sexta-feira, 2 de abril de 2010

Jean-Dominique Bauby: o prisioneiro do escafandro e o bosque das borboletas

Jorge Adelar Finatto


O fundo do mar da memória é seu habitat.

O prisioneiro do escafandro mora no ermo de si mesmo.

O tempo da ampulheta não conta mais.

O que importa é o limiar do amanhecer na cortina do quarto de hospital.

A última estrela tarda na janela.

Anêmonas silenciosas cercam-no no estranho lugar.

Paralisado dentro do próprio corpo, para sempre afastado da vida comum, impossibilitado de dizer qualquer coisa, proibido de mexer-se, ausente do abraço, do carinho, do amor físico.

A existência é uma paisagem que observa do interior do olho esquerdo.

É indesculpável ter vida e já não poder viver.

Como explicar esse absurdo ao coração que bate teimosamente?

Talvez fosse mais fácil aceitar passivamente a chegada da morte.

Mas não.

O prisioneiro agarra-se a cada frêmito de vida que resta no corpo.

As borboletas passeiam leves na penumbra com suas asas coloridas.

Haverá neste cosmo alguma chave para destrancar meu escafandro?*

Jean-Dominique Bauby nasceu em Paris em 23 de abril de 1952. Como jornalista alcançou o auge da carreira na função de redator-chefe da revista Elle francesa, famoso semanário feminino.

Aos 43 anos circulava no mundo glamouroso dos modelos e celebridades. Tinha dois filhos e o pai idoso, os quais amava. Dava-se bem com a ex-mulher.

Um salário ótimo, um automóvel caro e belas mulheres faziam parte deste cenário, em que não faltavam arrogância e frivolidade.

As coisas iam desse modo até que, em 08 de dezembro de 1995, Jean-Do (como era chamado pelos amigos) sofreu um grave acidente vascular cerebral. No seu caso, o AVC teve um desdobramento raro, conhecido na medicina como “locked-in syndrome”, através do qual o corpo fica paralisado, e o indivíduo perde a capacidade da fala. Inicialmente, ficou em coma durante vinte dias. Quando acordou no Hospital Marítimo de Berck-sur-Mer, deu-se conta de que a vida não seria mais a mesma.

Estava literalmente prisioneiro do próprio corpo, trancado em si mesmo, com a síndrome do encarceramento. Descobriu que perdera os movimentos, a fala e a possibilidade de comunicar-se minimamente com as pessoas.

Em tudo passou a depender dos outros, como uma criança. Davam-lhe banho, trocavam-lhe fraldas, roupa, colocavam-no na cama, na cadeira, na banheira, na sala de exercícios.

A mente e o espírito permaneceram intactos.


Viu-se no quarto 119 do hospital de Berck, cercado de aparelhos, olhando tudo e todos de cima de uma cama. A única parte de seu corpo que não estava paralisada era a pálpebra do olho esquerdo. Passou a comunicar-se com o mundo por meio dela, contando para isso com o apoio inestimável dos médicos e demais profissionais do hospital.

Um piscada significa sim. Duas, não.

A pálpebra do olho direito foi costurada para não infeccionar.

Contra todo desespero, Bauby decidiu viver com o que lhe restava.

E tomou uma decisão surpreendente para alguém naquele estado: resolveu escrever um livro sobre a sua dura experiência.

Bauby escreveu livro com a pálpebra

Escrevia mentalmente as frases e, mais tarde, depois de repassá-las umas dez vezes, “ditava-as” com a pálpebra para a assistente Claude Mendibil, que a Éditions Robert Laffont encaminhou para auxiliá-lo no trabalho.

Ela recitava o alfabeto a Bauby pela ordem de frequência com que as letras são utilizadas no idioma francês. E ele, num esforço sobre-humano, piscava o olho esquerdo a cada vez que surgia a letra certa para formar as palavras e frases do livro. A finalização dos períodos e parágrafos era indicada com o fechamento do olho por alguns segundos.

Foi assim, letra por letra, palavra por palavra, que ganhou vida “O escafandro e a borboleta” (Le Scaphandre et le Papillon).

Este livro é um dos mais tocantes testemunhos de resistência de um ser humano contra a desesperança, a doença e a morte.


As borboletas que o visitam no escafandro são as coisas belas da vida, como o amor dos filhos que o visitam, os amigos, as cartas recebidas, as correntes de afeto que se formam por ele pelo mundo, a presença da ex-mulher, a dedicação das pessoas do hospital, e os momentos de encanto e poesia que descobre nas persistentes viagens através da memória.

A emoção do que está acontecendo não lhe escapa, e muitas vezes vertem-lhe lágrimas. Mas não abandona, em nenhum momento, a determinação necessária para sobreviver.

Não estamos diante de um livro de autoajuda, precariamente escrito. Longe disso. O livro de Bauby é literatura de ótima qualidade, escrito por um observador poderoso. Não lhe faltam, no estilo, irreverência, ironia, humor, delicadeza, desencanto, cansaço, tenacidade.

São anotações ricas em humanismo feitas por uma vontade invencível.

O livro foi lançado em 06 de março de 1997 e tornou-se o maior sucesso literário daquele ano na França.
Jean-Dominique Bauby morreu poucos dias após, a 09 de março, um ano e três meses depois de ter sofrido o AVC.
A obra foi adaptada para o cinema com o mesmo título e conquistou importantes prêmios. A direção é de Julian Schnabel, tendo Mathieu Amalric no papel de Jean-Do. O filme passou em Porto Alegre no ano de 2008 e deve estar disponível em dvd.

O que nos diz Jean-Do?
A morte não sairá vitoriosa. O espírito humano sobreviverá.


Não será a morte que dará a última palavra, encerrando um triste drama. Pelo contrário, em Bauby a obstinação e a força interior alcançaram alturas poucas vezes antes vistas.
A morte sobreveio como evento previsível sobre um corpo muito debilitado.
O falecimento do escritor não deixou de ser algo profundamente mesquinho, se comparado com o imenso e heróico esforço que fez para não se desligar da vida.

Isso nos leva a refletir sobre as intrincadas e imponderáveis razões deste acontecimento natural (doença e morte), até o ponto em que se pode considerar com naturalidade um fato que é a destruição da vida, jamais seu desfecho digno e sua justificação.
O livro de Jean-Dominique Bauby é um dos relatos mais corajosos e comoventes já escritos a favor do ato de viver.

Viver apesar de tudo, nos ensina Bauby, ainda que a vida esteja limitada pela prisão dentro do próprio corpo.
Com delicadas borboletas a voar pelo escafandro, ele nos mandou cartas de um mundo distante e real, e afirmou a dignidade e a beleza da vida sobre tudo aquilo que é a sua negação.
___________

* O escafandro e a borboleta. Jean-Dominique Bauby. Martins Fontes, pág. 139. São Paulo, 2008.
Fotos: Everett Collection/Keystock e http://br.cinema.yahoo.com/filme

A primeira fotografia é de Jean-Do. As outras, do filme.

jfinatto@terra.com.br

9 comentários:

  1. Já havias postado esse texto no Judiciário e Sociedade antes né? Muito bom, mas o que me impressiona é esse livro ter sido publicado no Brasil, pois, a cada dia que passa, convenço-me que no recente mercado editorial brasileiro só há espaço para livros de auto-ajuda e misticismo barato...

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  2. Quantos tem essa adicção à vida e a vivem, momento após momento, em sua plenitude?
    Muito poucos.
    Esta sinfonia pela vida mereceria uma divulgação maçica.
    Infelizmente, a indústria cultural está preocupada com o que vende mais...

    Abraço.

    Ricardo Mainieri

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  3. Olá Jorge, tudo bem?
    Lindo texto. Quer criatura com mais esperança, força e determinação do que Jean-Dominique Bauby Isso é muito fascinante. A capacidade do ser humano em se conectar, criar, transformar seu mundo, suas possibilidades...
    Não li o livro nem vi o filme. Vou providenciar para corrigir essa lacuna na minha vida.
    Um grande abraço.
    Márcia do alô

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  4. Márcia, as tuas palavras são a expressão lúcida e sensível do universo do Jean-Dominique. Confesso que raríssimas vezes vi alguém com a coragem e a capacidade dele para nos mostrar que podemos ir muito além do que supomos.
    Como grande atriz que és, além de psicopedagoga, sei que verás muito mais coisas que irão nos enriquecer.

    Um grande abraço e excelente semana!

    Jorge

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  5. Caros Robaco e Ricardo,

    tanto o livro quanto o filme de Jean-Dominique abrem frestas de claridade e tocam fundo na questão da solidão e da incomunicabilidade humanas. Jean-Do disse não e se rebelou contra a morte em vida.

    Abraços.

    Jorge

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  6. Excelente historia, excelente filme.

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  7. Amigos do Grupo IW.

    Muito grato pela visita e comentário!

    Um abraço.

    JF

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  8. Uma licao de VIDA.....diante a morte eminente

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    1. Muito obrigado pelo comentário, Sandra.
      Um abraço. JF

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