terça-feira, 30 de novembro de 2010

Neblinense

Farandolino Brouillon

 
Quando hoje a neblina cercou a casa, tudo ficou  branco e deserto como um labirinto no gelo. Os seres e as coisas desapareceram. Silenciosamente fui até a janela. As silhuetas, de modo intermitente, surgiam e submergiam na névoa. Lembrei de quanta gente fugiu do retrato. Nem faz tanto tempo. Não sei mais direito que lugar é esse. Até há pouco estavam aqui, falando, gesticulando, rindo, sofrendo, contando histórias, reclamando, dando a mão. Certas ruas e esquinas moram dentro de mim, certas portas, soltas no espaço, me acenam, certas praças estão abandonadas.  Eu viajo no trem noturno que atravessa  os Campos de Cima do Esquecimento nesse absurdo itinerário. As cartas não escritas estão na mão do carteiro que se extraviou na bruma. Hoje, quando a neblina chegou de repente, envolvendo a casa, perdi meu rosto. Fiquei cego. Havia uma paisagem invisível lá fora e outra em mim. Fui andar no jardim à procura de quem sou. Muitos partiram. Estão todos cobertos, profundamente, em negras nuvens de seda.  Sou habitante de um continente de fantasmas.

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Foto: J. Finatto

domingo, 28 de novembro de 2010

Basquiat, anjo caído, expõe em Paris

Jorge Adelar Finatto


Saído do mundo das ruas, onde pintava grafites,
o artista conquistou as galerias e museus com sua arte.

Alguma coisa no traço de Jean-Michel Basquiat prende o olhar. Os grafites, em geral, cansam e entediam. Parece que só pioram a sensação de solidão e isolamento das grandes cidades. Raramente dizem algo poeticamente revelador. Mas sou teimoso. Sou capaz de parar na rua e ficar diante da parede ou muro, tentando entender e sentir o que é aquilo. Costumo ser vencido pelo vazio.

O grafite atingiu status de arte nos últimos anos graças ao talento de alguns desses artistas de rua.  Notadamente o grafite figurativo, diferente da pichação e daquilo que se limita a simples inscrição de letras ou números. Espaços públicos passaram a ser destinados a esses criadores. Quer dizer, cada vez menos a atividade criativa do grafiteiro é vista como um caso de polícia. Os próprios artistas estão conversando com a turma da riscalhada, pedindo que não estraguem esses ambientes duramente conquistados. 


Quando vi pela primeira vez as pinturas de Basquiat, tentei, depois dos cinco minutos iniciais, desviar o olhar e seguir meu caminho, mas não consegui. Comecei a percorrer a trilha da composição em cada quadro. Ali estava a visão de mundo elaborada esteticamente, com sua origem afro-americana, impregnada com áspero espírito urbano e uma busca intensa de liberdade e denúncia. São grafites figurativos, agora  fora das ruas, nas galerias, com cores e sentidos fortes.

Jean-Michel nasceu no Brooklyn, Nova Yorque, em 22 de dezembro de 1960, e morreu aos 27 anos, em 12 de agosto de 1988, na mesma cidade. Filho de pai haitiano e de mãe filha de porto-riquenhos, tornou-se reconhecido, primeiro, como grafiteiro e, depois, como artista plástico. Ele foi um dos principais responsáveis pelo reconhecimento do grafite como manifestação artística.




Por volta dos 17 anos, começou a pintar em prédios abandonados de Manhattan. A assinatura com que então se identificava era “Samo” ou “Samo shit” (same old shit,  sempre a mesma merda, ou a mesma merda de sempre). Num período, depois de sair da casa dos pais, teve de vender camisetas e postais na rua pra sobreviver. O trabalho de Basquiat chamou a atenção e começou a ser comentado, ganhando rapidamente destaque nos meios de comunicação. Passou a pintar quadros e expor. Constitui-se num raro caso de artista que cedo alcança reconhecimento. Formou, também, uma banda com conhecidos e participou de, pelo menos, dois filmes. Em 1982, teve um namoro com uma cantora pouco conhecida na época, Madonna. Fez parcerias com Andy Warhol.

Uma vida intensa e profissionalmente exitosa, com enorme exposição midiática, não o livrou do convívio com drogas como heroína e cocaína.

Morreu de overdose, no auge da carreira, em seu estúdio.


A obra de Basquiat é reconhecida e valorizada internacionalmente. Não se trata apenas de um caso de marketing. Há muita criação e valor poético nesses traços inquietos, vibrantes, agressivos, questionadores. A expressão do artista atingiu uma identidade que a caracteriza como única.

Olhemos as pinturas de Basquiat. Acaso não haverá no pulso febril e explosivo algo que o aproxima de irmãos mais velhos como Tintoretto e Van Gogh? Essas cores e figuras nos remetem a momentos de emoção, beleza e reflexão.

Basquiat foi um anjo caído na Terra, que muito cedo deixou o mundo. Fallen Angel, título da pintura azul acima.

O Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris está realizando uma exposição com a obra de Basquiat, desde outubro passado, que se estenderá até final de janeiro de 2011. Filas de quase 500 metros formam-se para a visitação. O interesse das pessoas se explica por se tratar de uma grata descoberta no território atualmente rarefeito de valores das artes plásticas.

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Imagens: foto e pinturas de Basquiat. Fonte: site oficial do artista: basquiat.com

© The Estate of Jean-Michel Basquiat / AUTVIS, 2010 

English text:

http://ofazedordeauroras.blogspot.com/2011/03/coming-from-streets-where-he-painted.html

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A sinistra sinfonia

Lorenzo Schissi Finatto


A atual onda de violência que tomou conta da cidade do Rio de Janeiro assusta. Até o momento, em 5 dias de conflito, aproximadamente 40 mortes já foram contabilizadas pelos órgãos oficiais, mas essa conta ainda deve crescer, e é imensa se considerarmos apenas os anos próximos que a precedem.

Pra quem mora na cidade, a sensação é de guerra declarada. Uma espécie de Bagdá brasileira que aguarda pelas próximas bombas, os próximos veículos destruídos, os próximos territórios ocupados. Se aqui não há o fanático extremismo religioso, sobram extremos de outras ordens. Qual a razão de tanta brutalidade?

É certo que as verdadeiras razões da barbárie merecem estudo minucioso para que se chegue o mais próximo possível das raízes do problema. Todavia, motivos como a má distribuição da renda, a falta de oportunidades aos jovens – especialmente aqueles das comunidades mais carentes –, o alto lucro de tão poucos (instituições financeiras, por exemplo), em detrimento de tantos, apesar de repetidos à exaustão, certamente explicam em parte o triste quadro da realidade brasileira.

Diante de tudo isso, o fascínio da promessa de ascensão social “fácil” feita pelo tráfico de drogas atrai a muitos. Não sou dos que creem que a pobreza e a falta de oportunidades justificam a criminalidade, a conta não é tão simples de ser feita. Fosse assim, o número de criminosos em nosso país saltaria insuportavelmente. A verdade é que a imensa maioria da população humilde é de gente honesta e trabalhadora. Por outro lado, a corrupção geralmente ocorre entre as camadas mais altas e instruídas da população. Difícil exigir dos jovens marginalizados e fragilizados pela própria inoperância do Estado e pela indiferença de parte da sociedade uma atitude moral que não existe em alguns dos componentes de destaque da estrutura dos poderes da República, conforme a imprensa cotidianamente noticia.

Ao assistirmos a tudo pelos meios de comunicação (as câmeras de televisão, em especial, fazem o máximo para mostrar os detalhes do “conflito”), percebemos o quanto o momento é assustador. Por outro lado, talvez seja a hora de debater seriamente as raízes do problema da drogadição em nossa sociedade. Se existe o tráfico, é porque existe um mercado consumidor, principalmente entre as classes média e alta da população. E por que a vida dessa gente se tornou tão insuportável a ponto de necessitarem profundamente da droga para vivenciarem momentos de esquecimento e fuga?

Causa estranheza a pressa com que as autoridades vêm a público para garantir (não se sabe com base em que mágicos poderes) que a realização das olimpíadas e da copa do mundo não está ameaçada. Não seria melhor utilizar os incontáveis bilhões desses eventos (relevantes, sem dúvida, mas não nesse momento) na construção de hospitais, creches, centros comunitários e culturais, escolas, postos de saúde, urbanização de comunidades carentes, presídios etc.? As autoridades se apressam em confirmar os dois megaeventos esportivos. Enquanto isso, nosso Titanic afunda, após chocar-se contra o gigantesco iceberg da violência e do abandono. Mas a orquestra, inútil, não para de tocar a triste e sinistra sinfonia.

O Rio de Janeiro e o Brasil merecem mais do que isso.
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Lorenzo Schissi Finatto é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais no Rio Grande do Sul.
Foto: favela no Rio de Janeiro. Autoria: AP. Fonte: noticias.terra.com.br

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Mulher fazendo café

Jorge Adelar Finatto


A parede é espessa e fria. O tempo é lento e monótono como um carrossel. Ela escreve coisas e faz desenhos na caverna moderna onde vive. Em volta do fogo, ela espera.  Às vezes, penetra um vazio na alma, dá vertigem. Então ela bate com o nó dos dedos na parede, como se houvesse uma porta, alguma secreta passagem, como se existisse alguém do outro lado. Precisa acreditar que existe vida. Vida humana, vivente e cálida. Uma pessoa como ela entre quatro paredes, quatro décadas, um coração partido em fatias, como o bolo caseiro sobre a mesa. Nuvens de signos saem do teclado pelo espaço, mas é um grito silencioso. Talvez exista alguém do outro lado, que também espere como ela, e sinta frio, e queira em ir embora dessa cidade deserta, fugir disso tudo, abandonar o mar morto das cavernas urbanas. Enquanto pensa essas coisas, ela prepara o café da noite.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

McCartney

Jorge Adelar Finatto


Nunca fui fã incondicional dos Beatles. A minha relação com o grupo foi sempre discreta (motivo de preocupação deles, claro). Não é uma questão de querer ser diferente, mas de  gosto. Aprecio diversas músicas, mas não tenho nenhum disco. Um perfeito ser das cavernas. Mas nada como um dia depois do outro. Acompanhei a passagem de Paul McCartney  (68 anos) por Porto Alegre através da imprensa (até porque não se falava noutra coisa). Posso dizer que tenho novas e boas razões para admirá-lo. A começar pelo esforço que fez em comunicar-se em português (muito bem, por sinal) com o público presente ao seu show. Vejo nisso uma manifestação de consideração com as pessoas, tão fãs quanto qualquer súdito da rainha. Admirável a sinceridade nas entrevistas, fazendo questão de mostrar-se como a pessoa que é, sem mitologia. Falou sobre seu vegetarianismo, seus filhos, sua carreira. Tratou todo mundo com gentileza, mas sem falsas intimidades. Cantou como se a voz estivesse ainda nos anos 1960. Foi simpático a ponto de, em pleno estádio lotado, repetir com a telúrica assistência "ah, eu sou gaúcho". Uma lição nesses tempos em que o planeta aderna com o peso de tantos egos inflados. Portanto, passei a gostar do cara. Como é bom poder dizer isso. Agora só falta o disco. Antes tarde do que nunca.

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Foto: Paul McCartney, Inglaterra, 2010. Fonte: Wikipédia. Autor: Oliver Gill.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Negrinha

Jorge Finatto


Li recentemente um livro que vale a pena. O título é Negrinha e seu autor é o francês Jean-Christophe Camus (filho de pai francês e mãe brasileira). A obra é ilustrada com belas aquarelas do também francês Olivier Tallec. É uma história em quadrinhos, lançada em 2009, o Ano da França no Brasil. Trata da vida cotidiana de uma menina de 13 anos, que vive no Rio de Janeiro e começa a entrar em contato com a realidade de sua família e sua cidade, um resumo de seu país. 

Aí nesse cenário há a beleza deslumbrante do Rio, com sua zona sul, seu mar, suas montanhas, sua gente bonita, seus personagens, como o vendedor de amendoim, o porteiro do edifício, os meninos jogando futebol, as pessoas na rua.

Mas ela também descobre a dureza da vida na favela e, nela,  os laços de afeto, as dificuldades de viver, a alegria simples, a comunhão através do samba. Nesta, Cartola recebe uma menção especial, justa homenagem. O problema racial, com sua carga de preconceito, violência e injustiça, é abordado com realismo e sensibilidade.

A apresentação de Gilberto Gil é preciosa.

Um livro belo e delicado que faz bem a brasileiros, franceses e seres humanos em geral.

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Negrinha. Jean-Christophe Camus (texto) e Olivier Tallec (aquarelas), 104 páginas. Tradução de Fernanda Abreu. Desiderata, Rio de Janeiro, 2009.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um sopro de claridade

Jorge Adelar Finatto


Um resto de luz ilumina o pinheiro. Essa é uma das visões que se tem do Vale do Olhar, em Passo dos Ausentes.  A vista é de uma janela que não se apaga nunca, a do poeta Farandolino Brouillon. As noites de frio e neblina (isto é,  as noites do ano inteiro nessa cidade que só conhece uma estação, o inverno) sempre o encontram trabalhando na antiquíssima escrivaninha de peroba rósea. O bardo só se recolhe à cama depois que a manhã se anuncia no recorte das montanhas. Dizem que Farandolino sofre de alta solidão e falta de mulher pra dividir a vida, por isso não dorme à noite.

Don Sigofredo de Alcantis, filósofo, guardião da nossa memória e presidente vitalício da Sociedade Histórica, Geográfica, Filosófica, Literária, Geológica e Astronômica de Passo dos Ausentes, tem, como sempre, seu parecer, que assinou na tarde de domingo numa conversa com seus discípulos (nós), na Praça da Ausência:

- A mulher é talvez o único caminho que um homem tem de entrar no paraíso. A passagem luminosa. Farandolino nunca fez essa travessia. O que o move a atravessar as noites em claro, em direção às manhãs, é o medo de acabar a vida trancado no escuro de si mesmo, dentro da tapera fria e abandonada da sua alma.


Claudionor, o Anacoreta, e Palomar Boavista, o astrônomo-mor, aplaudiram de pé a explanação. Os demais permaneceram, como eu, em constrangedor silêncio. O que fazer com isso?

A vida de todos é mesmo um fundão no fundo do abismo.

Farandolino raras vezes sai de casa. Da janela do escritório, observa as brumas dos Campos de Cima do Esquecimento. Honorata Ferreira cuida da casa e dele próprio desde 1960. Ela tem 78 anos e antes de retirar-se, nos fins de tarde, deixa-lhe a mesa posta para o café noturno. Ninguém sabe o que será dele no dia em que ela não mais estiver ali.

Juan Niebla é o único confidente que Farandolino Brouillon  tem neste mundo. Músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada da cidade, Niebla costuma dizer que, enquanto houver um homem sonhando com a aurora, a escuridão não dominará.

- No dia em que a aurora não mais se levantar da  treva,  estará encerrado meu ofício de poeta - escreveu Farandolino com o negro lápis na folha branca.

O poeta lê, escreve, consulta  os cartapácios no silêncio da biblioteca, prepara e espera  o amanhecer. Por isso  a treva não se instalou completamente em Passo dos Ausentes.

- O poeta - fala com voz mansa e grave Juan Niebla - é o guardião dos nossos sonhos de beleza, enquanto espalhamos tristeza e morte por aí. Durante nossos delírios de vaidade, grandeza e inveja, eliminamos o outro. Confio que o vate  continuará a abrir o portal da cidade pra receber o amanhecer. O poeta vale e vela por nós.

Resta, ao menos, um sopro de claridade na voz da poesia.

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Fotos: J. Finatto

domingo, 21 de novembro de 2010

Abro o jornal de manhã

Jorge Adelar Finatto

Aos 54 anos, o escritor se despede "para tentar reunir os estilhaços" em que se despedaçou com o passar do tempo, na tentativa de "ver se ainda é possível recompor com eles alguma unidade". Longe dos livros - "sobretudo dos melhores" - e também das cartas, jornais, revistas, televisões, dos amigos e da própria família, Suassuna tentará livrar-se dos "sonhos, quimeras e visões às vezes até utópicas da vida e do real", que o atormentam há algum tempo. (Folha de São Paulo, 16.8.1981)


Abro o jornal de manhã
com aquela notícia: Ariano Suassuna
                                  calou-se pro mundo

o silêncio enche os corações
lota os teatros
embrenha-se entre as anotações
invade as estantes

felino
enovela-se a um canto da sala
gotejando sangue pelos ouvidos

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Poema do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Um amor

Jorge Adelar Finatto


La speranza di pure rivederti
m'abbandonava.  Eugenio Montale

No mais remoto deserto
- o sal e o labirinto do tempo
amadureço o poema

E parece que para encontrar-te
tinha de perder-te um dia

Colho no caminho as pétalas
da rosa que não te dei
e distraída desfolhaste

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Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Fora do poema tudo é caos

Jorge Adelar Finatto


Essa frase - fora do poema tudo é caos - me saiu numa entrevista* que dei em 1984, época em que ainda se entrevistavam poetas da aldeia na imprensa local. Os meios de comunicação se expandiram, mas os espaços para divulgação de arte e literatura, fora do interesse estritamente comercial, diminuíram tanto que tenho dúvida se existem hoje entre nós.

A entrevista versava sobre o lançamento do meu livro Claridade, de poemas, selecionado para publicação dentro do Plano Editorial  de 1983, da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Porto Alegre. Consta, na abertura da matéria, que  o autor era um jovem jornalista e poeta de 27 anos. Custo acreditar que já tive essa idade.

O tempo passa, a gente fica mais perdido, mas certas verdades permanecem. Está registrado que o poeta (aquele jovem poeta de 27) estava angustiado e perplexo "diante de uma realidade maluca, atrasada e violenta como a brasileira".

Também está escrito que os poemas falavam de uma pessoa que "experimentou na consciência e na pele a dolorosa sensação de viver uma realidade sem perspectivas. Onde o indivíduo se sente arrastado pela opressão e sonhar é quase proibido. Onde viver se tornou a maior transgressão".

Nos poemas, apesar disso, "constata-se a convivência mais harmoniosa entre linguagem e vida. O mundo silencioso onde o real e o imaginário caminham juntos. Há uma integração profunda com a aventura humana. A palavra não salvará o homem, mas será sua projeção e seu espelho. Uma espécie de testemunha de seu próprio destino".

O poeta "trabalha com o poema numa região de luz, sem concessões ao desespero e à morte, acredita na força das coisas belas, na energia positiva das pessoas capaz de gerar zonas de intensa verdade e esperança.

"A fé na existência e no amor sobressai-se como o caminho destinado a vencer o escuro e a dor. O poder transcendente da vida sobre a morte, através da dimensão do amor, transforma e eleva".

Conclui o bardo de 27: "Nunca fiz literatura pelo simples prazer de escrever, ela surgiu na minha vida como uma necessidade inarredável, quase tão vital como respirar. Eu até preferiria viver sem escrever. O grande Manuel Bandeira disse certa vez que só se sentia seguro no chão da poesia. Eu sinto isso. Fora do poema o mundo é algo incompreensível e muitas vezes insuportável. É preciso criar tudo de novo, começar a vida das cinzas, renascer. Fora do poema tudo é caos".

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Entrevista publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 13.4.1984. A matéria foi feita pelo jornalista Danilo Ucha.
Foto: J. Finatto

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Em certas ruas

Jorge Adelar Finatto


Em certas ruas
em certas tardes
penso em ti

os barcos
as ilhas
do Guaíba
nos definiram

no inverno
te enovelas
feito gato
no esconderijo
do apartamento
à beira rio

primavera
quedas esvoaçante
ao pôr-do-sol

crepúsculo
outro nome
dessa cidade
tão afeita
a silêncios
e despedidas

esperas
amanhecer
diante da dor

o rio e os peixes
não secarão o sal
da tua alma

escreves poemas

os poemas
são teu jeito
de suportar

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Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

Foto: J.Finatto

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Mondego

Jorge Adelar Finatto

Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu'é da tua água,
Qu'é dos prantos que eu chorei
          António Nobre
O Mondego
me dá
saudade
do Guaíba

os últimos barcos
partem
ao entardecer
deixando atrás
o sonho dos homens

o poema de António Nobre
escrito na pedra
à beira do rio
me recorda Porto Alegre
seus poetas esquecidos

a bilha vazia
da alma

o açúcar queimado
do crepúsculo
em Coimbra
me faz voar
sobre os telhados
agarrado no vestido
da Princesa Inês

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Foto: J. Finatto

sábado, 13 de novembro de 2010

Passos de algodão

Jorge Adelar Finatto



A silenciosa presença do amigo, sabê-lo por perto,  partilhando a vida, é motivo de consolo e esperança.


Depois de longa e sentida ausência, ele retornou ao convívio das tardes no escritório. Conheço meu amigo de outros invernos. Partiu em fevereiro sem dizer nada, tão ao seu estilo, e me deixou aqui todo esse tempo sem poder ouvir sua voz cava e rascante, sem poder ver sua plumagem luminosa, seus olhos redondos e atentos.

Sempre sinto falta do seu olhar de banda, da maneira estrambótica de aterrissar num só pé na sacada do escritório. Alziro tem temperamento forte e, às vezes, um certo mau humor o acompanha quando o tempo está pra chuva.

Ele voltou com suas cores vivas para suavizar o inverno. Eu andava mesmo precisado de sua companhia. Não que ele converse muito. No fundo, nem é isso o mais importante.

A silenciosa presença do amigo, sabê-lo perto, partilhando a vida, é motivo de consolo e esperança.

Providenciei hoje a reposição de pedaços de banana no pratinho dos pássaros, fruto muito do seu gosto.

Em certos dias, Alziro deixa a cerimônia de lado, entra no escritório, em passos de algodão, e ensaia uma pequena incursão no ambiente. Olha o teto, os lustres, a mesa, os livros, os quadros, as plantas e relógios, tudo com silenciosa atenção. Faço que não percebo para deixá-lo à vontade.

Do mesmo jeito que chega, o meu amigo vai embora. Como sempre, não se despede e nem diz quando voltará, apenas alça o improvável voo adunco rasgando o ar.

O que importa, diz o coração, é que a velha e boa amizade está rediviva. Se tudo der certo, talvez ele retorne amanhã ou quem sabe depois. Só espero que não me falte tão cedo, porque meu inventário de ausências já vai longo na vida.

Amar traz consigo, sempre presente, o risco de perder.
 
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Foto: J. Finatto. Alziro em visita.
Texto publicado no blog em 24/8/10.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pedaços de vida

Jorge Adelar Finatto


Claudionor, o Anacoreta, recebeu-nos como irmão na sua caverna no Contraforte dos Capuchinhos. Fazia um frio de - 2º . Dormimos em volta do fogo armado no chão. Não foi possível  observar o céu com o famoso telescópio do nosso anfitrião, por causa da espessa névoa. Nas noites claras, ele costuma mirar o universo à procura de sinais de Deus.

Pelas cinco e meia da manhã, Claudionor preparou o café, passado como antigamente, em saco de pano, a chaleira de água fumegando. O pão que ele faz não tem nada parecido neste mundo. Depois da oração (de mãos dadas, como quer Claudionor) e do abraço, embarcamos, Juan Niebla  e eu, no Besouro Vermelho e seguimos viagem.

Niebla não precisa que o conduzam, anda por todo lugar com  seus secretos sensores e sua bengala. O comprido capote preto,  os óculos escuros, redondos, de tartaruga, o bandoneón pendurado no ombro e uma rara sensibilidade  fazem dele um ser único.

A estrada que desce até São Francisco de Paula tem uma inclinação severa e perigosa. A visão deslumbrante do encontro dos Campos de Cima do Esquecimento com os Campos de Cima da Serra entontece o viajante. Entusiasmado com a abertura da exposição de fotografias, na tarde de hoje,  em Gramado, Niebla tocou algumas músicas durante o percurso,  dentro do side-car. 

Dois loucos viajando num motociclo musical  pelas sinuosas estradas da serra. Andamos com a cara no frio, rasgando o vento.  Coração aceso.

Retratos são esses instantes efêmeros, pedaços de vida, recolhidos num luminoso olhar.

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Foto: J. Finatto, da exposição Retratos. Abertura hoje, 18h, na Cafeteria Bello Gusto, Gramado, Av. Borges de Medeiros, 2193, centro.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Retratos, exposição em Gramado

Jorge Adelar Finatto



Estou saindo agora de Passo dos Ausentes com o velho motociclo Besouro Vermelho. Levo no side-car meu amigo Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada da cidade. Começamos a atravessar o Vale do Olhar em direção ao Contraforte dos Capuchinhos.

A densa neblina fecha todos os caminhos. O frio é intenso e venta como sempre. Vamos devagar pela estrada de chão batido, escorregadio. Contornamos os abismos com medo e  esperança. A cabeleira branca  de Niebla voa pelas bordas do boné de couro marrom. Pretendemos dormir hoje na caverna de Claudionor, o Anacoreta. Dali partiremos cedo na manhã de sexta e percorreremos 100 quilômetros adiante e para baixo, até São Francisco de Paula. Depois, Canela e, enfim, Gramado, estação final. 

Saímos dos Campos de Cima do Esquecimento, a 1800 metros de altitude, e vamos para os Campos de Cima da Serra,  que ficam a 800 metros do nível do mar.

O motivo da viagem é a inauguração da minha exposição Retratos, que ocorrerá amanhã, 12/11, às 18h, no Café Bello Gusto, em Gramado. O fundo musical do evento estará  nas mãos de Juan Niebla. No programa, peças de Piazzolla, irmãos Gershwin, Villa-Lobos e Hermeto Pascoal.

Alberta de Montecalvino promete receber os que aparecerem com o espumante moscatel Postal da Ausência acompanhado de fatias do delicioso bolo caseiro que só ela sabe fazer. A entrada, assim como o abraço, é de graça. Quem quiser confirmar presença pode ligar e falar com Mocita de La Vega.
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Foto da exposição Retratos: J. Finatto

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Construção

Jorge Adelar Finatto


Eu sou o que me construo
entre um apocalipse e outro
uma aurora e outra

Sou como essas partículas
de luz
que se expandem no espaço
flutuam nas alturas solitárias

Traço o poema
entre um abismo e outro
uma alegria e outra
e avanço
apesar do nevoeiro

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Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

terça-feira, 9 de novembro de 2010

José e Pilar

Jorge Adelar Finatto


Uma perda irreparável o acabar de cada dia. 
José Saramago*

Assisti ao documentário José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, que está sendo lançado no Brasil e em Portugal. O filme mostra como era o cotidiano dos últimos anos de vida do escritor e poeta português José Saramago ao lado de sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rio. Saramago morreu em 18 de junho passado, aos 87 anos, na ilha de Lanzarote, situada no arquipélago espanhol das Canárias, onde vivia. A filmagem estendeu-se por três anos.

A sinceridade e a abertura do escritor ao deixar-se mostrar na vida doméstica e no trabalho são tocantes. Não há pose, há o José Saramago inteiro, homem e cidadão.  Coisa rara nesses dias. Frases espontâneas, simples e profundas, comentários sobre a vida, a morte, os direitos humanos, a difícil situação do planeta, tudo ele compartilha com a naturalidade de quem conversa em volta da mesa. Aquele que nasceu de uma família muito  pobre, na aldeia de Azinhaga, e que consolidou uma carreira literária depois dos 50 anos, tem uma solidez de princípios, integridade e humanismo comparável à das rochas vulcânicas da ilha onde viveu.

O documentário capta o escritor em sua casa e viajando pelo mundo, dentro de aviões, aeroportos, hotéis, em sessões de autógrafo, conferências, entrevistas, homenagens e no dia-a-dia com Pilar Del Rio. Pilar não é apenas coadjuvante do primeiro Prêmio Nobel de Literatura de Língua Portuguesa (1998), é a companheira que trabalha incessantemente, com seu talento e suas ideias, interlocutora permanente. Impressiona o quanto o casal se amava e se completava, cada um com sua individualidade, ambos personalidades fortes.

De tudo que li e vi de Saramago, com o acréscimo deste excelente documentário, fica-me a impressão de que ele foi o escritor mais lúcido, solidário e comprometido com o lado humano que tivemos nas últimas décadas em todo o mundo.

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* Frase dita pelo escritor no documentário.
Foto: José e Pilar. Cena do filme. Divulgação.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Alberta de Montecalvino

Jorge Adelar Finatto



Veneza é o sonho de toda Colombina. Eu passei a vida em Passo dos Ausentes. O que é esse lugar? Um território perdido no vento. A neblina, o frio e a chuva povoam a cidade o ano inteiro. Habito com amargura e ironia esta estação de fim de mundo.

Casei-me aos 16 anos com Dom Alberto de Montecalvino, o Solitário da Biblioteca. Na época ele contava 69 anos. Desde aquele quando, passei a viver neste austero castelo de basalto e vidro. Hoje tenho 70 anos, sou deveras viúva e, às vezes, me perco nos salões da memória. As intermitências.

Daqui de cima, na larga janela da biblioteca, avisto o Contraforte dos Capuchinhos. Gosto muito dessa visão porque por ali é que se vai embora de Passo dos Ausentes. Mas nunca passei naquela estrada. Dom Alberto me pediu que jamais o fizesse. Os medos. Atendi o bom homem. Passaram-se os anos.

O muito amado do meu coração é Pedrolino. Dom Alberto sempre soube, suportou, era como um pai pra mim. O meigo Pedrolino. Amoroso e fiel. Seu amor é casto e resignado. Tem as delicadezas.

Arlequim é o senhor das labaredas. Inconstante e fútil. Nunca vem ao meu coração. Tem meu corpo, jamais minha alma. Com ele muito me rio, é engraçado, leviano. Incapaz de amar alguém além de si mesmo. Não tem sentimento.

O corpo tem fome e a fome seus apetites. Arlequim é malicioso, egoísta, por isso sabe agradar quando quer. Pedrolino é terno, quase um menino, vai direto ao assunto. Não conhece as sutilezas.

Quem pudera reunir, na mesma pessoa, as gratas virtudes. O mundo humano foi bordado imperfeito, eu sei. Tal felicidade ninguém merece.

Ambos os dois, Arlequim, o devasso, e Pedrolino, o amado, são a minha devoção. Cada qual no seu momento. Sou a Senhora da Biblioteca. Viúva mui constante em negras vestes de luto. Os respeitos a Dom Alberto. Tenho a minha idade. Cultivo as devoções, no discreto.

Não me julguem tão depressa. Poupem-me da vossa moral de almanaque. De metafísica e solidão o cemitério está cheio. Conheço os reveses. Eu vivo os enquantos.

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Foto: J.Finatto
Texto publicado no blog em 14/6/10.

Baltasar Garzón espera condenação por investigação de crimes do franquismo amnistiados*


O juiz espanhol Baltasar Garzón afirmou-se hoje convicto de que está a ser preparada uma sentença condenatória contra si, depois ter sido processado por prevaricação por querer investigar os crimes do franquismo amnistiados.

Garzón, 55 anos, disse no entanto que não se arrepende da iniciativa que tomou, apesar da mesma ter levado à suspensão das suas funções como magistrado da Audiência Nacional a 14 de Maio passado.

“O que quero é que esta situação transitória termine e que haja um resultado qualquer que ele seja, mas se me perguntar qual pode ser, claramente penso que o julgamento está já estabelecido e pré-determinado”, disse aos jornalistas, à margem do Estoril Film Festival, iniciativa na qual participa como convidado.

Questionado sobre qual será a decisão da justiça espanhola, respondeu: “Nesta altura é difícil pensar que não é uma sentença condenatória”.

“Não se chegaria até aqui se não fosse para um resultado desses”, considerou o juiz que se tornou conhecido por ter conseguido em 1998 a detenção do ex-ditador chileno Augusto Pinochet e lutou também contra a impunidade de crimes da ditadura argentina.

“Não posso arrepender-me daquilo que decidi em função da atividade judicial com análise das resoluções e das leis aplicadas ao caso, interpretando-as com o objetivo de investigar esse crimes e proteger as vítimas”, afirmou, sublinhando que atuou com base em queixas das associações de memória histórica e de vítimas particulares e seguindo o procedimento que tinha tomado em casos similares.

Baltasar Garzón defendeu que é importante que a investigação se faça e lembrou que as queixas contra si partiram de grupos da extrema-direita espanhola.

“Essa investigação é necessária, é conveniente e pode ser defendida legalmente”, disse, acrescentando que, com base na lei interna (espanhola) e na própria legislação internacional sobre direitos humanos e em resoluções dos tribunais internacionais, “é verdadeiramente difícil assumir que se tenha cometido um delito”, ao fazer a interpretação que fez.

O juiz manifestou-se desejoso de que haja uma decisão, embora ainda não tenha sido apontada qualquer data para uma decisão do Supremo Tribunal de Espanha, onde o caso está a ser apreciado.

Aos jornalistas, Baltasar Garzón não deixou de notar que, numa primeira fase, até à sua suspensão de funções da Audiência Nacional a tramitação do processo avançou “de forma rápida ou normal” e desde então isso não tem acontecido.

“Ninguém gosta de estar sentado no banco dos réus”, respondeu o juiz em resposta a uma pergunta sobre como se vê nessa situação, mas sublinhou que a acusação foi feita “por defender uma interpretação da lei, por defender a investigação de crimes que têm a categoria de crimes contra a humanidade” e considerando que “é uma vergonha para Espanha que não se investiguem estes crimes”.

O ‘super juiz’, como é muitas vezes designado, está actualmente como consultor no Tribunal Penal Internacional (TPI), funções que exercerá até Dezembro e não sabe se continuará.

“Em princípio o período (de funções no TPI) ficará concluído em Dezembro. Não estou a pensar fazê-lo (continuar), mas se me pedirem ficarei com gosto, porque o trabalho é interessante e há muitos casos abertos nos quais estou a trabalhar como consultor e estaria interessado em acompanhá-los”, afirmou o juiz, sem desvendar o que pensa fazer no futuro.

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*Notícia extraída do site da Fundação José Saramago em 7/11/2010
http://www.josesaramago.org/  


Fonte: publico.pt

A grafia é a de Portugal.

Cláudio Accurso na Feira do Livro

Jorge Adelar Finatto

No país desigual que temos, os saberes em
ciências sociais estiveram presentes em sua modelagem ou servem apenas para explicá-lo?

Essa frase de Cláudio Accurso nos dá uma ideia do percuciente caminho que percorreu na elaboração de Aportes de Desenvolvimento Econômico, obra que autografará nesta segunda-feira, às 15h30min, na Feira do Livro de Porto Alegre.

Economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Accurso não se limita ao domínio exemplar da técnica do seu metiê. Vai muito além, a bordo do substrato humanista que impregna o saber científico. Leva-nos a pensar com sentimento, provando, uma vez mais, que não existe sabedoria longe do coração.
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Lançamento da Editora da UFRGS, IEPE e Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas da universidade federal.

sábado, 6 de novembro de 2010

O coração da neblina

Jorge Adelar Finatto


Um vasto silêncio. O viajante entrou na fotografia. Atravessou para o outro lado. Caminhou na névoa como se andasse dentro de si mesmo.  Pisou na grama a esmo, interiorizou-se na paisagem em busca de algo, talvez de alguém que um dia ele foi e se perdeu.  Aqui fora, só o que vê são vultos ao redor. Não vislumbra mais rostos como antigamente, não sente o seu coração nem o das pessoas batendo.  Agora quando acorda tudo lhe parece estranho. O espelho mostra uma face sem expressão, uma boca onde a palavra já não habita. Há um banco solitário na praça vazia desse olhar. Esse olhar de nuvens. A tarde caiu no interior do retrato.  Ficou frio. Ele deitou e dormiu embaixo de uma árvore com o casaco por cima como fez uma vez aos 20 anos. Está feliz naquele lugar como há muito não acontecia.  Está sozinho, mas se sente inteiro. Não entende como a vida foi escurecendo dentro dele. Invadiu a fotografia tentando se afastar do labirinto e se encontrar. Um vento leve e úmido bate-lhe na cara. Por enquanto ele pode ficar ali, longe de tudo, distante do mundo. Ninguém vai procurá-lo naquele território ausente. Mais tarde, só mais tarde, retornará. Quem sabe reencontrará a palavra e o sol na saída do retrato.

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Foto: J. Finatto

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Os desolados

Jorge Adelar Finatto



As manhãs fogem do escuro. A solidão é um negro capuz que se veste nos retirados da dor.

Tive medo de ver os escombros. Os difíceis haveres do abandono. Havia uma mulher chorando. Quem? Não divulguei.

O coração humano gira em tristes moinhos. O traçado torto da vida. Quem puder se segure, senão cai no perau. Eu, quando escuto gente chorando, sinto breu andando à volta.

Coisas que vi. Meu coração barroco. Aquele choro me doeu. Mas eu fui. Foi quando meus olhos a divulgaram. A mulher era uma visão sob a pérgula. Eu não sabia o que era beleza até aquele dia. Estava sentada num banco de pedra cercado de camélias vermelhas, ao lado da fonte. Havia uma escada com seis degraus que terminava no ar. Ligava parte alguma a lugar nenhum. A casa desmoronada no íntimo da pessoa.

A mulher, sua tristeza na alma, aquela ruína. Me aproximei no cuidadoso jeito. Era uma tarde de junho como essa. E fria, fria. A mulher - a visão - fez sinal para eu parar e esperar. O que fiz nos respeitos. Ela se levantou, arrumou o vestido, olhou o céu. Entre as duas mãos largou a face e os cabelos de linho, depois seguiu. O tempo varou a vida.

Eu vivia no lugar perdido, arrostando sol e vento, sem eira, sem beira. Os loucos dias no sanatório do mundo. Os ermos. Caminhos que se andam.

Um dia de fina luz de primavera ela veio em minha direção, pegou no braço meu. Caminhou, caminhamos. Em silêncio. Palavras que se dizem sem falar. Aconteceu a brilhante estrela caindo no meu caminho.

O punhal que me rasgava por dentro foi saindo, saiu.

Nos acolhemos, reunimos as raras pertenças.

Me tornei sentimento. Sentimentos.

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Foto: J. Finatto
Texto publicado no blog em 03/5/2010.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Primavera 54

Jorge Adelar Finatto


O vento vai para o sul e faz o giro para o norte. Gira e gira continuamente em volta, e o vento retorna logo aos seus giros. Eclesiastes 1:6

Todos os dias são santos, todas as horas são as últimas. A santidade de cada instante, o milagre de existir, a utopia da felicidade, em meio às nossas imperfeições, levam a agradecer cada dia recebido.

Atendendo pedido dos queridos Niamara Pessoa Ribeiro e Cláudio Accurso, dois intelectuais que engrandecem nosso meio, publico os textos que remeteram. 

Vivo a urgência de um tempo em que não posso me permitir os excessos da vaidade, mas tampouco o desperdício do carinho dos amigos. Colho estas manifestações com humildade e profunda gratidão.

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Niamara Pessoa Ribeiro (Graduada em Letras e Especialista em Teoria Literária):  Rogo-lhe a gentileza de possibilitar que este texto se torne de conhecimento de seus leitores, especialmente nesta semana em que se comemora o seu aniversário. Quero cumprimentá-lo por muitos motivos, dos quais destaco os seguintes.
 
O senhor surpreende positivamente: integra uma plêiade de perfis nobremente poliédricos que cintilam em todos os aspectos pelos quais possam ser analisados. 
  
Eu o conheci inicialmente como Magistrado: além de íntegro, megacumpridor do dever, respeitoso com colegas e superiores, igualmente concedeu sincera consideração a seus subordinados.  Poucos sabem falar até com o mais humilde dos servidores mantendo o mesmo trato com que  se dirigem aos hierarquicamente iguais ou superiores. Ou seja: o senhor se relaciona com o valor das pessoas, não com a importância dos seus cargos.

Também o conheci integrado ao ambiente familiar, bastando dizer que a visão de uma família como a que o senhor construiu nos faz acreditar cada vez mais nessa instituição. 

Após, também o conheci como Poeta maior, desses que sobrevivem ao avassalador cotidiano. Lembro-me dos mineiros que trabalham na profundidade do solo, sob montanhas de terra: estão os magistrados sufocados sob toneladas de papéis. Dos que são extraordinariamente sensíveis como o senhor, com sensibilidade de alto quilate, poucos conseguem trazer à superfície seu talento incólume, poucos sobrevivem com o olhar criador, eis que a profissão os seduz a se tornarem analíticos, frios ao pegarem a caneta.

Sei da importância de o senhor ser Magistrado, sei o quanto de intelectualidade e imparcialidade é requerido para a vitória nesse terreno. Sim, eu o admiro por isso. Muito mais, porém, eu o admiro como escritor, literato, primoroso Fazedor de Auroras. Explico: o senhor "estava" Magistrado, mas o senhor "é" Poeta. Há os bancos escolares, os diplomas e um universo que "fazem" o bacharel... tanto o bom quanto o menos... mas não fazem o artista. O verdadeiro talento não se compra... não se finda... não se desaprende...
              
Cumprimento pelo aniversário não um, mas  todos os Finatto:  o Poeta, o Jornalista, o Magistrado, o Amigo, enfim,  aquele que, também nesta página virtual, comprova ter erudição (grande porque acrescida de sabedoria), inspiração (elevada e traduzida em permanente criatividade), informação (confiável porque acompanhada de profundidade). Características acessadas somente após muita estrada e vitorioso aperfeiçoamento espiritual.

Feliz Aniversário e um abraço da Niamara Pessoa Ribeiro.  

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Cláudio Accurso (Economista e Professor Universitário): Fico feliz por encontrar no senhor uma pessoa que se preocupa com as desventuras do homem nessa passagem pela terra. E o faz como cidadão crítico de um mundo que tem tudo para ser melhor para todos e como intelectual e poeta com capacidade de perscrutar o oculto, nele descobrindo o belo e o potencial de beleza na alma de cada um, às vezes adormecidos pelas agruras do dia a dia. 
 
Sua manifestação literária, uma vez introjetada, pode despertar potencialidades para um acontecer mais harmônico e mais realizador, ou pelo menos com mais esperanças para os que já não sonham ou mais risonho para os que já não riem.

Um abraço do Cláudio Accurso.

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Foto: J. Finatto