sábado, 31 de julho de 2010

Memória na câmara escura

Frederico Vasconcelos


Belas fotos e belo texto.

No início da carreira, eu gostava muito de fotografar, embora simples amador sem pretensões. Ficava horas no laboratório, na câmara escura, ampliando e cortando fotos. Cartier-Bresson de meia tigela, minha preferência era por fotos em preto e branco.

Tempos depois, para não ser conivente com uma injustiça numa das redações, coloquei o cargo à disposição, o que me custou muito tempo de dificuldades, fora do mercado. Mas não me arrependo.

Fui obrigado, então, a vender meu equipamento de fotógrafo amador. Nunca mais adquiri outro. Isso talvez explique por que visitei mais de vinte países e nunca fiz fotos para mim. Tenho algumas publicadas no caderno de Turismo da Folha, mas foram feitas com equipamento da casa.

Na profissão, aprendi a valorizar o trabalho do repórter-fotográfico. Costumo dizer que o responsável pelos textos pode, a qualquer momento, recuperar informações, refazer relatos. O homem da foto tem apenas aquele momento único para capturar (se bem que as máquinas modernas permitem fazer sequências de flagrantes em grande velocidade; suponho que muitas vezes a grande foto, aquela que vai para as primeiras páginas, é descoberta depois, quem sabe, não percebida anteriormente pelo olho do artista).

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Frederico Vasconcelos é jornalista, repórter especial da Folha de São Paulo. Mantém o Blog do Fred (blogdofred.folha.blog.uol.com.br) ,  um dos mais importantes e acessados da área do sistema judicial brasileiro.
Pelos seus trabalhos, recebeu, entre outros, o Prêmio Esso, o Prêmio Bovespa de Jornalismo, o Prêmio BNB de Imprensa, o Prêmio Icatu de Jornalismo Econômico e foi finalista do "Premio a la Mejor Investigación Periodística de un Caso de Corrupción", do Intituto Prensa y Sociedad e Transparency International Latinoamérica y El Caribe.
Nas horas vagas, dedica-se a outro teclado: toca piano (Jazz e MPB).
Foto: Frederico Vasconcelos, Folha de São Paulo

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Bodas de Latão, Hermeto Pascoal e Aline Morena

Jorge Adelar Finatto


De menino eu queria ser marinheiro. Mas depois eu fora é músico, uma orquestra inteira. A música é um jeito da gente trazer o mundo dentro de si, e todos os barcos e todas as águas junto. Se alguém procura saber, no hoje, tão longe do menino que eu fui, que Villa-Lobos eu quisera ser, neste agora tão medonho da vida e do mundo, então eu dizia, sem remorso nem bazófia: quisera ser Hermeto Pascoal. Não medra esconso esse meu dizer. Quero os versos e os acordes do alvoroço. O amanhecer do humano esforço. Grande Sertão e Canudos. Algaravia de sons. Tudo voa e no ar se encontra. Os arranjos da arte e do engenho que o artista faz. Não faço enciclopédia, digo apenas o que sinto, e já não é pouco nessa quirera. Eu quero os  espantos. O cheiro da flor da laranjeira de manhã.

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Hermeto Pascoal e Aline Morena comemoram sete anos de convivência e trabalho com o lançamento do cd Bodas de Latão. É um belo momento de criação musical do alagoano Pascoal e da gaúcha Aline. Tomara que o show que estão apresentando, que leva o nome do disco, venha ainda este ano ao Rio Grande do Sul. Em 2006 eles lançaram o cd e  o dvd Chimarrão com Rapadura, sendo que o dvd foi selecionado entre os dez melhores do mundo em 2007.

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Foto: Hermeto Pascoal e Aline Morena

Composição

Jorge Adelar Finatto


O anjo tombou morto
na terra alheia de uma tela

Van Gogh imagina Gauguin
asfixiando o anjo no jardim
com as mãos queimadas de sol

Dali encoberta a face de granito
com o manto de brilhantes
os brilhantes despojados do anjo

Di Cavalcanti entristece: era uma mulata
o anjo assassinado nas cores do jardim?

Portinari retira-se melancólico
Picasso adentra a gruta de um olho

A noite cai pesada de remorso

Nesse instante todos dão-se as mãos
e cantam a canção predileta do anjo
em volta do corpo estendido no chão

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

Foto: J. Finatto

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Festival de Cinema de Gramado

Jorge Adelar Finatto


Atendendo pedido dos dois leitores do blog, a redação dO Fazedor de Auroras decidiu pensar alto e vai fazer a cobertura do Festival de Cinema de Gramado, a realizar-se entre os dias 06 e 14 de agosto de 2010. Portanto, a partir de agora começamos a trazer notícias do conhecido festival serrano, que está em sua 38ª edição. A mistura de bons filmes e conversas ao calor da lareira promete madrugadas ensolaradas.

Os dias frios, os bons cafés de Canela e Gramado, os vinhos, a calma interiorana com toque cosmopolita, desanuviam mentes e corações.


Existe a possibilidade, remota embora, de O Cavaleiro da Bandana Escarlate participar da cobertura. O nobre senhor encontra-se deprimido em casa, nas cercanias da Praça Maurício Cardoso, em Porto Alegre. Só faz ler, meditar e cuidar do jardim interior do belo solar de sua alma. Isso é assim desde o incidente ocorrido entre ele e sua musa, conforme aqui relatado em 27, abril último.

Os dois leitores do blog, e outros que a eles eventualmente  se juntarem, podem mandar sugestões de pauta. Isto é o mínimo que se espera de um blog moderno, diz em e-mail Alberta de Motecalvino, essa grande dama de Passo dos Ausentes.

Os ingressos estão à venda no site oficial www.festivaldegramado.net. A partir de 31 de julho poderão ser comprados diretamente no Palácio dos Festivais (cinema onde se realiza o evento).

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Fotos: J. Finatto. Gramado

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Somos uma irrecusável perda sob o sol

Jorge Adelar Finatto

Não suportamos mais despedidas. Quando alguém morre ou vai-se embora, fica um buraco insuportável na paisagem.

photo: j.finatto

 
Inverno. Passo dos Ausentes é um lugar perdido na Serra do Rio Grande do Sul, cercado de neblina e vento. Um resto de sol, entre nuvens, ilumina as ruas.  As folhas secas caem no chão. Passa um vulto na praça, fugindo do frio e da noite próxima.

O inverno impõe um ritual próprio. Nos recolhemos cedo em torno do fogão a lenha, os pinhões na chapa, a água esquentando na chaleira. Pouco saímos à rua. Nos tornamos quase invisíveis. 

Somos poucos habitantes na velha cidade. Estamos quase em extinção. A população, ao invés de aumentar, está diminuindo ao longo dos anos. Os jovens vão embora, só voltam de vez em quando, em datas especiais. A falta de gente faz com que nos agarremos uns aos outros. Preservar o que resta da cidade, tratar bem os que resistem, é o que nos move.


Somos poucos. A memória e o afeto são nosso escudo contra a escuridão.

Em Passo dos Ausentes, qualquer pessoa é mais do que um simples habitante, é alguém da família. Imprescindível como um amigo ou um parente a quem se quer muito. Nesse território tão pequeno e esquecido, não podemos abrir mão de ninguém. Nos procuramos e nos reconhecemos uns nos outros. Espelhos humanos é o que somos, espelhos que não podem quebrar. Somos poucos.



Talvez por isso, mais do que em outros lugares, temos muito presente o sentido da solidão e da brevidade das coisas. As brigas aqui não podem durar mais do que um dia, sob pena de morrermos congelados.

O maestro da banda municipal, o Giocondo, morreu faz cinco anos. Desde então, não apareceu ninguém como ele pra tomar conta do nobre ofício. Os músicos tocam as mesmas músicas, fazem  seu trabalho com esforço. Mas não é a mesma coisa. Falta o Giocondo com seu talento, criatividade, sua cabeça branca, no coreto da praça, regendo os componentes da banda, entusiasmando o público do modo como só ele sabia fazer. Sem a presença do nosso maestro, a banda toca. Mas não encanta.

Os habitantes de Passo dos Ausentes são livros vivos, depositários da memória comum. As histórias que cada um traz, as lembranças, os sentimentos, esse acervo é de todos, nada pode ser desperdiçado.

O frio, a garoa, a névoa, a chuva, o vento não dão trégua. Resta o olhar ao longe através dos contrafortes.

O inverno cultiva sentidos extraviados.



Coisas que para outros não têm importância, para nós são essenciais: o rumor do riacho acordando o dia, o som das asas de uma borboleta cruzando o jardim, o canto dos pássaros nos quintais, na mata em volta da cidade, os ramos floridos das buganvílias subindo nos portões, as cartas antigas no fundo das gavetas.

Em Passo dos Ausentes, as pessoas ruminam tudo o tempo todo. Vasculham o voo das nuvens e das andorinhas azuis, escutam o silêncio das constelações, andam absortas na beira dos peraus que nos cercam. Os detalhes das coisas importam. Não estamos à vontade no mundo. Viver nos pesa muito, muito.

Somos uma irrecusável perda sob o sol. Viajantes audazes a navegar contra o mar do esquecimento. Não suportamos mais despedidas. Quando alguém morre ou vai-se embora, fica um buraco insuportável na paisagem.



Os fantasmas costumam encontrar-se na estação de trem abandonada. Ali Juan Niebla, o bandoneonista cego, executa seus concertos todas as terças-feiras, às cinco da tarde. No banco da gare vazia, com os óculos escuros, seus dedos deslizam rapidamente, às vezes suavemente, sobre o teclado branco e preto, enquanto movimenta a cabeça para os lados, para trás, para frente. 

Sempre em silêncio, com suas grossas mantas e casacos de lã, os fantasmas sentam perto dos trilhos cobertos de hera,  ouvem o concerto de Niebla. 

O relógio redondo e preto, na entrada da estação, está parado desde a metade do século passado.

Diante da evasão das pessoas em busca de outros sonhos e horizontes, e do avanço do oblívio nas ruas e casas, precisamos urgentemente reconstruir a cidade do afeto, da memória  e do encontro. Será que conseguiremos?

Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento.

No austero silêncio das nuvens, essa página de busca-vida.

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Fotos: J. Finatto

Leia também A cidade perdida: as origens, post de 25/12/09

domingo, 25 de julho de 2010

Um aparelhinho para Marte... *

José Saramago

Enquanto estamos a falar, há milhares de milhões de pessoas que morrem de fome. Como podemos aceitar que o homem não seja um ser solidário, que já não pense na espécie e se tenha convertido num monstro de egoísmo e ambição que despreza milhares de pessoas que nada têm? Não se faz nada para resolver problemas essenciais. Para milhões de pessoas no mundo, nenhum dos problemas essenciais da vida está resolvido, enquanto nos entretemos a enviar um aparelhinho para Marte…

“O homem transformou-se num monstro de egoísmo e ambição”, El Cronista, Buenos Aires, 11 de Setembro de 1998 [Entrevista de Osvaldo Quiroga]

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído de Outros Cadernos de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado em 23 de julho, 2010

sábado, 24 de julho de 2010

Um mundo muito perigoso

Jorge Adelar Finatto

Deus andava por perto quando aconteceu. O cenário era de grande desolação em Canela, no amanhecer da quinta-feira, 22/7. Na noite anterior, em torno de 21h, um tornado, ciclone ou fenômeno parecido (o nome ainda é objeto de discussão pelos técnicos) se abateu sobre certas áreas da cidade. Durou entre um e dois minutos. O resultado foi devastador. Pinheiros, caneleiras e diversas outras árvores de grande porte, algumas centenárias, foram arrancadas do chão pela raiz, como se fossem pequenas plantas. Telhas, chaminés, calhas, letreiros, galhos, vasos e objetos de todo tipo foram arremessados pelo ar como cisco. Várias casas foram destruídas, postes de iluminação caíram. Nunca  tinha visto algo assim. Felizmente, não houve mortos.  Fiquei impressionado com a capacidade de reconstrução das pessoas. Homens e mulheres trabalharam duro. Em 24 horas muitas  das casas estavam sendo reerguidas e a paisagem de devastação começava a  desaparecer. O espírito de solidariedade tomou conta da região, havendo doação de alimentos, materiais de construção,  móveis, roupas, cobertores (o frio é intenso), e acolhimento a desabrigados. As cidades vizinhas, como Gramado, estão ajudando.

As pessoas com quem falo atribuem o fato às agressões contra o ambiente. Ninguém tem dúvida. O que mais será preciso, quantos desastres mais no mundo, para que governos, empresas e sociedades mudem o rumo da conversa e passem a administrar a economia para a vida e não para a morte?  O egoísmo e o consumo levados a extremos tornaram o mundo um lugar muito triste e perigoso. Precisamos urgentemente voltar a ser seres humanos, cidadãos razoáveis, ao invés de consumidores.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Camélias brancas

Jorge Adelar Finatto



Caminho numa praça cheia de silêncio e camélias brancas. O som do vento é um remorso percorrendo a cidade. A branca passagem do nevoeiro pelas ruas de Passo dos Ausentes. Sobre a mesa, há  um vaso com flores de inverno. Por isso, quando retorno pra casa, penduro o chapéu e o bornal ao lado da porta.  Porque há dias de procurar flores na neblina.

Seis são as cadeiras em volta da mesa.  Cinco são os fantasmas em volta de mim. O relógio não cessa de fazer seus giros. As horas caem  silenciosas no chão como as camélias na praça. A frágil e fugidia beleza.


Quem salvará das geleiras e dos ventos eternos os nossos corações? O frio excessivo faz ranger as paredes de madeira.  Sob o grosso cobertor da solidão, fecho os olhos na cadeira de balanço. Caminho nos pátios e sótãos do oblívio. Quatro vezes saí de madrugada até a esquina para encontrar os camaradas. Eles tinham partido. Quatro noites sentei perto da janela pra respirar melhor. Quatro noites passei em claro esperando amanhecer.


Onde estão os postais da primavera  para iluminar o inverno? Onde foi que enterraram aquelas manhãs?  Não quero afundar com as coisas que desapareceram.

O vento canta na trompa de nácar do búzio.

Caminho entre as camélias brancas caídas no chão da praça.

Invento claridades.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A matéria de que somos feitos

Jorge Adelar Finatto

A fragilidade da vida humana é comovente. A biblioteca nos dá a ilusão do infinito. A matéria de que são feitos os livros é mais duradoura do que aquela de que são feitas as pessoas. Tenho na minha pequena biblioteca alguns livros com mais de cem anos. Estão vivos como quando nasceram, já amarelecidos pelo tempo, mas cumprem a função para a qual foram criados. Há livros com vários séculos nas bibliotecas do mundo. Não conheço e nem ouvi falar de gente que tenha vivido 150 anos, com exceção de certos relatos escritos, como na Bíblia. Os livros e suas histórias são, perto de nós, sempiternos. A leitura nos dá um sentimento de participação na eternidade. Raskólnikov viverá para sempre nas páginas de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Fernando Pessoa morreu aos 47 anos em Lisboa, em 1935, mas os poemas que escreveu durarão até o fim (improvável) dos tempos. O gênero humano é eterno, mas o indivíduo é mortal. A doce ilusão dos livros é parecida com aquele olhar através da janela do avião nos minutos que antecedem o pouso no país distante. Quando estamos em movimento, sobrevoando palavras ou cidades, a vida está acontecendo e nada de ruim poderá nos suceder.
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terça-feira, 20 de julho de 2010

Fernando Ribeiro

Jorge Adelar Finatto


Existem artistas que vivem encobertos por uma espessa e injusta nuvem de esquecimento. Isso acontece em todas as artes, da música à literatura. O mercado de arte é regido por valores comerciais e costuma ser perverso com quem não se adapta às suas demandas. A qualidade não é nem de longe a referência mais importante. Há exceções, sim. Poucas. O criador que fica quieto no seu canto, trabalhando sério, procurando fazer o seu melhor, distante de estratégias de marketing, tem grande chance de permanecer à margem, esquecido. Fico pensando quantos Van Goghs andaram pelo mundo sem ser notados. Quantos Villa-Lobos, quantas Coras Coralinas (essa que deu outra face à poesia em língua portuguesa e continua pouco conhecida).

Me lembro, também, de Fernando Ribeiro, excelente músico e compositor, que alcançou algum reconhecimento na década de 1970 em Porto Alegre. Dono de uma voz cálida e de um violão contido e harmonioso, fez belas parcerias com o letrista Arnaldo Sisson. Está muito esquecido. Seu disco Em Mar Aberto (1976) é uma obra de grande qualidade que precisa ser reeditada. Fernando morreu aos 56 anos, em 2006, ainda jovem para os padrões de hoje.

Penso nos que estão nascendo agora e nos que virão depois. A memória cultural não pode perder-se. É preciso levar adiante essas informações e registros. A isto chamamos tradição: a passagem do bastão pelos que nasceram antes aos que vêm logo adiante.

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Foto: capa do disco Em Mar Aberto, EMI, Fernando Ribeiro, 1976.

Um velho relógio

Jorge Adelar Finatto

Uma amiga olhou o meu relógio de pulso e comentou: lindo esse Cartier. Esclareci logo que não, não era um Cartier. Era apenas o meu velho e bom relógio, comprado por cerca de cem reais, ou cinquenta euros, numa loja aqui mesmo de Porto Alegre, em duas prestações, há alguns anos. Notei que minha declaração causou um certo desalento. O que vou fazer se não frequento o mundo das coisas caras? Não tenho interesse, nem vocação e nem recursos pra isso. Prefiro as coisas raras, como um bom livro, uma boa conversa, uma boa amizade, dessas que não se contam em moeda, mas em afeto, apreço.

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O meu velho relógio atravessou comigo longas noites no deserto. Juntos caminhamos em belas tardes de outono. Já nos perdemos no mar, num pequeno barco a vela. Temos visto coisas duras nesse mundo. Gente boa que não para de morrer e gente ruim que morre de velha. Cinzentas criaturas carregam pedra no lugar da alma. 

Meu relógio e eu temos em comum a urgência de viver  o tempo das pequenas coisas.  As revelações do farelo.

sábado, 17 de julho de 2010

Presença

Jorge Adelar Finatto



Me tens aqui lutando
com secas palavras
para iluminar a treva
que nos reúne
em torno do lume
do poema

me tens aqui solidário
beirando a primavera
beirando os trintanos
com raros bens materiais
e nenhum privilégio
de credo ou classe

às vezes louco
às vezes patético
com poucos seres humanos
pra repartir
alguma coisa

me tens aqui poeta
num país injusto e sofrido
caminhando à beira de um rio

a sujeira flutua nas águas
os pobres equilibram-se
em perigosas palafitas

me tens aqui poeta lírico
cada dia mais lúcido

como a primavera
eu invado de repente
a sala adormecida
o coração desabitado

não tenho uma saída
para os dramas
que andam por aí
sequer possuo soluções
plausíveis
para os atrapalhos
cotidianos

o que posso oferecer
e ora ofereço
é essa canção discreta
para dissipar a sombra

um braçada de flores
no inverno

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

Foto: J. Finatto

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Não escrevemos o primeiro verso

Jorge Adelar Finatto


Não escrevemos o primeiro verso
há tudo por ser dito
mas sou teimoso
insisto no jogo

quando desanimares pensa em mim
que não abandonei as ferramentas
que não dei um verso para a eternidade

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Poema do livro Claridade. Edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento. Porto Alegre, 1983.

Foto: J. Finatto

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Adeus a Harvey Pekar, anti-herói americano

Jorge Adelar Finatto

Morreu nesta segunda-feira, 12 de julho, o escritor e quadrinista americano Harvey Pekar, aos 70 anos. Ele foi encontrado morto em sua casa, em Cleveland, Estados Unidos, onde vivia. Sofria de câncer, pressão alta e depressão, mas a causa precisa da morte ainda depende de exame para ser conhecida.

O quadrinista tornou-se famoso com a publicação da série de revistas American Splendor, autobiográfica, na qual aborda o cotidiano de um homem comum, seus sentimentos, família, amigos, pensamentos, perplexidades. A série teve vários ilustradores, entre eles Robert Crumb.

A capacidade de extrair vida, sentido e emoção da realidade é uma das marcas do trabalho deste lúcido criador.

A seguir, reproduzo o texto que publiquei em 11 de junho último sobre Harvey Pekar.

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Esplendor Americano

Harvey Pekar ama o jazz e histórias em quadrinhos. Mora em Cleveland, Ohio, nos Estados Unidos. Trabalha como arquivista no hospital da cidade. Abandonou os estudos por falta de paciência e vocação. Leva uma vida monótona e muito solitária, após dois casamentos desfeitos. O apartamento onde vive só não é mais caótico por falta de espaço. Por todo lado, discos, livros e revistas que coleciona.

Tem um amigo que desenha quadrinhos muito bem, Robert Crumb, o mesmo que, anos mais tarde, se tornará uma celebridade internacional no universo dos gibis. Um belo dia, Harvey resolve começar a escrever para quadrinhos. Com uma particularidade: contará as histórias de sua própria existência, falará da vida real. Pessoas de suas relações, família, amigos e colegas de hospital serão personagens, assim como ele. Robert Crumb, já então famoso, gosta dos textos e faz os primeiros desenhos. Daí nasce a série de revistas American Splendor (Esplendor americano), em 1976, que vira sucesso e se transforma numa publicação cult. O êxito o leva a participar várias vezes do talk show de David Letterman , com o qual  trava diálogos ríspidos em pleno ar.

Pekar, no entanto, diz que, apesar do sucesso, não chega a ganhar o suficiente para largar o emprego de arquivista. Na verdade, não abandonará essa profissão, não apenas pela questão financeira, mas porque aquele ambiente lhe dá sustentação emocional, é uma espécie de âncora. No hospital, estão seus principais amigos.

O filme American Splendor (2003), que no Brasil foi lançado com o título de Anti-herói americano, conta essa história (pode ser encontrado em dvd). Além dos atores principais (Paul Giamatti, no papel de Pekar, e Hope Davis, interpretando sua mulher, Joyce Brabner, com quem, enfim, faz um bom casamento), o próprio Harvey Pekar aparece em várias cenas intercaladas, contando detalhes de sua trajetória, além de figurar como narrador. O filme, escrito e dirigido por Shari Springer Berman e Robert Pulcini, recebeu o Prêmio do Grande Júri do Festival de Filmes Sundance e o Prêmio dos Críticos do Festival de Cannes, ambos em 2003.

Esplendor americano é a visão irônica, às vezes amarga, às vezes perplexa, sempre humana, do homem comum que luta para sobreviver enquanto procura sentidos para a vida, no centro da realidade. Nada tem a ver com o herói clássico, com a imagem idealizada, com o elogio da civilização tecnológica e vencedora. Nos textos de Pekar, os perdedores (losers) - assim considerados dentro de critérios estreitamente vinculados a dinheiro e posição social -, têm voz e vez.

Pekar é um sujeito introspectivo, tímido, deprimido, obsessivo, desses que ruminam os detalhes do dia-a-dia, buscando compreender um pouco as coisas dentro e fora de si. No seu entender, "a vida comum é bastante complexa". Não faltam humor e esperança, ainda que a realidade seja dura.

Pratica uma espécie de investigação filosófica à flor da pele , dentro do único cenário possível: a vida real. Lá pelas tantas, se vê diante de um câncer, que o leva inicialmente ao desespero, depois ao tratamento e, por fim, à cura, com a inestimável ajuda da mulher. Eles formam uma família com a filha adotiva.

Trata-se de um filme brilhante, muito bem construído. Revela os caminhos de pessoas como nós, que querem encontrar razões para viver, formar uma família, ter amigos e um trabalho, que acreditam que a vida vale a pena, apesar de todas as dificuldades.

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Clareza deve ser compromisso de todos no processo*

Do juiz de direito Jorge Adelar Finatto, do Rio Grande do Sul, sobre o projeto** que prevê a exigência de linguagem mais acessível nas sentenças judiciais:

A clareza da decisão judicial é pressuposto de eficácia da prestação jurisdicional.

A sentença judicial pode e deve ser acessível ao entendimento do cidadão comum. As partes, em sentido estrito, e a sociedade, em sentido mais amplo, têm o direito de compreender o que está sendo dito e decidido na sentença. O dispositivo sentencial, a conclusão final da decisão, o resumo do pensamento do julgador, precisa ser claro.

A linguagem judicial barroca, mergulhada no juridiquês, ornamentada com desnecessárias expressões em latim – às vezes mau latim -, fechada em si mesma, não combina com esses tempos de pleno exercício da cidadania em que vivemos após a Constituição Federal de 1988.

Existem expressões técnicas que são inerentes à ciência do Direito e que são utilizadas pelos profissionais do ramo no seu trabalho, como o são na medicina, na engenharia e em outras áreas especializadas. A utilização desses termos, contudo, não justifica a decisão incompreensível.

A linguagem forense faz parte de uma cultura que não é construída unicamente pelos juízes, mas por todos os profissionais que atuam no processo. A tradição do juridiquês ainda é muito forte entre nós e está relacionada com uma sociedade de alta concentração de poder e pouca participação social.

De modo que a busca desta tão necessária claridade deve ser um compromisso comum dos profissionais do Direito.

Nesse sentido, embora ainda não tenha lido a redação final, penso que o projeto, na forma em que aprovado pela CCJ, conforme noticiado neste blog, pode contribuir, embora, a rigor, acho que não precisaríamos introduzir no CPC um dispositivo legal para dizer isso que é ou deveria ser o óbvio. Mas nem sempre o óbvio é encarado como tal.

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* Esta matéria foi veiculada no Blog do Fred (Frederico Vasconcelos, Repórter Especial da Folha de São Paulo), no dia 02 de julho último. Trata-se de espaço muito importante, relacionado ao mundo do sistema judicial brasileiro e seus operadores. Recomendo-o vivamente a todos.
Endereço: http://blogdofred.folha.blog.uol.com.br

** Na Câmara, um projeto para reduzir uso de juridiquês.
     Objetivo é exigir linguagem acessível em sentença

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovou nesta quarta-feira (30/6) proposta que exige o uso de linguagem acessível nas sentenças judiciais. O objetivo é permitir que o cidadão compreenda o teor das decisões.

Segundo informa a Agência Câmara de Notícias, o projeto (*) de autoria da deputada Maria do Rosário (PT-RS) foi aprovado em caráter conclusivo (**). O projeto precisará ser votado pelo Plenário e seguirá para o Senado, a menos que haja recurso para que seja votado pelo Plenário da Câmara.

A CCJ aprovou o projeto na forma de substitutivo do relator, deputado José Genoíno (PT-SP). O substitutivo aprovado torna a linguagem acessível como um dos requisitos essenciais da sentença, mas dispensa a exigência de uma outra versão dessa sentença em linguagem coloquial e de seu envio à parte interessada.

Segundo Genoíno, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) vem promovendo ações para simplificar a linguagem jurídica, e uma tradução obrigatória poderia minar os esforços para que esse objetivo seja alcançado. Ainda mais, segundo Genoíno, porque a determinação só valeria para processos em que pelo menos uma das partes seja pessoa física.

“A necessidade de se reproduzir o dispositivo da sentença em linguagem coloquial aumentaria o trabalhos dos juízes, tornando ainda mais burocrática a distribuição da Justiça, o que seria agravado pela necessidade do envio da referida reprodução para o endereço pessoal da parte interessada”, defendeu.

(*) PL-7448/2006

http://www.camara.gov.br/sileg/integras/416293.pdf

(**) Rito de tramitação pelo qual o projeto não precisa ser votado pelo Plenário, apenas pelas comissões designadas para analisá-lo. O projeto perderá esse caráter em duas situações: - se houver parecer divergente entre as comissões (rejeição por uma, aprovação por outra); - se, depois de aprovado pelas comissões, houver recurso contra esse rito assinado por 51 deputados (10% do total). Nos dois casos, precisará ser votado pelo Plenário.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Jorge Amado

Jorge Adelar Finatto



Nos 100 anos do nascimento de Jorge Amado, comemorados ontem, 10 de agosto, reproduzo este depoimento. Salve, Jorge.

Antes de enveredar para o Direito e depois para a magistratura, trabalhei como jornalista, após fazer a faculdade de jornalismo. Em dezembro de 1984, tive oportunidade de entrevistar Jorge Amado (1912 - 2001). A entrevista foi marcada através de carta e telefone. Na época eu escrevia sobre a vida e a obra do porto-alegrense Alvaro Moreyra (1888 - 1964).

Jorge Amado concordou em dar um depoimento. Fiquei feliz com a atenção do grande escritor baiano, que na ocasião veio a Porto Alegre autografar o romance Tocaia Grande, lançado naquele ano. Aproveitei e pedi que assinasse o exemplar do livro que havia comprado especialmente para o encontro.

A entrevista durou cerca de uma hora e meia no saguão do hotel. Zélia Gattai, sua mulher e também escritora, deixou-nos à vontade para a conversa. Naquele tempo, o casal Amado residia uma parte do ano em Paris  e  outra, no Brasil. Jorge gostava de modo especial do outono parisiense. Em Salvador encontrava dificuldade de escrever devido à procura dos leitores, jornalistas e mesmo turistas, que queriam conhecer a casa one morava o criador de Gabriela, cravo e canela.

Não tenho dúvida de que o que o levou a concordar com a entrevista foi o respeito, a admiração e o carinho que nutria pelo amigo Alvaro Moreyra, cuja casa passou a frequentar desde que chegou ao Rio de Janeiro, ainda muito jovem.

Pedi-lhe que falasse, entre outros assuntos, sobre o que representou a casa de Alvaro e Eugênia Moreyra, na rua Xavier da Silveira, 99, em Copacabana, no Rio de Janeiro, na qual o casal passou a morar a partir de 1918. Assim respondeu:

"A casa de Eugênia e Alvaro Moreyra, ali em Copacabana, é um dos centros da vida literária e cultural do país. Essa casa, na rua Xavier da Silveira, número 99, era uma espécie de estuário onde desembocavam as inquietações culturais da época, sobretudo na literatura. Ali compareciam os jovens escritores, principalmente aqueles ligados à esquerda, ao Partido Comunista, à juventude comunista (aquilo que depois foi a Aliança Nacional Libertadora). Ali vinha todo mundo. Aquela casa aberta foi minha casa naquele tempo. Para os escritores que, como eu, chegaram ao Rio no início dos anos 30 - eu tinha então dezoito anos - a convivência com Alvaro e Eugênia foi muito importante. Quase todas as noites eu ia lá. Esse convívio foi bastante intenso até por volta de 1935. Depois, com o Estado Novo, as coisas se modificaram. A atmosfera do 99 estava de acordo com a calma e a bondade de Alvaro e com a enorme energia de Eugênia, que ao lado de suas atividades como mãe de família, atriz e militante política da esquerda, encontrava tempo para fazer aqueles panelões de lentilha para alimentar os visitantes. Como Alvaro era um homem de poucos recursos, havia sempre num canto da sala uma espécie de caixa onde cada um colaborava com alguns vinténs para comprar a comida".

A imagem que guardo de Jorge Amado é a de um homem extremamente talentoso e simples, afável no trato, preocupado em preservar a memória cultural e histórica do nosso país, e mais essa capacidade pessoal que ele tinha de ser afetivo.

O importante escritor que ele foi, é e sempre será se explica, também, pela sua grande figura humana.

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Foto: Jorge Amado. Fonte: Fundação Casa de Jorge Amado, Salvador, Bahia, site:
www.fundacaojorgeamado.com.br
Texto publicado em 12 de julho de 2010.

domingo, 11 de julho de 2010

Pão*

José Saramago

Terá o digníssimo fiscal de Badalona lido Os Miseráveis de Victor Hugo, ou pertence àquela parte da humanidade que crê que a vida se aprende nos códigos? A pergunta é obviamente retórica e, se a faço, é só para facilitar-me a entrada na matéria. Assim, o leitor ilustrado já ficou a saber que o dito fiscal poderia ser, com inteira justiça, uma das figuras que Victor Hugo plantou no seu livro, a de acusador público. O protagonista da história, Jean Valjean (soa-lhe este nome, senhor fiscal?), foi acusado de ter roubado (e roubou mesmo) um pão, crime que lhe custou quase uma vida de reclusão por via de sucessivas condenações motivadas por repetidas tentativas de fuga, mais logradas umas que outras. Jean Valjean sofria de uma enfermidade que ataca muito a população dos cárceres, a ânsia de liberdade. O livro é enorme, daqueles de que hoje se diz terem páginas a mais, e certamente não interessará ao senhor fiscal que provavelmente já não está em idade de o ler: Os Miseráveis são para ler na juventude, depois disso vem o cinismo e já são poucos os adultos que tenham paciência para interessar-se pela miséria e pelas desventuras de Jean Valjean. Com tudo isto, também pode suceder que eu esteja equivocado: talvez o senhor fiscal tenha lido mesmo Os Miseráveis… Se assim é, permita-me uma pergunta: como foi que ousou (se o verbo lhe parecer demasiado forte use qualquer dos equivalentes) pedir um ano e meio de prisão para o mendigo que em Badalona tentou roubar uma “baguette”, e digo tentou porque só conseguiu levar metade? Como foi? Será porque, em vez de um cérebro, tem no seu crânio, como único mobiliário, um código? Aclare-me, por favor, para que eu comece já a preparar a minha defesa se alguma vez vier a ter pela frente um exemplar da sua espécie.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 1º de fevereiro, 2009.
A grafia é a de Portugal. 

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A invasão dos balões misteriosos

Jorge Adelar Finatto
 
 

 
Um balão vermelho singrou os ares de Passo dos Ausentes em junho de 2010. O fato provocou um alegre alvoroço na cidade. Não estamos acostumados com coisas voando por cima das nossas cabeças. Abordei o assunto no texto do dia 25 de junho daquele ano.

Porém, o que antes foi motivo de emoção e espanto, agora é razão de preocupação.

Outros balões, de cores variadas, cruzam nos últimos tempos nosso espaço aéreo, vindos sabe Deus de onde. Demoram-se em voos circulares, sem a menor cerimônia, e depois desaparecem atrás do Contraforte dos Capuchinhos.
 
A aparição misteriosa dos aerostatos começa a causar apreensão, principalmente entre os voláteis, que transitam livremente pelas ruas, habitam as copas de árvores, sótãos, armários e telhados. Eles vivem aqui há trezentos anos sem ser incomodados.  Se descobertos por olhos indiscretos, seus dias entre nós estarão contados.

Palomar Boavista, astrônomo-mor, e Claudionor, o Anacoreta, foram convocados para explicar as possíveis razões das incômodas visitas, em reunião extraordinária da Sociedade Histórica, Geográfica, Filosófica, Literária, Geológica, Astronômica, Teatral e Antropofágica de Passo dos Ausentes, que tem na presidência Don Sigofredo de Alcantis, o filósofo guardião da nossa memória.

Somos uma cidade invisível a 1800 metros de altitude.  Condições atmosféricas intratáveis nos isolam do resto do mundo, desde que por aqui chegaram nossos antepassados, um grupo de índios guaranis e jesuítas que conseguiu fugir e sobreviver à destruição dos Sete Povos das Missões, levada a cabo por espanhóis e portugueses no século XVIII. Aquelas pessoas fundaram Passo dos Ausentes em 1759.

Lugar íngreme, difícil de sair e mais ainda de chegar, está situado no topo de imemoriais montanhas de rude basalto na Serra da Ausência.

O açoite implacável dos ventos nos fustiga o ano inteiro.

Vivemos nos Campos de Cima do Esquecimento. Não estamos no mapa do Rio Grande do Sul. Não existimos oficialmente. Tramita um processo desde o ano de 1805 junto aos órgãos da administração do Estado, no qual pedimos  o reconhecimento da nossa comunidade, com sua história e cultura, e  a inclusão nos mapas.

As respostas sempre foram evasivas. Dizem que não há provas concretas da existência desse lugar e, menos ainda, de que aqui vivem pessoas. Não fosse patético, seria cômico.

Nos tomam por seres imaginários. As duas expedições que vieram nos procurar, em 1936 e 1989, a mando do governo, perderam-se no caminho, desistiram e foram embora. O lugar é quase inacessível devido à acidentada topografia que envolve os paredões. Além das névoas eternas, as chuvas recorrentes e o frio intenso nos separam do mundo.


Claudionor e Palomar, após longa reunião, expuseram à assistência as duas prováveis explicações para os dirigíveis. Com voz grave e pausada, Palomar disse que a primeira hipótese é de que estamos sendo visitados por seres de outro planeta, que consideram Passo dos Ausentes a melhor porta de entrada na Terra, sem chamar atenção.

- A segunda, menos plausível, é que se trata de observadores aéreos do governo para nos localizar. Diante do fracasso das expedições terrestres no século passado, estariam enviando nova equipe para investigar.

Don Sigofredo de Alcantis pediu a palavra. Para ele, a primeira hipótese seria a menos perigosa.

- Se forem seres de outra esfera cósmica, não haverá  dificuldade, porque alguns esquisitos a mais por aqui não vão fazer diferença. Estamos habituados a toda sorte de estranhamento. Mas se for gente do governo querendo nos espionar, aí tudo de ruim pode acontecer. No dia em que o asfalto e a política chegarem a Passo dos Ausentes, será o nosso fim. A invisibilidade ainda é o melhor para nós.


O silêncio que se seguiu fez com que se ouvisse o forte rumor do vento nas folhas das altas palmeiras da Praça da Ausência.  Para espantar o frio e arrepios interiores, Mocita de la Vega serviu aos presentes seu licor de leite com noz-moscada. 

Não nos veem e não nos sentem. Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneom na estação de trem abandonada da cidade, executou Adios Nonino, de Astor Piazzolla. Com tanto sentimento que até mesmo Claudionor, o Anacoreta, não pôde evitar o brilho de uma lágrima.

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Texto publicado em 9 de julho, 2010.
Fotos: J. Finatto

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Mãos que tecem o amanhecer

Jorge Adelar Finatto


A porta de entrada na vida é sempre uma luminosa travessia. A primeira respiração de alguém é a respiração do primeiro homem e da primeira mulher.

A saída da existência é sempre a coisa mais triste.

Existem pessoas que, sendo o que são e vivendo como vivem, nos inspiram e nos dão força para continuar no caminho. É gente que com um gesto de compreensão nos diz que a vida vale a pena. 

Passam o sentimento de que cada ser humano é importante para humanizar o giro das engrenagens dessa obscura geringonça na qual estamos metidos desde a hora em que abrimos os olhos de manhã até o instante em que adormecemos.

O mínimo que deveríamos fazer, nessa escuridão, é dar a mão uns aos outros. Não é isso que acontece. Mas há pessoas que têm o dom de nos mostrar que uma vida assim é possível. Ainda bem que elas existem.

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Foto: J.Finatto

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Poesia de Vinicius de Moraes na internet

Jorge Adelar Finatto


Para os que admiram a obra de Vinicius de Moraes (1913 - 1980) - e não somos poucos neste vasto mundo -, eis que surge uma bela notícia: a sua poesia completa agora está disponível na internet para leitura e o acesso é livre.  O mérito da iniciativa é da Universidade de São Paulo, através da Brasiliana  Digital , e das pessoas que detêm os direitos autorais sobre a obra do poeta, que autorizaram a publicação no meio virtual.

Os quinze livros que tiveram textos e imagens digitalizados reúnem a produção poética do autor e são provenientes da biblioteca do bibliófilo José Mindlin.

A Brasiliana Digital integra o projeto Brasiliana USP, que reúne notável coleção de livros e documentos de e sobre o Brasil . O trabalho, de imenso valor cultural e social, está em permanente construção. A Brasiliana Digital parte da digitalização do acervo de José Mindlin, que ele construiu ao longo de 80 anos e doou, juntamente com sua família, à universidade , e se estende a outros acervos da USP. É uma documentação preciosa que começa a ser colocada na rede mundial de computadores, já contando com vários títulos. O endereço é: www.brasiliana.usp.br.

No dia 09 de julho completam-se 30 anos da morte de Vinicius, um dos grandes poetas da língua portuguesa. Também por isso, vem em boa hora a edição digital de tão importante obra.
 
Cumprimentos à USP e a todas as pessoas envolvidas nessa extraordinária iniciativa.

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Foto: Vinicius de Moraes. Divulgação. Fonte: O Estado de S. Paulo (www.estadao.com.br), edição de 23/6/2010.

sábado, 3 de julho de 2010

Cresce interesse pela poesia de Henrique do Valle

Jorge Adelar Finatto


Tenho recebido mensagens de pessoas interessadas em conhecer a vida e a obra do poeta Henrique do Valle. Na busca de informações, acabam encontrando o post que publiquei sobre Henrique, em 1º de fevereiro passado.

Recomendo a todos a leitura dos livros que ele publicou, editados pela Editora Movimento, de Porto Alegre.

Esse crescente interesse pela obra do Henrique é algo que me deixa muito feliz. Acredito que essa luz crescerá cada vez mais, ocupando o espaço que lhe cabe pela qualidade dos versos que deixou.

Falar da poesia do Henrique é também recordar um ser humano muito especial, que vivia numa outra dimensão, à margem da sociedade materialista. Não sei como explicar. A obra que ele escreveu até os 21 ou 22 anos, idade em que morreu, é mesmo impressionante. 

Guardo os textos que ele  deixou comigo no envelope antes de partir, no qual creio existem diversos inéditos. Tínhamos quase a mesma idade.   Atravessamos juntos a chuva e o frio do inverno de Porto Alegre. Às vezes acabamos em algum barzinho perdido, bebendo alguma coisa e conversando. Mas era talvez no silêncio onde mais nos encontrávamos.
 
O Henrique esteve no mundo por breve tempo, e o que deixou escrito veio de uma experiência que não cabia no curto tempo que ele viveu.
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Foto: Henrique do Valle. Fonte: contracapa do livro Do Lado de Fora, Editora Movimento, Porto Alegre, 1981.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

De mal en peor

Jorge Adelar Finatto

"Cuando Dios hizo la luz, 
 yo ya debía
 tres meses."

Um dos encantos na vida de quem sai a caminhar pelas ruas das cidades que visita é descobrir a maneira de ver  o mundo dos habitantes do lugar através de coisas como as inscrições feitas nos muros e paredes. Os famosos grafites. Em Porto Alegre, no mais das vezes, nada mais são do que poluição visual lançada no cenário urbano, agressivos, grotescos, sem sentido. Nem sempre é assim. Em Montevidéu, por exemplo, é diferente. É comum encontrarmos na capital do Uruguai inscrições com algum teor de filosofia, política, crítica social, poesia e até humor, como a que se vê acima.

Fundação José Saramago propõe Baltasar Garzón para Prêmio Nobel da Paz

 


Por estar envolvido na defesa dos Direitos Humanos e por nunca ter baixado a cabeça diante de nenhum estratagema e de nenhum poder, porque acreditou na justiça universal para as vítimas, em qualquer continente e em qualquer país.

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Notícia publicada ontem, 1º de julho, pela Fundação José Saramago em seu site:

http://www.josesaramago.org/

Foto: Baltasar Garzón e José Saramago, Lisboa, dezembro de 2008. Arquivo da FJS.

Baltasar Garzón*

 José Saramago

O juiz Baltasar Garzón deixou em Lisboa uma lição do que é ou deve ser o Direito. A verdade é que, em sentido estrito, do que se falou no acto organizado pela Fundação foi de Justiça. E de sentido comum: dos delitos que não podem ficar impunes, das vítimas a quem tem de ser dada satisfação, dos tribunais que têm de levantar alcatifas para ver o que há por baixo do horror. Porque muitas vezes, por baixo do horror, há interesses económicos, delitos claramente identificados perpetrados por pessoas e grupos concretos que não podem ser ignorados em Estados que se proclaman de direito. Quem sabe se os responsáveis dos crimes contra a humanidade, que de outra forma não posso chamar a esta crise financeira e económica internacional, não acabarão processados, como o foram Pinochet ou Videla ou outros ditadores terríveis que tanta dor espalharam? Quem sabe?

O juiz Baltasar Garzón fez-nos compreender a importância de não cair na vileza uma vez para não ficar para sempre vil. Quem conculca uma vez os direitos humanos, em Guantánamo, por exemplo, atira pela borda fora anos de direito e de legalidade. Não se pode ser cúmplice do caos internacional com que a administração Bush infectou meio mundo. Nem os governos, nem os cidadãos.

Um auditório multitudinário e atento seguiu as intervenções do juiz com respeito e consideração. E aplaudiu como quem ouve não verdades reveladas, mas sim a voz efectiva de que o mundo necessita para não cair em na permissividade da abjecção.

A Fundação está contente: fizemos o que pudemos para recordar que há uma Declaração de Direitos Humanos, que estes não são respeitados e que os cidadãos têm de exigir que não se tornem em letra morta. Baltasar Garzón cumpriu a sua parte e tê-lo posto a claro esta tarde em Lisboa só pode fazer com que nos felicitemos.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 12 de dezembro, 2008.
A grafia é a de Portugal.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Depois de tudo

Jorge Adelar Finatto


Depois de tudo ele quer só um banho. Não o tagarela e desajeitado das enfermeiras. Anseia um banho demorado, com direito de ficar só, recolhido, senhor de seus domínios. Durante o tempo em que esteve longe do mundo e do próprio corpo, viajando na nuvem de morfina, sonhava em sentar debaixo de uma cachoeira e ali ficar um dia inteiro sentindo a água cair.

Havia muitas árvores nesse lugar, camélias brancas, pássaros, um ar carregado de fragrância de mato, bom de respirar. Havia também uma mesa larga e comprida, onde gente da família e amigos se encontravam para o café da tarde. Até  os desaparecidos se chegavam na mesa para conversar com ele. Até mesmo o pai, imemorial ausência, surgiu no sonho e o abraçou calidamente, como nunca antes fizera.

Reencontrou o córrego da infância, entre os pinheiros. Caminhou sobre os seixos, olhou o movimento ligeiro e colorido dos peixes na água. Recordou o jeito da  saíra entrar e sair do ninho. A suave luz de maio a tudo envolvia.

Agora está de novo em seus domínios,  o hospital ficou pra trás. Embaixo do chuveiro, a água morna escorrendo na cabeça, no corpo, ninguém pra segurá-lo, virá-lo dum  lado pra outro feito joão-bobo. Sob a água, sentindo os seixos nos pés, o vento leve na face, os peixes no córrego, conversas na mesa larga dos afetos, ele celebra a dádiva de estar vivo.

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Foto: J. Finatto