa que começamos a perder ao nascer) e, com ela, a saúde.

O espírito leve é um poderoso amigo na luta contra os tombos da condição humana (que, como todos sabemos, nem sempre é fácil).

A frase sobre Deus e a luz (uma pérola) é mais um dos grafites montevideanos que recolhi na minha última viagem ao Uruguai.

Grafites como esse levam a rir e a pensar. Promovem uma reflexão qualificada e irônica (sem ser amarga) sobre a existência. Não querem vender coisa alguma, apenas comunicam algo que acaba influenciando positivamente o nosso estado de espírito.

Comprovam que, mesmo diante do horror e da náusea, sempre podemos encontrar algum encanto, alguma graça, no ato de viver. 

Fiquei olhando o grafite e pensei: é bom estar vivo, andando por essas ruas, sem desesperar em relação ao que vem por aí. Ninguém tem controle sobre isso.

Depois fui até o café da esquina. Abri o livro que tinha comprado do poeta uruguaio Mario Benedetti e nele anotei a frase.

A tarde estava quase completa, agora misturada à garoa que começou a cair (ficou completa com a chegada da taça de café com leite com pão e manteiga e com o início da leitura dos poemas).

Sim, é bom ir vivendo dia a dia, hora a hora, café a café, livro a livro, cada instante a seu modo, como se tivéssemos essa sabedoria, como se nos tocasse viver  a eternidade toda pela frente. Como se não houvesse essa dor.
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O tecido da tua ausência

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

 Na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, ouvi de Juan Niebla, o músico cego, o seguinte depoimento, enquanto bebíamos uma taça de café preto com pão torrado. Pediu-me que tomasse por escrito suas palavras.*

Só pra recordar: faz tempo que partiste e não escreveste uma carta sequer (um amigo sempre procura no correio pra mim).

Nem cartão postal, nem telefonema, nem e-mail. Nada. Silêncio absoluto.
 
Eu me prometi que não sentiria mais. Não iria mais até a janela escutar teus passos no vento. Nem te encontraria nos sonhos outra vez. 
 
O trem fantasma chega no meio da madrugada na estação de Passo dos Ausentes. Eu ouço o barulho ritmado das rodas nos trilhos. Às vezes pego o capote, o chapéu e a bengala e vou até lá. Volto sempre de mãos vazias.

photo: j.finatto. Estação da Ausência
 
A tua face vai sumindo da memória dos meus dedos (queria mesmo que fosse assim, como desligar uma lâmpada).

O desespero que sinto não é tanto pela tua ausência: é pelo espectro que hoje eu sou. Perambulo pela casa conversando com minha sombra. O aroma das madressilvas entra através das janelas em novembro como a dizer que vale a pena esperar.

Eu seguro o bandoneom e começo a tocar o Concierto Andaluz de Joaquín Rodrigo, que é um modo de me iluminar e suportar.
 
Faz tempo de ti. Não gosto do silêncio imemorial dessas noites (a falta da tua voz no breu).

O ruído do movimento do ponteiro do relógio em meu pulso é seco e aflitivo.

Ando tanta escuridão, tanta. Às vezes me pego acendendo todas as luzes da casa.
 
Ofereço-te este ensaio no escuro sobre o tecido da ausência.

Ei-lo.  Eis-me.

Um farelo de tua ausência apenas. O mais é o que não se diz. Desmesurado sentimento. Não cabe na folha de papel, na página volátil de um blog.

Viver é maior que qualquer literatura.

Sinto cheiro de terra molhada. Em algum lugar está chovendo agora.

Talvez caminhes sozinha na chuva.

O resto é relâmpago. Conjuro da solidão.

Um raio de luz no ventre da nuvem.

 
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*Juan Niebla é músico em Passo dos Ausentes. Admitido por concurso público em 1943, ocupa o cargo de músico municipal na estação de trem abandonada da cidade, transformada em centro cultural. Toca bandoneom nas terças, quintas, sábados e quando lhe dá na telha. Tem 85 anos, é cego desde os 16 e não aceita a aposentadoria compulsória. Texto ditado por Niebla em 24 de novembro, 2012, na Estação dos Ausentes.

A claridade do coração:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/04/claridade-do-coracao.html
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Palavra viva

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto. Passo dos Ausentes. Vale do Olhar


Nem todo livro se escreve só por vaidade.

Numa certa medida, a vaidade, sem exageros, faz bem. Como quando nos leva a cuidar melhor de nós e dos outros. É benigna se se traduz em maior zelo pelo modo como fazemos as coisas.

A vaidade, por exemplo, do trabalho bem feito é justa. 

Os melhores textos, creio, surgem a partir de motivações internas profundas, que se impõem movidas pela necessidade de expressar e comunicar.

Escrevemos para entender melhor o mundo e a nós, para sermos ouvidos e, se possível, amados. 
 
Como o músico, o escritor dedilha seu instrumento. Um toco de lápis sobre a folha de papel.

Escrever é um concerto solitário num teatro vazio.

Quem escreve espera que haja alguém do outro lado. Nem sempre há.
 
Meu primeiro contato com a palavra foi através do jornal que o avô lia, ao lado da janela por onde o dia entrava. E também através das cartas que ele escrevia, com a caneta de tinta azul, e daquelas que recebia.

Amar os livros e gostar de escrever é uma coisa. Viver de literatura é outra. No início, achei que como jornalista estaria mais perto da literatura do que em outras profissões. Não era verdade.

A grande carga de trabalho do jornalismo, a intensidade e as preocupações da profissão não permitem maior elaboração do texto. A disponibilidade de espírito para criar fica muito prejudicada. O estresse é constante.

Não consegui em outras profissões o que não alcancei no jornalismo: conciliar trabalho e criação. Descobri que escrever literatura não combina com sobrevivência. Contam-se nos dedos os que conseguem ganhar a vida escrevendo. 

Escrever é uma atividade clandestina, exercida nas horas mortas (na verdade, as mais vivas).  Pelo menos pra mim tem sido assim, falta-me talvez engenho e arte para reunir as coisas.

O ato de escrever é o que traduz melhor a procura de transcendência na minha passagem pela condição humana.

Escrevo com gosto e entusiasmo e nunca fiz disso meio de vida. Sou amador na inteira extensão do termo: amo o que faço e o faço de forma não profissional.
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carlos Pena Filho

Jorge Adelar Finatto

 
Os mascarados. Autor: Passarinho. Fonte: site da Prefeitura de Olinda:
www.olinda.pe.gov.br
 
 
Pernambuco tem dado ao Brasil artistas e pensadores da mais alta expressão. O poeta Carlos Pena Filho (1929 - 1960) está entre eles. Trata-se de um senhor artesão do verbo. 
 
Poeta daqueles que devemos ter sempre por perto, com um livro à mão, principalmente nos dias de hoje em que a beleza e a força da palavra estão tão diluídas.
 
Nascido no Recife,  onde morreu muito jovem num desastre de automóvel, Carlos Pena Filho faz parte da linhagem de gente como João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, entre outros pernambucanos que traduzem com requintada arte o modo de ser, sentir, fazer e sonhar do nosso povo.

Um poeta de fina extração. Como todo bom bardo, diz coisas a que o comum dos mortais, por si só, dificilmente tem acesso.
 
As mãos do poeta tornam sensível o invisível, aproximam o remoto, iluminam o sombrio.
 
 A seguir, para despertar o interesse do leitor, um poema da obra Melhores Poemas de Carlos Pena Filho, Global Editora, 4ª edição, São Paulo, 2000.


A mesma rosa amarela

Você tem quase tudo dela,
o mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela,
só não tem o meu amor.

Mas nestes dias de carnaval
para mim, você vai ser ela.
O mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela.
Mas não sei o que será
quando chegar a lembrança dela
e de você apenas restar
a mesma rosa amarela,
a mesma rosa amarela.*

E esta perfeita tradução de uma cidade, nos versos do poema Olinda:

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

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*Este poema, com música de Capiba, tornou-se conhecido em todo o país, fazendo muito sucesso nas vozes de Maysa, Nélson Gonçalves, Tito Madi e Vanja Orico, entre outros. Informação colhida na obra citada Melhores Poemas.

Olinda, a epifania do olhar:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/08/olinda-epifania-do-olhar.html