sexta-feira, 30 de abril de 2010

Poética

Jorge Adelar Finatto


Ninguém lê meus poemas
sequer a família
com meus versos se amola

os outros têm afazeres diversos
toda hora

recebo o poema
como um ser
que apareceu
na minha porta
nesse dia

eu escrevo para uma sala vazia

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

Foto: J. Finatto. Colonia del Sacramento, Uruguai.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Os voláteis de Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto


A invisibilidade não é um dom de quem habita Passo dos Ausentes.

É antes a falta de luz nos olhos de quem não nos vê e não nos sente.

Às vezes venho para o escritório muito cedo, como hoje, antes mesmo de amanhecer. A água esquenta no fogão a lenha. Passo o café e subo. Entre a mesa de trabalho e os livros, fico  isolado do mundo por uma escada de madeira a pique.

Olhar os longes, os campos, as araucárias, é prazer reservado às auroras em que a neblina dá trégua. Os dias de sol amarelo e transparência azul são raros.

Os horizontes são provisórios e despencam sobre rigorosos penhascos.

O telescópio tem pouca serventia nessas alturas do escritório, fica parado num canto, embora as janelas olhem em todas as direções.

O silêncio da manhã é uma sala de concertos vazia. Ouvir os ruídos emergentes da casa na medida em que o dia avança, sons da madeira fabricados pelo movimento dos passos, é ainda habitar a harmonia.

Um dia desses aconteceu de entrar pela janela do escritório, junto com o ar frio do outono, uma nuvem. Era tão branca e densa que desapareci. Não vi mais nada. Esperei duas horas até  se dissipar. Enquanto isso, fiquei sentado no sofá sem enxergar o próprio corpo.

Pensei que tinha chegado a hora das despedidas. Um sofrimento pra quem não fez nada de importante na vida. Mas não. A nuvem foi embora e eu continuo aqui, me equilibrando entre a cruz e a caldeirinha.
 

Pra quem não sabe, Passo dos Ausentes fica a 1.800 metros acima do nível do mar e possui condições meteorológicas muito particulares. Como o Estado não reconhece juridicamente este lugar como cidade, apesar dos nossos inúmeros pedidos nesse sentido, não estamos no mapa do Rio Grande do Sul.

Em suma, não existimos. Somos seres invisíveis. Não somos vistos nem lembrados. As pessoas não sobem até aqui. O trem parou de funcionar no início dos anos cinquenta do século passado. A estrada de chão é insegura, íngreme, contorna a risco os paredões de basalto. Os mais jovens vão embora cedo, tentam a vida noutro lugar.

Somos poucos.

As cidades dos Campos de Cima da Serra ficam, em média, de oitocentos a mil metros abaixo de Passo dos Ausentes.

Quanto a nós, vivemos nos Campos de Cima do Esquecimento.

Fizeram uma brincadeira (só pode ser isso) estranha no início  do Contraforte dos Capuchinhos, que é onde a estrada deriva numa inclinação ascendente de 45º na nossa direção. Puseram no local uma placa, em forma de seta, com a inscrição: Valhacouto de Fantasmas. Não entendemos.

Além de invisíveis, também nos acusam de voláteis.

As nuvens são nossas testemunhas.

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Fotos:  Eduardo Tavares (ete@terra.com.br)
Imagem dos Campos de Cima da Serra, Rio Grande do Sul. O último livro lançado recentemente pelo Eduardo, Pharol de Santa Martha, é imperdível.


quarta-feira, 28 de abril de 2010

Heitor Saldanha: cem anos do poeta evaristo

Jorge Adelar Finatto


“Há muito tempo numa serra chamada Serra do Caxambu um menino sofreu um acidente, e ao menino estremunhado o pai fez-lhe mijar nas mãos e beber sua própria urina, que, segundo se dizia, era muito bom pra machucado por dentro. A beber pra não morrer é que o menino bebeu. Mas nunca mais se apagou de seu espírito a idéia de que todo aquele que bebe sua própria urina mais cedo ou mais tarde vira um bicho qualquer”. (Trecho do livro inédito Tribino, de Heitor Saldanha.)

Faz cem anos hoje que nasceu o poeta Heitor Saldanha. Veio ao mundo na Serra do Caxambu, em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, em 28 de abril de 1910. A obra poética que publicou em vida é suficiente para assegurar-lhe um lugar único na literatura brasileira. A voz de sua poesia é rara, não existe nada parecido.  Permanece, contudo, desconhecido. É poeta para poetas e iniciados. Não pela dificuldade de compreensão de seus textos. A poesia de Heitor, ao contrário, é das mais abrangentes e abertas ao leitor que conheço. Não encontro explicação para esse silêncio, que se prolonga desde sua morte em 1986.  

Para alcançar o refinamento e a humanidade que saltam de seus versos, mergulhou fundo no trabalho. Atingiu a simplicidade e a beleza não por acaso. Elas são fruto de uma elaboração paciente, meticulosa, alheia aos apelos da exposição imediatista.

Existem autores que vivem para escrever. E existem aqueles que vivem para viver, sendo o verbo a ponte que transforma o vivido em arte. É o caso de Heitor Saldanha.

O poema era para ele uma grande síntese existencial, em que cada palavra e cada verso eram lapidados exaustivamente para que o canto tivessse o tamanho da vida e não a diminuísse.

Uma coletânea de seus livros, intitulada “A Hora Evarista”, foi publicada em 1974 pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul e Editora Movimento, com as obras “A Hora Evarista” (1974), “A Nuvem e a Esfera” (1969), “As Galerias Escuras” (1969) e “A Outra Viagem” (1951).

Recordo com saudade os encontros que tivemos no apartamento dele, na Avenida Coronel Bordini, e na Praça Maurício Cardoso, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

Aprendi com Heitor uma importante lição de humildade e compromisso com a vida e a palavra.

Em julho de 1981, fiz uma longa entrevista com ele. Entreguei-lhe as perguntas por escrito. Ele respondeu em alguns dias, escrevendo as respostas em folhas brancas, a letra muito clara escrita com caneta azul. É um documento que guardo com carinho. Espero, um dia, entregá-lo a uma instituição que se disponha a cuidar da memória e da obra do grande poeta.

A entrevista foi publicada aqui no blog, no dia 29 de dezembro de 2009.

Um dia ainda se fará justiça a esse imenso artista da palavra, que nada fica a dever aos principais nomes da poesia em língua portuguesa.

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Imagem: Desenho de Heitor Saldanha feito pelo artista francês Michel Drouillon. Fonte: Fascículo sobre o poeta editado pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1984.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

Jorge Adelar Finatto


Vulto na praça. A luz amarela seria poética, não fosse o perigo dos assaltos. Um observador oculto espreita no meio das buganvílias. Quem vem lá? Difícil saber na escuridão. A noite de domingo podia ser romântica. Mas há indivíduos dormindo nos bancos da praça. Dois bêbados mijam sob a pérgula.

A cidade não tem piedade dos seres delicados. Mas há que vencer o mal com o bem. É a hora do menestrel, da capa, da espada e do alaúde. Eis que surge das trevas o Cavaleiro da Bandana Escarlate, montado no seu cavalo branco. Veio galopando desde muito longe. Atravessa a praça cuidando pra não amassar as flores. Um cara passa correndo atrás de outro rua afora, gritando coisas impublicáveis.

O cavaleiro veste a capa de seda preta. A máscara negra não permite descubram-lhe o segredo. Traz o antiquíssimo alaúde a tiracolo. O instrumento pertenceu a um trisavô que veio fugido da Itália e aqui se estabeleceu no ramo dos embutidos.

O cavaleiro passa pro outro lado da rua e estaciona o alvo corcel debaixo do balcão da Meiga Donzela. Dedilha as primeiras notas nas cordas do formoso alaúde. A melodia acorda a musa, que, entre entontecida e furiosa, vai até a janela saber do que se trata. Não acredita no que vê.

O que quereis, ó cavaleiro do alaúde em riste? Acaso não percebeis que são altas horas? Deixai-me dormir, ó  misterioso mascarado. Amanhã é dia de pegar no batente outra vez, voltar pra dureza da vida. Retornai ao vosso castelo de vento, ó romântico senhor, poupai-me. Do contrário, obrigar-me-ei a chamar os homens da lei.

O Cavaleiro da Bandana Escarlate silencia pra não comprometer mais ainda o idílio. Num gesto de rara nobreza, atira uma rosa branca no balcão e parte no trote. Ergue o alaúde na mão esquerda. Na praça, volta-se, empina o cavalo e grita eu retornarei na primavera, ó Estressada Musa.

Alguém abre uma janela próxima e o manda colher caju. Sem perder a altivez, o cavaleiro desaparece na noite. Um bêbado atira uma pedra e quebra a luminária da praça.

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Foto: J.Finatto

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Cálido

Jorge Adelar Finatto



Preciso escrever
o poema
que vai salvar
esse dia

o poema cálido
para atravessar
o tempo difícil
que ainda tenho
pela frente

o poema que vai expulsar
a vontade de morrer
que chega aos poucos
como um gato


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Do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Foto: J. Finatto

domingo, 25 de abril de 2010

Gonçalo M. Tavares*

José Saramago

A nova geração de romancistas portugueses, refiro-me aos que estão agora entre os 30 e os 40 anos de idade, tem em Gonçalo M. Tavares um dos seus expoentes mais qualificados e originais. Autor de uma obra surpreendentemente extensa, fruto, em grande parte, de um longo e minucioso trabalho fora das vistas do mundo, o autor de O Sr. Valéry, um pequeno livro que esteve durante muitos meses na minha mesa de cabeceira, irrompeu na cena literária portuguesa armado de uma imaginação totalmente incomum e rompendo todos os laços com os dados do imaginário corrente, além de ser dono de uma linguagem muito própria, em que a ousadia vai de braço dado com a vernaculidade, de tal maneira que não será exagero dizer, sem qualquer desprimor para os excelentes romancistas jovens de cujo talento desfrutamos actualmente, que na produção novelesca nacional há um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares. Creio que é o melhor elogio que posso fazer-lhe. Vaticinei-lhe o prémio Nobel para daqui a trinta anos, ou mesmo antes, e penso que vou acertar. Só lamento não poder dar-lhe um abraço de felicitações quando isso suceder.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 1º/3/2009.
A grafia é a de Portugal.
http://goncalomtavares.blogspot.com/

sábado, 24 de abril de 2010

Enrolado na manta com um livro na mão

Jorge Adelar Finatto


Há uma espécie de exílio no íntimo das coisas. Um voltar-se para os recônditos aposentos da alma. O vento iniciou seus giros nos caminhos e telhados. Agora o outono chegou. Os últimos dias aqui em Passo dos Ausentes foram de chuva e neblina. Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento. A memória é nosso continente. Agora é o tempo do recolhimento. Folhas caindo. A estação das viagens interiores. Fico olhando o mundo lá fora, os plátanos, os pinheiros, as nuvens entre as montanhas. As ruas quase desertas.  A natureza passa por uma busca de harmonia nas entranhas. Há uma força interna em curso. Coisas importantes estão fora de lugar, dentro de nós e no ambiente. As fontes ressequidas. Na entrada da estação de trem abandonada, a alta luminária com luz amarela anuncia que tudo nessa vida é passagem. Homens e mulheres chegam e partem do planeta todos os dias. A viagem imemorial e solitária.  Enquanto as coisas assim se passam, eu me afundo no sofá enrolado na manta com um livro na mão, o Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas, o escritor espanhol que nos faz gostar de caminhar pela alameda ensolarada do texto. A leitura é seiva em movimento.

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Foto: J. Finatto

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pessoa no Dia Mundial do Livro*

Comemora-se hoje, dia 23, o Dia Mundial do Livro.

Entre as diversas acções que vão decorrer por todo o país, algumas incluem Fernando Pessoa:

•As cidades de Coimbra, Viseu e Porto serão invadidas por sósias de escritores clássicos, como Luís de Camões, Fernando Pessoa e Eça de Queiroz, numa acção de guerrilha. Os sósias vão presentear todos os transeuntes com sessões de leitura das suas obras e distribuir vales com 10% desconto na compra de qualquer livro nas Livrarias Bertrand.
•Em Loulé, na Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen, será apresentado o espectáculo “Pessoas”, apresentado pela "A Gaveta – Associação Cultural e Pesquisa Teatral". Um espectáculo sobre os heterónimos de Pessoa.

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*Notícia transcrita do site Um Fernando Pessoa, de Portugal, editado por Nuno Hipólito.

Visite:
http://blog.umfernandopessoa.com/

A carne viva do ser no mundo

Jorge Adelar Finatto


O tempo passa, pessoas somem da paisagem, casas e coisas desaparecem. O que resta de tudo? Essa é a bruma silenciosa que nos cerca. A questão se impõe mesmo ante a visão dos gerânios que iluminam a janela. Houve um tempo em que tudo o que ele mais queria era ficar morando pra sempre com os avós na ruazinha qualquer da serra, o arroio passava no fundo do quintal. Numa ocasião, quis tornar-se carteiro, que é ofício nobre de quem leva palavras para as pessoas. Noutra vez, pensou ser marinheiro de longo curso. Mais tarde decidiu que devia jogar futebol. Às vezes fica imaginando o que aconteceria se tivesse realizado algum desses quereres. Seria outra pessoa. Existe um tanto de mistério e imponderável nos caminhos. Dizem que  os rigores da sobrevivência nos definem. Pode ser. Mas não é só. O inconsciente e as emoções apresentam suas demandas e objetos de desejo. A carne viva do ser no mundo. O vivente pode querer transformar-se em pedra. Mas não conseguirá desvestir-se da pele e do sensível tecido de que são feitos os quereres.  Podemos ser, e já o somos só de imaginar, um pouco dos vários sonhos que nos habitam. Agora atravesso a ponte de pedra no meio da neblina. O fugidio instante. Felicidade casual. Assim seja.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Entre o Guaíba e o Mondego

Jorge Adelar Finatto



A cidade vista dentro do rio não é a mesma que observamos no continente. Ao navegar ao largo, vemos coisas que não percebemos em terra. Os barcos nos ajudam a entender melhor essas ilhas de solidão e exílio que são as cidades onde vivemos.

É como se saíssemos do nosso corpo e nos enxergássemos, por um instante, à distância.

Então essas são as orelhas? Esse é o jeito de sentar à mesa para ler o jornal enquanto espera alguém? Essa é a maneira de fazer de conta? E são esses os olhos que pouco revelam do que vai na alma? Visto de fora, um ser diferente talvez do que somos. Mas estamos ali.

A cidade está povoada de gente que nunca ousou embarcar e partir. Barcos e homens são sonhos que se sonham.

Coimbra tem seu rio, seus barcos, seus pescadores, seus estudantes. É uma cidade antiquíssima e adolescente, ao mesmo tempo. Gosto de me perder em suas vielas, ladeiras e largos medievais, onde vivem seus poetas, escritores e fadistas.

Em torno da Universidade de Coimbra - a mais antiga de Portugal e uma das primeiras da Europa - o velho e o novo convivem, se estranham, se transformam.


O Mondego me dá saudade do Guaíba.

Quando estou nas margens do Guaíba, penso no Mondego.

Recordo o sublime e trágico amor de Inês de Castro (1320 - 1355) e do infante Pedro, que mais tarde viria a ser D. Pedro I, Rei de Portugal.  Ela foi assassinada a punhaladas a mando do Rei D. Afonso IV, pai de Pedro, que não aceitou, por razões políticas, a união do filho com sua amada. As lágrimas derramadas por Inês na ocasião de sua morte teriam formado a Fonte das Lágrimas, na Quinta das Lágrimas, perto do Mondego. Naquele lugar suave e triste, ouvimos o pranto de Inês através dos séculos.

Em vão procuro entender por que a tarefa do amor é, muitas vezes, a impossível tarefa.

Escrevi um texto, em 03 de março passado, sobre o Basófias, o barco que leva passageiros a ver Coimbra de dentro das águas do Mondego. Recebo agora um email de Renato Ladeiro, diretor comercial da empresa que o administra. Ele tem a gentileza de encaminhar uma fotografia , e informa sobre as atividades da embarcação em prol da cidade. O conforto que o barco oferece, as iguarias, os roteiros, o tratamento dispensado aos visitantes fazem a gente sonhar com a próxima viagem no lendário Basófias.

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Fotos: 1) Símbolo do Basófias, imagem da empresa; 2) o  Basófias; 3) o Rio Mondego, J. Finatto.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A passagem do umbral

Jorge Adelar Finatto


O pássaro amanheceu cantando num galho seco dentro de mim. Não sei de onde veio. Por causa do pássaro saí à rua na manhã de chuva.  Em seu louvor fui até a praça. Fiquei ouvindo o vento nos cabelos, respirei o amarelo.  Agora quando o medo chega, a melancolia dos entretons, eu abro a porta e vou. Vou ao encontro dos ocres do outono com o pássaro. Ele anda solto nas árvores, nos fios de luz. Às vezes entra no bolso do meu casaco. O pássaro tece delicadas aquarelas com seu canto. São traços de um pintor amoroso. Eu reconheço sua assinatura nas partituras. Não importa o barulho dos motores e das bocas que não param de falar. Folhas secas do outono. Folhas secas das almas. O pássaro leva no bico o canto, a semente, a esperança. O toque suave do amanhecer. O pássaro dentro de cada um. Mel escorrendo na paisagem de abril. Não importa a solidão geral, a insensibilidade glorificada. Estou habitado. O pássaro encontra em mim o abrigo. Eu cuido do pássaro. Ele cuida de mim. Vem de secretos bosques, vem de auroras estelares essa harmonia que enche o coração.  As seivas se recolhem. A transição. A claridade de um anjo ilumina a porta. A previsível passagem. O umbral.

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Foto: J. Finatto

sábado, 17 de abril de 2010

Meu encontro com Walt Whitman

Jorge Adelar Finatto


O trabalho mudou minha vida de cenário muitas vezes. Faz muito tempo morei numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O lugar se resumia a uma igreja católica e outra protestante, algumas ruas e casas. Em volta, a mata. Em certas tardes, eu saía a andar por estradas de chão, solitárias e com aroma silvestre.

Caminhar assim é como andar dentro de si mesmo.

Num dia de sol e frio eu percorria um desses caminhos. Um córrego prateado corria na margem. Numa curva em frente, entre os plátanos, apareceu um homem. Quando nos cruzamos ele me cumprimentou, em silêncio, fazendo um gentil movimento com a cabeça, que eu retribuí. Ele tinha uma barba branca abundante, uns olhos pequenos muito azuis, o cabelo na altura dos ombros. Usava um chapéu escuro com largas abas, a face um tanto rosada. Vestia um velho casaco, a camisa abotoada até o pescoço. Trazia um livro na mão esquerda.

Eu tive quase certeza de que se tratava do poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892).

Fiquei orgulhoso de estar ali, pisando o mesmo chão que o grande Walt. Seria o espectro do poeta o que eu vira? Seria alguém muito parecido?

Encontrei-o em outras duas ocasiões. Como da primeira vez, éramos só nós, a estrada verde, a brisa e o rumor do córrego. Fiquei observando o poeta. Ele entrava num desvio lateral da estrada, subia uns cinquenta metros em direção a uma  pequena casa de madeira.

A casa era muito branca e delicada. Era de um azul pálido, puxando para o cinza. Sozinha, lá no alto, mostrava cortinas azuis nas janelas abertas, e flores, muitas flores da estação  no breve jardim em volta.

Walt entrava pela porta dos fundos e desaparecia.

Uma chaminé de alumínio saía pelo telhado.

Pensei em conversar com o poeta. Talvez ele até dissesse alguns versos de Folhas da Relva, sua obra-prima. Mas não. Achei melhor não incomodar. Afinal, os poetas trabalham enquanto caminham em silêncio por estradas de chão.

Um dia chegou o tempo de ir embora da cidade pequena.

A vida seguiu, muitos caminhos eu percorri depois. Mas nunca esqueci que, em certas tardes, numa cidadezinha do interior, eu caminhei na mesma estrada por onde andava Walt Whitman.

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Transbordante de Vida
Walt Whitman

Agora, transbordante de vida, sólido, visível,
No ano quarenta de minha existência, no ano oitenta e três dos Estados,
A alguém que viverá dentro de um século, ou em qualquer número de séculos,
A vós, que ainda não haveis nascido, dedico estes cantos, esforço-me por
alcançar-vos.
Quando lerdes, eu que sou agora visível, hei-de ter-me tornado invisível; então sereis vós, denso e visível, quem lerá os meus poemas, quem se esforçará por compreendê-los,
A imaginar quão felizes seríeis se me fora dado estar ao vosso lado e converter-me em vosso camarada;
Que seja, pois, como se eu estivesse. (Não duvideis demasiadamente que não esteja então ao vosso lado).

Poema extraído de O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos, coletânea de poemas organizada por Oswaldino Marques, edição bilíngue, Ediouro, tradução de Manuel Ferreira Santos.

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Foto de Walt Whitman feita em 1887, por George C. Cox.
Fonte: Wikipédia.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O barbeiro de Fernando Pessoa

Jorge Adelar Finatto



Fernando Pessoa (1888-1935) habita um quarto do apartamento do primeiro andar, lado direito, do edifício nº 16 da Rua Coelho da Rocha, no bairro Campo de Ourique, em Lisboa.  Cuida da aparência e dos fatos (ternos), que compra de bons fornecedores, apesar das sérias dificuldades financeiras. O que ganha trabalhando para casas comerciais, como responsável pela correspondência em inglês e francês, é insuficiente. 

Costuma frequentar a Barbearia Seixas, quase na frente do edifício onde mora. Para lá se dirige seguidamente. Quando a única cadeira está ocupada por outro cliente, o poeta faz um discreto gesto, uma senha para o barbeiro Manassés. Este, tão logo se desocupa, dirige-se ao apartamento onde Fernando vive na companhia da irmã, do cunhado e da sobrinha. A visita de Manassés tanto pode ocorrer de dia como à noite.


A pequena sala abre a porta de madeira marrom sobre a calçada. Faz parte de um prédio antigo, castigado. Trata-se, hoje, de uma oficina de equipamentos de som. Nesse território perdido no tempo, encontro o senhor António Seixas, quase octogenário, que vem a ser o responsável técnico (ou será melhor dizer o alquimista?) do estabelecimento. É o filho de Manassés.*

No local exíguo, acumulam-se muitos aparelhos. Não existe uma ordem aparente. Mover-se, ali, requer estreitamento de ombros e movimentos de cintura. Coisa difícil.

Peço licença para entrar. António me recebe com um sorriso. Revela-se gentil no trato, tem excelente disposição física e boa memória.

Encantado pelos sons mágicos que brotam das caixas lumisosas, António Seixas não seguiu a profissão do pai, que ali se estabeleceu há mais de oitenta anos.

O menino António, com cinco, seis anos de idade, muitas vezes acompanhou Manassés até o quarto do Senhor Pessoa (assim refere-se ao poeta). Faço perguntas a respeito dessas incursões. António não é mesquinho nas respostas. Ao contrário, demonstra satisfação em recordar aquele tempo e a relação do pai com Pessoa.

Fernando mudou-se para a Rua Coelho da Rocha em 1920, tendo ele próprio alugado o imóvel. Cansado de perambular por quartos de aluguel e de parentes em Lisboa, fixa naquele apartamento e naquela rua o seu lugar de viver, o recanto de aconchego físico e emocional que lhe dará condições de desenvolver o trabalho literário num dos períodos mais produtivos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Barcos, ilhas desertas, flores, abismos

Jorge Adelar Finatto


Uma vez embarquei numa traineira, num clube náutico em Porto Alegre, e, junto com outras pessoas, saímos num passeio pelo Guaíba. O barco levantou âncora num sábado de manhã cedo. Passamos o dia a navegar, indo até o Farol de Itapoã, no início da Lagoa dos Patos. No caminho, descemos em algumas ilhas e paramos em belos lugares para um banho de rio.

Aquele barco deixou de fazer esse passeio. Pelo que sei, só restaram as embarcações tradicionais, que saem do centro da cidade, e ficam no seu entorno em resumidos roteiros. Com elas, pelo trajeto limitado, muito pouco podemos conhecer do rio, suas ilhas, seus encantos.

A relação do porto-alegrense com o Guaíba é quase inexistente.

Poucos rios no mundo são tão bonitos. Essa beleza toda fica ali pulsando na nossa frente. E nada fazemos, além de poluir.

No tempo de menino, lembro que muitas famílias rumavam, lá pelas quatro, cinco da tarde, para a praia que havia ali no Gasômetro. Naquele lugar onde hoje fica o Parque Harmonia, ao lado da Chaminé, na entrada do porto. Era uma coisa viva e colorida: guarda-sóis, toalhas, brinquedos, bóias, baldinhos. Todo mundo se divertia e aproveitava. Barcos passavam ao largo. Havia diversas outras praias na cidade: Pedra Redonda, Ipanema, Guarujá, Lami, etc.

Um dia, quem sabe, vão limpar as águas. Antigos meninos e meninas voltarão a tomar banho e a se encontrar outra vez nas mansas praias.


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Coração louco

Um bom cinema esse Coração Louco (Crazy Heart). O filme conta a história de um talentoso músico envolvido com alcoolismo e outras prisões existenciais. A vida não é só abandono e tristeza. Às vezes pessoas boas surgem no nosso caminho e nos emprestam asas para voarmos sobre o abismo, abismos. Direção de Scott Cooper, tendo Jeff Bridges no papel principal.


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Estadão

Ninguém me perguntou, mas vou logo dizendo que o meu jornal preferido no fim de semana é O Estado de São Paulo, o velho e conservador estadão. Alguma coisa aconteceu nos últimos dois meses, o jornal está muito bom na parte que mais gosto, cultura, aí incluídos teatro, cinema, literatura, artes plásticas, artigos e pequenos ensaios de assuntos diversos, escritos por gente qualificada (vale dizer, se fazem entender por leigos como eu, sem prejuízo do bom conteúdo). Claro, nem tudo se ama, mesmo nos amores mais incendiados. Mas se eu tivesse de escolher um jornal, hoje, pra levar para a minha ilha deserta, seria esse.


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Cravos, lírios

Uma flor encantadora, o cravo, tão difícil de encontrar. O seu perfume é algo. Estou certo de que no paraíso os anjos devem cultivar cravos. O valor aromático se soma ao estético. Dois cravos vermelhos e outros dois brancos, num vaso, podem salvar um relacionamento. Ou simplesmente maravilhar o ambiente. Tenho encontrado cravos, às sextas-feiras, frescos e perfumados, no Supermercado Zaffari. Como vê o caro leitor, leitora, se esse blog tivesse fim comercial e aceitasse patrocínios, eu estaria rico ou perto disso...

Pra não dizerem que não falei de lírios, ele são lindos e o perfume é inacreditável. Boas flores e bons dias a todos.

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Foto: J. Finatto.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Somos os que estão por aí

Jorge Adelar Finatto


O mundo é um hospício sem muro. Estão todos soltos. A loucura é herança bem dividida entre os humanos. As partilhas registradas nos livros do existir. A pessoa precisa ter reservas de luz pra suportar tanta escuridão.

Somos os que estão por aí. Os por enquanto. A gente mói e é moído. O que acha? O moinho triste da vida. Tem ser vivente que passa a existência sem receber um afago, um ora-veja. Os que. Pra eles não existe vem-cá-meu-bem. Só pedra, pedras.

O mundo não presta atenção nos sem-afeto. Os esquecidos jazem no fundão. Os outros, quando muito, vivem pra si. Os que se acham. As almas duras. Corações secos.

O moinho pesado gira no escuro. Caminho de sombras.

Às vezes um resolve resilir o contrato com o eterno. Quase ninguém nota o último ato do infeliz. Nenhuma flor se colhe em sua difícil memória. Nenhum pensamento. As indiferenças. Os giros insensíveis da roda de fazer pó e esquecimento.

Viver são uns suspiros. Alguns poucos levam a lanterna na mão. Esses, ao menos, ainda choram, se comovem, não se conformam, lutam, amam. Fazem os caminhos. Por eles a aurora tece os fios rosados do amanhecer.

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Foto: J. Finatto. Folhas de plátano em Passo dos Ausentes.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sobre Fernando Pessoa*

José Saramago


Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago:
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago:
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 05/10/2008.
A grafia é a de Portugal.
Foto de Fernando Pessoa reproduzida do site da Casa Fernando Pessoa, Lisboa, Portugal:
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=4287

domingo, 11 de abril de 2010

A memória do coração

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

Em 1985, eu reunia material para o livro que estava escrevendo sobre a vida e a obra do poeta, cronista e renovador da arte cênica brasileira Alvaro Moreyra. Durante uma entrevista que fiz com Guilhermino Cesar, no seu apartamento, na Avenida Independência, em Porto Alegre, sabendo do meu interesse em entrevistar Carlos Drummond de Andrade, ele me passou o telefone do poeta. 

O mineiro Guilhermino foi um notável escritor, estudioso e professor, amigo de Drummond. Aquerenciou-se no Rio Grande do Sul, onde viveu, lecionou e escreveu até o fim da vida.

No Rio de Janeiro, mantive contato com Sandro Moreyra, jornalista, cronista esportivo, filho de Alvaro e Eugenia Moreyra, e também com outros familiares, que me auxiliaram generosamente no trabalho. Em Porto Alegre contei com a colaboração inestimável de Jorge Moreira, sobrinho de Alvaro. 

Durante a permanência no Rio, tomei coragem e decidi telefonar para o bardo de Itabira, na tentativa de colher alguma declaração. Sabia da dificuldade de entrevistar Drummond, que na época contava mais de 80 anos.

Fiz a ligação para o número que Guilhermino me dera, sem levar fé. Imaginava encontrar insuperáveis interlocutores, senhas inacessíveis. Afinal, tratava-se do grande poeta brasileiro do século XX. Para meu espanto, porém, logo na primeira tentativa o próprio Drummond atendeu o telefone. O diálogo que se seguiu foi cordial e econômico. O poeta falou que havia escrito sobre Alvaro em livro. Não havia o que acrescentar ao que escrevera.

O raro habitante da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana, atendeu-me com gentileza e atenção. 

Em dezembro daquele ano, após receber o livro, Drummond escreveu-me uma carta que guardo como relíquia. Ao falar de Alvaro Moreyra, disse tratar-se de um escritor e de um amigo que lhe inspirava uma grande saudade, e que o trazia na memória do coração.

Nunca será demais lembrar que Carlos Drummond reconheceu no porto-alegrense Alvaro a sua mais forte influência literária, nos anos de formação, entre os autores brasileiros

Da experiência guardei a lição de simplicidade e generosidade intelectual.


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Foto: J. Finatto. Escultura em bronze de Drummond, na Avenida Atlântica, Copacabana, Rio de Janeiro.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A pele cor-de-rosa da chuva

Jorge Adelar Finatto



O ser humano tem direito constitucional de andar nas nuvens.

A sentimental algaravia.
 
Ah, um dia livre pra sair por aí. O que ela mais gosta.

As horas difíceis, cotidianas, que a vida tem. Poucos momentos de gozo. Vida bonsai. Um ermo. O medo, medos.
 
Um dia se deu conta que. Olhou no espelho, estranhou. Quem é essa? Deus!

Vivia no austero e no precavido.

Desde que ele, enfim. Adeus, adeuses. Casa abandonada. Depois só quireras, uns fanicos de dar dó. Ninguém mais.

Dia feriado, sábado, domingo, aniversário: nenhum fio de luz embaixo da porta, escuridão completa. Ninguém vem, ninguéns.

Coração solitário no meio dos corvos vorazes.

Noites em claro, sede. Janela sobre a cidade vazia. Invoca rezas antigas, banho de madrugada, dorme diante da tv.

A solidão pintada na cara. Ocos dias de se viver

Ah, bem-vindo, vento do rio. Na chuva sente-se protegida, agasalhada. Sai a divagar caminhos molhados. Os longes habitam a sua alma.

Peixes coloridos soltos no ar.

Sopram presságios no voo de algodão das gaivotas.

Moças saltam das janelas, invadem as ruas como ela. Anêmonas. Saias flutuam. Sombrinhas navegam no vento.

A esperança. Ninguém pode viver sem, nem ela nem. Se a solitude fosse um abraço.

Instantes migalhas de vida são. Breves eternidades. Venham os dias.
Felicidade é relâmpago. Farândola no coração.

A pele cor-de-rosa da chuva.

Outono, outonos.
  
 

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Acordo Ortográfico: intenções e decepções

Niamara Pessoa Ribeiro
Graduada em Letras e Especialista em Teoria Literária. Porto Alegre.


O trema tornava o "u" sonoro, audível (nos grupos gue/gui e que/qui). Como ensinar a uma criança que, nesses grupos, o "u" permanece sonoro mesmo sem a existência de um sinal para marcar a pronúncia?

Como todo assunto polêmico, o Acordo Ortográfico, mais conhecido como Reforma Ortográfica (ou, segundo o povo, "Desacordo Ortográfico"), arregimentou defensores e oposicionistas. Fácil seria adotar-se posição maniqueísta, tipo "(Brasil) ame-o ou deixe-o", de tão triste memória nos anos de chumbo sequentes ao golpe militar de 64. Com o Acordo Ortográfico, embora já promulgado, as coisas não foram colocadas bem assim ("ame-o ou deixe-o"), pois aparentemente existe a via dialógica abrindo espaço a reavaliações. Isso, porém, é mais teoria do que prática. O Acordo foi sancionado; o prazo para adoção definitiva (1º de janeiro de 2013), estabelecido.

Considerando o elevado nível dos leitores d'O Fazedor de Auroras, dispensável detalhar o texto em seus itens, até mesmo porque edições proliferam com amplas explicações quanto às mudanças. Portanto, de maneira breve, ressalto o infradeclinado.

Um aspecto positivo: a queda do acento na primeira vogal dos hiatos "ee" / "oo" (abotoo, leem, enjoo, creem, voo, deem...). O acento era completamente desnecessário, pois impossível ler-se a palavra, mesmo sem acento de marca paroxitônica, como se acentuada ela fosse na última sílaba (pois a regra das oxítonas por si só imporia o acento pertinente).

Um aspecto neutro: a tentativa de simplificação no caso do hífen. Os "acordistas" trocaram "meia dúzia por seis". O custo-benefício valeu? Quem possuía ilustração, teve que se atualizar. Quem encontrava dificuldades, assim permanece. Quem nada sabia, continuará à margem de impactos culturais. Simplificação? Não houve. A regra continua indigesta, não oferecendo a reforma atrativos, principalmente para discentes.

Um aspecto "maligno": a supressão do trema. A mudança foi ortográfica, "visual", mas não fonética, "auditiva", porque a pronúncia quedou inalterada. O trema tornava o "u" sonoro, audível (nos grupos gue/gui e que/qui). Como ensinar a uma criança que, nesses grupos, o "u" permanece sonoro mesmo sem a existência de um sinal para marcar a pronúncia? A criança vai visualizar "consequência" e "linguiça", e informaremos que o "u" é pronunciado, mesmo sem o trema. Pelas tantas, o aluno vai se deparar com "quero", "querida", "enguiça" ... Sem o sinal diacrítico nos outros grupos citados, como querer que o educando em processo de letramento entenda que não se pronuncia "qüero", "qüerida", "engüiça" ?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Olhos Negros

Jorge Adelar Finatto


Um senhor disco, um dos mais belos que ouvi na vida. Olhos Negros, de 1990, nos traz Johnny Alf em sua plena criatividade e talento. A voz clara, o canto transcendente, a emoção solta na justa medida, o modo único de tecer harmonias, construir encantos e encontros, tudo está presente nesse trabalho.

O pianista, compositor e cantor Johnny Alf, o nosso Alfredo José da Silva, foi um homem simples, contido, generoso. Um dos grandes artistas que o Brasil já produziu, sua obra não recebeu o devido reconhecimento. Nos deixou, discretamente como viveu, em março passado. A beleza harmônica, as letras cheias de poesia, a refinada composição de suas canções nos remetem a raros momentos de fruição estética.

Em Olhos Negros, ele canta com Chico Buarque, Caetano Veloso, Zizi Possi, Emílio Santiago, Gal Costa, Leny Andrade, Gilberto Gil e Sandra de Sá. O disco tem, ainda, a participação de Roberto Menescal e Márcio Montarroyos. Seu sofisticado piano toca ao lado de cuidadosos arranjos com pequena orquestra.

No dia em que for morar numa ilha deserta, vou levar comigo, entre outros objetos essenciais, esses lindos Olhos Negros do sublime Johnny Alf.

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Imagem: capa do cd Olhos Negros, 1990.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A arte da navegação em barco de papel

Jorge Adelar Finatto



A arte de navegar em barco de papel é tão antiga quanto a humanidade.

Um menino de oito anos pergunta, através de e-mail, como pode alguém com o meu tamanho se aventurar em barco de papel pelo Rio Guaíba.

A perplexidade surge a propósito do que escrevi aqui nos posts dos dias 23 de março e 02 de janeiro deste ano. Miguel Antônio ficou deveras impressionado.

- Como isso é possível? Eu também faço barcos de papel, mas, se quiser entrar neles, ficam destruídos na hora – pondera meu novo amigo.

Estou feliz por ver que esse assunto desperta sua atenção. De fato, poucas pessoas se dedicam a esse belo ofício naval.

Os meninos e as meninas costumam navegar até certa idade. Depois crescem, tornam-se adultos e esquecem.

Com a passagem do tempo, as pessoas vão desistindo das aventuras e dos sonhos.

Sou um velho marinheiro de barco de papel.

Felizmente, não esqueci como se faz isso. Por essa razão, quase não tenho com quem conversar.

O papagaio Filipo é meu companheiro de navegação. Ele vem do bosque onde vive, vestindo o boné e a jaqueta de marujo. Moisés, o peixinho que nada ao lado da nossa minúscula embarcação, também faz parte da tripulação.


Faço a estrutura do barquinho com um papel muito branco, depois pinto o casco, o timão, a âncora e a vela. Tomo cuidado para fixar bem as dobras, para não deixar a água entrar. Coloco apenas as coisas essenciais na cabine, porque o espaço é muito reduzido, tudo num barco de papel é muito pequeno.

Levo-o para a beira do rio. Empurro-o na água e dou um pulo para dentro. Vamos nós!

Não consigo explicar, só com palavras, como isso acontece. O fato é que é assim.

O que eu sei é que só me sinto feliz, de verdade, quando entro no meu barquinho Solitário - esse é seu nome - e saio pelo Guaíba afora, deixando pra trás a cidade, as tristezas e os medos.

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Ilustrações: Maria Izabel Schissi

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Caio Fernando Abreu e as pequenas epifanias

Jorge Adelar Finatto




Estive três vezes com o escritor Caio Fernando Abreu.

Conheci-o na década de 1970 e o primeiro encontro ocorreu na redação da Folha da Manhã, jornal de vanguarda feito em Porto Alegre por excelente equipe de jornalistas, escritores, artistas e intelectuais de várias áreas.

A Folha da Manhã era a filha rebelde da Folha da Tarde, e neta do vetusto Correio do Povo, os três da Companhia Jornalística Caldas Júnior, que não existe mais (mudou mais de uma vez de proprietários, de orientação e de perfil jornalístico). A sede dos jornais, no velho prédio que ainda permanece, ficava a poucas quadras do Rio Guaíba.

Numa outra vez visitei-o, junto com jovens escritores e poetas, no seu apartamento no centro da cidade, ainda nos anos 70.

O assunto nesses encontros girava, invariavelmente, em torno da literatura e da vida, no Brasil opressivo da ditadura militar. Caio ouvia as nossas conversas com interesse e, sem paternalismo, dizia suas coisas. Era delicado, gentil, às vezes irônico, às vezes triste, e até duro, se fosse o caso.

Em alguns invernos, vi-o de passagem na Esquina Maldita, território porto-alegrense de resistência. Ali havia bares e restaurantes onde se reuniam estudantes, artistas, livres-pensadores em geral. A famosa (na época) Esquina ficava no início da avenida Osvaldo Aranha, com suas altas e elegantes palmeiras que partiam dali em direção ao bairro Petrópolis.

domingo, 4 de abril de 2010

Folhas amarelas, letras vermelhas

Jorge Adelar Finatto



Outono espalha
folhas amarelas
no pátio
de abril

o rumor do vento
habita a copa
dos pinheiros

há uma página
em branco
respirando
sobre a mesa

há uma nuvem
onde alguém
escreveu solidão
com letras vermelhas

outras coisas voam
no outono
que não entram
no poema


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Fotos: J. Finatto

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Jean-Dominique Bauby: o prisioneiro do escafandro e o bosque das borboletas

Jorge Adelar Finatto


O fundo do mar da memória é seu habitat.

O prisioneiro do escafandro mora no ermo de si mesmo.

O tempo da ampulheta não conta mais.

O que importa é o limiar do amanhecer na cortina do quarto de hospital.

A última estrela tarda na janela.

Anêmonas silenciosas cercam-no no estranho lugar.

Paralisado dentro do próprio corpo, para sempre afastado da vida comum, impossibilitado de dizer qualquer coisa, proibido de mexer-se, ausente do abraço, do carinho, do amor físico.

A existência é uma paisagem que observa do interior do olho esquerdo.

É indesculpável ter vida e já não poder viver.

Como explicar esse absurdo ao coração que bate teimosamente?

Talvez fosse mais fácil aceitar passivamente a chegada da morte.

Mas não.

O prisioneiro agarra-se a cada frêmito de vida que resta no corpo.

As borboletas passeiam leves na penumbra com suas asas coloridas.

Haverá neste cosmo alguma chave para destrancar meu escafandro?*

Jean-Dominique Bauby nasceu em Paris em 23 de abril de 1952. Como jornalista alcançou o auge da carreira na função de redator-chefe da revista Elle francesa, famoso semanário feminino.

Aos 43 anos circulava no mundo glamouroso dos modelos e celebridades. Tinha dois filhos e o pai idoso, os quais amava. Dava-se bem com a ex-mulher.

Um salário ótimo, um automóvel caro e belas mulheres faziam parte deste cenário, em que não faltavam arrogância e frivolidade.

As coisas iam desse modo até que, em 08 de dezembro de 1995, Jean-Do (como era chamado pelos amigos) sofreu um grave acidente vascular cerebral. No seu caso, o AVC teve um desdobramento raro, conhecido na medicina como “locked-in syndrome”, através do qual o corpo fica paralisado, e o indivíduo perde a capacidade da fala. Inicialmente, ficou em coma durante vinte dias. Quando acordou no Hospital Marítimo de Berck-sur-Mer, deu-se conta de que a vida não seria mais a mesma.