segunda-feira, 5 de abril de 2010

Caio Fernando Abreu e as pequenas epifanias

Jorge Adelar Finatto




Estive três vezes com o escritor Caio Fernando Abreu.

Conheci-o na década de 1970 e o primeiro encontro ocorreu na redação da Folha da Manhã, jornal de vanguarda feito em Porto Alegre por excelente equipe de jornalistas, escritores, artistas e intelectuais de várias áreas.

A Folha da Manhã era a filha rebelde da Folha da Tarde, e neta do vetusto Correio do Povo, os três da Companhia Jornalística Caldas Júnior, que não existe mais (mudou mais de uma vez de proprietários, de orientação e de perfil jornalístico). A sede dos jornais, no velho prédio que ainda permanece, ficava a poucas quadras do Rio Guaíba.

Numa outra vez visitei-o, junto com jovens escritores e poetas, no seu apartamento no centro da cidade, ainda nos anos 70.

O assunto nesses encontros girava, invariavelmente, em torno da literatura e da vida, no Brasil opressivo da ditadura militar. Caio ouvia as nossas conversas com interesse e, sem paternalismo, dizia suas coisas. Era delicado, gentil, às vezes irônico, às vezes triste, e até duro, se fosse o caso.

Em alguns invernos, vi-o de passagem na Esquina Maldita, território porto-alegrense de resistência. Ali havia bares e restaurantes onde se reuniam estudantes, artistas, livres-pensadores em geral. A famosa (na época) Esquina ficava no início da avenida Osvaldo Aranha, com suas altas e elegantes palmeiras que partiam dali em direção ao bairro Petrópolis.