sábado, 31 de dezembro de 2011

Leveza no tranco

Jorge Adelar Finatto

ilustração: Maria Machiavelli

 
A palavra que escolhi para 2012, espécie de busca-vida nesse início de ano, é leveza.

Sim, um pouco mais de leveza. Leveza no modo de sentir e levar a vida.

Leveza no trato com as pessoas.

Nada de grandes pesos na mala. Uma existência mais suave, com menos fantasmas a acordar-nos à noite e pela manhã.

Que o peso da vida, se for inevitável, se distribua com alguma delicadeza ao longo da viagem, sem arruinar nem estragar a travessia.

Leveza, sim, um pouco de leveza.

Para admirar a paisagem, para conversar com o passageiro ao lado, para cultivar sentimentos.

Leveza, enfim, para expulsar o desespero e a tristeza da nossa porta.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O faxineiro da casa

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Jardim do Palácio da Alhambra, Granada, Espanha.


Este é tempo de casa cheia. Gente ausente vem de longe para as comemorações de Natal e Ano Novo. As festas são, na verdade, um pretexto pra rever a quem se ama e pôr em dia a sempre adiada convivência.

A reunião implica, por outro lado, divisão de tarefas. Como não sei cozinhar e nem possuo outras habilidades, sou designado para a limpeza dos banheiros. Mister, aliás, de que muito me orgulho. Estou entre aqueles que acreditam que nada na vida é por acaso.

A modéstia, contudo, me impede de dizer que poucas pessoas sabem limpar e arrumar um banheiro como eu. Haverá faxineiros mais graduados e com melhor currículo, desses que trabalham em hotéis de luxo e navios de cruzeiro. Mas ainda não encontrei mais esforçado.

Com a minha experiência no metiê, posso afirmar que nós, operadores da limpeza, nos ressentimos da falta de reconhecimento. Aos cozinheiros, todos os louros são conferidos. Assim também aos arrumadores dos quartos e demais ambientes da casa, aos lavadores e passadores de roupa, aos jardineiros, motoristas, babás, etc.

Ninguém nunca diz: que banheiro mais asseado, que louças tão alvas e lustrosas, que toalhas bem postas, que belo arranjo floral, que frescura de campo. Parece até que o serviço se faz por si.

Não quero polemizar com as outras categorias, longe de mim. Mas que há uma indiferença em relação ao pessoal da faxina não tenho dúvida.

Gostaria de lembrar que estamos abertos a elogios e mostras de apreço em geral. Um afago não ia nada mal, assim como um avental novo e colorido de vez em quando.

Um 2012 limpo e perfumado é o que desejo a todos.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Refúgio

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Tudo tão frágil na vida
o mundo inteiro cabe num abraço

medos povoam a insônia
a chuva lá fora é a infância
com seus tesouros submersos
no navio sem leme
nem capitão
do tempo

melhor me refugiar no teu corpo
fingir que tudo está tranquilo
arranjado e bom
como no útero


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Poema do livro O Fazedor de Auroras, J.Finatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1.990.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A bicicleta azul

Jorge Adelar Finatto


ilustração: Maria Machiavelli


Amanheceu frio, chuvoso e com neblina. É verão pleno e véspera de Natal. Esse tempo, contrariando o calor dos últimos dias, faz a gente se sentir mais leve.

Não sei se em razão do tempo introspectivo, veio até mim esta recordação como uma pequena lanterna dourada no fundo do rio da memória.

Devia ter cinco anos, morava com os avós. Num lugar pequeno, afastado do mundo, na altura ventosa das montanhas. Um território de nuvens e pássaros mais que de gente.

Na manhã de Natal, o avô me acordou cedo. Disse para eu ir até a sala. Desci do sótão pela escada o mais rápido que pude. Lá chegando, fiquei encantado. Estava diante da primeira maravilha do universo.

De pé, sobre as duas rodinhas auxiliares, estava a minha bicicleta azul, o melhor e mais precioso presente que alguém podia ganhar na vida.

O que senti na ocasião foi tão forte e tão bom que até hoje me alimento dessa lembrança.

Nunca esqueci da minha bicicleta azul.

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Feliz Nascimento de Cristo para todos!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Entonces es necesario piramidar

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Recriação do quarto de Van Gogh em Arles. Museu Van Gogh, Amsterdã.


A internet é uma árvore cheia de galhos e ramificações que se espalham por todo o mundo. Blogues e sites são como ninhos que se alojam nessa frondosa árvore planetária.

Faz hoje dois anos que O fazedor de auroras está na rede. Agradeço a presença das pessoas que nos visitam. É uma satisfação recebê-los.

Todo mundo é ocupado demais. Por isso cada visitante tem de ser recebido como alguém especial. É o mínimo que procuro fazer nesta sala simples, porém sincera.

Não faço balanços de fim de ano, porque tenho enjoos de navegar por essas águas. Se paro para pensar, parece que tudo ficou por dizer ou fazer.

Mas quando olho em frente, sinto que existe muita estrada verde e iluminada querendo ser pisada.

Prefiro, então, nessa hora piramidal (?), recorrer aos versos do amigo e grande poeta Heitor Saldanha:

 Las pirámides están llenas de luz.
 Entonces es necesario piramidar.*

A foto acima é um mimo (??) aos dois leitores do blogue. É a representação do quarto de Van Gogh, em Arles (cidade ao sul da França, onde o artista viveu um certo período).

A montagem, feita com móveis, quadros e objetos, é fiel à pintura do gênio holandês, datada esta de 1888. A instalação está no segundo andar do Museu Van Gogh, em Amsterdã, a poucos metros do quadro original.

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* Do livro A Hora Evarista, trecho de Poemeto, Heitor Saldanha, Instituto Estadual do Livro, Editora Movimento, Porto Alegre, 1974. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O menino e o cego

Jorge Adelar Finatto


O menino caminha
pela mão do cego

o cego carrega os livros
na velha mala de couro

traz a alma partida
o violino pendurado ao ombro

cavaleiros passam lentamente
na noite da rua São João
dormem sobre os cavalos
com grossas capas azuis
os chapéus caídos nos olhos

vão para o olvido

o menino e o cego
a torre e o sino
a estação
a lua fria
o trem que parte

o vento agita as folhas

gira atônito
cata-vento
do tempo

a vida não será
mais a mesma

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Ilustração de Paulo Porcella.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O escândalo continua (ou uma orquestra de sopros e cores no jardim)

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

As flores perderam a noção do razoável e do pudor. É difícil olhar para o jardim e não corar (como um frade de pedra não pode fazer). Estava no escritório, na dura faina, olhando o mundo pela janela (a triste sina), quando comecei a ouvir instrumentos de sopro lá fora.

Caminhei até a breve varanda da clausura. Descobri, entre aromas, um conjunto floral em concerto, tocando seus instrumentos.



Desnecessário dizer que daí por diante perdi a concentração no que fazia. Passei o resto do dia esticado na cadeira de balanço com aquelas músicas, aquele perfume, aquelas finas cores.

photo: j.finatto


Alguma coisa está fora do controle. A beleza brutal e desumana dessas flores açula, em meio ao caos, os corações secos, abre as janelas do sentimento.

Não sei como essa insensatez vai acabar. Pra falar verdade, não estou muito preocupado. Afinal, dizem, não há mal que sempre dure.

photo: j.finatto


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Vitorino Nemésio, mestre da palavra

Jorge Adelar Finatto

photo: Vitorino Nemésio*


Esta saudade desesperada e impertinente que tenho do que já fui.** V.N.

No mês passado, em Lisboa, uma tarde ia pela Rua Garrett, no Chiado, decidido a encontrar algum livro do poeta, cronista e ficcionista português (açoriano) Vitorino Nemésio (1901-1978). Conhecia-o vagamente, de ouvir falar.

Entrei numa livraria e descobri na estante Viagens ao pé da porta, um de seus vários livros, volume de crônicas editado pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, de Portugal. Entusiasmado com o achado, fui sentar no café A Brasileira para a costumeira pausa do cafezinho e da leitura.

Impressionou-me muito o texto do autor nascido nos Açores (as ilhas outra vez, onde também repousa a origem materna de Fernando Pessoa).
 
Eis um senhor  escritor e um notável humanista, combinação que só raramente encontramos. Combinação que faz de um escritor um grande escritor.

Às vezes, o indivíduo escreve bem, mas não tem lá muito o que dizer. São escritores ligeiros, cuja profundidade é a de um rio a que uma formiga atravessa com a água pelas canelas.

Em outro caso, a pessoa tem conteúdo, mas não talento para expressar-se com arte através da palavra escrita.

Nemésio, que foi professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se aposentou (lecionou, também, na Bélgica e no Brasil, por algum tempo), é um caso sério da escrita e do pensamento em língua portuguesa.

Ouçamos um pouco as suas palavras:

Cartas-prefácios já se não usam. Algum desabafo, em volume, é logo levado à conta de prolixidade e pieguice. Tudo se tornou tecnicamente curto e teleimediato...

Mas eu fui criado com o dito de "quem não desabafa rebenta", e preciso expandir-me.

Este livro é fraca coisa: Viagens ao pé da porta - confissões de um pequeno filósofo (como dizia o nosso defunto vizinho Azorin) emparedado numa aldeola das abas da Cumeada de Coimbra. É um livro feito dos papéis avulsos de uma longa colaboração na rádio e na imprensa periódica, em cujo impressionismo pude contudo guardar a liberdade interior da reflexão e da poesia. (...) [Dedicatória]

Deus dá o peixe à rede, o grão ao arado, a lenha ao machado, a palavra à pena e a pena à galinha. Depenei a minha galinha, aparei a minha pena, copiei o meu traslado Ao calor do meio-dia a fonte rendeu a última gota de água. O pote está cheio. Oxalá a água chegue para enganar a sede, - pelo menos ao dono do pote... [Filosofia aldeã]

Por que será que tudo na vida se não reduz a silêncio de campo e a sombra de árvore? A verdade é que trememos como varas verdes diante da morte, que já é raro apanhar-nos na cama, como apanhou nosso avô, mas vem sorrateira e mecânica no guarda-lamas de um camião ou na mesa de mármore da cervejaria de esplanada, secção de doenças súbitas. (...) [Terceira crônica das águas novas]

O segredo da nossa segurança espiritual consiste afinal em sabermos que a perpétua emboscada não desarma. (...)[Páscoa na aldeia]

Assim é este artesão do verbo: dono de um texto altamente elaborado, ao mesmo tempo que poético, simples e profundo. Seu invulgar humanismo (foi amigo e correspondeu-se com o filósofo espanhol Miguel de Unamuno) nos leva a ver a vida com resignada esperança e dignidade.

Demorei a chegar ao cais do belo escritor açoriano Vitorino Nemésio, cheguei talvez com atraso. Mas, enfim, cheguei.

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*Quando for conhecida a autoria da foto, será dado o devido crédito.

** Frase extraída do texto Terceira crônica das águas novas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O escândalo das hortênsias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Passo dos Ausentes


As hortênsias resolveram embelezar o mundo. Era só o que faltava.

Em meio a tanta desilusão, tanta feiura das almas, tanta gente má e casca grossa, vêm agora as hortênsias e decidem distribuir beleza e graça. Um negócio muito estranho.

photo: J.finatto

Um verdadeiro absurdo aqui em Passo dos Ausentes.

Quando achava que não tinha mais jeito, quando nada mais esperava diante do triste espetáculo humano, as hortênsias surgem em silêncio, espargindo cor e delicadeza sobre cinzas.

Essa beleza é mesmo uma violência contra o cidadão acostumado ao deserto e ao cotidiano tapa na cara.

Nem maldizer a vida em paz a gente pode mais.


photo: j.finatto

sábado, 10 de dezembro de 2011

As últimas páginas

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Quem me espera, a essa hora, na Travessa da Espera, no Bairro Alto, em Lisboa?

Eu passo invisível por vielas retorcidas em mil labirintos. Em cada esquina, uma nesga do Tejo e um fado. 

Anoitece, personagens saem das portas como das páginas de velhos livros, ganham as ruas, carregando seu abismo, sua dor, seu sonho, sua dificuldade de viver.

Um fantasma caminha rente às portas das tascas, o chapéu caído nos olhos.

As janelas abrem-se para o rumor e os cheiros que vêm da calçada.

Cada um de nós é um romance, mergulhados estamos no livro da própria existência, escrito por não se sabe que caprichoso autor.

Mas quem quer ler as últimas páginas?

Ninguém me espera na Travessa da Espera.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Anelo de luz

Jorge Adelar Finatto

 
lua crescente entre galhos, Lisboa. photo: j.finatto


Um anelo de luz entre as folhas, um vislumbre de claridade. Uma passagem vista da terra, olhar de um calado observador. Fragmento lácteo do universo. Um lugar distante e particular como cantar para si mesmo.

E tu caminhas no frio, o bolso cheio de pétalas vermelhas, por um caminho coberto de folhas não escritas. Um vocabulário de buscas e silêncios.

Passageiro e passagem se  misturam. Caminham perto da estrela. Viagens são anelos guardados no fundo do coração. Quem precisa de avião, se já nascemos com asas?

Uma pergunta atravessa a ponte.  Uma trincheira no vazio.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Melody Gardot e o retorno do pássaro

Jorge Adelar Finatto

Flores com bicicletas ao fundo. Amsterdam. photo: j.finatto


No retorno de Amsterdam a Passo dos Ausentes, onde acabo de chegar, escutei Melody Gardot nos fones de ouvido, dentro do pássaro prateado, na travessia da noite atlântica.

Descobri Melody no quarto de hotel, na Place de la Sorbonne, Quartier Latin, em Paris, onde gosto de ficar. O dia estava frio e nublado, resolvi ler e ouvir música numa rádio que só toca jazz. Lá pelas tantas, veio aquela voz sentida, cálida, íntima como de alguém que conhecemos há muito tempo.

Anotei o nome e no outro dia, na loja de discos, adquiri seus dois cds: Worrisome heart My one and only thrill ( Incômodo coração e Minha primeira e única emoção, em tradução livre). Apesar do sobrenome, ela não é francesa, mas americana, nascida em Nova Jérsei, em 2 de fevereiro de 1985.

Compositora, Melody diz as coisas que impressionam seu jovem coração ferido, com a voz mais doce desse mundo. Na apresentação do primeiro disco, agradece aos homens que maltrataram seu sentimento, porque deixaram material para compor suas músicas. Tudo tem dois lados.

Interessante a maneira como Gardot encontrou a música. Um dia, enquanto andava de bicicleta, aos 19 anos, foi atropelada por um automóvel. O início de sua carreira está relacionado com esse acidente, do qual lhe resultou traumatismo craniano. Seguindo sugestão de seu médico, Melody voltou-se para a composição. Criou algumas canções quando ainda estava de cama, incapaz de caminhar.

A musicoterapia deu frutos e ela fez uma pequena gravação a que chamou de Some Lessons - The Bedroom Sessions, base de Worrisome heart. Tudo tem dois ou mais lados.

Recomendo aos meus dois leitores que procurem ouvir essa doce e inspirada Melody Gardot. Acho que gostarão.

A vida, enfim, sempre se renovando, trazendo o novo, luz benigna em meio à escuridão.

O pássaro pousou outra vez. Vou agora respirar o ar das montanhas, abrir as janelas, olhar longe, escutar um pouco de silêncio.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Oscar Wilde: o beijo proibido

Jorge Adelar Finatto

Mulheres beijam o túmulo de O.Wilde. Autor: Peter Horree/Alamy. Fonte: www.cartacapital.com.br


O escritor que, em vida, teve os beijos proibidos, nem na morte pode recebê-los .

Inauguraram, no último dia 29 de novembro de 2011, o túmulo reformado do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), no Cemitério Père-Lachaise, em Paris. Estive no local poucos dias antes, no domingo, 20/11, e no mesmo dia escrevi aqui sobre o assunto (Visita ao cemitério).

Leio que a reforma foi financiada pela família do escritor e pelo governo da Irlanda, e contou com a execução técnica do departamento de Monumentos Históricos da França.

Em 1950, foram ali depositados os restos mortais do amigo de Wilde, Robert Ross. Em razão do homossexualismo, o escritor chegou a ser condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados, na Inglaterra, em 1895, fato que desestruturou sua vida e sua saúde de modo irremediável. Na prisão, escreveu o texto de natureza confessional De profundis. A terrível experiência do cárcere levou-o, também, a escrever sobre a necessidade de revisão total das condições de vida nas cadeias.

Sobre o túmulo de Wilde foi erguido, em 1912, um monumento, uma esfinge alada, pelo escultor Jacobs Epstein. O conjunto da obra foi declarado patrimônio histórico em 1997. Merlin Holland, neto do autor, e Dinny McGinley, ministro irlandês das Artes e do Patrimônio, estiveram presentes na inauguração, assim como o ator britânico Rupert Everett, intérprete de escritos do criador de O Retrato de Dorian Gray. Todos estavam muito felizes com a reforma.

A triste e asséptica novidade, contudo, é que, de agora em diante, não será mais possível beijar o túmulo, nele deixando as alegres e coloridas marcas de lábios com batom, demonstração de afeto que começou, de forma misteriosa, por volta dos anos 1990. Os responsáveis pelos trabalhos ergueram em torno do mausoléu placas de vidro de dois metros de altura para manter distantes os lábios dos admiradores.

Segundo afirmam, as marcas de batom enfeiaram o local ao longo dos anos, prejudicando o monumento, pois o conteúdo gorduroso do batom penetrou profundamente na pedra. Acreditam que os fãs de Wilde serão agora mais sensatos que apaixonados, protegendo-se, assim, melhor a memória do autor (sic).

Não acredito em proteção contra o amor.

Aliás, a humanidade anda farta de proteção desse tipo. Também não creio que possa existir maior manifestação de respeito e carinho do que beijar o túmulo de um escritor que morreu pobre e esquecido, em 1900, num quarto humilde de hotel, perto do Sena, em Paris. No lugar de proibir os beijos, poderiam ter feito diferente: criar no ambiente um espaço que acolhesse esses beijos, que os facilitasse, enquanto invulgar manifestação de carinho.

Ao invés de preocupar-se em proteger a integridade fria e monumental da pedra, deviam receber melhor esses lábios, dar-lhes o amparo que merecem.

Eles, os beijos, expressam o verdadeiro monumento imaterial a ser preservado acima de tudo, em tempos de pouco afeto e de raras manifestações de calor humano.

O escritor que em vida sofreu a proibição dos beijos não pode usufruí-los nem na morte.

Equivocam-se, na minha opinião, os familiares e reformadores do túmulo, que procuram afastar a demonstração de vida e ternura, em homenagem à aparência insípida, inodora e despida de qualquer sinal de gordura dos lábios humanos.

Poderia mesmo dizer aos meus dois leitores que estou de saco cheio de certo tipo de mentalidade, cúmplice da indiferença, do distanciamento, da ostentação e da frieza.

Pelo que conheço de Wilde, ele detestaria essa reforma que o protege do amor dos leitores. Amor que lhe foi negado em sua breve e sofrida vida.

Deus nos proteja dos nossos protetores.

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Leia sobre a viagem de O.Wilde a Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/04/oscar-wilde-em-passo-dos-ausentes.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um sopro de alegria

Jorge Adelar Finatto

photo:j.finatto


Amsterdam. Um habitante dessa cidade de vento, bicicletas e canais me diz que o tempo anda diferente: nessa época do outono, já devia estar nevando. No entando, a temperatura anda pelos sete, oito graus de dia, com garoa às vezes. À noite esfria mais. Neve, porém, nada.

Cá com meus botões, esse friozinho é coisa pequena pra quem vive em Passo dos Ausentes. O povo aqui é fiasquento para o frio, põe logo os capotes. Eu fico só olhando.

O que mais sinto falta é da amplitude dos nossos vales e das montanhas. Na Holanda tudo é plano, uma boa parte abaixo do nível do gelado Mar do Norte. O território encantado para os ciclistas que andam pela cidade feito abelhas. A sequência inumerável dos prédios de tijolinhos ocres, brancos, vermelhos, marrons e amarelos nos leva a voltas infinitas em torno de um lugar comum.


photo: j.finatto

Agora caminho por uma alegre feira de rua. Nela se vendem frutas, verduras, peixes, roupas, eletrônicos, mil utensílios. E, pra refazer o coração, tulipas. 

Sim, tulipas de vivas e cálidas cores.

Um sopro de alegria em meio à melancolia dos barcos e do vento no entardecer.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um vento com jeito de despedida

Jorge Adelar Finatto


Van Gogh Museum - Amsterdam

Amsterdam. Essa é a cidade das mil pontes que atravessam os cem canais espalhados por todos os cantos. Um labirinto. As casas de tijolinhos ocres e marrons sao todas iguais e parecem saídas daqueles jogos de construir para criancas.

A monotonia da paisagem nos dá a sensacao de não sair do mesmo lugar. O que salva é o bailado das gaivotas sobre as aguas turvas.

Amsterdam é, sobretudo, o Museu Van Gogh. A coleção abrange obras que vão desde a formação até a maturidade do artista. Um encanto. Me emocionei diante da pintura do quarto onde ele morou em Arles.

O vento passa sobre os barcos e invade as esquinas. Um vento com jeito de despedida.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O escolhido de Deus

Jorge Adelar Finatto

"A Catedral", escultura de Auguste Rodin, Museu Rodin, Paris. photo: j.finatto

Paris. Sempre penso que Deus fala através dos artistas. Acho que eles têm a missao de continuar a criaçao do mundo. Carregam a centelha divina capaz de revelar a beleza escondida. Iluminar o calabouço da condiçao humana faz parte deste designio.

Fui visitar o Museu Rodin. Esse homem foi um artista abençoado. As esculturas que fez em materiais dificeis como marmore e bronze sao absolutamente belas. Mesmo um admirador eventual como eu nao fica insensivel diante de tanta beleza.

Deus colocou nas maos, no coraçao e na mente de Auguste Rodin  um talento especial para esculpir, pensar e sentir sua arte - e ele soube aproveitar (para nosso proveito e encanto). Chegamos a duvidar que um ser humano seja capaz de realizar obra tamanha em quantidade e qualidade. Sao esculturas divinas.

Eu poderia ficar na frente de um pedaço de marmore uns dez anos e, pelo pouco que sei de mim, nao sairia sequer um traço, quanto mais uma simples escultura.

Deus distribui talentos, a cada um de um jeito. O segredo esta em descobrir a capacidade que nos destinou e depois trabalhar, trabalhar muito. Dar o nosso melhor para tornar a vida menos sofrida e mais bonita, eis ai um belo projeto, nesse planeta onde tantas vezes nos sentimos exilados do paraiso.

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As fotos virao em breve.
Conto que continuarao a distribuir os acentos pelas palavras, sem avareza.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Memória nas ruas de Paris

Jorge Adelar Finatto

"Em memória das crianças, alunos dessa escola [Lycée Henri IV], deportadas de 1942 a 1944 porque nasceram judias, vítimas inocentes da barbárie nazista, com a cumplicidade ativa do governo de Vichy. Elas foram exterminadas nos campos da morte. Não as esquecemos jamais". (tradução livre e photo: j.finatto)


Paris. Uma das coisas que admiro nos franceses e' a consideraçao que têm pela memo'ria historica. Em Paris, a cada passo encontramos placas na via publica. Elas contam coisas boas e ruins que aconteceram por aqui. Ha' um respeito pela verdade.

Nao se trata de uma memoria seletiva, hipocrita. Numa escola de crianças, no Quartier Latin, ha' uma placa na parede que da' para a rua informando que, durante a ocupaçao nazista, muitos meninos e meninas judeus desse colegio foram levados para os campos de concentraçao alamaes, com a concordancia das autoridades francesas, sendo depois assassinados.

Na esquina dos bulevares Saint-Michel e Saint Germain, uma outra placa informa que, naquele local, no dia 19 de agosto de 1944, Bottine Robert foi morto pelos nazistas por lutar pela libertaçao de Paris.

Sao fatos completamente diferentes dentro de um mesmo contexto historico, revelados nas ruas da cidade, 'a luz do sol ou da lua, pra quem quiser saber. E' importante que assim seja, que todos saibam, para que essas coisas nunca mais se repitam.

Que a historia contada e sabida sirva de farol dentro do negrume dos tempos atuais, em que mais uma vez a crise mundial testa a capacidade dos paises em se solidarizar para evitar o pior.

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Espero que os caros leitores façam aquilo que nao estou conseguindo por aqui: distribuam generosamente os acentos nas palavras.

domingo, 20 de novembro de 2011

Visita ao cemitério

Jorge Adelar Finatto

Aviso (com beijinhos) diante do túmulo em obras. photo: j.finatto

Paris. O domingo de sol e frio e céu azul foi ideal para visitar o Cimetière du Père-Lachaise. Muita gente vem a esse cemitério, inclusive em grupos com guia, porque nele habitam (silenciosamente, claro) vultos da cultura, ciência, artes, filosofia, politica, etc.

Vim pra conhecer um tumulo em especial, o de Oscar Wilde. Esta em reforma, mas ainda assim pude constatar o que sabia por ouvir dizer: nele se depositam sempre muitas flores e bilhetes e beijinhos apaixonados com batom vermelho sobre a lapide gelada.

photo: j.finatto

As pessoas dirigem-se ao escritor como alguém vivo, capaz de lhes transmitir impulso vital e alegria de viver. Nenhum outro, nessas cercanias tao caladas, tem esse apelo e nem visitantes tao dispostos a celebrar a vida. Proust e Balzac estao aqui perto, mas nao tem comparaçao. 

Pra toda essa gente, Oscar Wilde, mesmo morto, continua muito vivo. Nao pode haver maior gloria para um escritor. Oportunamente virao as fotos e os acentos.

sábado, 19 de novembro de 2011

Quanto vale

Jorge Adelar Finatto

Madri. Dizem que a poesia nao dá retorno econômico, os livros  de poemas nao vendem ou vendem mal. Em tempos como o que vivemos, o dinheiro passa a ser tudo, porque esta é a lei dos que mandam no mundo, o sistema bancário e a indústria de armas.

A vida podia ser muito melhor para todos mudando algumas peças desse tabuleiro. Nos Estados Unidos e na Europa, os peoes, torres, cavalos e bispos começam a avançar contra os reis e rainhas do atual sistema.

A economia é uma dimensao importante da realidade, mas nao pode ser a única a ditar regras.

Quanto vale, eu pergunto, o Poema em linha reta do Fernando Pessoa (lembrando que ele escreveu centenas de outras obras-primas como essa)? Ele que passou a vida dependendo de favores de familiares e de amigos, muito embora trabalhasse como tradutor em casas comerciais.

Quanto vale, para as finanças do país e do universo, o amanhecer  sobre a névoa em Passo dos Ausentes, o som do riacho escorrendo entre os seixos, à sombra das árvores?

Quanto vale a queda amarela dessa minúscula folha, na tarde de outono, um acontecimento irrepetível, porque nunca mais haverá esta folha nem este momento?

Quanto vale o nosso sentimento em relaçao às pessoas e  ao mundo?  Pense nas coisas que lhe sao caras. A maioria delas nao tem seu valor estimável em dinheiro.

As coisas espirituais nao podem ser reduzidas a um  sorriso irônico e simplesmente jogadas no lixo como sao.

A crise por que passamos é uma oportunidade de mudar o jogo, tornar o  planeta mais humano, pondo fim à fabricaçao e venda de armas e impondo limites aos imperadores dos bancos. Mais agricultura, mais livros, menos conflitos, mais vida.

Escrevo enquanto espero o trem na estaçao de Atocha,  saboreando a invencível taça com pao e manteiga. A vida pode ser simples e boa.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Com Lorca pela Andaluzia

Jorge Adelar Finatto

De Granada para Madri. Leio no El País (o Rio Grande do Sul é que merecia um jornal assim) que certos intelectuais espanhóis costumam dizer que, se Federico García Lorca nao tivesse sido assassinado, provavelmente teria acabado como letrista de Rocío Jurado (1946-2006), uma cantora popular aqui da Espanha. 

O autor do artigo, David Trueba, afirma que talvez fosse mesmo assim, ao argumento de que, neste país, se nao se assassinam ou levam ao exílio os grandes talentos,  eles sao condenados a uma sobrevivência precária. Todavia, ele nao considera uma derrota ser letrista de Jurado, que trabalhava a música sentimental  e cuja arte ajuda a entender o modo de ser e sentir do espanhol.

De minha parte, digo aos meus dois leitores (eram três, mas acho que um se mudou de mala e cuia para outros blogues, no mundo cruel  e sem coraçao da rede infinita de pescar leitores), pois digo-lhes que a ponderaçao acima vale para a Espanha, mas vale também para o mundo inteiro.

Os poetas e artistas sao seres incômodos, improdutivos, que pesam na vida da tribo, como as cigarras, ao contrário das sempre previsíveis e obreiras formigas.

No Brasil, onde nao se assassinam poetas, a indiferença do meio se encarrega de asfixiá-los. O Estado, a quem cumpre o papel de estimular a criaçao cultural em geral, atua de forma tímida e as oportunidades oferecidas sao poucas.

A arte, entre nós, será sempre ou quase sempre um milagre. O esquema industrial de produçao atua com valoraçao do lucro e, para tanto, despreza a criaçao enquanto alta manifestaçao do espírito. Nao há interesse nisso.

Os criadores sao levados muitas vezes a uma condiçao de párias sociais, às vezes em humilhante situaçao de dependência. Isso tudo é ruim, porque a arte é um poderoso formador de consciências e uma fonte de bem-estar emocional.

Estou convencido de que toda vez que alguém "perde tempo" tentando escrever um texto, pintar um quadro, tocar um instrumento, cantar uma música, dançar, representar, etc., o mundo melhora um pouco.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Zambra para Federico

Jorge Adelar Finatto

Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
(Romance Sonámbulo, Federico García Lorca)

Granada, 13 nov. O que pulsa à sombra das vetustas paredes da Alhambra? A velha cidade rumina o passado enquanto resiste ao presente. Ainda há pouco o vulto de Federico atravessou a Plaza del Carmen. A garoa noturna umedecia os olhos negros gitanos, o sorriso aberto do caballero de fina estampa.

O que pulsa na escuridao à beira da Alhambra? A Federico mataram por política, poder e ódio. A poesia sobreviveu. Nunca a mataram, nao conseguiram apagar . A poesia sobreviveu ao corpo nunca encontrado, à covardia dos assassinos. A poesia sobreviveu à angústia dos últimos momentos diante dos algozes.

A voz do poeta continua entre nós. Federico, viajante do tempo, nos deixou as palavras e a perplexidade do fim. 

O que pulsa em Granada, na noite de garoa e silêncio, é o poema cálido e vermelho de García Lorca.

domingo, 13 de novembro de 2011

O rio Guadalquivir e as folhas douradas do outono

Jorge Adelar Finatto

Sevilha, 11 nov. Esta é a cidade dourada pelas folhas dos plátanos no outono e pelas laranjas que começam a amadurecer nas incontáveis árvores que se espalham pelas ruas. Também é um lugar que incentiva o uso das bicicletas, com ciclovias bem organizadas em meio ao intenso trânsito de veículos. Existem bicicletas à disposiçao em certos pontos.

O rio Guadalquivir traz em si a lembrança dos fenícios que navegaram por aqui. De lá para cá muitos outros navegantes passaram por essas águas, como os romanos do antigo império. Mais de dois mil anos de história nas ruas e no curso do rio. Os marcos históricos estao por toda parte.

Pra mim, o que mais impressiona é o Palácio Real Alcázar, construído pelos árabes a partir do século VIII e continuado depois pelos reis católicos. Os traços entre amplos e minimalistas da arquitetura árabe valem a observaçao atenta.

Mas é nos jardins delicados, cultivados em diversos ambientes de repouso e meditaçao, que o coraçao bate encantado. Existem fontes de várias formas entre as trepadeiras coloridas, com aquele som da água escorrendo sem pressa. E muitas flores, arbustos e árvores que nos devolvem a uma espécie de éden perfumado.

O sevilhano sabe tratar o viajante e nao economiza educaçao. Nos telejornais e conversas o assunto é a crise da zona euro e as eleiçoes gerais da Espanha no próximo dia 20. Percebo que existe, por parte dos europeus em geral, uma certa admiraçao pelo atual momento do Brasil. Lula da Silva, Dilma Rouseff e o povo brasileiro sao boas referências aos olhos deles. O mundo realmente dá voltas, nao é?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Fado, um modo de sentir o mundo

Jorge Adelar Finatto

Lisboa, 10 nov. O fado é uma música visceral que vai direto ao coração. Se não arrepia, não é fado. Ouçamos estes versos que escutei na Tasca do Chico, na madrugada de ontem:

Eu era só silêncio e alguns medos (…) 
Escrevia na folha do esquecimento, que no vento se perdia (…)

O sentimentalismo lusitano é capaz de construções assim. Emoção à flor da pele, sensibilidade viva. Este modo de perceber o mundo está na origem da nossa formação. Carregamos essa herança afetiva de Portugal. Ave, pois, Camões, Padre Vieira, Fernando Pessoa, Eugênio de Andrade, Ruy Belo.

Ave, entre nós, Drummond, Vinicius, Quintana, Alvaro Moreyra, Heitor Saldanha, Henrique do Vale, Ricardo Mainieri.

Ave, toda a gente do fado, poetas que estão por aí e mais os que virao depois.

Engana-se quem pensa que fado é só tristeza, desilusão e dor. Nele há alegria, encontros e sonhos. O fado nasceu aqui ao lado, no bairro da Mouraria, para onde foram os mouros após a retomada de Lisboa por El Rei, por volta do ano 1100. Eternizou-se na voz de Amália e hoje canta pelo mundo no jeito dos jovens fadistas.

O vinho e o fado me fazem pensar (e sentir) que a razão longe do coração está perdida. O mundo do futuro – mais justo e muito mais humano – deverá surgir dessa união de sentimento e razão.

A indiferença que apaga e suprime o outro é casa de maluco. Está com os dias contados.

O povo do afeto tomará conta do planeta.

Viva o fado.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Alma de fadista

Jorge Adelar Finatto

Lisboa, 8 nov.  Um homem toca trompete na rua Garrett, no bairro do Chiado. Chove nesta terça-feira. O músico se protege na entrada de um edifício. Na Livraria Sá da Costa, escolho um livro de Fernando Pessoa. A poucos metros dali, no café A Brasileira, leio alguns poemas.

O café e os poemas espantam o frio do outono lisboeta. O nevoeiro se espalha sobre o Tejo.

A famosa escultura de FP fica em frente à Brasileira. O poeta frequentava o café e a livraria.

A Brasileira é um lugar de peregrinação de pessoanos do mundo inteiro. À volta se ouvem os diferentes idiomas. Tem gente que aprende português para ler FP. Mais que merecido para quem escreveu poemas como o belíssimo Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Tenho saído à noite para ouvir o fado no Bairro Alto. O Bairro Alto é o lugar cult da cidade com suas vielas estreitas e inclinadas e o casario que se perde no tempo. A Tasca do Chico é exemplar. Ali se canta o fado vadio, que é aquele cantado por amadores (os que amam essa música).

Amadores nessa hora tardia e sentimental, que cantam sem nada receber, a não ser o carinho e os ouvidos em oração das pessoas que enchem o pequeno local. Entre os cantores, às vezes comparecem luminares da canção portuguesa, como a jovem e extraordinária Mariza.

Atravessar o oceano para ouvir o fado, no seu ambiente, é uma coisa que vale a pena nesta vida breve.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Canção da bruma

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa eu levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho

as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa

________

Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
photo: j.finatto

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Recado ao amigo no hospital


Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Este recado, amigo, é pra te dizer o quanto é bom saber que estás te recuperando. Enfrentas com paciência e determinação a doença difícil.

O que me anima, a mim, que estou tão distante daí, é ver que há esse anjo a teu lado, velando na cabeceira por ti, velando a noite inteira, pra que continues ao nosso lado, preso a nós, nos falando e nos fazendo fortes nos dias em que tudo em volta parece desabar.

Em breve voltarás para tua casa querida. Encontrarás a tua gente, as tuas coisas, olharás pela tua janela, deitarás na tua cama, dormirás um sono doméstico e solto. Vais acordar e ver a luz da manhã atravessando a cortina. Depois caminharás com calma pela casa, olhando cada coisa, as flores que plantaste, com uma saudade de cem anos.

Por enquanto, espero que tenhas uma noite de saúde e recuperação. Estou pensando em ti e te mando um sentimento bom, uma oração, pra que te sintas mais aconchegado e confiante. E que venhas o quanto antes para perto de nós, que precisamos muito da tua presença e do teu afeto.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Mensagem de aniversário

Niamara Pessoa Ribeiro
 
 
photo: j.finatto
 
 
Parabéns por
defender o poético ao pensar,
resguardar um tempo mágico ao escrever,
perpetuar o instante ao fotografar.
 
Sua presença – cidadão, magistrado, jornalista, poeta - nos inspira uma certeza:
há um sonho na origem de todas as realizações;
quem não defende um sonho não defende nada, não defende ninguém.
 
Muitas realizações e que o tempo/relógio deste Aniversário (1º/11) traga as melhores notícias para alegrá-lo junto a seus queridos Familiares.
 
Possam fruir momentos maravilhosos. E que Deus continue abençoando seu talento, do qual o senhor já tem a posse definitiva.
Abraço enorme de Niamara e Cláudio Accurso.
 
______________
 
 
Queridos Niamara e Cláudio.
 
Recebo com profunda gratidão e felicidade essas palavras. É bom ter amigos como vocês, que relevam os nossos defeitos e enaltecem as nossas pequenas e discutíveis virtudes.
 
Por esse afeto generoso e consolador, agradeço de coração. Compartilho, com vocês, a visão das montanhas e do vale que acabei de colher.
 
Um grande abraço.
J.A.Finatto


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ao que parte

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Um pedaço de ti rompe a neblina.
                                         Carlos Drummond de Andrade 

Quem te acolherá
na distante cidade
que agora dorme
emoldurada
sob antigas luzes
abandonada
em si mesma?

atravessas o Atlântico
e gotas do mar
grande mar da diáspora
enchem teus olhos

quem tocará tua face
quando lá chegares
insone e áspero
no meio da ventania?

na cidade estrangeira
haverá alguém
esperando
em solidária vigília?

dói a memória
dos que partiram
e partindo perderam-se
no sombrio traçado
de um mapa rasgado

és palavra
na tenebrosa
escuridão
que te cerca


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Do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O prisioneiro da Ilha de Patmos

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

A família espiritual de A eram os livros. Os poucos que havia na casa quando ainda era menino e depois os outros, que foi amealhando feito formiga, um a um, com tenacidade e alumbramento.

A família dos livros tinha uma vantagem. Nenhum de seus membros morria ou desaparecia, o que acontecia com alguma frequência com os outros familiares.

Os livros retirados das bibliotecas por empréstimo eram parentes distantes. Traziam a aura de quem passou por muitas casas, iluminando solidões diurnas e noturnas. Guardavam o cheiro misturado dos ambientes que tinham frequentado.

Na casa antiga, havia muitos silêncios. Vultos moviam-se calados. Um relógio velho de parede tentava acompanhar a passagem do tempo, mas nele as horas tinham enlouquecido.

O mundo de papel e tinta surgiu para espantar os fantasmas que o amedrontavam. Sabia que, mais dia, menos dia, acabaria só, como todos.

Uma espécie de eternidade habitava os livros.

Havia um gato na casa, porque gatos gostam de histórias assombradas. No porão gelado e sombrio, coisas inúteis eram esquecidas.

Um retrato de Getúlio Vargas ocupava o centro da parede da sala, o pai dos pobres, como se dizia.

A janela do quarto de dormir olhava o nada.

A rua se chamava São João, nome do apóstolo que teve as visões na Ilha de Patmos, no mar Egeu, onde esteve exilado por falar de Deus e dar testemunho de Jesus, e na qual escreveu o livro bíblico Apocalipse (Revelação).

A rua São João era a Ilha de Patmos. Ali todos eram prisioneiros de um tempo e de um lugar e o destino lhes era comum: afundar no esquecimento um dia.

Exilados do mundo, todos alimentavam o sonho secreto de um dia fugir. Fugir para sempre, para qualquer lugar, ainda que fosse o último ato da vida.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Manhã pulsando no breu

Jorge Adelar Finatto




O que é um escritor sem leitor?

Poucas coisas são tão solitárias quanto o ofício de escrever. O processo todo acontece a capela. Não há testemunhas dessa luta. É um trabalho que se faz em silêncio, com persistência e recolhimento.

O ato de escrever encerra uma grande incerteza: haverá ou não leitor do outro lado. O esforço poderá dar em nada.

Existe cada vez mais gente escrevendo e publicando. Publica-se hoje como nunca. Além da publicação em papel, temos agora o ambiente virtual.

A abundante oferta de textos faz com que o leitor se torne um artigo de luxo.

Nenhum autor tem paciência de esperar pela posteridade. A procura de reconhecimento, por parte de quem escreve, é natural como em qualquer outra atividade.

O escritor vivo tem de lutar por um lugar ao sol, não apenas entre os contemporâneos, como entre uma infinidade de autores mortos.

Há aqui uma visível desproporção. Se por um lado existe uma legião de escritores, por outro, entre os leitores, só podemos contar com os vivos...

A luta do escritor começa na ideação e vai até a produção do texto, com todas as circunstâncias e incertezas que cercam o ato de criar. Mas não se esgota aí. Quando, enfim, consegue mostrar o resultado, resta saber se o trabalho contará com a atenção do sempre difícil, exigente, esquivo, disputado e raro leitor.

Uma possível resposta à pergunta inicial: um escritor sem leitor é um músico tocando para uma sala escura e sem ninguém.

Manhã pulsando no breu.

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photo: j. finatto

domingo, 23 de outubro de 2011

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Puyehue manda notícias

Jorge Adelar Finatto

photos: j.finatto

O nome parece de personagem de desenho animado, mas é de um vulcão. Nos últimos tempos, o chileno Puyehue (tem que pronunciar com calma pra não enrolar a língua) deu pra ferver, grunhir, bufar e expelir fogo, rochas, gases e cinzas, mercê das intensas atividades intestinas que o acometem (problemas digestivos, possivelmente). 

Na segunda-feira (17/10), interrompi a lida no escritório, no meio da tarde, para observar o Vale do Olhar. É um suave descanso que ameniza o peso e a solidão da faina. Fiquei surpreso ao ver uma claridade opaca que vinha do céu e se espalhava sobre as montanhas.


Uma espécie de cerração tomou conta do espaço, mas não era nevoeiro. Dali a pouco, os telhados e ruas se cobriam com cinzas.

As condições atmosféricas peculiaríssimas de Passo dos Ausentes fazem deste lugar um território à parte no mundo. Às vezes, neva em pleno verão. Dias de primavera costumam florescer no inverno. Isso sem falar da bruma espessa e persistente, que definiu, aliás, o gentílico de quem nasce aqui: Neblinense.

Ainda sem saber do que se tratava, resolvi fotografar o evento nubiloso. O resultado são estas imagens. Mais tarde, levei as fotos até o Café da Ausência, na estação de trem abandonada da cidade, para mostrar aos amigos durante o nosso  costumeiro cappuccino com graspa, de fim de tarde.


Palomar Boavista, astrônomo e pesquisador de fatos do clima, esclareceu a todos que aquilo eram nuvens de cinza que nos visitavam, provenientes do vulcão chileno, após voar milhares de quilômetros, conforme a direção dos ventos.

As nuvens de cinza agora começam a se dissipar, mas não totalmente. Sonhamos com a chuva para nos valer, limpando a atmosfera. Queremos de volta a boa e poética neblina molhada.

Ultimamente, sentimos gosto de cinza até na alma.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Somos os que estão por aí

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


O mundo é um hospício sem muro. Estão todos soltos. A loucura é herança bem dividida entre os humanos. As partilhas registradas nos cartórios do existir.

A pessoa precisa ter reservas de luz pra suportar tanta escuridão.

Somos os que estão por aí. Os por enquanto. A gente mói e é moído. O que acha? O moinho triste da vida. Tem vivente que passa a existência sem receber um afago, um ora-veja. Os que. Pra eles não existe vem-cá-meu-bem-me-dá-cá-um-beijinho. Só pedras, perdas.

Os esquecidos jazem no fundão. O mundo não presta atenção nos sem-afeto. Os outros, a turma dos contentes, dos bem amados, quando muito vivem pra si. Os que se acham. As almas leves. Corações secos.

O moinho pesado gira no esconso. Caminho de sombras.

Às vezes um resolve resilir o contrato com o eterno. Quase ninguém nota o último ato do infeliz. Nenhuma flor se colhe em sua difícil memória. Nenhum pensamento, nenhuma ternura. As indiferenças. Os giros insensíveis da roda de fazer pó e esquecimento.

Assim se afunda o coração dos bonecos de vetríloco.

Viver são uns suspiros, uns carinhos desaparecidos.

Alguns poucos levam a lanterna na mão. Esses, ao menos, ainda choram, se comovem, não se conformam, lutam, amam. Fazem os caminhos. Por eles a aurora tece os fios rosados da manhã.

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photo: j.finatto
Texto revisto, publicado antes em 13 de abril, 2010.

 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A alma não é casa de assombração

Jorge Adelar Finatto



Se encontro um fantasma querendo se acomodar, num dia ventoso, um travo de ausência de mim mesmo no ar, como hoje, começo a escrever e expulso o intruso. Sai pra lá, longe de mim, coisa sombria.

Os gelos eternos da solidão humana. A frase me vem a propósito das mil coisas a que a sobrevivência nos obriga. É um ofício medonho e insano. 

Quando menos esperamos, lá está o fantasma no ambiente de trabalho. Outras vezes, em casa, ou em ambos. Aparece sentado no escritório ou na mesa de jantar; com a mão na cintura, surge de pé, na curva da escada; exibicionista, pendura-se no lustre. E tem esses que vão entrando pela casa, pelo telefone ou pelo computador, sem pedir licença, trazendo más notícias ou simplesmente sendo desagradáveis.

Os fantasmas também costumam esconder-se nos armários, gavetas, corredores, sótãos. Embrenham-se nas velhas anotações, gostam de habitar antigos retratos, remexem cartas esquecidas, cadernos extraviados.

Às vezes um grupo joga cartas dentro do guarda-roupa. E dizem o tempo todo: não haverá beleza, nem sossego, nem alegria. Se deixar, eles ficam morando na casa e no coração da gente.

A luta contra os fantasmas é uma luta de ganhar ou afundar na melancolia.

Nem todo fantasma é mau, claro. Como em tudo, há exceções. Alguns são inofensivos e até meigos. Heitor dos Crepúsculos e Arquibaldo Van Der Brook, por exemplo, me visitam, tomam café comigo, saímos a caminhar pelas ruas estreitas de Passo dos Ausentes. Mas são visitantes que chegam e depois vão-se embora.

Os fantasmas se alimentam do nosso medo e da nossa tristeza. Mas as manhãs expulsam a escuridão. Essa é a hora sagrada de fazê-los desaparecer e não permitir que andem ao nosso lado.

A alma não é casa de assombração.

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photo: j.finatto. Vale do Quilombo, Canela, Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"No mar estava escrita uma cidade"

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto, 2008


No próximo dia 31 de outubro, será o aniversário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, que, se fosse vivo, faria 109 anos (nasceu em 1902 e morreu em 1987).

Esta fotografia fiz em 2008, num dia meio sol, meio nuvem. Uma lembrança do grande poeta brasileiro, com quem tive a rara felicidade de manter contato em 1985. Lembro esse fato no post que publiquei com o título A memória do coração, em 11 de abril de 2010, aqui no blogue.

A frase entre aspas do título é de Drummond (vale um poema), gravada no banco onde sua escultura está sentada, diante do mar, na Avenida Atlântica, Copacabana, Rio de Janeiro. Na verdade, é um verso do poema Mas viveremos, de seu grande livro A rosa do povo (1945).

Drummond é um desses essenciais na literatura brasileira e sua poesia é universal.

No site oficial do poeta, há um breve e rico documentário sobre ele - O Fazendeiro do Ar - feito por Fernando Sabino e David Neves. Vale a pena ver:

http://www.carlosdrummond.com.br/

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Mais sobre Drummond:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/04/memoria-do-coracao.html